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→ 02/02/2012 @16:35

Doente e injustiçado

Desde ontem que tenho estado de molho, com gripe e febre. Não me lembrava da última vez que tinha tido 38 graus. Aliás, já nem lembrava o que era usar um termómetro.

Como podem imaginar, ter febre é sempre um acontecimento muito importante na vida de um homem. Nem sei se lhe devia chamar febre; venerável febre parece-me mais apropriado.

Infelizmente, certas mulheres aproveitam a ocasião para desvalorizar o nosso estado deplorável, chamando-nos «mariquinhas» ou «piegas». Uma certa pessoa do sexo feminino cujo nome agora prefiro não nomear chegou a dizer, cheia de segundas intenções, «trinta e oito graus, ui, isso em vocês é mesmo terrível».

O portador dessa coisa venerável– e acho que estou a ser muito razoável – deve ser digno de culto, não de sarcasmo. A sua pobre condição deve ser respeitada e o portador deve ser apaparicado de manhã à noite.

As mulheres podem ser muito cruéis quando um pobre doentinho é assolado por uma gripe terrível que lhe deixa todos os músculos do corpo a doer, incapaz de se mexer.

Depois de tanto sofrimento, acho que já mereço um suminho de laranja.

→ 01/02/2012 @1:07

ACTA e nós (I)

«O rebelde desconhecido» na Praça da Paz Celestial, em Pequim (Foto: Jeff Widener)

Os que combatem o ACTA (acrónimo de Anti-Counterfeiting Trade Agreement – Acordo Comercial Anti-Contrafação, em português) dizem que a ratificação pelo Parlamento Europeu do acordo permitirá às grandes corporações da indústria do copyright e das patentes policiar e censurar a Internet, ferindo mortalmente o direito à privacidade e à liberdade de expressão. Também consideram que o acordo irá impedir que milhares de pessoas recebam ajuda médica.

A Comissão Europeia nada informa sobre a questão médica, mas afirma que o ACTA não restringe liberdades, não censura ou fecha sites nem «prevê» desligar o acesso à Net a ninguém; todos continuarão a usar as suas redes sociais como têm feito até agora; computadores, iPad’s e iPhones não serão monitorizados – «O ACTA não é o Big Brother».

Ao contrário do SOPA, prossegue a Comissão Europeia, este acordo «não implica mudanças na legislação dos países que o ratificarem»: é um esforço de globalização na luta contra o «crime organizado» que «rouba» a «propriedade intelectual» e provoca, na Europa, «prejuízos anuais de oito mil milhões de euros».

As declarações reconfortantes da Comissão Europeia sobre as boas intenções do Acordo Comercial Anti-Contrafação não foram capazes de convencer mais de um milhão e trezentas mil pessoas – o número provisório de subscritores de um abaixo-assinado, tão global como o ACTA pretende ser, exigindo aos deputados do Parlamento Europeu a não-ratificação do acordo.

O abaixo-assinado ainda decorre: é intenção da entidade organizadora – a Avaaz, «uma comunidade de mobilização online que leva a voz da sociedade civil à política global» – chegar aos dois milhões de assinaturas e apresentá-las aos legisladores da União Europeia, em Bruxelas.

 

Uma ‘trip’ de direitos

A vida do ACTA poderia ter continuado como até aqui: crescendo de forma saudável e sem chamar muito a atenção para o seu tamanho.

Teve bastante tempo para germinar, este acordo. Nasceu de uma longa e penosa história de amor pelo dinheiro. É também a história de como os Direitos de Propriedade Intelectual (DPI) foram progressivamente ganhando mais relevância na relação entre Estados e entre pessoas que nos deveriam representar (mas não representam), prejudicando todos os outros direitos.

O ACTA é uma digitalização desta mudança, uma excrescência legislativa destinada a ter sob controlo uma rede global descentralizada, pródiga em partilhas e interações não comerciais, embora algumas vezes à margem da Lei – é esta a principal desculpa para agir.

