18/Maio/2010

Crescei e multiplicai-vos (adaptado aos novos tempos)

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Crescei e multiplicai-vos

Deus disse «Crescei e multiplicai-vos», e fez bem. Mandou-nos desfrutar do sexo como se este fosse uma prenda divina. E foi! Obrigado, Senhor.

É verdade que Ele não disse «Crescei e tornai-vos grandes garanhões» – não podemos esperar que o Altíssimo seja rude nas palavras como tu e eu, pobres pecadores esbracejando nas profundezas da realidade. Não o disse daquela maneira, mas também não impôs qualquer restrição! E notem que não afirmou, categoricamente, «Só podeis crescer para multiplicar-vos».

O que eu prefiro pensar que Ele sugeriu, na sua infinita sapiência, foi «Crescei e, se possível, multiplicai-vos; se não der jeito, crescei à mesma». Mas já se sabe, teria sido contraproducente enviar mensagens mais complicadas a um tipo que acabara de perder uma costela. Deve ter sido uma experiência traumática mas Deus, em jeito de compensação, não permitiu ao homem engravidar. Obrigado, Senhor.

E tu Adão, que sacrificaste uma costela para nos livrar da dor de parto, os meus agradecimentos a ti também, pá, deixa-me dizer-te que és um ganda, ganda bacano. Vou deixar crescer a barba em tua honra e pago-te uma imperial se algum dia desceres do Paraíso.

O que Deus também quis dizer, embora usando uma retórica mais divina, foi «Crescei e desenmerdai-vos». E tinha razão, pois é aquilo que andamos todos a fazer por aqui.

Portanto, amigos e amigas, amigos e amigos, amigas e amigas, neste dia em que o presidente Cavaco Silva resmungou a promulgação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo neste país à beira-mar sentado, considerem o seguinte: mantenham a fé, se for caso disso, mas não percam a liberdade da vossa consciência e nunca abdiquem do direito de poderem ser felizes com quem quiserem.

Se Deus existir, simpatizará com gente assim, convicta, e até é possível que envie um pouco de Luz às almas mais sombrias que insistem em decretar – baseadas em preconceitos e convicções religiosas – como vocês devem viver as vossas vidas. E façam mesmo como Ele mandou, ou seja, desenmerdai-vos. Agora já é legal para todos.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Reedições | 31 comentários »
14/Maio/2010

Janelas para o Mundo [32]

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De um lado, o exército ao serviço do Governo que depôs um primeiro-ministro em 2006 mas que foi eleito democraticamente em eleições posteriores; do outro, manifestantes anti-governamentais barricados num bairro de Banguecoque e apoiantes do primeiro-ministro deposto.

Manifestações na Tailândia

Manifestações na Tailândia

Manifestações na Tailândia

Fotos: Sakchai Lalit/AP (foto de cima) e Wally Santana/AP (meio) e Vincent Yu/AP (baixo)

Os manifestantes recusam-se a abandonar as ruas; o Governo ameaça tirá-los de lá pela força. Os manifestantes estão armados; o Governo anunciou a intenção de cercá-los com 52 blindados.

Num único dia, a 10 de Abril, os confrontos provocaram 25 mortos e 800 feridos. Foi a primeira tentativa de desalojar os manifestantes.  Nos últimos dois dias, mais nove pessoas mortas e 112 feridas.

Os confrontos de hoje (sete mortos, 101 feridos) começaram logo ao início da manhã, quando o exército tentou avançar numa avenida ocupada pelos manifestantes. Dois jornalistas foram atingidos por balas quando tentavam fazer a cobertura dos acontecimentos: um fotógrafo do jornal tailandês Matichon e um operador de câmara da cadeia de televisão France 24.

Apesar dos mortos e feridos, este ainda não foi o início da operação para retirar à força os manifestantes barricados em Banguecoque há cerca de dois meses, foi apenas uma missão exploratória ou, segundo a versão oficial, «uma operação destinada a pressionar os manifestantes a regressar à mesa de negociações».

Manifestações na Tailândia

Manifestações na Tailândia

Fotos: Rungroj Yongrit/EPA (cima) e Wason Waintchakorn/AP (baixo)

A carnificina poderia ter sido de facto evitada na mesa de negociações, mas o plano para a saída da crise proposto pelo actual primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva, encontra-se em estado de coma político e dificilmente poderá recuperar.

