O professor suicida e o jogo das aparências
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Um professor de música – psicologicamente frágil, homem reservado e pouco dado a convívios – lançou-se da ponte 25 de Abril na manhã de 9 de Fevereiro. No computador, escreveu o seguinte: «Se o meu destino é sofrer dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim – e não tendo eu outras fontes de rendimento -, a única solução apaziguadora será o suicídio». Tinha 51 anos e era professor na Escola Básica 2.3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra.
Ao ler esta notícia, imagino-me como um oficial das SS. Agora estou a alinhar todos aqueles alunos violentos e provocadores e mal-educados que levaram à loucura um infeliz homem que nunca deveria ter sido professor, muito menos nestes tempos de desequilíbrios e impunidades.
Grito com ferocidade, para impor medo – o respeito já não me interessa. A minha pronúncia é notavelmente alemã, como a dos nazis no primeiro filme do Indiana Jones. O pelotão de execução é formado por tipos altos, feios, pálidos e carrancudos, vestidos de negro e com botas reluzentes onde o sangue não se pega, pois escorrega sempre. Apontam aos alunos malfeitores as espingardas automáticas. O pelotão espera o meu sinal. Eu levanto a mão e ordeno: Fogo!
São espingardas especiais, pois disparam mãos em vez de balas. Como estas mãos são mecânicas, os malfeitores são varridos à galheta com grande eficiência, sem dó nem piedade. Cabe-me a mim dar o tiro de misericórdia: uns carolos muito pesados na cabeça, como fazia o meu professor de Português, o mãos de martelo, durante as suas correcções personalizadas aos nossos testes.
Este é um delírio megalómano de raiva e poder absolutos, mas acredito que pela cabeça de muitas pessoas passará qualquer tipo de acção punitiva aos alunos: cá se fazem, cá se pagam, o espírito de vingança a prevalecer sobre o bom senso.
É uma confusão. Eu ainda sou do tempo em que um professor podia corrigir os testes dos alunos à carolada, pelo que dou por mim a perguntar como foi possível viajar-se de um extremo para o outro sem ninguém se aperceber da confusão em que alunos e professores se estavam a meter.
Não quero dizer com isto que dantes os alunos eram uns anjinhos e os professores uns demónios, e agora é o contrário. Tanto tempo depois do 25 de Abril, ainda não fomos capazes de encontrar um equilíbrio entre liberdade e autoridade – é como se uma estivesse destinada a anular a outra, e não me parece que tal seja possível desde que estejamos sempre prontos a reivindicar o direito de estarmos atentos e, já agora, rejeitar o extremismo – venha da esquerda ou da direita. De professores que podiam exercer o seu poder de forma quase impune, passámos para uma situação em que se tornaram vítimas da imatura crueldade dos alunos mais problemáticos, protegidos por pais que não sabem educar.
À medida que o tempo vai passando e episódios destes se acumulam, começo a compreender cada vez mais as pessoas que reagem com ímpetos justiceiros: se da parte do Estado e da própria escola nada se faz, tentamos preencher o vazio de autoridade com as nossas próprias mãos.
No caso deste professor, a abertura de um inquérito ao que se passou só foi decidida pela direcção da escola depois de a história ter rebentado nos jornais, ou seja, mais de um mês após o suicídio do professor e já nem contando os muitos meses durante os quais as suas queixas foram sendo ignoradas. Os inquéritos já só servem para salvar reputações e sobreviver ao embaraço público, portanto chegam demasiado tarde para resolver qualquer problema. Continua a praticar-se o jogo das aparências até que a nossa atenção seja desviada para um novo escândalo. Outra forma de delírio.
































