9/Abril/2010

O olhar

Rio de Janeiro

Esta foto de Jadson Marques lembrou-me outra, tremendamente inquietante, captada em 1985 por Frank Fournier e vencedora do World Press Photo: uma rapariguinha de 13 anos, Omayra Sanchez, presa nos destroços da própria casa, com água até ao pescoço, foi fotografada poucas horas antes de morrer.

Esteve três dias assim, sem que tivesse sido possível libertá-la dos escombros, e acabou por não resistir à gangrena e à hipotermia. Omayra Sanchez foi uma das 25 mil pessoas mortas, apanhadas pelo vulcão Nevado del Ruiz, que entrou em erupção a 13 de Novembro de 1985 em Armero, na Colômbia.

Esta imagem foi captada há dois dias em Guaratiba, Rio de Janeiro. O homem preso nos destroços da própria casa chama-se Carlos Eduardo Silva dos Santos e também olha directamente para a objectiva da câmara. Nele existe o mesmo sofrimento, mas não os sinais de apatia e esgotamento da rapariguinha colombiana. Esta é uma foto com um desfecho menos sombrio, pois ele acabou por ser resgatado e salvou-se.

É apenas uma pequena história. Na tragédia do Rio de Janeiro as pequenas histórias infelizes são já aos milhares e ainda se contam os mortos – pior, adivinham-se. Há 212 mortos confirmados, mas no Morro do Bumba, em Viçoso Jardim, no Bairro do Cubango, Niterói, receia-se que estejam ainda 200 pessoas soterradas.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fotografia | 7 comentários »
11/Março/2010

O fotógrafo meteu os pés pelas mãos

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A fotografia enviada por Stepan RudikA fotografia original de Stepan Rudik

Notam as diferenças entre estas duas fotos? A da esquerda é a foto submetida ao concurso World Press Photo; a do lado direito é a original, embora o autor a tenha cortado para lhe dar o enquadramento que queria. A foto que realmente captou é esta.

Quando falo em diferenças, não me refiro aos filtros usados na foto da esquerda, mas, se repararem bem, ao desaparecimento de um pé junto à mão do atleta ferido. O fotógrafo, o russo Stepan Rudik, considerou que aquele pé causava um ruído desnecessário à imagem e removeu-o digitalmente.

O júri considerou que essa manipulação alterava o conteúdo da imagem e era contrária às regras do concurso – por isso, Stepan Rudik foi desqualificado e perdeu o terceiro prémio na categoria de eventos desportivos.

O fotógrafo entrou em contacto com um dos sítios que divulgou a notícia e a partir do qual este post foi escrito – Peta Pixel – e escreveu uma mensagem defendendo a sua hombridade profissional.

Stepan reconheceu a justeza da decisão do júri, mas chamou a atenção para o facto de a remoção do pé não ter implicado «qualquer alteração significativa da informação, até porque esse pé não era o assunto da imagem submetida a concurso». Que acham, foi bem desqualificado ou consideram a decisão injusta?

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fotografia | 25 comentários »
19/Março/2009

O dia do Amor incondicional

Jean Marc Bouju

Esta foto do francês Jean Marc Bouju, vencedora do World Press Photo 2003, não é uma escolha fortuita. Hoje é o Dia do Pai.

O que esta imagem nos mostra hoje é a força extraordinariamente poderosa do Amor. Quando comemoramos este dia, é a existência do Amor e de tudo o que não pode ser comprado que celebramos; é o amor incondicional por um filho, esperando que esse amor possa ser sempre aceite e compreendido até ao fim das nossas vidas – por ele, que também amará assim, e por nós, que também somos filhos.

O gesto de amor e protecção deste pai de cara coberta por um capuz – «insurgente» de guerra, possível terrorista iraquiano – desfaz a insensatez e a loucura assassina da guerra e da violência, pois coloca o nosso próprio rosto dentro daquele capuz. Temos o deserto, o pó, a sujidade e a miséria, um país distante de gente distante, o Iraque, mas nada disso conta quando a nossa humanidade luta para se libertar do arame farpado com que legiões de cínicos e falcões de guerra procuram cercar o nosso idealismo e compaixão, chamando-lhe ingenuidade e fraqueza. É notável que uma foto nos mostre e diga tanto.

Quando o fotógrafo captou a cena não viu aquela criança em pânico, viu outra, a própria filha de quatro anos: «Não pude deixar de imaginar a minha própria pequenina, a Lauren, que tem a mesma idade do miúdo, nessa situação», contou mais tarde numa entrevista para a World Press Photo. «Pensei muito nisso antes, durante e depois de tirar a foto. A imagem não nos mostra armas, soldados ou sangue, mas uma verdade da guerra: a de que esta não afecta apenas os soldados que a travam ou os políticos que a ordenam».

A foto foi tirada a 31 de Março de 2003, em Najaf, num campo de concentração improvisado. Jean Marc Bouju estava com a 101º Brigada Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos quando recebeu notícias de que um grupo de prisioneiros iria ser transferido para o campo. Eram trinta e tinham sido capturados por outra unidade, pelo que ninguém sabia se eram combatentes ou civis.