Vejjajiva tinha proposto eleições antecipadas como contrapartida ao fim das manifestações. Os manifestantes exigiram, como condição para desocupar as ruas, a detenção e acusação formal do número dois do Governo, Suthep Thaugsuban, pois consideram-no pessoalmente responsável pela violência ocorrida a 10 de Abril (25 mortos, 800 feridos).

Em resposta às exigências dos manifestantes, o Governo anulou a antecipação das eleições.

Há dois dias, um general carismático que se juntara aos manifestantes antigovernamentais também foi atingido a tiro.

O militar, Khattiya Sawasdipol, 58 anos, muito popular entre os manifestantes e assumido líder das operações de segurança do movimento, levou um tiro na cabeça ao princípio da noite, quando dava uma entrevista a um grupo de jornalistas estrangeiros.

Uma enfermeira do hospital Hua Chiew disse então que o estado de Sawasdipol, ligado a um ventilador, era «muito grave». Ontem, o director do hospital afirmou que as hipóteses de sobrevivência eram «fracas».

Aquele que o Governo considera ser um dos principais adversários da reconciliação está, assim, fora de combate: Sawasdipol sempre se assumiu como um aliado indefectível do ex-primeiro ministro Thaksin Shinawatra e sempre recusou uma saída pacífica para a crise.

A crise na Tailândia, iniciada em meados de Março mas com origem  nos acontecimentos de há quatro anos, já provocou 31 mortos e 1000 feridos.

A indefinição política existe desde o golpe de Estado de 2006, que pôs fim à democracia parlamentar e proibiu quaisquer actividades políticas no país.

Os manifestantes antigovernamentais barricados num bairro em Banguecoque, perto do centro financeiro e comercial da capital, conhecidos como os «camisas vermelhas», são os apoiantes do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra.

Shinawatra foi deposto nesse golpe militar e exilou-se no Dubai, escapando assim à condenação na Tailândia a dois anos de prisão por fraudes financeiras. Ontem exortou o Governo a retirar o exército e a retomar negociações.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Instantes | Sem comentários »
16/Abril/2010

Ó tia ó tia

Francisco LouçãJosé Sócrates

Louçã: «De intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso» e Augusto Santos Silva aprovando a resposta do chefe

Francisco LouçãJosé Sócrates

Louçã: «Não baixe o nível no Parlamento» e Sócrates, desta vez, guardando a resposta para si próprio


Louçã pergunta, Sócrates irrita-se, Sócrates responde, Louçã irrita-se, Louçã interpela, Sócrates irrita-se, Sócrates responde… Esta tem sido a história habitual dos debates parlamentares entre o primeiro-ministro e o deputado do Bloco de Esquerda, mas ontem Louçã deitou um bocadinho de pimenta na conversa e Sócrates queimou a língua.

O deputado bloquista interpelava o primeiro-ministro sobre o caso das remunerações e prémios dos gestores públicos e as explicações que foram sendo dadas ao longo da manhã aos partidos.

Dirigiu-se então a Sócrates com um sorriso irónico: «De intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso». Manso? Sócrates tinha o microfone desligado, mas as câmaras de televisão focaram-no a dizer «Manso é a tua tia, pá!»

Augusto Santos Silva, o ministro da Defesa, e Jorge Lacão, dos Assuntos Parlamentares, riram-se da resposta do chefe. Sócrates abanava a cabeça, como se Louçã lhe tivesse provocado um desgosto.

Não se sabe que interpretação terá tido Sócrates do significado da palavra «manso».
A Priberam esclarece: Manso, adj. Que não é bravo. Benigno. De génio brando. Sossegado, tranquilo. Domesticado. Cultivado (vegetal). Sereno. Plácido. Não silvestre. Lento, brando. adv. Com mansidão. Com bons modos. Ao de leve. Em voz baixa.

