19/Julho/2010

Os miolos do trabalhador

Talvez esteja relacionado: Poema da bufa (9)
Marcadores: , , ,

Tenho um sonho bizarro para contar. O sonho consistiu em levar tiros a toda a hora. Estava no meu local de trabalho e alguém cujo rosto se mantinha sempre fora do meu campo de visão despachava-me com uma bala na cabeça. Ter sido despedido e ver muitos filmes do Scorsese e do Sergio Leone provoca estes delírios.

Levar vários tiros seguidos na tola é um bocado incomodativo, sobretudo quando se tem um trabalho mais intelectual. Uma pessoa não pode perder a concentração.
Os aborrecimentos começaram mal me sentei à secretária: pam, balázio na nuca. «Miolos a nadar num aquário? Pá, estes screensavers que instalaram nos computadores são de muito mau gosto», comentei eu, sem me aperceber que estava a ver o meu reflexo no vidro do monitor ainda desligado.

Achei aquilo muito peculiar, cocei a parte de trás da cabeça ensanguentada e levantei-me para pensar sobre o assunto. Mal me pus de pé, recebi outro em cheio na testa. Este deitou-me ao chão, pelo que me pus a meditar no significado daqueles disparos numa posição mais confortável. Felizmente continuava humano, não fiquei cego. Posso imaginar o sofrimento que seria se no sonho fosse um ciclope.

Ainda assim, perdera a capacidade de ver pessoas – só conseguia vislumbrar os computadores, os mobiliários e fotos de umas naturezas mortas às quais alguns colegas costumam chamar de celebridades.

Acabei por me fartar. Resolvi apanhar o elevador e descer à rua para fumar um cigarro. No elevador, alguém me deu outro tiro. Comecei a ficar um bocado aborrecido. Já me doíam as costas de estar sempre agachado a apanhar as minhas cenas do chão.

Cá fora devo ter fumado um cigarro tranquilo, pois não precisei de dar cabo das costas outra vez. Quando acabei, reentrei no elevador e, já sem surpresa, ouvi uma detonação familiar. Desta vez também me apercebi do som de gente a sussurrar. Dado que estava incapaz de ver pessoas, apenas objectos inanimados, não identifiquei ninguém.

Fiquei mesmo zangado. Calculando que podia estar a ser ouvido, protestei: «Ao menos ajudavam-me a apanhar os miolos espalhados no chão». Não vi ninguém, e de novo fui atingido por uma bala certeira. «Porra, isto teve graça ao princípio, mas agora já não tem piadinha nenhuma». E fui passando o tempo entre luminosos tiros e sombrias conversas.

Ao fim do dia de trabalho, outra vez no elevador, cruzei-me com o patrão, o Joaquim Oliveira, o tipo da Olivedesportos e outras cruzadas empresariais.

Como a minha deficiência de visão não me permitia ver seres humanos, fiquei contente por tê-lo reconhecido: era sinal que estava a recuperar as minhas faculdades.

Mesmo assim, achei-o esquisito. O rosto era quase bidimensional, um retrato pálido e sem espessura que se limitava a sorrir.

Intimamente agradecido por não me ter dado um tiro nos miolos e encorajado pela imutabilidade do seu sorriso, resolvi contar-lhe o que se passara.

«De maneira que estou farto de andar sempre a apanhar isto do chão», concluí. «Vê aquele bocado de cérebro que ficou ali pegado no botãozinho do segundo andar? É meu.» O Oliveira ficou com ar enojado: «Miolos de trabalhador, realmente!»

À saída, deu-me uma palmadinha tranquilizadora no ombro: «Não se preocupe, amanhã de manhã a mulher-a-dias vem cá limpar essa merda

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 23 comentários »
10/Junho/2010

Banho-maria

Talvez esteja relacionado: Feliz Natal in vitro (7)
Marcadores: , , , ,

Às pessoas que me perguntam, Pá, então o Bitaites?, eu tenho respondido O Bitaites está em banho-maria.