O que chamou a atenção do fotógrafo foi a presença de uma criança no grupo. O pai fora capturado com o filho e os soldados optaram por trazer a criança para não a deixar sozinha no deserto. Quando chegaram a Najaf, fizeram o habitual: algemaram-nos e enfiaram-lhes os capuzes, depositando o grupo no interior de um anel de arame farpado.

Aos quatro anos a maior referência da criança são os pais: ninguém deve parecer mais forte ou invencível a seus olhos. O tamanho do mundo é muitas vezes determinado pelo olhar dos pais, são estes os construtores das primeiras fundações. Esse mundo deve ter desabado quando viu o pai tão assustado e indefeso.

A criança entrou em pânico, chorando convulsivamente. Foi então que um soldado tomou a iniciativa de tirar as algemas de plástico das mãos do pai, para que este pudesse abraçá-lo e acalmá-lo. «Pude então ouvir o homem murmurando palavras de consolo em árabe. A compaixão do soldado e o amor daquele pai comoveram-me».

Jean Marc Bouju nunca soube o que lhes aconteceu. Terão sobrevivido, mas todos os dias os telejornais nos dizem que o pó, a sujidade, a miséria e as cercas de arame farpado continuarão durante muito tempo. Os militares estavam em trânsito, o seu trabalho era acompanhá-los, portanto não conseguiu sequer descobrir-lhes os nomes e perdeu-lhes o rasto. Deixou-nos assim a imagem do amor incondicional, capaz de inspirar um gesto de compaixão em tempo de guerra. Aquele pai somos nós e o soldado que lhe libertou as mãos; aquela criança é a nossa, mas também foi a dele.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fotografia | 8 comentários »
16/Fevereiro/2009

O vencedor do World Press Photo 2008

Anthony Suau

Já é a segunda vez que uma foto do freelancer Anthony Suau vence a edição do World Press Photo. A primeira foi em 1987 por causa do seu trabalho na Coreia do Sul.

A foto vencedora foi tirada a 18 de Dezembro desse ano: a humanidade de uma mãe implorando a libertação do filho não desfaz a rigidez dos elementos da polícia anti-motim. As sombras no rosto do polícia faz lembrar as grades de uma cela. Os olhos estão ainda mais distantes, obscurecidos, invisíveis, como se a sua consciência permanecesse encerrada numa cela ainda mais solitária. O filho tinha sido detido numa manifestação de protesto contra o Governo, acusado de fraude nas eleições presidenciais.

Anthony Suau

A foto com que Anthony Suau ganhou a edição 2008 faz parte de uma foto-reportagem feita em Cleveland, Ohio: nela vemos um polícia a revistar uma casa abandonada. O que destingue esta imagem é o facto de ter sido captada na sequência da crise de subprime que atingiu a economia americana com a mesma força e devastação com que o furacão Katrina atingira New Orleans. Em declarações à revista Time, o fotógrafo recordou o «estado de choque» que sentiu quando chegou a Cleveland: «Não havia uma única rua da cidade que não tivesse uma casa selada. Parecia o day-after do Katrina».

Anthony SuauAnthony SuauAnthony SuauAnthony Suau

O que a câmara de Suau capta é a maior tragédia económica na América deste o período da Grande Depressão dos anos 30: famílias obrigadas a pernoitar em abrigos por não terem possibilidade de pagar os empréstimos sobre as casas; ruas inteiras em que as casas foram abandonadas; e, na foto vencedora, vemos um detective, de arma em punho, certificando-se de que a casa foi realmente abandonada. O uso do preto-e-branco reforça a associação aos fantasmas americanos da Grande Depressão.

O próprio Anthony Suau – citado pelo Público – afirmou estar a atravessar muitas dificuldades na sua vida profissional: é freelancer, mas há dois meses que não recebia qualquer encomenda e até já admitia «mudar de emprego e vender a casa» que comprou para a família caso a situação não melhorasse.

Não estamos a falar de um fotógrafo qualquer, mas de alguém com uma carreira recheada de prémios. Começou aos 23 anos, em 1979 e, até 1985, trabalhou para os jornais Chicago Sun-Times e Denver Post. Em 1984, uma série de fotos mostrando a fome na Etiópia deu-lhe um dos mais cobiçados prémios do jornalismo, o Pulitzer. Tinha 28 anos. Um ano depois, entra na agência Black Star, dirigida por Howard Chapnick, um dos gigantes do fotojornalismo, e é nesse mesmo ano mais uma vez premiado, desta vez pela International Center of Photography Award, que o distingue com o prémio Outstanding Photographer under 30. Depois de ser considerado o fotógrafo de revista do ano pela NPPA Pictures of the Year, vence o World Press Photo 1987.

Documentou durante 10 anos as transformações na então União Soviética, o que lhe permitiu lançar um livro e expor as fotografias em Washington, Berlim, Milão, Moscovo, Budapeste e Nova Iorque, entre outras cidades.

Em 2001, iniciou um novo projecto (Between World – Kabul – New York), onde justapunha imagens do 11 de Setembro com as que ele tirou em Kabul, no Afeganistão, após a retirada dos Taliban, em Novembro desse ano. Em 2006 criou um novo projecto – War Anti War – uma declaração contra a guerra feita a partir de uma colecção de imagens tiradas nos últimos 20 anos.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fotografia | 2 comentários »