14/Julho/2010

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (II)

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Uma série iniciada espontâneamente com os Sigur Rós. Vejam em alta definição, já agora.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Vídeos | 15 comentários »
28/Março/2010

Nunca será tarde para descobrir Jeff Buckley

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Jeff Buckley

Só descobri Jeff Buckley muitos anos depois de ele ter morrido – uma morte tão estúpida e imprevisível que ainda é difícil de aceitar, quase 13 anos depois.

Já gostava dessa voz antes de a conhecer, pois comecei a gostar de Jeff Buckley ouvindo primeiro Thom Yorke.

O vocalista dos Radiohead foi irremediavelmente tocado pela alma musical do músico falecido quando, durante as sessões de gravação de The Bends, em 1994, toda a banda assistiu a um concerto de Buckley.

Yorke ficou tão impressionado pela paixão e simplicidade no desempenho de Buckley – sozinho em palco com a sua tremenda voz e uma simples guitarra acústica – que logo a seguir gravou as partes vocais da canção Fake Plastic Trees com a mesma arrojada simplicidade, em apenas dois takes. Conta-se que chorou, depois de terminar.

Muitos anos mais tarde, haveria de confidenciar ao jornal New York Times o incómodo sentido em relação à própria voz quando esta lhe soava «bonita» e «educada», mesmo se cantasse letras «profundamente ácidas».

Jeff Buckley, mais espontâneo e visceral do que este Yorke dos primeiros tempos, mostrara-lhe o caminho.

Eis outra das mágoas deste desaparecimento: saber que Buckley e os Radiohead nunca se juntarão em palco, como estava destinado pelos deuses da música. Digo-o porque tenho uma fé que consiste em acreditar que, mais tarde ou mais cedo, os bons músicos acabam por encontrar-se.


A cantar, para sempre

Pouco depois das nove horas de uma noite de terça-feira, a 29 de Maio de 1997, Buckley e um amigo, o músico Keith Foti, tinham acabado de sair de um restaurante em Memphis quando descobriram que estavam perdidos, não eram capazes de encontrar o estúdio onde ficara combinado ensaiar para o que teria sido o segundo disco, My Sweetheart The Drunk.

A noite estava boa, sentiam-se bem-dispostos, Jeff Buckley trazia a guitarra e um ghettoblaster para ouvir música. Decidiram parar nas margens do Wolf River, um afluente do rio Mississipi, numa zona conhecida por Mud Island, a Ilha da Lama. Pensaram em ficar por ali a ouvir música até decidir o que fazer quanto ao caminho para o estúdio.

Jeff já lá tinha nadado, embora aquela não fosse propriamente uma zona muito acolhedora: as margens estavam cheias de rochas, calhaus, vidros e todo o tipo de lixo, e as águas cheias de lama. Quando decidiu entrar na água nem se preocupou em tirar os jeans, a t-shirt e as botas.

Segundo o testemunho de Keith Foti, entrou na água a rir-se e a cantar uma das suas canções favoritas, Whole Lotta Love, dos Led Zeppelin. Nadava de costas, enquanto cantava.

Quinze minutos depois, surgiu um enorme rebocador. Foti viu Jeff começar a regressar à margem à medida que o rebocador se aproximava. O barco era imenso e gerou uma onda considerável, fazendo com que Foti se virasse de costas para o rio com a intenção de proteger o equipamento estéreo das águas. Quando se virou outra vez, Jeff desaparecera.

A onda gerada pelo barco fez ricochete nas rochas da margem e o fluxo de água e de lama arrastou Buckley para o fundo. O cantor estava vestido e com umas botas pesadas, o que deve ter contribuído para se afundar, mais o pânico e a falta de ar, mas gosto de pensar que ele se foi a cantar.

A autópsia e os exames não revelaram sinais de álcool ou drogas. Não fora suicídio, concluiu a polícia, mas um simples caso de afogamento.

E assim se perdeu um dos maiores talentos da música dos últimos anos.

Quando o disco Grace saiu, três anos antes, em 1994, foi um sucesso crítico mas não pegou entre o público. A rádio passava-o pouco porque, dizia-se na altura, era demasiado comercial para as rádios alternativas e não era suficientemente comercial para as rádios comerciais. O mundo conheceu-o lentamente, levado pelo entusiasmo de quem o viu em concerto, daqueles que idolatravam o disco e iam passando palavra.