De um ponto de vista exclusivamente culinário, este banho-maria blogosférico significa que a substância dos posts está depositada na panela do cérebro do blogger e que a panela do cérebro do blogger se encontra parcialmente submersa em água a ferver. O aquecimento mais ou menos uniforme das palavras – a substância dos posts – é um processo lento, pelo que é necessário tempo até que as actualizações possam ser servidas.

Um blogue, diz-se, reflecte o gosto, personalidade, por aí fora, do seu autor. Um blogue pessoal chega a ser quase uma extensão física do blogger, na medida em que é possível perceber qual a parte do seu corpo que esteve na origem de um post.

Muitas vezes os posts são escritos só com o cérebro, outras apenas com o coração, outros são escritos a correr ou com muita cera nos ouvidos, uns com as palmas das mãos unidas em sinal de oração, outros com os dois braços a fazer um manguito, alguns porque o cotovelo dói muito.

Este post, devo admiti-lo, está a ser escrito com os testículos. De um ponto de vista estritamente blogosférico, ando a coçá-los e estas coisas notam-se. Bem, nos tempos actuais mais vale uma mão nos tomates do que duas na vuvuzela.

Talvez por estar a escrever o post com os testículos esteja agora a pensar na origem da expressão banho-maria.

Se eu quisesse escrever este post com o cérebro, dir-vos-ia que a expressão tem origem numa mulher chamada Maria, a Judia, uma filósofa grega e célebre alquimista que viveu no Egipto por volta do ano 273 a.C. Terá sido ela – um génio ao nível de um Aristóteles – a inventar esse processo.

Só uma mulher poderia inventar um processo de elevar a temperatura de forma lenta, mas uniforme e inexorável. É como se estivesse a pensar: eu, Maria filósofa e alquimista, declaro solenemente que, em matéria de quecas, também gosto de ser aquecida pelo método banho-maria. E, já agora, aproveito para dizer à malta do Aristóteles que transformar cobre em ouro é tão importante como transformar desejo em volúpia.

Sim, é verdade, regressei a um ponto de vista mais testicular.

Podemos então esquecer a Maria alquimista e imaginar como teria sido tão maravilhosa uma Maria cujo simples acto de se banhar tivesse dado origem a uma expressão que atravessou séculos de história. Teria olhos verdes? Longos cabelos negros? Que Marias actuais se lhe poderão equiparar em graça, beleza e sensualidade? Espero que todos possam encontrar as vossas respostas e resolver esta quimera perfumada do amor.

Para começar, eu sugiro o Google Images com o SafeSearch desligado.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 4 comentários »
31/Maio/2010

Pobres israelitas, agiram em legítima defesa

Talvez esteja relacionado: Os dedinhos de Ahmadinejad (4)
Marcadores: , , ,

Actualização Por altura da publicação deste post, ainda não tinha tomado conhecimento do vídeo lançado pelas autoridades israelitas para justificar as acções dos seus soldados.

Mesmo que o vídeo seja verdadeiro, existem alguns pormenores a ter em conta: o navio estava em águas internacionais, o que significa que a única jurisdição a que está submetido é a do Estado a que pertence – neste caso, a Turquia. Ao abordar o navio em águas internacionais, os soldados israelitas invadiram um espaço cuja jurisdição pertence a um país soberano – a Turquia.

Para justificar o massacre, Israel afirma que os seus soldados agiram em legítima defesa. É um argumento hipócrita e falacioso, dado que os ocupantes do navio turco que atacaram os soldados podem também dizer – e com mais propriedade – que agiram em legítima defesa perante o invasor. Do ponto de vista da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os soldados portaram-se como piratas; logo, foram escorraçados como piratas.


