22/Fevereiro/2010

Madeira: o que podemos mostrar

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Madeira

Foto: ASPRESS/Hélder Santos

As fotos da Madeira deram origem a uma discussão na caixa de comentários do post sobre se é legítimo apreciar a qualidade de uma fotografia que nos mostra uma tragédia.

Quem gosta de fotografia observa-a também desse ponto de vista, mesmo que a informação que a foto contém seja perturbante ou chocante. Não se trata de insensibilidade, mas apenas da nossa capacidade de funcionarmos em vários planos simultaneamente sem que o mais racional anule o emocional. Somos criaturas multi-tasking.

Existem muitos exemplos na história do fotojornalismo cujas imagens de morte e miséria e devastação mudaram o curso dos acontecimentos – para melhor. Por exemplo, três fotos cruciais do Vietname que ajudaram a formar uma corrente de opinião contra aquela guerra – refiro-me a estes exemplos por os ter evocado neste post.

O caso da Madeira toca-nos a todos, mas a informação deve circular. Não me refiro ao circo mediático que inevitavelmente começará a ser montado. Precisamos de saber o que lá se passou e tenho a certeza de que os madeirenses querem que se saiba. A informação – incluindo as imagens – ajuda a formar uma cadeia de solidariedade entre portugueses separados por um oceano. A política pode esperar, já agora.

Tudo isto é óbvio. O melindre é estabelecer limites para o que se pode mostrar. Este tipo de situações obriga um blogger a ter tanto cuidado no que mostra como qualquer editor de jornal. Que ninguém se desculpe com a diferença de audiências entre uma publicação e um blogue, porque a responsabilidade é igual nem que um blogue tenha meia-dúzia de visitantes.

Há fotos que chegaram da Madeira que mostram pessoas mortas. Não são muitas – eu vi três. Essas não devem ser publicadas, seja em nome da informação ou da qualidade fotográfica. Não se trata de censura ou camuflagem, mas de uma questão de decência e critério. A questão da decência fica na consciência de cada um – todos sabem ao que me estou a referir.

Existem muitos exemplos dessa decência: os irmãos franceses que estavam em Nova Iorque no 11 de Setembro a filmar um documentário com os bombeiros e que de repente se viram arrastados para a maior reportagem das suas vidas são o meu exemplo preferido. Conta um deles que decidiu não filmar os corpos que caíam das Torres Gémeas por achar que não tinha esse direito. É de homem.

O critério, neste caso, é muito simples. Sabemos que morreram pessoas. Sabemos – ao ver as fotos da lama e dos pedregulhos e do curso das ribeiras – como essas pessoas provavelmente perderam a vida. Fotos de cadáveres enlameados cuja identificação pode ser feita por quem veja a imagem não acrescentam nada ao que já sabemos. As fotos de corpos empilhados nas ruas de Port-au-Prince, no Haiti, foram importantes para mostrar a dimensão do acontecimento, o problema de saúde pública devido à decomposição dos cadáveres e o absoluto caos e desespero no país. (Nota: refiro-me às fotos captadas de longe, suficientemente perto para se perceber do que se tratava, mas sem que as identidades das pessoas fossem reveladas.)

Felizmente, a Madeira não se encontra assim.

Num momento em que muitos madeirenses que vivem fora do arquipélago procuram desesperadamente por notícias dos seus familiares, seria grotesco pensar que, em nome da informação ou da arte, teríamos o direito de as mostrar. Imaginem uma dessas pessoas chegar por acaso a um blogue e reconhecer um familiar ou amigo, morto. Valeria a pena ter esse peso na consciência só para se ter uma foto diferente?

Até agora, pelo que tenho visto, nenhum jornal (ou blogue) publicou essas fotos. Não precisamos delas e acho que a decência com que os jornalistas e os repórteres fotográficos estão a tratar este assunto se vai manter.

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21/Fevereiro/2010

Madeira

Madeira

Foto: AP/Octávio Passos

Madeira

Madeira

Madeira

Madeira

Fotos: Lusa/AFP/Gregório Cunha

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Publicado por Marco Santos | Categoria: Instantes | 23 comentários »
5/Janeiro/2010

A ortographia Portugueza anda mui depravada

Porto

Letreiro na parede da Igreja do Carmo, Porto, anterior à reforma ortográfica de 1911 (Foto: Manuel de Sousa)

«As pessoas que escrevem errado e cometem os chamados erros de português, tão criticadas por professores de língua, na maioria das vezes, são tidas como ignorantes. Trocar ch por x, g por j ou s por z, na verdade, não são propriamente erros de português, são erros de ortografia.

