Os miolos do trabalhador
Tenho um sonho bizarro para contar. O sonho consistiu em levar tiros a toda a hora. Estava no meu local de trabalho e alguém cujo rosto se mantinha sempre fora do meu campo de visão despachava-me com uma bala na cabeça. Ter sido despedido e ver muitos filmes do Scorsese e do Sergio Leone provoca estes delírios.
Levar vários tiros seguidos na tola é um bocado incomodativo, sobretudo quando se tem um trabalho mais intelectual. Uma pessoa não pode perder a concentração.
Os aborrecimentos começaram mal me sentei à secretária: pam, balázio na nuca. «Miolos a nadar num aquário? Pá, estes screensavers que instalaram nos computadores são de muito mau gosto», comentei eu, sem me aperceber que estava a ver o meu reflexo no vidro do monitor ainda desligado.
Achei aquilo muito peculiar, cocei a parte de trás da cabeça ensanguentada e levantei-me para pensar sobre o assunto. Mal me pus de pé, recebi outro em cheio na testa. Este deitou-me ao chão, pelo que me pus a meditar no significado daqueles disparos numa posição mais confortável. Felizmente continuava humano, não fiquei cego. Posso imaginar o sofrimento que seria se no sonho fosse um ciclope.
Ainda assim, perdera a capacidade de ver pessoas – só conseguia vislumbrar os computadores, os mobiliários e fotos de umas naturezas mortas às quais alguns colegas costumam chamar de celebridades.
Acabei por me fartar. Resolvi apanhar o elevador e descer à rua para fumar um cigarro. No elevador, alguém me deu outro tiro. Comecei a ficar um bocado aborrecido. Já me doíam as costas de estar sempre agachado a apanhar as minhas cenas do chão.
Cá fora devo ter fumado um cigarro tranquilo, pois não precisei de dar cabo das costas outra vez. Quando acabei, reentrei no elevador e, já sem surpresa, ouvi uma detonação familiar. Desta vez também me apercebi do som de gente a sussurrar. Dado que estava incapaz de ver pessoas, apenas objectos inanimados, não identifiquei ninguém.
Fiquei mesmo zangado. Calculando que podia estar a ser ouvido, protestei: «Ao menos ajudavam-me a apanhar os miolos espalhados no chão». Não vi ninguém, e de novo fui atingido por uma bala certeira. «Porra, isto teve graça ao princípio, mas agora já não tem piadinha nenhuma». E fui passando o tempo entre luminosos tiros e sombrias conversas.
Ao fim do dia de trabalho, outra vez no elevador, cruzei-me com o patrão, o Joaquim Oliveira, o tipo da Olivedesportos e outras cruzadas empresariais.
Como a minha deficiência de visão não me permitia ver seres humanos, fiquei contente por tê-lo reconhecido: era sinal que estava a recuperar as minhas faculdades.
Mesmo assim, achei-o esquisito. O rosto era quase bidimensional, um retrato pálido e sem espessura que se limitava a sorrir.
Intimamente agradecido por não me ter dado um tiro nos miolos e encorajado pela imutabilidade do seu sorriso, resolvi contar-lhe o que se passara.
«De maneira que estou farto de andar sempre a apanhar isto do chão», concluí. «Vê aquele bocado de cérebro que ficou ali pegado no botãozinho do segundo andar? É meu.» O Oliveira ficou com ar enojado: «Miolos de trabalhador, realmente!»
À saída, deu-me uma palmadinha tranquilizadora no ombro: «Não se preocupe, amanhã de manhã a mulher-a-dias vem cá limpar essa merda.»



