Activistas a bordo do navio turco Mavi Marmara

Perigosos e assustadores activistas pró-palestinianos a bordo do navio turco Mavi Marmara, atacado por Israel. Os soldados estão a ser acusados por uma das organizações envolvidas na operação – FreeGaza – de terem disparado sobre os civis mal puseram o pé no barco


Pelo menos 19 pessoas morreram e 36 ficaram feridas durante um ataque de comandos israelitas a um conjunto de seis barcos que seguiam para Gaza. Claro que as contas dos mortos e feridos ainda não estão definitivamente feitas. E há várias fontes a fazer as suas próprias contas.

Os barcos não eram uma frota de invasão: o conjunto de seis navios atacados foi baptizado «Frota da Liberdade» e transportava 750 activistas pró-palestinianos de 60 nacionalidades e 10 mil toneladas de ajuda humanitária destinada à Faixa de Gaza. Foram abordados em águas internacionais.

Os israelitas desmentem estes factos e avançam com outros: não morreram 19 activistas, morreram 10; os soldados que participaram na abordagem, segundo explicou o chefe do estado-maior do exército, Gaby Ashkenazi, «viram-se obrigados a utilizar métodos anti-distúrbio e armas de fogo ao sentirem as suas vidas em perigo» quando um membro da tripulação roubou uma arma.

O responsável da Marinha, Eliezer Marom, acrescenta aos factos israelitas uns elogios: os soldados souberam «conter-se», garantiu, foram «corajosos e determinados». O ministro da Defesa israelita, Ehud Barak, acrescentou às mortes uma interpretação juridicamente bondosa: os soldados mataram em legítima defesa, pois «temiam pelas suas próprias vidas».

Será que o activista que roubou a arma terá ficado tão comovido com a simpatia e diplomacia dos militares durante a abordagem que roubou a arma para se suicidar, em sinal de arrependimento por ter dedicado tanto tempo a lutar contra aquele campo de concentração que Israel edificou na Faixa de Gaza?

Também tenho algumas dificuldades em aceitar que os soldados agiram com contenção, uma vez que um roubou uma arma e 19 morreram.

Bem, os israelitas dizem que morreram 10, vamos aceitar este número. Que se passou? Os 10 activistas atacaram os soldados com facas de cozinha? Latas de farinha? Arroz? Feijão? Medicamentos? Cogumelos venenosos? Chinelos? Estes pormenores precisam de ser esclarecidos, até porque Israel diz que dez soldados ficaram feridos na operação, dois deles com gravidade. Será que os activistas que feriram os soldados o fizeram por maldade ou agiram em legítima defesa?

Nenhuma voz ainda se elevou a favor desta acção corajosa e determinada dos comandos, incluindo activistas israelitas que já protestam contra o massacre: os 22 países árabes da Liga Árabe reúnem-se amanhã no Cairo para assumir «uma posição colectiva» contra o ataque israelita. A União Europeia pediu uma «investigação completa» das autoridades israelitas sobre as circunstâncias do ataque à frota. Os países europeus – Espanha e Alemanha foram os primeiros a reagir – usam palavras como «choque» e «condenação» para comentar o sucedido. Aliás, é notável verificar como uma simples escolha de palavras pode ter um significado político tão elucidativo: a Rússia, por exemplo, condena. Os Estados Unidos lamentam. Portugal também lamenta.

Para concluir este post, só me falta mesmo a moral da história. Se alguém a encontrar, avisem-me.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 39 comentários »
10/Março/2010

Deixa lá, a vida são cinco dias

Existe uma explicação científica para o que se está a passar. Há uma espécie de Gripe A no futebol português, A de abada. Primeiro, atacou o Sporting; agora, ataca o FC Porto.

Scarlett, a diva das boquinhas de broche

Se acharem a letra A ofensiva, tendo em conta os acontecimentos recentes, chamem-lhe Gripe C, C de crise. É mais suave. Tal como a gripe, esta crise pega-se. O FC Porto chegou a Alvalade, cheio de saúde e pujança depois da goleada ao Sporting de Braga, jogou com o moribundo Sporting, perdeu 3-0 e pronto, ficou contaminado. Quando andaram a dizer que o Benfica era uma equipa cansada cheguei a pensar que também tinha apanhado qualquer coisa quando empatou em Alvalade – foi só um susto, felizmente.