As confusões ortográficas são, entretanto, totalmente compreensíveis, uma vez que nenhum sistema gráfico é perfeito – a escrita é uma tentativa de representação da fala e, por isso, ninguém conseguirá escrever exatamente como fala.

A escrita é, portanto, artificial. Saber qual letra escolher na hora de escrever uma palavra é uma tarefa que exige memorização (principalmente a visual) e treino. Que atire a primeira pedra quem nunca se enganou. Desconhecer ortografia não significa desconhecer gramática. É simplesmente desconhecer uma simples convenção, um decreto que tem o objetivo de sistematizar a forma das palavras.» Ler o artigo completo

Publicado por Marco Santos | Categoria: Leituras | 9 comentários »
4/Janeiro/2010

Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates

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O que escrevi em Junho de 2008 continua a ser a minha opinião, quase dois anos depois. O acordo ortográfico não me causa taquicardia literária. Mais tarde ou mais cedo, acabarei por adaptar-me à nova grafia e escrever exactamente como tenho escrito até hoje. Também não me sentirei menos português por causa disso.

Chateia-me ouvir portugueses dizer que estão contra o acordo ortográfico porque não querem escrever como os brasileiros. Eu ficava mais descansado se essas tomadas de posição fossem em defesa da língua portuguesa bem escrita, com ou sem acordo. E acho notável que se fale de uma revisão ortográfica como se esta implicasse uma mudança na estrutura do nosso idioma.

Sempre me ensinaram na escola que ortografia é uma coisa, gramática é outra. Talvez um professor de Português tenha a amabilidade de explicar ao pessoal qual delas é mais importante para a consistência da nossa língua, a ortografia ou a gramática.

Estejam descansados: mesmo depois desse detestável acordo ortográfico entrar em vigor à séria, uma portuguesa continuará a ter um cu e uma brasileira uma bunda.

Mas a propósito de não querer escrever como os brasileiros, experimentem dizer bunda e cu em voz alta e depois digam-me lá qual das palavras vos parece mais rechonchuda. Cu têm as mães de Bragança. E quem tem cu tem medo. Medo de mudar.

Vivemos demasiados anos sob uma ditadura que incentivava a ignorância. Fizeram-nos uma lavagem ao cérebro de tal maneira que continuamos a sentir o «orgulhosamente sós» do Salazar como a manifestação de um sentimento patriótico – o que essa expressão realmente revela é estupidez e uma mentalidade bota-de-elástico. Desejo que o meu país acompanhe a evolução dos tempos, não o quero ver refugiado numa redoma linguística à conta do orgulho. E digam-me, qual orgulho? O orgulho de ser um país prestador de serviços em vez de ser um país produtor?

Há outro pormenor que escapará a algumas pessoas: desde a Revolução de Abril que deixámos de ser donos da Razão e, por conseguinte, desculpem-me os detractores do acordo, é uma enorme pretensão da nossa parte afirmar que ocupamos o incontestável trono da língua portuguesa quando não somos a única nação a escrevê-la e falá-la. Soberba Universalidade! Se pensássemos sempre desta forma, ainda estaríamos todos a pedir dinheiro emprestado em Latim. Este não mudou, realmente, e se calhar é por isso que se diz que é uma língua morta.

Portanto a questão aqui é deixar de nos vermos como os reis da moralidade linguística e aceitar que a nossa maravilhosa língua está viva e é para partilhar, não para se deixar segregar neste pequeno rectângulo.

Por último, essa história do facto que passa a fato é a maior treta de todas. Em primeiro lugar, porque o «c» só cai quando é mudo – não é o nosso caso, pois dizemos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pessoal falar em «vestir factos» julga que foi este acordo ortográfico a introduzir na nossa língua as palavras homónimas, ou seja, palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significados diferentes.

Que vamos fazer então ao rio, que tanto pode ser verbo como nome comum? Vamos drená-lo? O rio atravessa a cidade, eu rio com facilidade. Não causa estranheza porque já estamos habituados, não é? E que vamos fazer nós ao ser, valha-nos Deus? Vocês são gajos porreiros, mas aquele ali não é um indivíduo são da cabeça. E a pobre rapariga que se chamar São? Já devia ter mudado de nome! E os nossos pobres santinhos? Isto é um escândalo!

