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→ 31/03/2009 @1:55

Blade Runner

Like Tears In The Rain, de Artur Sadlos

Like Tears in the Rain, ilustração de Artur Sadlos

 

I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the darkness at Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time like tears in rain. Time to die.

Recordei o monólogo final do replicant moribundo Roy Batty quando pensei no que aconteceu ao Mário Gamito. «Pá, eu sou um dos gajos que mais sabe sobre o Blade Runner, desde a informação trivial às filosofias todas à volta da história», respondeu-me mais ou menos assim, cheio de orgulho e bazófia, quando o desafiei a escrever comigo um post sobre o filme. Por preguiça e falta de tempo, mas sobretudo por preguiça, nunca chegámos a fazê-lo.

Recordo agora o monólogo do filme-fetiche do Gamito porque este é o post que finalmente fez desaparecer da página principal do Bitaites o texto de homenagem e despedida escrito após o seu desaparecimento. É um processo natural e saudável, pois a vida continua a renovar-se, dia após dia – pretendi apenas não repetir neste post o tipo de gesto indiferente de quem molha o dedo indicador para folhear uma página seca dos classificados de um jornal.

All those moments will be lost in time like tears in rain, é verdade, mas os textos que desaparecem hoje serão criogenados nos backups dos blogues e ficarão disponíveis durante muito tempo a quem um dia tiver interesse em descobri-los – não para saber como foi aquela morte, mas para conhecer um pouco mais de como foi a vida.

Por isso, Gonçalo, quando também este post desaparecer e tiveres idade para saber mais sobre o teu pai, ouve a banda sonora do Blade Runner. Era a banda sonora dele. Coloco-a à tua disposição por acreditar que o maior poder da música consiste em revelar-nos ritmos, melodias e harmonias que sempre estiveram connosco; aqueles segundos preciosos em que um tema nos atinge o estômago e o peito são uma das maiores sensações de libertação que podemos experimentar – a libertação de sentimentos e vivências que muitas vezes julgávamos não existir em nós. Descobre-as. Link

→ 24/03/2009 @3:34

Gamito

Raios te partam, Gamito. Silêncio branco. Não consigo escrever este post. Experimentei várias fontes no processador, aumentei e diminui o tamanho dos caracteres, justifiquei o texto, alinhei-o à direita, à esquerda, fiz zoom na página, tirei o zoom na página, apaguei, recomecei, cheguei ao fim do parágrafo e continuo bastante lixado contigo.

Depois de tantas discussões no Gildot e nos blogues e nas mailing lists, conseguiste finalmente criar uma mensagem impossível de contradizer. Deixar-nos sem palavras.

Sabes tu muito bem como o suicídio é terrível; quem já escreveu sobre o maldito assunto da tua morte foge da palavra por respeito à tua memória, hesita, dá a notícia de forma velada, RIP, morreu, decidiu deixar-nos, até sempre, essas coisas. O que mais me lixa, meu grande palerma, é saber o quanto terias adorado espreitar todos estes posts que andam agora a escrever sobre ti.

Por mim peço-te desculpa pelas duas ou três vezes em que não respondi aos teus emails. Peço desculpa pelas vezes em que fingi interesse no que escrevias no Messenger quando na verdade estavas a aborrecer-me. E agradeço-te as ocasiões em que me ajudaste com o mesmo espírito generoso que te levou a criar o Startux para os novatos do Linux. Sempre tiveste imenso valor, eras um geek à moda antiga, sempre gostei de ti, por causa da força, da sabedoria e sobretudo da fragilidade, mas nem sempre tive pachorra. Desculpa, pá.

Agora já não posso esconder que te via como uma criança. Bem podias cruzar os braços como um porteiro de discoteca, mas sempre te senti como uma presença frágil e inconstante, dividida entre o orgulho desmesurado e a absoluta necessidade de atenção, a espingarda cheia de munições e o humilde cachimbo da paz, o ressentimento e o perdão, sem conseguir encontrar um ponto de equilíbrio entre tantos sinais contraditórios que te nasciam no peito.

É pena que tenhas compreendido demasiado tarde que a Internet só é boa para o orgulho; não faz grande coisa pela solidão. Lamento muito que não tenhas sabido encontrar uma resposta. Lamento que o fio que te unia à vida real tenha esticado a ponto de te fazer acreditar que iria quebrar-se. Ainda estou com um nó na garganta desde que recebi a notícia porque incomoda-me pensar que entraste em pânico ao imaginares-te completamente sozinho. Preferia que tivesse sido um acidente.