Existe um provérbio popular que diz «De boi manso me guarde Deus, que do mau eu me guardarei». Se Sócrates achou que Louçã o comparava a um boi, agindo em conformidade, então já é segunda vez que o gado bovino tem importância política no Parlamento: em Julho de 2009, o então ministro Manuel Pinho tinha feito uma excelente imitação de um touro, apontando dois corninhos à bancada do PCP. Acabou demitido. Link

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 10 comentários »
19/Março/2010

Birras, zangas e repreensões no Parlamento

Jaime Gama repreendeu hoje, por duas vezes, o secretário de Estado da Educação João Trocado Mata, e ameaçou retirar-lhe a palavra.

O humilhante puxão de orelhas do presidente da Assembleia da República ao membro do Governo teve origem no que Gama considerou um desrespeito ao Parlamento: na intervenção, Trocado Mata não usou a forma regimental para se dirigir ao plenário, ou seja, em vez de começar com o “senhor presidente, senhores deputados” que a dignidade da ocasião exige, ignorou os solenes salamaleques e, agressivo, cortou a direito.

Quando o secretário de Estado terminou a sua intervenção, os deputados do PS aplaudiram-no com um entusiasmo demasiado ostensivo para ser dirigido apenas a uma só pessoa: os aplausos tinham também o objectivo de deixar Jaime Gama de orelhas quentes.

Foto: Paulo Vaz Henriques violando a privacidade dos deputados

O fotógrafo Paulo Vaz Henriques violando a privacidade dos deputados

Na origem deste momento de tensão regimental esteve outro episódio: José Lello, deputado do PS e presidente do conselho de Administração da Assembleia da República, protestou contra os fotógrafos que tentavam captar imagens dos ecrãs dos computadores dos deputados, queixando-se de que se tratava de uma violação de privacidade. E interpelou Jaime Gama sobre o assunto. Gama respondeu que no Parlamento os computadores não são pessoais, lembrou que as regras para o trabalho dos repórteres tinham sido aprovadas pelos deputados e que teriam de ser os próprios a mudá-las, se o entendessem. Enfim, Gama poderia ter respondido Temos pena!, a intenção era mais ou menos essa.

Os deputados do PS não gostaram e fecharam as tampas dos portáteis com força, provocando assim um estrondo de protesto. A Assembleia da República, que até discutia a violência nas escolas, fez lembrar, por breves momentos, um infantário, com birras, momentos de malcriadez e repreensões.

E assim, neste ambiente de tensão – o simpático eufemismo para birra que a malta dos jornais anda a usar – resolveu o secretário de Estado da Educação prolongar o protesto da bancada, desrespeitando na sua intervenção a tal forma regimental de tratamento.

Trocado Mata está longe de ser um ignorante da informática, dos computadores e da Internet, pelo que é possível que tenha levado a peito a afirmação de Gama segundo a qual um computador pessoal não é pessoal.

Formado em Sociologia no ISCTE, Trocado Mata foi Director do Observatório da Sociedade da Informação e do Conhecimento, entre 2003 e 2004; foi ele o coordenador do Plano Tecnológico da Educação do Governo, entre 2007 e 2009. E é co-autor de um artigo publicado em 2003, «A Utilização de Computador e da Internet pela População Portuguesa», para a publicação Sociologia, Problemas e Práticas. Se existe algum geek a sério no Governo, então deve ser ele.

Geek é uma expressão idiomática inglesa que define uma pessoa muito focada nas tecnologias, como a maior parte aqui da malta bem sabe.

O geek é o tipo de pessoa que pode levar mesmo muito, muito a peito quando lhe dizem que o seu computador pessoal não lhe pertence, é do domínio público, ainda que temporariamente – caramba, nem que fosse o presidente da República a dizer-lho, quanto mais um presidente da Assembleia da República!  Estão a ver, é como tentar convencê-lo a partilhar um precioso iPhone com alguém que não percebe nada daquela merda. Tipo Jaime Gama.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 11 comentários »
12/Março/2010

O professor suicida e o jogo das aparências

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Um professor de música – psicologicamente frágil, homem reservado e pouco dado a convívios – lançou-se da ponte 25 de Abril na manhã de 9 de Fevereiro. No computador, escreveu o seguinte: «Se o meu destino é sofrer dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim – e não tendo eu outras fontes de rendimento -, a única solução apaziguadora será o suicídio». Tinha 51 anos e era professor na Escola Básica 2.3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra.