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20/Dezembro/2009

Janelas para o Mundo [28]

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Não deixa de ser irónico que depois de 15 dias durante os quais 192 países estiveram reunidos para discutir os problemas do aquecimento global, a Europa – e também a região nordeste dos Estados Unidos – esteja agora a tiritar de frio.

Alemanha

O lago Hopfensee, na região da Baviera, Alemanha, gelou por completo [Foto: EPA/ Karl Josef Hildenbrand]

As situações mais graves estão a ocorrer na Polónia: quinze pessoas morreram de frio no sábado, quando as temperaturas desceram para 20 graus negativos. Ao todo, desde o início do Inverno, já morreram 47 polacos.

Na Holanda, França e Bélgica o mau estado do tempo está a condicionar os tráfegos aéreo e ferroviário. Três aeroportos foram encerrados na Bélgica.

Em Bruxelas, encontra-se também a funcionar desde sábado um plano de emergência para os sem-abrigo, com uma linha telefónica gratuita e equipas de rua, devido à queda de neve e temperaturas negativas. (Quem está a seguir por feed: o post tem continuação)

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4/Dezembro/2009

Beijinhos & Parabéns

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António Costa condecora os Xutos e Pontapés

Foto: Steven Governo/24horas

Ah, os contentores! Não havia marialva de discoteca que não abanasse o capacete assim que Tim, o vocalista, começava a cantar A carga pronta e metida nos contentores/Adeus aos meus amores que me vou/Para outro mundo/É uma escolha que se faz/O passado foi lá atrás. Lembram-se? Os putos de vinte e tal anos não viveram este período, mas a brigada dos trintões e quarentões sabe. E recorda.

Estávamos em Fevereiro de 1987. Já existiam portugueses, mas ainda não havia telemóveis. Nada de computadores, consolas da PlayStation ou Internet. Usávamos discos de vinil para ouvir música e as cassetes eram os nossos MP3. As mesas das esplanadas serviam de redes sociais, face to face, em vez de Facebook. Se quiséssemos jogar à bola, precisávamos muito mais do que um sofá, um televisor e um comando, mas umas pedras da calçada a fazer de baliza e qualquer estrada sem carros servia. Agora é raro encontrarmos estradas para a futebolada. Em certos aspectos, a nossa qualidade de vida era bastante superior.
E esta era a época em que os Xutos e Pontapés dominavam o rock made in Portugal.

Para os fãs da banda, os que a conheciam antes do êxito do tema Contentores e do álbum Circo de Feras, o passado tinha sido mesmo muito lá atrás, com dois discos importantes – 1978-1982, somatório dos quatro anos anteriores da banda, e Cerco, um mini-LP que a lenda diz ter sido pessimamente gravado – entre vários singles e colectâneas.

A Igreja também já os conhecia bem: três temas – Ave-maria, Mãe e Sémen – tinham sido proibidos de passar na Rádio Renascença por causa do conteúdo ofensivo das letras. Como diria o Jorge Palma, deixem-me rir. Lembro-me de ouvir religiosamente essas canções porque sempre tive o hábito de ver, em proibições católicas, recomendações de qualidade.

Se quisermos recuar ainda mais no tempo, veremos um grupo que começou por chamar-se Delirium Tremens, depois Beijinhos e Parabéns; quando se estreou ao vivo mais a sério, a 13 de Janeiro de 1979, na comemoração dos 25 anos do Rock and Roll na sala dos Alunos de Apolo, apresentou-se ao país como os Xutos e Pontapés Rock’n’Roll Band.

O tempo ficou para trás e é caótico e confuso. Os Xutos nasceram nas malhas do punk mas deixaram-se crescer, romperam-nas, conquistaram mais fãs. Foram envelhecendo à medida que a barriguinha crescia e gozam agora uma vida mais tranquila e avessa a polémicas.

Quando a canção Sem eira nem beira, do último disco, começou a ser adoptada no auge da guerra entre Professores e Governo como uma espécie de manifesto anti-Sócrates, Zé Pedro, o guitarrista, veio dizer aos jornalistas que a banda nunca quisera ser «líder de uma revolução política» nem apoiar «qualquer partido político».