Acho que há pessoas que são colocadas neste mundo para nos fazer reconsiderar a forma como nos tratamos todos os dias – nem que seja pelos preciosos minutos em que a morte obriga a rever os nossos actos e a prestar justiça até aos que julgávamos inimigos. Quanto aos outros – os amigos e os que te queriam bem – nunca se sabe quando alguém poderá precisar de nós. Nunca se sabe quando um gesto insignificante de atenção pode fazer a diferença na manhã fria e solitária de um apeadeiro. Tu és uma dessas pessoas. Ficarás.

P.S. – A obrigatoriedade do registo para comentar fica por agora sem efeito. Todos os que desejarem poderão prestar livremente a sua homenagem ao Gamito. Aos que não gostavam dele a ponto de construir páginas para gozá-lo e maltratar-lhe o nome, peço que ajudem a dignificar este momento mantendo-se em silêncio. Por outras palavras: ponham-se na alheta, cretinos.

→ 22/01/2009 @18:20

Iconografias e variações

O originalObamicon.Me

Obamicon.MeObamicon.Me

A arte reciclável em todo o seu esplendor: neste sítio criamos a nossa própria imagem à Obama

 

O americano Shepard Fairy – artista gráfico de 44 anos que já tem no seu cadastro 14 detenções por «pendurar a sua arte ilegalmente», como escreveu a revista Bravo!, é o criador da mais bem sucedida iconografia Obama. Por iniciativa própria, este artista da chamada street art, mais reconhecida pela contestação do que pelo apoio explícito ao poder, criou um poster com o rosto do candidato traçado com as cores da bandeira dos Estados Unidos e, por baixo, a palavra Progress.

As primeiras 350 cópias deste cartaz de apoio a Barack Obama esgotaram-se num instante, proliferando depois na Internet. O sucesso foi tal que chamou a atenção de um dos gurus do marketing político de Obama, Yosi Sergant, um ambientalista de 32 anos que costuma andar de bicicleta para todo o lado. Sergant contactou Shepard Fairy para que o cartaz fosse incorporado na campanha oficial, pedindo-lhe apenas que fosse substituída a palavra Progress por Hope e Change, palavras-chave nos discursos de Obama. Fairy aceitou.

Shepard Fairy e o seu poster original

Shepard Fairy e o seu poster original

Foi o sucesso que se adivinhava. A imagem apareceu em todo o lado: posters, cartazes, stickers, t-shirts, chegando mesmo à capa da Time Magazine, pois a revista escolheu Fairy para ilustrar a escolha de Obama como Person of the Year 2008 e o resultado foi uma imagem feita mais ou menos nos mesmos moldes.

O próprio presidente eleito acabou por escrever uma carta de agradecimento a Fairy: «As mensagens políticas implicadas no seu trabalho têm encorajado os americanos a acreditar que podem contribuir para mudar o seu status quo. As suas imagens têm um profundo efeito sobre as pessoas, sejam vistas numa galeria ou num semáforo. Tenho o privilégio de fazer parte do seu trabalho artístico e estou orgulhoso de ter o seu apoio.»

Shepard Fairy, artista de rua, passa agora a maior parte do tempo em galerias e nos escritórios da sua empresa de design, Studio Number One, fundada por ele e a mulher Amanda em 2003. É dele o design do CD Zeitgeist, dos Smashing Pumpkins, e da colectânea Mothership, dos Led Zeppelin, ambos em 2007. A mascote inicial da Fundação Mozilla era um lagarto cartoonesco desenhado por David Titus em 1994, mas foi Fairy, quatro anos depois, a transformá-lo no Tyrannosaurus Rex vermelho que hoje conhecemos e vemos no logotipo da Fundação Mozilla. As edições Penguin solicitaram-no para ilustrar as capas dos livros de George Orwell; criou a sua própria linha de roupa, a Obey; fundou uma revista de cultura pop, a Swindle; a sua carteira de clientes inclui grandes empresas como a Wal-Mart, Seven Up e Volkswagen, mas antes de ser mundialmente conhecido por causa de Obama já fora o estratego de várias campanhas de marketing de guerrilha encomendadas, entre outras empresas, pela Pepsi.