Foi uma cover de uma velha canção de Leonard Cohen – Hallelujah – que ajudaria a torná-lo mais conhecido. Na verdade, Buckley não estava a fazer uma nova versão do Hallelujah de Cohen, mas a cover de uma cover, feita por John Cale em 1991 para um disco de tributo ao cantor canadiano, I’m Your Man. Mas a reinterpretação de Buckley foi tão marcante que muitas das covers que se fizeram a seguir foram mais influenciadas por Buckley do que por Cale e muito menos pela original de Cohen.

A jornada desta canção é examinada em um excelente texto consultável aqui, bem como em clips das várias versões incluindo, claro, a de Buckley. Uma reportagem da revista MojoIt’s Never Over: Jeff Buckley 1966-1997, escrita por Jim Irvin – conta-nos em maior pormenor a sua faceta artística e pessoal, e contém depoimentos dos músicos que com ele tocaram. Um bom tributo que os fãs adorarão ler.

Buckley é um músico genial. Canta com uma generosidade que me comove hoje e comoverá para sempre: o timbre de voz, cristalino e luminoso, a entrega absoluta a cada momento da música, a espontaneidade, o sentido de exploração e partilha que coloca nas suas interpretações, sempre diferentes de concerto para concerto, o seu gosto musical ecléctico, tudo nele contém a marca de um artista que viverá para sempre, mesmo tendo vivido tão pouco.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 24 comentários »
29/Janeiro/2010

Radiohead: Creep em modo ressaca

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Só hoje – e por acaso – soube da existência de uma cantora chamada Karen Souza e das suas versões jazzísticas de alguns temas bem conhecidos. A minha atenção recaiu imediatamente sobre «Creep», dos Radiohead – e é essa que vos proponho conhecer agora.

É uma versão tão dissonante da original que fará com que alguns fãs dos Radiohead pensem em arrancar os cabelos. Eu até gostei. É muito cool – como se estivesse num bar mais ou menos decrépito, em fim de noite, com uma cantora cansada no palco e o som de copos a serem arrumados apressadamente pelo homem do bar. Em suma, este é um «Creep» em modo ressaca.

Quanto a Karen Souza, a sua identidade permanece um mistério. Googlei o nome e o que me apareceu foram páginas de perfil em várias redes sociais mas que não continham qualquer informação relevante sobre quem é, de onde vem e que discos lançou – sei que participou com dois temas numa colectânea chamada Vintage Café (Lounge & Jazz Blends), lançada em 2007. No YouTube poderão ouvir uma versão de Every Breath You Take, composta por Sting e lançada pelos Police. Por fim, acabei por desistir.

Fãs de Radiohead, oiçam então esta versão.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 9 comentários »
27/Janeiro/2010

Peter Gabriel a cantar Radiohead (e mais uma)

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Há sete anos que Peter Gabriel, ex-Genesis, grande músico, belíssima voz, não lançava um álbum. O que vai finalmente ser lançado, provavelmente só depois de Fevereiro, decepcionou os fãs, pois não será um disco de originais, mas de covers.

Em Scratch My Back, Peter Gabriel interpreta versões dos temas Heroes (David Bowie), The Boy in the Bubble (Paul Simon), Mirrorball (Elbow), Flume (Bon Iver), Listening Wind (Talking Heads), The Power of the Heart (Lou Reed), My Body is a Cage (Arcade Fire), The Book of Love (The Magnetic Fields), I Think it’s Going to Rain Today (Randy Newman), Après Moi (Regina Spektor), Philadelphia (Neil Young) e Street Spirit (Radiohead).

Não é apenas um mero disco de covers, mas também um convite aos autores das canções recriadas por Peter Gabriel para fazerem o mesmo. O vocalista dos Radiohead já aceitou o desafio e prepara-se para gravar a cover do tema Wallflower, lançado em 1982.

A notícia foi dada pelo próprio Peter Gabriel: «Thom está a preparar uma versão de Wallflower e estou bastante curioso em ouvi-la. Creio que foi uma canção importante para ele quando tinha 14 anos». Esta citação foi retirada do seu podcast neste site.

Já ouvi o álbum e tem alguns momentos portentosos. Não é um disco fácil, pois afasta-se muito dos originais, não só na forma como Peter Gabriel os assume e interpreta, mas sobretudo nos arranjos: nada de bateria ou guitarras, apenas piano, orquestra e voz, uma completa apropriação que resulta na maioria das vezes muito bem. Afinal, estamos a falar do Peter Gabriel.

