Madeira: o que podemos mostrar
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Foto: ASPRESS/Hélder Santos
As fotos da Madeira deram origem a uma discussão na caixa de comentários do post sobre se é legítimo apreciar a qualidade de uma fotografia que nos mostra uma tragédia.
Quem gosta de fotografia observa-a também desse ponto de vista, mesmo que a informação que a foto contém seja perturbante ou chocante. Não se trata de insensibilidade, mas apenas da nossa capacidade de funcionarmos em vários planos simultaneamente sem que o mais racional anule o emocional. Somos criaturas multi-tasking.
Existem muitos exemplos na história do fotojornalismo cujas imagens de morte e miséria e devastação mudaram o curso dos acontecimentos – para melhor. Por exemplo, três fotos cruciais do Vietname que ajudaram a formar uma corrente de opinião contra aquela guerra – refiro-me a estes exemplos por os ter evocado neste post.
O caso da Madeira toca-nos a todos, mas a informação deve circular. Não me refiro ao circo mediático que inevitavelmente começará a ser montado. Precisamos de saber o que lá se passou e tenho a certeza de que os madeirenses querem que se saiba. A informação – incluindo as imagens – ajuda a formar uma cadeia de solidariedade entre portugueses separados por um oceano. A política pode esperar, já agora.
Tudo isto é óbvio. O melindre é estabelecer limites para o que se pode mostrar. Este tipo de situações obriga um blogger a ter tanto cuidado no que mostra como qualquer editor de jornal. Que ninguém se desculpe com a diferença de audiências entre uma publicação e um blogue, porque a responsabilidade é igual nem que um blogue tenha meia-dúzia de visitantes.
Há fotos que chegaram da Madeira que mostram pessoas mortas. Não são muitas – eu vi três. Essas não devem ser publicadas, seja em nome da informação ou da qualidade fotográfica. Não se trata de censura ou camuflagem, mas de uma questão de decência e critério. A questão da decência fica na consciência de cada um – todos sabem ao que me estou a referir.
Existem muitos exemplos dessa decência: os irmãos franceses que estavam em Nova Iorque no 11 de Setembro a filmar um documentário com os bombeiros e que de repente se viram arrastados para a maior reportagem das suas vidas são o meu exemplo preferido. Conta um deles que decidiu não filmar os corpos que caíam das Torres Gémeas por achar que não tinha esse direito. É de homem.
O critério, neste caso, é muito simples. Sabemos que morreram pessoas. Sabemos – ao ver as fotos da lama e dos pedregulhos e do curso das ribeiras – como essas pessoas provavelmente perderam a vida. Fotos de cadáveres enlameados cuja identificação pode ser feita por quem veja a imagem não acrescentam nada ao que já sabemos. As fotos de corpos empilhados nas ruas de Port-au-Prince, no Haiti, foram importantes para mostrar a dimensão do acontecimento, o problema de saúde pública devido à decomposição dos cadáveres e o absoluto caos e desespero no país. (Nota: refiro-me às fotos captadas de longe, suficientemente perto para se perceber do que se tratava, mas sem que as identidades das pessoas fossem reveladas.)
Felizmente, a Madeira não se encontra assim.
Num momento em que muitos madeirenses que vivem fora do arquipélago procuram desesperadamente por notícias dos seus familiares, seria grotesco pensar que, em nome da informação ou da arte, teríamos o direito de as mostrar. Imaginem uma dessas pessoas chegar por acaso a um blogue e reconhecer um familiar ou amigo, morto. Valeria a pena ter esse peso na consciência só para se ter uma foto diferente?
Até agora, pelo que tenho visto, nenhum jornal (ou blogue) publicou essas fotos. Não precisamos delas e acho que a decência com que os jornalistas e os repórteres fotográficos estão a tratar este assunto se vai manter.