Quanto ao Porto, os sintomas de Gripe C começaram de imediato. Olhanense? Empate à rasquinha. Arsenal? Concentrem-se na Scarlett. Não há nada a fazer contra a corrente de transmissão deste vírus. Até o treinador do Sporting Carlos Carvalhal – a quem o jornal Record passou semanas a querer fazer a cama – se ergueu e caminhou, como um Lázaro das tácticas.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 24 comentários »
4/Fevereiro/2010

Salvem as nossas avozinhas dos gays!

Talvez esteja relacionado: Interno Feminino ou Morangos com Açúcar? (16)
Marcadores: , , , ,

Salvem as avozinhas

Eles consideram que o casamento entre pessoas do mesmo sexo poderá provocar a extinção dos avós.

«Os avós vão acabar?», pergunta um dos cartazes da manifestação cívica de 20 de Fevereiro. Na base desta pergunta está a ideia de que os gays não são pessoas, mas aberrações sem pai nem mãe – como tal, se os deixarmos à solta estaremos a contribuir para o extermínio dos avós.

Os avós são dinossáurios que o meteorito da paneleirice poderá varrer da face da Terra.

Este problema tem realmente uma dimensão cósmica porque os maricas são seres mutantes vindos de um planeta distante e chegaram com intenções de subjugar o heterossexualismo deste planeta.

Irmãos, não vos deixeis vergar à tirania da verga desencaminhada! O nosso é um planeta, portanto é macho; acasalou-se com uma Lua, que é fêmea. Não se acasalou com Marte, que também é um planeta e é muito macho, acasalou com uma Lua.

Os desígnios divinos são insondáveis mas só até certo ponto – há coisas que são evidentes para quem observe o Universo com um telescópio moral. Júpiter é um infiel cheio de gases que acredita na poligamia e até tem um harém, mas ao menos é um harém de luas. Tem desculpa. Ai do cometa que se aproximar!

Não queremos cá poucas-vergonhas cósmicas no nosso Sistema Solar e não será a Terra o primeiro planeta homossexual do Universo.

Portanto se até a ordem cósmica da vida conspira contra os gays, por que não haveremos de dar as mãos (sem exageros, claro) e defender o destino da pobre avozinha condenada à inexistência, manifestando-nos no dia 20 de Fevereiro, na nossa humilde, pequena e normal Lisboa?

Porque o caso é grave. Se não os escondermos numa redoma opaca, num Distrito 9 erguido pela moralidade dos hipocritamente castos, correremos o risco de os homens deixarem de gostar de mulheres e as mulheres deixarem de gostar de homens. Irmãos, salvai a avozinha da extinção em massa!

Com os paneleiros casados e prontos a adoptar crianças, acabam-se logo os bolinhos caseiros. Nunca mais teremos um botão que se aguente na camisa. Pensem nisso.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 18 comentários »
30/Janeiro/2010

Solene promessa

Talvez esteja relacionado: Olha-me este (2)
Marcadores: , , , ,

Eu, o Marco, autor deste blogue, venho por este meio declarar o seguinte:
Prometo solenemente não escrever uma linha hoje, amanhã ou no futuro próximo sobre um produto que não conheço. Mais: confesso a minha total incapacidade em produzir afirmações críticas ou analíticas sobre o que não experimentei e só estará disponível daqui a uns dois meses – se eu o quiser comprar (o que jamais acontecerá).

Afirmo também que a maçã não me é tão tentadora a ponto de me fazer especular sobre os seus possíveis sabores ou dissabores. Também não prevejo escrever qualquer palavra começada com um i minúsculo. E não tenho qualquer afinidade com os bolsos do senhor Steve Jobs, embora o considere um homem admirável.

Podem assim os visitantes do Bitaites ficar descansados que nem uma palavrinha será aqui escrita sobre o iPad – à excepção deste post, e por razões óbvias.