Claro que é agora acusado de ter renegado as suas origens e se ter vendido à lógica capitalista. Mesmo se essa acusação fizer algum sentido num artista como ele, não deixa de ser irónico que o trabalho que lhe abriu as portas dos museus mais «prestigiados» – New Museum of Design, em Nova Iorque, San Diego Museum of Contemporary Art, San Diego, Victoria & Albert Museum, Londres – faça lembrar a mais iconográfica de todas as imagens, o retrato do revolucionário comunista Che Guevera tirado por Alberto Korda. Aliás, os seus críticos dizem que muitos dos seus trabalhos, demasiados até, fazem lembrar outros já feitos, como poderão ver neste post onde é acusado de plágio.

Quanto à lógica capitalista, «eu sou um Robin dos Bosques da Arte», explica Fairy. «Fazer parte do mundo da arte comercial e compreendê-la é, de certa maneira, semelhante a uma infiltração.»

Muito mais pode ser lido sobre Shepard Fairy nos seguintes sítios: WikipediaHow the Obama “Hope” Poster Reached a Tipping Point and Became a Cultural Phenomenon: An Interview With the Artist Shepard Fairey e O Artista que Ajudou a Eleger Obama (Revista Bravo!)

 

→ 25/12/2008 @6:08

Para a minha avó, com o amor do seu último filho

Há tempos – já não me lembro a propósito de quê – a minha filha perguntou se eu alguma vez tinha chorado. «Claro», respondi com a máxima naturalidade. «A sério?» Ela sorriu com ar incrédulo. «Mas eu nunca te vi chorar!». «Pois não, filha, mas já chorei

A Diana viu-me chorar, mas era demasiado nova e as lágrimas já secaram na memória. Eu vou lembrar-me para sempre: ela imersa nos pensamentos secretos dos bebés, eu concentrado a mudar-lhe a fralda, e o telefone tocou. Um polícia de voz simpática anunciou-me que a minha avó falecera nessa noite. Agradeci, despachei-o e voltei como um zombie para junto da minha filha. «O pai está um bocadinho perturbado», disse, aos tremeliques. «Por isso é que está assim. Mas está tudo bem». Podia ter dito qualquer outra coisa. Podia ter lido a previsão do estado do tempo ou a programação da televisão. As palavras eram um pretexto para me mostrar casual.

A minha avó fora hospitalizada com um cancro no pâncreas e há uma semana que estava nos cuidados intensivos. Descobriram-no quando lhe fizeram uma série de testes antes da operação às cataratas. Ela queria ver a Diana como outrora me vira a mim, por isso submetera-se aos testes e ao cheiro enjoativo do hospital. O médico declarou-a demasiado fraca para resistir ao tratamento. Esgotadas as palavras brancas, fez uma careta resignada e deixou-nos a sós para que compreendêssemos o resto.

Quando a morte de alguém que amamos desde que nascemos nos é previamente anunciada tentamos obter consolação na ideia de que, afinal de contas, já estávamos à espera, é pior quando estas coisas acontecem de repente – um acidente de carro, por exemplo.

Talvez seja verdade, mas a morte surge de rompante mesmo quando passamos meses à sua espera. O seu bafo congela o peito, atrofia os músculos, seca a garganta, afoga os olhos, descontrola-nos, submete-nos, vulgariza o nosso amor, torna impotente a nossa razão.

Eu sentia-me ainda pior porque estava cheio de remorsos. No dia anterior não a fora visitar. Lembro-me de a minha mãe ter telefonado ao princípio da tarde a perguntar se podia. Podia, sim, mas disse-lhe que não. Inventei uma desculpa qualquer. Baldei-me.

Atormentava-me a ideia de que nos seus últimos momentos de vida tivesse precisado de mim. Imaginava-a sozinha perante as trevas e sentia-me a enlouquecer de culpa.

Por causa disso responsabilizei-me por tudo: falei com a agência funerária e tratei de grande parte da papelada. Quando o agente funerário me disse que era preciso alguém para reconhecer o corpo, cheguei-me à frente e disse que ia eu.