Ao ler esta notícia, imagino-me como um oficial das SS. Agora estou a alinhar todos aqueles alunos violentos e provocadores e mal-educados que levaram à loucura um infeliz homem que nunca deveria ter sido professor, muito menos nestes tempos de desequilíbrios e impunidades.

Grito com ferocidade, para impor medo – o respeito já não me interessa. A minha pronúncia é notavelmente alemã, como a dos nazis no primeiro filme do Indiana Jones. O pelotão de execução é formado por tipos altos, feios, pálidos e carrancudos, vestidos de negro e com botas reluzentes onde o sangue não se pega, pois escorrega sempre. Apontam aos alunos malfeitores as espingardas automáticas. O pelotão espera o meu sinal. Eu levanto a mão e ordeno: Fogo!

São espingardas especiais, pois disparam mãos em vez de balas. Como estas mãos são mecânicas, os malfeitores são varridos à galheta com grande eficiência, sem dó nem piedade. Cabe-me a mim dar o tiro de misericórdia: uns carolos muito pesados na cabeça, como fazia o meu professor de Português, o mãos de martelo, durante as suas correcções personalizadas aos nossos testes.

Este é um delírio megalómano de raiva e poder absolutos, mas acredito que pela cabeça de muitas pessoas passará qualquer tipo de acção punitiva aos alunos: cá se fazem, cá se pagam, o espírito de vingança a prevalecer sobre o bom senso.

É uma confusão. Eu ainda sou do tempo em que um professor podia corrigir os testes dos alunos à carolada, pelo que dou por mim a perguntar como foi possível viajar-se de um extremo para o outro sem ninguém se aperceber da confusão em que alunos e professores se estavam a meter.

Não quero dizer com isto que dantes os alunos eram uns anjinhos e os professores uns demónios, e agora é o contrário. Tanto tempo depois do 25 de Abril, ainda não fomos capazes de encontrar um equilíbrio entre liberdade e autoridade – é como se uma estivesse destinada a anular a outra, e não me parece que tal seja possível desde que estejamos sempre prontos a reivindicar o direito de estarmos atentos e, já agora, rejeitar o extremismo – venha da esquerda ou da direita. De professores que podiam exercer o seu poder de forma quase impune, passámos para uma situação em que se tornaram vítimas da imatura crueldade dos alunos mais problemáticos, protegidos por pais que não sabem educar.

À medida que o tempo vai passando e episódios destes se acumulam, começo a compreender cada vez mais as pessoas que reagem com ímpetos justiceiros: se da parte do Estado e da própria escola nada se faz, tentamos preencher o vazio de autoridade com as nossas próprias mãos.

No caso deste professor, a abertura de um inquérito ao que se passou só foi decidida pela direcção da escola depois de a história ter rebentado nos jornais, ou seja, mais de um mês após o suicídio do professor e já nem contando os muitos meses durante os quais as suas queixas foram sendo ignoradas. Os inquéritos já só servem para salvar reputações e sobreviver ao embaraço público, portanto chegam demasiado tarde para resolver qualquer problema. Continua a praticar-se o jogo das aparências até que a nossa atenção seja desviada para um novo escândalo. Outra forma de delírio.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 26 comentários »
5/Março/2010

O Democrata e o cheiro da sarjeta

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Raras vezes as declarações de um político fizeram tanto sentido para mim. É, de longe, a mais sensata e ponderada análise ao que se está a passar em Portugal com magistrados, jornalistas e bufos.

Trata-se de uma intervenção de Garcia Pereira num programa da RTP sobre o estado da Justiça Portuguesa e a sua relação com a Comunicação Social. Uma lição de Democracia, em primeiro lugar, porque o dirigente do MRPP está muito longe de ser um apoiante deste Governo; e um alerta para todos aqueles que insistem em confundir a revolta com este jornalismo de sarjeta disfarçado de jornalismo de investigação e a defesa cega de um primeiro-ministro por razões exclusivamente partidárias.