Foi em outubro de 2007 que se iniciaram negociações sigilosas entre Estados Unidos, Japão, Suíça e União Europeia para criar um complemento ao acordo TRIPs – Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, ratificado em janeiro de 1995 e obrigatório para todos os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O TRIPs estabeleceu os padrões atuais de proteção da propriedade intelectual no mundo, mas as regras eram já mais rígidas do que as que estavam em vigor em muitos países em desenvolvimento.

Antes de o Acordo TRIPs ser adotado, as questões internacionais que envolviam os direitos de propriedade intelectual eram tratadas pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Em 1986 tudo mudou: um pequeno grupo de países liderados pelos Estados Unidos e que incluía o Japão e os membros da Comunidade Económica Europeia (CEE, futura União Europeia), conseguiu incluir os DPI nas negociações comerciais multilaterais que dariam origem à Organização Mundial do Comércio (OMC).

 

Acima de Deus, só a propriedade

Thou Shall Not Steal, de Nina Paley

O objetivo desta inclusão foi o de proteger as indústrias de alta tecnologia dos países desenvolvidos da concorrência dos países em desenvolvimento. Estes foram convencidos a aceitar as regras mais rígidas do DPI em troca de compensações nas áreas agrícolas e dos produtos têxteis.

O Direito da Propriedade Intelectual transformou-se numa arma de dissuasão importante para os países mais ricos, uma vez que o Mecanismo de Solução de Controvérsias da OMC previa a utilização de severas sanções comerciais aos mais pobres.

O primeiro sinal de que uma mudança eticamente questionável estava em marcha foi sentido na área da Saúde. O acordo TRIPs passou a obrigar todos os membros da OMC a proteger o DPI, mesmo em patentes de produtos farmacêuticos como, por exemplo, medicamentos. Ler mais »

→ 30/01/2012 @8:56

Muito importante: uma nova petição anti-118

Já falei sobre o projeto de lei n° 118/XII muitas vezes: é um projeto extorsionário que procura, em nome dos direitos de autor e com a falsa desculpa da pirataria, taxar os cidadãos que comprem qualquer tipo de dispositivo de armazenamento, independentemente do uso que lhe quiserem dar. Esta lei corrupta foi concebida pelas associações que dela vão beneficiar e durante a sua elaboração não foi consultada nenhuma que representasse os consumidores.

É uma golpada tão inacreditável, um roubo tão evidente e uma proposta tão aberrante que fico a pensar que ela só foi possível porque os seus autores e mentores já contavam com a nossa habitual passividade. Enganaram-se! Ainda vamos a tempo de estragar os planos à Sociedade Portuguesa de Autores e aos seus amiguinhos extorsionários.

Uma crónica de Pedro Esteves fornece o panorama geral. Oiçam-na:

Não permitas que te roubem sem dar luta. Partilha o link para a petição. E assina-a.

 

Entretanto, mais um conspirador com interesses obscuros

Subscritor nº 2879 da petição contra o projeto de lei 118/XII: Miguel Vicente Esteves Cardoso.
Subscritores até agora: 5720. É oficial: já não cabemos todos dentro do piano de Canavilhas.

→ 28/01/2012 @19:22

Sobre as ameaças

As ameaças, diretas ou veladas, só enervam nos primeiros minutos. Enervam porque crescemos convencidos de que Portugal é uma Democracia e a nossa liberdade de expressão se encontra constitucionalmente protegida.

Existem várias formas de limitar esta liberdade sem passar por déspota aos olhos da opinião pública: uma delas, talvez a mais usada, é tentar convencer a voz incómoda a calar-se. Quando não se tem poder para o fazer de forma direta, procura-se fazê-lo de forma indireta.

Nesse processo de domesticação de vozes incómodas não se ouvem gritos ou palavras agressivas, apenas amigáveis e polidas sugestões. Às vezes a estratégia resulta, outras falha redondamente; quando resulta, nunca se chega a conhecer a origem da ameaça – faz parte do acordo; quando falha, ficamos a saber um bocadinho mais sobre a natureza dos cavalheiros que combatemos.

A liberdade de expressão é terrível de aceitar para os velhos do Restelo e os parasitas que os apoiam, sobretudo quando é exercida online. Graças à Internet e à sua extraordinária vocação para diluir fronteiras, classes e géneros, todos podemos participar na grande conversação, como lhe chamou o jornalista Giuseppe Granieri, e esperar que uma única voz seja ouvida por milhares.