A pele do meu rosto estava mais seca do que o pão de véspera que nos esquecemos na cozinha, senti que se abrisse a boca para exprimir o que estava a sentir me iria desfazer em migalhas, mas avancei para a morgue com tanta determinação que ninguém da família se opôs.

Da morgue retenho a vaga recordação de uma sala mergulhada numa luz mole e peganhenta, e um imponente armário cheio de grandes gavetas que se abriam como camas. A da minha avó estava junto ao chão. O funcionário abriu-a com demasiada força, o corpo surgiu de repente e o rosto oscilou de um lado para o outro, desamparado. O funcionário, um tipo pesado, barba cerrada, mãos gordas, tomou consciência de que abrira a gaveta com demasiada brusquidão. Desculpou-se pegando numa escova e penteando-lhe o cabelo branco com tanto cuidado que parecia uma criança a brincar com uma boneca. Pobre homem.

Entrei em colapso. Sentia-a tão frágil e desprotegida, estendida ali em baixo numa fria cama de alumínio, que da garganta me saíram vómitos incontroláveis de choro seco. Foi o suficiente para que o agente funerário concluísse que o corpo tinha sido reconhecido e me puxasse dali para fora com uma expressão gentil.

Nessa noite voltei a vomitar soluços. Não conseguia deixar de pensar na expressão frágil e abandonada que vira na morgue e de a associar ao facto de não ter sido suficientemente forte para a visitar no seu último dia de vida.

Nessa noite sonhei que estava a dormir. Virei-me para o outro lado da cama e vi a minha avó deitada a meu lado. Reconheci o sorriso compreensivo que fazia quando eu delirava de febre e só a chamava a ela, e mais ninguém. O cabelo branco resplandecia como a lua cheia. Não disse nada, limitou-se a sorrir para a criança em que me transformara. Já não parecia frágil ou abandonada. Estava serena e contente por me ver. Adormeci no sonho.

No dia seguinte senti-me aliviado. As visões da morgue haviam desaparecido. Tudo o que existia na minha cabeça era a luminosidade serena daquele sorriso. Lembro-me de ter achado que o meu subconsciente se encarregara de sarar uma ferida muito profunda. Pensei quão maravilhoso e inexplorado é ainda o cérebro humano. Mas passados todos estes anos uma voz da infância ainda persiste em dizer-me: «A tua avozinha cuidou de ti até ao fim.»

→ 22/12/2008 @19:51

Socorro, tenho um vampiro a morder-me o juízo

Robert Pattinson

Parece que este rapaz aqui em cima (Robert Pattinson) tem provocado um suspiro colectivo entre as meninas que viram o filme «Twilight» – em português, Crepúsculo. É o novo Brad Pitt.

Eu não vi  o filme – embora suspeite que uma certa pessoa me arrastará para o sofá quando sair em DVD – mas pelo que li nos jornais baseia-se numa série de livros de grande sucesso onde se mistura o género Corin Tellado com vampirismo.

Esta mistura pode parecer bizarra, mas o facto de o tipo ser bonito e, ao mesmo tempo, vampiro, distante e misterioso, transforma-o numa versão mais moderna, underground e pintarolas do velho conquistador de sorriso sonso, um tal de príncipe encantado.

Claro que este vampiro Pattinson é muito querido e bonzinho, não quer morder o pescoço a ninguém, faz lembrar Louis du Lac, o vampiro consciencioso da novela Entrevista com o Vampiro de Anne Rice – mas sem os problemas existenciais, estes são uma maçada e dão cabo de um romance perfeito. É verdade, essa história da Anne Rice também foi adaptada ao cinema e adivinham quem fez de vampiro bom? O Brad Pitt, claro. Quem disse que a vida não dá uma volta de 360 graus?

Bem, eu não dedicaria cinco segundos a pensar no filme, mas acontece que este tipo ali em cima entrou-me pela casa e recusa-se a sair. Este vampiro não se transfigurou em morcego, como o conde Drácula, que já é um bocado cota, mas num pirilampo que faz brilhar os olhos da minha pré-adolescente. Bem o enxotaria se pudesse, sobretudo quando esvoaça diante de mim nos momentos em que estou mais interessado em ver o Telejornal do que em conhecer um novo episódio da gloriosa existência deste vampiro com dentinhos de veludo. Ufa!