Haja ao menos um político com tomates para dizer o que devemos ouvir. Que esse político seja, ao mesmo tempo, um incondicional adversário de Sócrates, só contribui para tornar o momento ainda mais importante. Link

Publicado por Marco Santos | Categoria: Vídeos | 9 comentários »
13/Fevereiro/2010

É a puta da censura, mano

Ultimamente durmo mais descansado: tenho a Manuela, o Moniz, o Crespo e o semanário Sol a proteger-me a liberdade e lembrar-me de que a censura está de regresso ao meu país.

A Manuela foi enxovalhada por Marinho Pinto no Jornal Nacional da TVI, com o aplauso da esmagadora maioria do Zé-povinho que frequenta os blogues e o YouTube, mas agora, tornada imaculada pela luta contra o sinistro ditador, já tem direito a directos na televisão através dos quais, de forma livre, denuncia a existência de censura em Portugal.

Em tempos que já lá vão, pessoas foram presas e silenciadas por razões políticas, mas continua a insistir-se em falar de censura. Em tempos que já lá vão, as notícias que não agradavam ao regime eram riscadas a lápis azul, mas agora até uma providência cautelar contra um jornal serve de pretexto para se continuar a falar de censura.

Semelhante insulto às memórias do 25 de Abril e de todos os que sofreram às mãos da verdadeira censura só podia ter saído da Direita portuguesa. A mesma que marcou uma manifestação pela liberdade para uma quinta-feira, dia em que a maioria do pessoal está a trabalhar e obviamente não pode ir.

Por aí se vê o que eles conhecem das dificuldades das pessoas fora do circuito intelectualóide dos blogues de referência e de como não querem saber da sua situação. Reuniram-se os betinhos a favor da liberdade de expressão, com a descontracção de quem está à porta do Lux à espera de entrar. Só lhes faltou o copinho na mão.

O maior exemplo de falta de liberdade que conheço é a nossa escravidão ao poder do dinheiro – essa é que me preocupa, pois é essa que sinto na pele todos os dias.

Não me deixo impressionar pela reportagem do Sol nem pelo pretenso serviço público que prestou ao país: sei bem o que li e o que indiciam essas escutas, não ando a dormir nem estou cego, mas também percebo como se retiram excertos de declarações ou conversas para reforçar o ponto de vista com que se escreve um determinado texto. Anjinhos, os jornalistas do Sol? Claro que são!

Eis um facto inegável: a defesa da liberdade de expressão justificou mais um acto de ilegalidade, feito em nome das tiragens, não em nome da liberdade e muito menos do país. E a única ditadura que reconheço é a da hipocrisia.

O que se está a verificar em Portugal é uma conspiração de Direita para derrubar um primeiro-ministro democraticamente eleito, levando-o a demitir-se. Gostava de ver as pessoas preocupadas também com estas manobras, e não apenas em amarrar o Sócrates ao poste e deitar-lhe fogo.

Quem quiser ver nesta conclusão uma defesa de Sócrates, força; quero lá saber. O que sei reconhecer, e de longe, é o cheiro a merda que se liberta das redacções, vinda do cu de alguns ilustres jornalistas, perdão, justiceiros da liberdade.

Estão preocupados com a liberdade e o nosso país? Também eu, tanto como vocês.

Por isso, não se limitem a investigar o Sócrates e façam o trabalho completo: tenham ao menos curiosidade em saber como todas estas notícias têm saído, quem anda a plantá-las nas redacções, a mando de quem e porquê. Se é em nome da verdade e da transparência, então a razia deve ser completa e não poupar ninguém, incluindo jornalistas.

E depois venham cá outra vez falar-me na independência dos jornais face ao poder político que eu vos direi: não confundam cenouras com investigação nem burros com jornalistas.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 70 comentários »
1/Fevereiro/2010

Uma tragédia de proporções crespológicas

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«O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.

Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil («um louco») a necessitar de («ir para o manicómio»). Fui descrito como «um profissional impreparado». Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.

Definiram-me como «um problema» que teria que ter «solução». Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.»

A tragédia

As linhas aqui em cima são parte de uma crónica de Mário Crespo chamada O Fim da Linha.

Mário Crespo confirmou, fonte fidedigna, mas o Jornal de Notícias decidiu não publicar a crónica. Até que alguém me prove o contrário é uma decisão editorial face ao delírio, mas isto foi o suficiente para que estalasse a revolta. Foi censura, estão a silenciar o Crespo, diziam, ao mesmo tempo que a sua censurada crónica fazia o pleno nos blogues, redes sociais e nos sites dos outros jornais. Basta um clique para furar o bloqueio ao nosso paladino.