Para que isso aconteça não é necessário, sequer, o encantamento de uma voz famosa: basta que a causa seja válida e justa, e muitas outras pessoas se identifiquem com as posições defendidas.

Sem que os cretinos consigam compreender o fenómeno, a não ser quando é demasiado tarde, uma voz pequena multiplica-se por milhares de outras vozes pequenas até formar um coro insuportável e impossível de silenciar que os mesmos cretinos acabarão por interpretar como «campanhas orquestradas».

E chega invariavelmente o momento em que uma pessoa – ou várias, ou milhares – se vê forçada a responder às ameaças da forma mais simples que lhe é possível: «Enganaram-se outra vez, idiotas! Não é medo que temos, é razão».

→ 21/01/2012 @21:53

Tacho/118: vais deixar que te explorem?

Os americanos têm a SOPA, nós temos o tacho. A pretexto do combate à pirataria e de uma «compensação» por direitos de autor, encontra-se em preparação um assalto aos nossos bolsos. Mais um.

Consumidores, comerciantes e artistas independentes terão de pagar uma taxa pornográfica aos amiguinhos da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) sempre que adquirirem dispositivos de armazenamento.

Dos telemóveis aos discos rígidos, nada escapará à ganância dos auto-proclamados representantes e defensores da Cultura.

Por que razão – ainda por cima em tempo de crise e dificuldades e sacrifícios – teremos de pagar os benefícios de uma pequena elite e dos seus protegidos? Por que razão teremos de pagar pelo direito de guardar o que é nosso? Quem é a SPA para meter o bedelho no que fazemos com as fotografias que tiramos e os filmes que fazemos?

Eles preparam-se para nos roubar com o pretexto de que somos todos potenciais ladrões.

O Império dos Tachos, de Paulo Alexandrino

Chegou o momento de dizer aos políticos e aos senhores da SPA que os nossos bolsos, tal como a nossa paciência, têm limites. E se a força dos argumentos não é suficiente para combater a proposta de lei 118, então talvez a força dos números faça a diferença.

Foram os protestos na Internet que travaram o SOPA/PIPA, pelo menos por enquanto. Não seremos nós capazes de fazer o mesmo em relação ao projeto Tacho/118?

Não se limitem a fazer barulho nas redes sociais ou a esperar que os jornais falem do assunto, é preciso mostrar-lhes que estamos comprometidos. Se formos muitos milhares a assinar, os deputados terão de ter a nossa vontade em conta porque cada assinatura é um voto e o voto é um dos poucos meios de dissuasão que nos resta.

Não esperes que sejam os partidos na Assembleia a travar uma luta que defende exclusivamente os teus interesses. Tens de ser tu. Passa a palavra em todo o lado e assina a petição.

Adenda: o artigo 24º da Lei n.º 43/90, de 10 de Agosto (Exercício do Direito de Petição) estabelece que o Plenário é obrigado a aceitar e discutir os termos da petição caso esta seja subscrita por mais de 4000 cidadãos. Já vamos em mais de duas mil assinaturas e podemos chegar lá. Escreve um post, divulga no Facebook, no Google+ e no Twitter; não assistas, impávido e sereno, ao assalto que está a ser preparado pelo consórcio Canavilhas/SPA

→ 01/01/2012 @16:00

Em 2011 ainda estávamos nos preliminares

Ontem soltaram-se os foguetes e apanharam-se as canas, festejando-se a entrada num novo ano. Celebrámos a subida dos preços e a degradação generalizada das condições de vida para a maioria dos portugueses.

Também festejámos o facto de estarmos vivos junto daqueles que amamos, mas isso pode celebrar-se todos os dias, não é necessário uma passagem de ano, 12 passas supersticiosas ou copos de espumante na mão.

E é por isso que não consigo deixar de pensar na irracionalidade de festejar-se efusivamente a entrada num ano que será muito, muito pior do que este que passou.

→ 27/12/2011 @23:16

Post número 3532

Cartoon: Christo Komarnitski, Bulgária