Não quero acabar o post sem vos mostrar duas versões: a do tema My Body is a Cage, dos Arcade Fire, de que gostei bastante, e o maravilhoso Street Spirit, dos Radiohead (claro!), que depois de três audições seguidas é a única que ainda não me entrou. Assim, sem mais delongas

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 5 comentários »
29/Outubro/2009

Orgulhómetro

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O meu orgulhómetro subiu em flecha: a minha filha, 12 anos, deixou temporariamente de ouvir Queen de manhã à noite e começa agora a descobrir a discografia dos Pink Floyd, que eu ouvia (de manhã à noite) quando tinha uns 16 anos. Canção preferida: Comfortably Numb. Ela também já ouve Radiohead, em pequenas doses.

Hoje Pink Floyd e Radiohead, amanhã Frank Zappa, um dia chegará o jazz. Tudo é possível quando se começa tão bem!

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27/Fevereiro/2009

Mix Tape (IV)

Talvez esteja relacionado: Led Zeppelin secret chord progression (0)
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Não vos aconselho a ouvir esta mix tape. A escolha das músicas, sobretudo ao princípio, é um bocadinho bizarra – eu cá adoro, claro!

Os amigos e familiares são muito importantes para educar os nossos gostos musicais, mas sempre acreditei – pelo menos no meu caso é assim – que os grandes educadores são os músicos que ouvimos. Vejam os Radiohead e as influências que se notam nos seus discos: Jeff Buckley, Charles Mingus, Pink Floyd, só para mencionar os mais evidentes para mim. Há muito mais, com certeza. Os grandes músicos bebem sempre de muitas fontes.

Os meus grandes educadores musicais foram os Floyd, sobretudo Roger Waters; depois, com muitíssima amplitude, como já estão fartos de saber, obrigado pela paciência, Frank Zappa.

Dado que Frank Zappa é capaz de misturar vários géneros musicais num único tema, foi graças sobretudo a ele que me interessei por jazz e música clássica mais contemporânea.

Gravar uma sequência de temas que passam de ritmos africanos para a opereta de Gershwin até ao rock histriónico dos X-Legged Sally é a coisa mais natural do mundo para um zappanóico como eu – outras pessoas poderão achar completamente idiota. Seja como for…


Nota: estas mix tapes deixaram de estar disponíveis e podem ser escutadas em streaming na Rádio Bitaites)

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 6 comentários »
25/Novembro/2008

A pirataria é má, os mafiosos da moralidade também

Se a condenação à pirataria na Internet fosse absolutamente consensual, como afirma o recém-criado Movimento Cívico Anti-Pirataria na Internet (post original), os verdadeiros detentores dos direitos sobre as suas criações – os artistas, não os executivos – condená-la-iam de forma unânime.

No entanto, músicos como a britânica Joss Stone – cuja voz é frequentemente comparada à de Janis Joplin – não encaram a pirataria da mesma forma maligna. Entrevistada em Junho deste ano pelo jornalista argentino Federico Wiemayer, Joss Stone afirmou que os músicos que condenam a partilha ilegal dos ficheiros «levaram uma lavagem ao cérebro das editoras».

O assunto veio à baila quando o jornalista lhe perguntou o que achava ela da pirataria e do facto de as pessoas fazerem download das suas músicas na Net. «Acho óptimo», respondeu. «Óptimo?» – insistiu Federico Wiemayer. «Sim, adoro», confirmou a cantora, de passagem por Buenos Aires para um concerto. «Acho que é óptimo e digo-lhe porquê: a música deve ser partilhada. A única parte da música de que não gosto é a do negócio que lhe está associada. Se a música é livre, não deveria haver negócio, apenas música. Por isso gosto, acho que devemos partilhar. E mesmo que alguém compre o CD e faça cópias para mostrar aos amigos, acho óptimo, por mim tudo bem, desde que oiçam a minha música e venham aos meus concertos».

Já há uns anos, no auge da polémica Napster desencadeada pelas queixas dos Metallica (o assunto mais uma vez dividiu a opinião dos músicos), o cantor Moby juntou-se a nomes como Prince na defesa do Napster e afirmou o seguinte: «Sinceramente, quando vejo que as pessoas estão a sacar as minhas músicas não me sinto ofendido, sinto-me lisonjeado.» Mais recentemente, Prince afrontou a indústria (outra vez) ao disponibilizar de forma gratuita o seu último CD, Planet Earth, na edição do tablóide inglês Mail on Sunday, um jornal cuja circulação média diária é de 2,3 milhões de exemplares.