Tenho também a dizer que os geeks estão para a Apple como os charros para os desenhos animados: os bonecos até podem não ter piada nenhuma, mas com a moca a gente desata à gargalhada na mesma.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cenas Geek | 15 comentários »
27/Janeiro/2010

Post nada interessante

Talvez esteja relacionado: Este post é uma caralh*da (17)
Marcadores: , ,

Quando estava a pensar em escrever este post lembrei-me de que o Zappa em concerto costumava apresentar as suas teatralidades musicais com a frase

and the secret word for tonight is…

Bem, no meu caso vai ser interessante.

Não gosto da palavra interessante.

Interessante utiliza-se quando não se tem opinião vincada ou não se quer dar uma verdadeira opinião: «Então, que achaste?» «Sim, foi interessante».

Palavra desapaixonada. Expressão fria e enganadora. Subterfúgio. Palavra vaga. Pouco significa e, portanto, pouco compromete. É uma palavra que penduramos na frase com a mesma displicência com que penduramos um casaco gasto no cabide. Dizemos «é interessante» por desejarmos arrumar o assunto o mais depressa possível.

Ninguém se apaixona por um assunto por ser interessante. E em nenhum momento verdadeiramente importante da nossa vida usaremos a palavra interessante para definir o que sentimos. Por exemplo, se fizermos um minete apaixonado à mulher da nossa vida não estamos à espera que ela depois diga
– Amor, isso foi tão interessante.

Há palavras que não fazem sentido quando nos entregamos. Da mesma maneira que ser simpático não significa ser amigo, achar interessante também não pressupõe empenhamento.

Quando partilhamos com outra pessoa o conhecimento ou a experiência de algo que nos verdadeiramente apaixona, não esperamos que o nosso interlocutor ache interessante o que estamos a dizer. Mais vale mandar-nos à merda. Mais valia responder o que tu estás a dizer não me interessa, mas impressiona-me a paixão com que o dizes.

Interessante é uma palavra sonsa. Não é carne nem peixe. É um elogio sem o compromisso da atenção. É uma amigável hipocrisia.

A palavra interessante é uma forma de estar na vida: tudo o que é interessante deve poder ser esquecido em cinco minutos para que a próxima coisa interessante tome o seu lugar. Um gadget. Televisão a cores. Alta Definição. 3D. Um blockbuster. 3D. Um best-seller. Um ícone.

Tudo é feito para captar a nossa atenção agora porque amanhã já queremos estar noutra e ao estarmos noutra experimentamos uma sensação de falsa liberdade: o novo telemóvel que nos liga ao mundo de mil e uma maneiras mágicas e deslumbrantes. Novas ferramentas sociais. Computadores, Internet. O Twitter. O Facebook. A ilusão é cada vez mais sofisticada. Nada pode travar a velocidade com que percorremos o mundo e o mundo nos percorre a nós – somos escravos desse ritmo. Somos escravos das coisas interessantes que passam por nós e mal nos chegam a tocar.

Interessante é uma pedra lançada sobre o mar raso e que saltita até se afundar no esquecimento. Às vezes sinto que vivemos dentro do disco The Dark Side of the Moon, dos Pink Floyd: sempre On the run, on the run, sempre obcecados, Time, sempre sem espaço, asfixiados, Breathe, sempre a fugir de palavras que significam mais do que meras conveniências sociais, sempre à espera de um Great Gig in the Sky que nunca chegará. Porque temos medo de nos empenhar. Porque temos medo que os outros nos achem ridículos. Porque perdemos demasiado tempo com coisas interessantes.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 19 comentários »
21/Janeiro/2010

24 horas de downloads ilegais

Talvez esteja relacionado: O elixir da eterna juventude não sabe a rosas (22)
Marcadores: , ,

A ACAPOR, representante dos videoclubes em Portugal, montou uma barraquita no Largo de Camões, em pleno centro de Lisboa, para protestar contra a pirataria online.

