Deixa-me sair, Deixa-me entrar
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Vi Deixa-me Entrar porque desejava mostrar à minha filhota um «filme de vampiros» que servisse de alternativa ao «Crepúsculo».
Já agora, o impacto do filme (e dos livros) da série Crepúsculo não deixa de ser surpreendente. Parece-me que toda aquela história de amor entre a adolescente e o vampiro não passa de uma metáfora da perda da virgindade: o desejo de sangue é desejo sexual e a narrativa conta a história da transformação do vampiro em príncipe encantado (geralmente é ao contrário).
Todas as histórias de vampiros que conheço têm uma carga erótica forte, mas nunca tinha visto uma em que o vampiro luta para se portar como um «cavalheiro» em vez de funcionar como um elemento sexual transgressor. «Tudo em mim é feito para seduzir» – confessa o vampiro à adolescente. «Mas eu sou um assassino, um predador».
Por outras palavras: eu amo-te, mas de momento o que me apetecia era derrubar-te na floresta sem me preocupar com as consequências porque, sabes, sou um rapaz carregado de testosterona, desculpa, um vampiro sedento de sangue, e tenho dificuldade em dominar os meus impulsos!
Caramba, só uma escritora membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Stephenie Meyer é mórmon) se lembraria de transformar um vampiro no rapaz responsável e respeitoso com que todas as sogras sonham.
Vendo as coisas deste ponto de vista, apesar do estilo MTV/Matrix/modernaço pós-Google em que está embrulhado, o Crepúsculo é um dos filmes mais bota-de-elástico que já vi. É ainda mais bota-de-elástico que a própria expressão bota-de-elástico. É tão pudico que até irrita, sobretudo nos elementos de «horror» que supostamente deveria ter – afinal é uma história de vampiros e, na minha terra, os vampiros são a encarnação do mal, têm os dentes afiados e violam jugulares, dormem em caixões, não têm insónias ao som de Debussy, morrem com o Sol, não brilham como diamantes, e honram a tradição iniciada por Mestre Drácula, o paizinho deles todos, que consiste em morder sedutoramente e sem qualquer problema de consciência o pescoço de donzelas vitorianas puras, virgens e cristãs. Em vez do Bram Stoker, calhou-me uma Corin Tellado beata. Pai ama e vai ao cinema, mas sofre!
Como sabia que Deixa-me Entrar, do sueco Tomas Alfredson, era também uma história de amor e vampirismos, lá fui alugá-lo a ver se valia a pena. E, acreditem, vale mesmo a pena. É um excelente filme em qualquer parte do mundo. Aliás, é um excelente filme mesmo naquelas partes do mundo em que os vampiros nunca existiram.
Deixa-me Entrar ajudou-me a reforçar uma velha ideia: os melhores filmes de terror e ficção científica são aqueles em que o «género» é apenas um pretexto para contar uma história que reflecte preocupações muito terrenas e concretas: Kubrick, o meu realizador de culto, serviu-se de uma história do mestre do horror Stephen King – The Shining – para filmar a desintegração de uma família marcada pela progressiva ausência do pai; anos antes, juntara-se ao escritor de ficção científica Arthur C. Clarke para filmar, em 2001: Odisseia no Espaço, uma metáfora sobre a posição da Humanidade no Cosmos.

Em Deixa-me Entrar, o vampirismo é o pretexto para se filmar uma belíssima história de amor e amizade entre dois solitários, dois pré-adolescentes perdidos nos subúrbios gelados de Estocolmo na década de oitenta: um rapaz de 12 anos, Oskar (Kåre Hedebrant) , e um vampiro que aparenta ser uma rapariga da mesma idade, Eli.
Oskar é triste e reservado, filho de pais separados, uma vítima diária de bullying na escola. Ninguém o ajuda, sofre em silêncio. Passa o tempo a imaginar longas e sanguinárias vinganças contra os miúdos mais velhos que o atormentam física e psicologicamente – faz lembrar o Robert de Niro a falar ao espelho no Taxi Driver; Eli, que se mudou recentemente para o bairro, só sai à noite, é imune ao frio e, vamos sabê-lo depois, é um vampiro de 200 anos preso num corpo de menina.
Adoro a delicadeza com que o realizador filma o amor entre os dois – nada de sentimentalismos ou violinos nos diálogos. Aliás, este é um filme de silêncios. As cenas «gore» também entram na história, mas por serem absolutamente necessárias – na verdade, causam-nos um enorme impacto emocional, sobretudo a cena crucial em que o vampiro Eli, à entrada do apartamento de Oskar, lhe pergunta:
– Posso entrar?
e não servem apenas aquela sensação de susto típica dos filmes de terror que confundem ir ao cinema com andar na montanha russa.
Adoro a música, adoro a fotografia. Os dois pequenos actores são espantosos, principalmente a rapariga que faz de Eli, Lina Leandersson, que tinha 12 anos quando filmou mas que em determinadas cenas observa o amor de Oskar, a sua lealdade e sacrifício, com o sorriso e o olhar de uma velha cansada. A realização é sóbria: é como se nos primeiros planos, belíssimos, nos estivesse a dizer
olá, eu sou o realizador deste filme e quero contar-vos esta história de vampiros de uma forma bela e original – a partir de agora, esqueçam-me.
E consegue. Vejam-no, se puderem. Trailer e um clip do filme aqui.
P.S. – Os americanos estão a fazer um remake. O realizador é o tipo do Cloverfield. Susto!





