O caso da banda Nine Inch Nails é talvez o mais exemplar na forma como alguns músicos encaram a partilha de ficheiros e o próprio negócio de que fala Joss Stone. A banda criou um perfil em vários sites de torrents – entre os quais o The Pirate Bay, um dos mais conhecidos – e disponibilizou gratuitamente o primeiro volume de uma série de quatro discos intitulada Ghosts. O álbum foi partilhado sob uma licença não-comercial Creative Commons. «Agora que já não estamos constrangidos por uma editora, decidimos fazer nós mesmos o upload do disco», anunciou a banda. «A BitTorrent é um método revolucionário de distribuição digital e acreditamos que é preferível procurar formas de utilizar as novas tecnologias do que combatê-las.»

Quem também considera que deve ser o artista a decidir o enquadramento moral (e legal) das suas próprias criações é a banda Radiohead. Em Outubro do ano passado, o grupo decidiu colocar o seu último álbum – In Rainbows – disponível para download. O preço era decidido pelo comprador – e era possível descarregar o álbum de forma gratuita em formato MP3. It’s up to you, disseram os Radiohead. Outra característica fundamental tinha a ver com o facto de nestes ficheiros estarem ausentes as nefastas protecções DRM (Digital Rights Management).

O resultado financeiro deste sistema Paga o que quiseres, se quiseres deverá ser suficiente para preocupar a indústria e respectivo rottweiler digital (vocês sabem quem: Recording Industry Association of America, RIAA, associação de cariz mafioso que reúne as grandes editoras discográficas dos EUA). Embora não tenha revelado números, a banda confirmou que só o dinheiro que as pessoas decidiram voluntariamente pagar por In Rainbows (não contando portanto com a posterior venda física do CD) superou o que se conseguira com as vendas de todos os discos anteriores, segundo noticiou a Wired, citando o próprio Thom Yorke.

Claro que as editoras choram o lucro derramado, mas muitos não se deixam comover: «Durante quanto tempo os executivos das editoras pensam que continuarão a usufruir dos seus escritórios e agradáveis lugares de estacionamento? (…) Um novo modelo emergirá e não será um modelo que processa os seus próprios clientes, mas um que perceberá que a música não é um produto no sentido de ser uma coisa – a música está mais perto da moda, na medida em que ajuda a dizer aos fãs aquilo que são, no que acreditam de forma apaixonada e, até certo ponto, o que torna a vida divertida e interessante. É sobre um sentido de comunidade – uma canção é capaz de unir uma comunidade formada por indivíduos diferentes entre si. Não é apenas vender um CD dentro de uma caixa de plástico.» Quem escreveu estas palavras não foi um pirata ou um leecher do Demonoid,  mas um músico – David Byrne, dos Talking Heads.

Não obstante todos estes exemplos, associações como o Movimento Cívico Anti-Pirataria na Internet, apêndice da ACAPOR (Associação do Comércio Audiovisual de Portugal), insistem em dizer que representam e defendem os interesses dos músicos. É inegável que os interesses dos músicos devem ser defendidos, sobretudo tendo em conta que o grosso dos lucros cai nos bolsos das editoras.

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20/Novembro/2008

Uma versão de ‘Creep’ como nunca ouviram na vida

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Richard Cheese & Loung Against the Machine

Durante a escrita do post O Jazz adora os Radiohead (link para quem aqui chegou directamente) tropecei numa versão lounge de Creep que me fez rir. (Lounge? O que é isso?)

Vocês conhecem o tema Creep, não é? Oiçam a versão acústica, é excelente (link). Bem, agora imaginem essa música interpretada por um cantor (Richard Cheese) e respectiva banda de acompanhamento (Lounge Against The Machine, óbvia paródia aos Rage Against the Machine) a transformar Creep numa dança de salão pueril e inócua. Sabendo bem a crua emotividade da voz (e das letras) de Thom Yorke nessa canção, quase rebentei às gargalhadas quando ouvi Richard Cheese imitar a limpa pomposidade típica de cantores crooner como Frank Sinatra, Dean Martin ou Tony Bennett. Só de o imaginar a cantar ‘I’m a Creep, I’m a Weirdo‘ com um sorriso beatífico no rosto… Razão tinha o mestre Zappa: Humor does belong in music.

A sério, oiçam. Se a vossa receptividade for boa (comentários que não incluam a frase «Este post mudou a minha vida musical» não contam) mostro-vos mais umas quantas pérolas Lounge. Mas mostro-vos devagarinho, senão ainda confundem divulgação e espírito de partilha com pirataria… Entretanto, podem visitar o sítio oficial. :wink:

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20/Novembro/2008

O Jazz adora os Radiohead (Parte 1)

Radiohead

O jazz anda sempre à procura de novos standards. Possivelmente o esforço mais notável que conheço é o de Herbie Hancock. Em muito boa companhia – Michael Brecker (saxofones tenor e soprano), John Scofield (guitarras acústica e eléctrica), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Don Alias (percussão) – o pianista lançou em 1996 um disco apropriadamente chamado The New Standard.