Juntou-lhe uma acção melodramática destinada a chamar a atenção dos jornais, deixando um computador a fazer downloads ilegais durante 24 horas seguidas, à vista de todos, para demonstrar que é possível fazê-lo de forma impune.

Enquanto sacam os filmes, os senhores da ACAPOR podiam tentar perceber – e têm 24 horas para pensar – por que razão a pirataria tem tanto sucesso. Já que estão a brincar aos piratas e se sentem eticamente autorizados a fazer as mesmas escolhas de quem saca filmes ou música de forma ilegal, podiam aprender alguma coisa sobre a eficiência dos grandes sites de torrents.

Por exemplo, os senhores viram como é fácil encontrar o que se procura e tê-lo à disposição no computador sem nada que possa delimitar o uso que se lhe queira dar? Notaram que é possível, através da pirataria, ter acesso a obras culturais que as indústrias desprezam, por não serem suficientemente lucrativas?

Vamos supor que usaram o Demonoid para transferir os filmes. Digo «transferir» porque os senhores não «sacam», eu sei. Repararam como aquilo está tão bem organizado e é fácil de consultar? Uma pessoa chega à página, procura um filme em que está interessado e, dois minutos depois, tem à sua disposição um link para fazer o download. Digam-me os senhores onde é possível ter acesso a um serviço desta categoria que seja legal – em lado nenhum.

E mesmo que o assunto seja música e não filmes, as dificuldades continuam: se eu sacar um disco da Net posso usá-lo como quiser, sem DRMs ou restrições de qualquer espécie que me impeçam, por exemplo, de copiar ou emprestar o que é meu – o que acaba por ser uma situação curiosa, pois enquanto pirata sou tratado com mais respeito e consideração do que enquanto consumidor pagante.

Direitos de autor? Claro. Já conheço a conversa. Devemos ser a favor, claro, devemos condenar, com certeza, e estar incondicionalmente do vosso lado porque os senhores querem ter as costas quentes pela lei.

Vamos então falar de outro tipo de roubos e outro género de leis. Um disco ou um filme vendido hoje a mais de 20 ou 40 euros acabará os seus dias num caixote de promoções oito a dez vezes mais barato – acontece com frequência, estão a ver o dilema, e eu fico a pensar porque razão existe uma discrepância tão grande entre os preços, dado que estamos a falar do mesmo produto e portanto os custos de produção são os mesmos. Bem sei que vivemos num mundo em que a novidade está sempre inflacionada, mas parece-me que deveria existir uma linha muito nítida que separasse oportunidade de negócio e abuso de posição, mesmo que este esteja sancionado por lei.

Uma vez que os representantes da indústria do entretenimento são pessoas de bem, sempre do lado da lei, hesito em dizer que se trata de um roubo – mesmo sentindo que os meus direitos de consumidor são espezinhados por sapatos da mesma marca que os senhores usam.

No que respeita à iniciativa de hoje, estamos portanto numa situação ironicamente semelhante: os senhores usufruem da possibilidade de fazer downloads ilegais para denunciar a acção impune de um grupo de ladrões; eu faço exactamente o mesmo.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 47 comentários »
15/Janeiro/2010

Como sei que a Terra é redonda?

Talvez esteja relacionado: Desculpe, por acaso é Árabe? (6)
Marcadores: , , ,

Num ou noutro lugar — penso que é no prefácio a Saint Joan — Bernard Shaw comenta que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que o éramos na Idade Média, e como exemplo da credulidade moderna cita a crença muito difundida de que a Terra é redonda. O homem médio, afirma Shaw, não consegue apresentar uma só razão para pensar que a Terra é redonda. Limita-se a engolir esta teoria por haver nela algo que é atraente para a mentalidade do século XX.