Filhota, não ligues. Eu avisei-te que ia gozar um bocadinho. A sério, quero que sejas livre para te deixares encantar por quem quiseres, desde que não se chame José Castelo Branco – a mim o que mais importa é que mantenhas para sempre essa capacidade de te apaixonares por filmes, músicas, livros.

Mas ultimamente este rapaz Pattinson tem estado em todo o lado: ao almoço, ao lanche, ao jantar, nas conversas, nos silêncios, nos risos, nas secas, nas fotos do Google, macacos me mordam, até aqui no meu blogue. Ufa!

Vais dar-me um grande sermão quando eu chegar hoje a casa, não é? Mas olha, meti uma das fotos que me enviaste. Podia ter procurado uma imagem em que ele estivesse com cara de parvo. Só para me armar em mete-nojo. Pronto, desculpa. Ele nunca tem cara de parvo, tens toda a razão, mesmo quando acorda de manhã depois de uma noitada toda vampiresca. Perdoado?

→ 10/10/2008 @15:55

Mensagens peculiares para Extraterrestres

Utilizadores de uma rede social online – Bebo – organizaram o envio de uma mensagem via rádio dirigida ao planeta Gliese 581C, que é do tipo terrestre e fica a apenas 20,5 anos/luz de distância. A mensagem inclui uma selecção de 501 desenhos, ilustrações, fotografias e frases enviadas por 1,5 milhões de membros da rede Bebo e por celebridades que aderiram ao projecto, como a actriz Gillian Anderson (X-Files) ou a banda pop McFly.

O teor das mensagens nada tem a ver com as que seguiram nas sondas Pioneer e Voyager (ver post A Vida Receia a Solidão Cósmica [4]).

Pela espontaneidade e por não terem pretensões científicas, os responsáveis do Bebo acreditam que sejam o reflexo do tipo de pessoas e da vida existente neste planeta. A intenção é boa e a iniciativa é tremenda, mas as mensagens reflectem em primeiro lugar o perfil dos utilizadores do planeta Bebo. Uma das mensagens seleccionadas para os ETs de Gliese 581C diz simplesmente «O melhor da Terra: George Sampson». Sampson foi o vencedor de um concurso do género Chuva de Estrelas organizado pela televisão britânica ITV. Mais

 

Cheryl Cole

As mensagens das celebridades são igualmente peculiares: o grupo pop McFly escreveu que «o corpo perfeito de Cheryl Cole» – cantora e mulher do lateral esquerdo do Chelsea Ashley Cole – «deve ser conhecido em qualquer planeta». Gillian Anderson, a estrela de X-Files, enviou duas fotos: uma de George Bush, para personificar o Mal, outra de Barack Obama, o Bem.

George BushBarack Obama

 

Por que razão foi escolhido este planeta e não outro? Gliese 581C – descoberto em Abril do ano passado por cientistas de França, Suíça e Portugal – apresenta características que poderão permitir que seres humanos nele habitem ou mesmo que a vida tenha ocorrido: Gliese 581C orbita em torno de uma anã vermelha, a Gliese 581, situada na constelação da Balança, mas encontra-se muito mais perto da sua estrela do que a Terra do Sol, estando a sua posição na chamada «zona habitável»: nem demasiado quente, nem demasiado fria; o planeta é uma Super-Terra, pois possui um raio 50 por cento maior e cinco vezes a massa do nosso; a sua temperatura varia entre os zero e os 40 graus Celsius, tornando possível que a água possa lá existir em estado líquido.

Gliese 581C

Representação artística de Gliese 581C, a Super-Terra para onde as mensagens foram enviadas

A sua gravidade é maior do que a da Terra, pelo que um homem com 50 quilos pesaria 80 em Gliese 581C. Mas se por um milagre da tecnologia conseguíssemos de facto colocar um astronauta na sua superfície, talvez o nosso viajante interestelar esquecesse o peso adicional ao presenciar o grandioso espectáculo de um nascer do Sol naquele planeta: um sol vermelho vinte vezes maior do que aquele que surge nos nossos céus erguer-se-ia no horizonte, dominando completamente a paisagem.

Por outro lado, é possível que não exista um nascer do Sol como o concebemos na Terra. À semelhança de Mercúrio, Gliese 581C pode apresentar sempre a mesma face para a estrela-mãe. Neste caso, as diferenças de temperatura entre as faces diurna e nocturna seriam demasiado díspares. Apenas na zona de transição entre a luz e a penumbra se poderia esperar um clima mais moderado, susceptível de albergar a vida, consideram os cientistas.