Zé Pedro até «simpatiza» com Sócrates, explicou então, e a intenção da banda nunca tinha sido a de fazer «um ataque político directo». E assim, a canção-manifesto definhou antes de levantar voo. E ainda bem, porque ouvi-a duas ou três vezes e pareceu-me uma boa merda.

Hoje, 4 de Dezembro de 2009, o socialista António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e amigo pessoal de Sócrates, entregou à banda a Medalha de Mérito da Cidade Grau de Ouro. É uma escolha que se faz/O passado foi lá atrás. Beijinhos e parabéns.

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23/Novembro/2009

A origem do fado

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Sempre tive uma relação conflituosa com o fado principalmente porque sou português e não gosto. Amália tinha a voz de uma deusa, mas o meu fado são os blues.

A primeira vez que ouvi fado na televisão desliguei o som. Foi uma coisa instintiva. Também é assim com debates sobre futebol ou durante os discursos do Paulo Portas. Mas naquele dia fiquei a observar o fadista silencioso e impressionou-me a forma como abria as goelas e se deixava ficar de boca aberta e olhos fechados como se estivesse cheio de sono. Foi uma revelação.

As pessoas ainda discutem sobre as origens do fado enquanto expressão musical. Uns dizem que o fado vem dos árabes, outros que é importação das modinhas brasileiras.

O fado teve origem no encontro entre irmãos dos dois continentes: o português chegou ao Brasil com uma guitarra na mão e foi descobrir o brasileiro de boca aberta e cheio de sono, deitado ao Sol depois de uma noitada de samba e bunda.
– Que som é esse? – Quis saber o português quando viu o brasuca todo esticado no areal, bocejando.
– Como é…? – Bocejou ainda mais o brasileiro, mal abrindo os olhos.
– Como é, perguntas tu…? Ora! É mesmo assim como estás a fazer. Pois isso tem uma sonoridade tão peculiar, pá! Continua a fazer esse som, ó gajo, que eu acompanho com a minha guitarra.

Não liguem ao que aprenderam nas aulas de História. Não há segredo nem polémica. O fado nasceu da ressaca. O fado é o samba quando boceja.

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16/Novembro/2009

Uma nau portuguesa de 670 milhões de euros

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A confirmar-se, é uma grande descoberta.

Uma equipa de mergulhadores chefiada pelo brasileiro José Eduardo Galindo encontrou perto da costa do Rio de Janeiro restos de uma nau portuguesa do século XVIII. A carga que transportava foi avaliada em 670 milhões de euros. A notícia foi publicada ontem pelo jornal O Globo.

Como muitas descobertas, esta também aconteceu por acaso. José Galindo procurava uma hélice perdida por um rebocador no ano passado quando o seu olhar experiente notou restos de madeiras. Galindo é um mergulhador, mas o que ele procura debaixo de água é a História. Numa entrevista publicada a 27 de Dezembro de 1998 pelo Correio Braziliense, disse acreditar que os mares brasileiros escondem mais de «oito mil carcaças de caravelas, naus, brigues, bergantins, vapores, galeões, couraçados, fragatas e submarinos

(O artigo Cinco Séculos de Naufrágios, de Ana Magno e Wanderley Pozzembom, vale a leitura.)

Galindo pensa que os restos descobertos podem ter pertencido ao Rainha dos Anjos, que se afundou a 17 de Julho de 1722 diante da baía da Guanabara. O navio viajava da China para Lisboa e tinha feito escala no Rio de Janeiro carregado com 136 peças de porcelana chinesa da era do Imperador Kangxi (1654 ou 1662, consoante as fontes-1722), terceiro da dinastia Qing. Desta dinastia apenas um vaso sobreviveu: está no Museu Imperial da China.

O que leva o mergulhador brasileiro a pensar que estamos perante uma carga tão preciosa (e valiosa) é o facto de os chineses serem conhecidos «pelos cuidados com que embalavam a porcelana». Por isso, conclui, «é muito provável que encontremos peças inteiras».

Os vestígios foram enviados a laboratórios nos Estados Unidos para confirmar a sua origem, mas já existem várias empresas internacionais interessadas em patrocinar as investigações arqueológicas. As contas de Galindo são as seguintes: 196 mil euros para desenterrar parte da nau e mais de 1100 milhões de euros para a trazer à superfície.

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