Ora, Shaw está a exagerar, mas o que afirma tem algo que se lhe diga, e vale a pena explorar a questão devido à luz que lança sobre o conhecimento moderno. Afinal por que acreditamos efectivamente que a Terra é redonda? Não estou a falar dos poucos milhares de astrónomos, geógrafos, e assim por diante, que poderiam apresentar provas oculares, ou que têm um conhecimento teórico da prova, mas do cidadão comum que lê os jornais, como eu ou você.

No que respeita à teoria da Terra Plana, penso que poderia refutá-la. Se ficarmos junto ao mar num dia com boa luz, consegue-se ver os mastros e chaminés de navios invisíveis que passam ao longo do horizonte. Este fenómeno só pode ser explicado supondo que a superfície da Terra é curva. Mas não se segue que a Terra é esférica. Imagine-se outra teoria, chamada teoria da Terra Oval, que afirma que a Terra tem a forma de um ovo. Que posso dizer contra ela?

Terra plana

Contra o homem da Terra Oval, a primeira carta que posso jogar é a analogia do Sol e da Lua. O homem da Terra Oval responde logo que não sei, pela minha própria observação, que esses corpos são esféricos. Só sei que são redondos, e podem perfeitamente ser discos planos. Não tenho resposta a isto. Além disso, continua ele, que razão tenho para pensar que a Terra tem de ter a mesma forma que o Sol e a Lua? A isto também não posso responder.

A minha segunda carta é a sombra da Terra: quando incide sobre a Lua, durante os eclipses, parece a sombra de um objecto redondo. Mas como sei, exige o homem da Terra Oval, que os eclipses da Lua são causados pela sombra da Terra? A resposta é que não sei, tendo antes tomado às cegas este pedaço de informação de artigos de jornal e opúsculos de ciência.

Derrotado nas trocas menores, jogo agora a minha rainha de trunfo: a opinião dos especialistas. O Astrónomo Real, que tem obrigação de saber, diz-me que a Terra é redonda. O homem da Terra Oval joga o seu rei em cima da minha rainha. Testei eu a afirmação do Astrónomo Real, e saberia sequer como o fazer? Aqui faço uso do meu ás. Sim, conheço um teste. Os astrónomos conseguem prognosticar eclipses, e isto sugere que as suas opiniões sobre o sistema solar são bastante sólidas. Tenho consequentemente justificação para aceitar o que dizem sobre a forma da Terra.

Se o homem da Terra Oval responder — o que penso ser verdade — que os antigos egípcios, que pensavam que o Sol anda à volta da Terra, sabiam também prever eclipses, lá se vai o meu ás. Só me resta uma carta: a navegação. As pessoas velejam à volta do mundo, e chegam aonde querem, fazendo cálculos que presumem que a Terra é esférica. Penso que isto acaba com o homem da Terra Oval, apesar de mesmo assim ele poder talvez ter um qualquer tipo de contra-ataque.

Como se vê, as minhas razões para pensar que a Terra é redonda são muito precárias. Contudo, trata-se de um pedaço excepcionalmente elementar de informação. Na maior parte das outras questões, eu teria apelado muito mais cedo ao especialista, e teria tido menos capacidade para testar as suas proclamações. E a maior parte do nosso conhecimento está neste nível. Não repousa em raciocínio ou experimentação, mas na autoridade. E como poderia ser de outro modo, quando a diversidade de conhecimento é tão vasto que o próprio especialista é um ignoramus mal se afasta da sua própria especialidade? As pessoas, na sua maior parte, se lhes pedissem para provar que a Terra é redonda, nem se dariam ao incómodo de apresentar os fraquíssimos argumentos que esbocei. Começariam por dizer que “toda a gente sabe” que a Terra é redonda, e se insistíssemos, ficariam zangadas. De certo modo Shaw tem razão. Esta é uma época crédula, e o fardo de conhecimento que agora temos de carregar é em parte responsável.

George Orwell

Publicado originalmente em Tribune (27 de Dezembro de 1946)

Tradução de Desidério Murcho, publicada na revista Crítica

Publicado por Marco Santos | Categoria: Leituras | 8 comentários »