Gliese 581C encontra-se perto de nós: 20,5 anos/luz, em termos astronómicos, equivale a atravessar a rua para bater à porta do vizinho – o problema é que as formigas inteligentes que lançamos no Espaço viajam a velocidades muito reduzidas. As sondas Voyager, as mais rápidas de todas, maravilhas do engenho humano, demorariam 700 mil anos a percorrer 4,2 anos/luz de distância. Para chegar a Gliese 581C, necessitariam de quase quatro milhões de anos.

Não podemos ir lá em pessoa, mas podemos telefonar e deixar uma mensagem no hipotético atendedor de chamadas alienígena. As ondas rádio viajam à velocidade da luz e demoram pouco mais de 20 anos a lá chegar. 20 anos para lá e 20 anos para cá, se obtivermos resposta. 40 anos é muito tempo. Daí que uma das mensagens seleccionadas tenha sido esta: «Quem me dera estar vivo para ver o dia em que o contacto entre os dois mundos for feito, mas nasci demasiado cedo». E não nascemos todos?

→ 09/09/2008 @3:20

Cães, Clifford D. Simak e umas obscenidades

Quando descobri a ficção científica – era ainda um pré-adolescente – havia um autor de quem gostava muito: Clifford D. Simak. Não era grande espingarda a escrever, a tradução também não ajudava, mas tinha uma imaginação prodigiosa e sabia muito bem como contar uma história e manter-me entretido até ao fim.

Há um livro que nunca consegui descobrir, em português ou inglês. Nem sequer conheço o título, apenas sei que é uma história passada numa época futurista em que são os cães que dominam o planeta. Uma ideia semelhante à de O Planeta dos Macacos, mas com cães. Lindo. Imaginar a minha suricata nojenta (tenho uma Pinscher) a passar-me as sobras do almoço com ar muito altivo enquanto eu me abano todo… desculpem, só a ideia me faz rir.

Provavelmente o livro não é nada de especial, nem sequer bem-disposto, se calhar leva-se a sério, o que seria uma decepção, mas a verdade é que passei tantos anos à procura dele que se tornou assim uma espécie de lenda, algo sobre o qual ouvi falar durante muito tempo mas que não tenho sequer a certeza de que exista.

A primeira vez que tive essa sensação de ter descoberto que as lendas realmente existiam foi na Escola Salesiana, que na altura era regida por uma política de apartheid sexual: rapazes de um lado, raparigas do outro.

Numa ocasião festiva qualquer, os padres permitiram, pela primeira vez, que raparigas e rapazes se misturassem no recreio. Quem nos tivesse visto, julgaria de facto estar a presenciar um remake de O Planeta dos Macacos, com os rapazes aos pulos e aos gritos para chamar a atenção e elas a fazerem-se de visitantes civilizadas e horrorizadas acabadas de aterrar num planeta selvagem e alienígena. Tínhamos acabado de descobrir o sexo, nós e elas.

Mais tarde nesse dia, quando finalmente começámos a conquistar os primeiros risinhos ternurentos às nossas visitantes, os padres decidiram que as modernices do pós-25 de Abril não justificavam correr tantos riscos e que era tempo de regressar à nossa casta e piedosa vida de pequenos salazares tementes a Deus, imunes às tentações do Diabo e cheios de água benta nos colhões.

Para alguns de nós o Diabo não tinha chifres nem corpo de bode, mas provocava grandes ataques de tosse. Era muito mais pequeno e franzino do que um bode, mais pálido do que os padres do confessionário, tinha um colarinho castanho amarelado numa ponta e perdigotos de cinza a cair na outra, e também fazia Luz. Era o nosso pequeno deus da independência e virilidade, figura central das nossas missas clandestinas.

Porra, mas eu escrevi este post porquê? Ah, já sei, por causa destas imagens ridículas que descobri por acaso na Net e que estão aqui ao lado. Uma coisa eu vos garanto: se alguma vez os descendentes dos cães destas fotos se revoltarem contra a Humanidade e estabelecerem uma civilização alternativa neste planeta, poderão contar com a minha total simpatia pela causa. Serão estes os cães de Clifford D. Simak?