Embora nenhum novo standard tenha nascido de forma unânime a partir do repertório escolhido, Herbie Hancock apropriou-se das canções, tornou-as suas e criou um belo disco. Os nomes escolhidos são díspares em estilo e género, mas o resultado destas transfigurações nunca deixou de soar como jazz: Paul Simon, Beatles, Peter Gabriel, Stevie Wonder, Sade, Prince e Kurt Cobain foram os escritores de canções escolhidos. A propósito, se quiserem conhecer a versão jazzística de All Apologies (Nirvana), força.

Em 2006, Herbie Hancock voltou ao seu papel de construtor de pontes musicais ao lançar um disco de duetos que incluiu nomes como Carlos Santana, outra vez Paul Simon, Annie Lennox, John Mayer, Christina Aguilera e Sting – uma jazz-pop thing, como lhe chamaram alguns críticos. Nada disto é novo, pois o lendário Miles Davis, pouco antes de morrer, já se associara a gente do rap e do hip-hop no álbum Doo-Bop, em 1992, quando estas músicas se faziam nas ruas das cidades e ainda não tinham sido aburguesadas pela MTV. Se estão curiosos em relação ao resultado desta associação entre Miles e o hip-hop, então saquem estes temas: Mystery e The Doo-Bop Song. É por aqui.

A relação com os Radiohead iniciada por um outro grande pianista de jazz, talvez o melhor da sua geração, o meu preferido, Brad Mehldau, tem por base o mesmo princípio: o futuro do jazz, afirmou Mehldau numa entrevista ao Guardian, passa por «devorar todos os géneros de música e, deste modo, tornar-se mais vital do que nunca.» Para esta visão ecléctica da música terá contribuído o facto de, a partir dos quatro anos, quando começou a aprender a tocar piano, gastar horas a devorar toda a música que passava na rádio, sobretudo Steely Dan, Stevie Wonder, Led Zeppelin, Steve Miller Band e Joni Mitchell. Aos dez, um novo professor de música incutiu-lhe o gosto pela música clássica. Aos treze, descobriu o jazz. «Naquela altura, no liceu, a maior parte do pessoal queria era futebol [futebol americano, não o nosso] e então a mensagem que os mais velhos passavam aos mais novos era ‘Pá, têm de aprender a atacar a bola’. Nós ouvíamos mais do género ‘Pá, têm de conhecer Charlie Parker e aprender os seus solos’».

A descoberta e o entusiasmo pela música de Elliott Smith, Fiona Apple, Rufus Wainwright e Nick Drake, que nada têm a ver com o jazz, levou alguns amigos a chamar-lhe atenção para os Radiohead. «Conheci-os numa altura em que já estava um bocadinho cansado de andar pelas discotecas a comprar todos os discos de jazz que conseguia». A partir daí, a música dos Radiohead começou a fazer parte do seu reportório jazzístico. Paranoid Android (*) e Exit Music (For A Film) (*), ambos de OK Computer, Everything in Its Right Place (*), de Kid A, foram os primeiros. O disco de 2005, Day Is Done, inclui o tema Knives Out (*), de Amnesiac.

Brad Mehldau não é o único jazzman a fazer covers da banda – é apenas o mais conhecido. Muitos outros entraram na onda dos Radiohead. Como explica outro pianista, Robert Glasper, que incluiu no seu último disco, In My Element, um medley formado pelo tema Maiden Voyage, de Herbie Hancock, e Everything in Its Right Place (*) «muitos músicos de jazz adoram os Radiohead. Eles têm mudanças de acordes tão bizarras como esquisitas, tempos completamente loucos, mas também belas e incontornáveis melodias. Eles têm uma forma de complexidade muito subtil, nem dás por ela; mas é destas características que se faz a força da boa música».

A lista cresce à medida que se investiga. The Bad Plus, Yuri Honing e Chris Potter são alguns dos exemplos sobre os quais falarei no post que se segue. O fenómeno é tão notório que o Guardian desafiou cinco músicos de jazz a criar uma versão jazzística de Nude, o belíssimo tema do último disco da banda, In Rainbows. Os resultados podem ser ouvidos nesta página.


Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 6 comentários »