Quem já leu a crónica do Crespo que ponha um dedo no ar. Agora molhe o dedinho na boca, coloque-o no ar outra vez e sinta os ventos da censura.

É um verdadeiro ciclone de proporções crespológicas.

Como no Twitter já se chegou a sugerir convocar uma manifestação para defender a liberdade de imprensa, concluo que a capacidade crítica destes defensores da liberdade de imprensa consiste em aceitar o que o mártir Crespo afirma, não questionando absolutamente nada. Por isso, para não dizerem que sou do contra ou sou pago pelo Sócrates, aqui me junto à trupe dos justiceiros e digo Ave, Crespo, em tuas isentas e bem educadas mãos deposito o futuro da minha liberdade e da minha capacidade de julgamento. E se alguma vez o Sócrates se passar e te chamar louco porque escreveste uma crónica no Jornal de Notícias chamando-o de palhaço, conta comigo para defender o teu direito ao insulto gratuito.

Continua a fazer-nos acreditar que as conspirações para silenciar jornalistas são feitas em mesas de restaurante e em voz alta, para a fonte ouvir bem e denunciar melhor; que em dia de Orçamento de Estado o mais importante foi discutir-te; e continua a mandar crónicas para um site do PSD, que é assim que os jornalistas verdadeiramente independentes fazem.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 43 comentários »
19/Janeiro/2010

Intoxicação informativa

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Tenho a televisão ligada mesmo atrás de mim e já estou farto. Oscila entre spots promocionais a uma telenovela chamada Perfeito Coração e reportagens sobre a situação no Haiti.

Começo a detectar nestas reportagens padrões de dramatização que lembram precisamente uma telenovela: contam-se histórias de «sangue, suor e lágrimas», o que nas presentes circunstâncias devem ser tão comuns de encontrar em Port-au-Prince como o lixo e o pó acumulados nas ruas. Começo a sentir os efeitos da intoxicação informativa, como é normal.

Ao jornalismo de «sangue, suor e lágrimas» não se pede que tente compreender por que razão o Haiti estava tão vulnerável e as pessoas tão pobres. Um terramoto é uma explicação sedutoramente simples: causa e efeito estiveram frente-a-frente, como num duelo entre o cowboy bom e o cowboy mau dos filmes do Sergio Leone.

Sobre o que se passa no país, dão-me agora muito mais do que eu quero ouvir; daqui a alguns dias, semanas, quando as rodas do mundo girarem à velocidade habitual, dar-me-ão menos do que desejarei ouvir.

E agora, a parte mais chata

O padrão adoptado pelo fluxo da informação é sempre o mesmo: a notícia, chocante; as primeiras estimativas dos mortos; as imagens da devastação, se possível do próprio terramoto; televisões, YouTube, Twitter, Facebook; seguem-se as primeiras histórias dramáticas, os testemunhos, a contagem sôfrega dos mortos, porque na lógica impessoal do jornalismo quanto maior for o número de vítimas, melhor; os pedidos de donativos, as «reacções de pesar da comunidade internacional», conferências de imprensa, mais histórias dramáticas, mais contagens de mortos e imagens de destruição, separadores promocionais do evento com músicas «tristes», «amálgamas de ferro retorcido» em múltiplas variações na forma e nos materiais – o fluxo só se esgotará quando todos os mortos estiverem contados, estivermos fartos e cansados de um drama tão intenso, e os haitianos secarem as lágrimas para pensar como reconstruir a vida, as casas, a cidade, o país.

A reconstrução já não fará parte da história deste filme – fará as vezes do genérico final, quando a maior parte das pessoas já se tiver levantado das cadeiras, mas sabe-se mais ou menos bem como vai acontecer e durante quanto tempo.

O presidente da vizinha República Dominicana, Leonel Fernandez, já disse que serão necessários sete mil milhões de euros e um período de cinco anos para reconstruir o Haiti. Esta não é uma declaração destinada a avaliar prejuízos, é um convite ao investimento.

De onde virá esse dinheiro? Dos donativos? Da altruísta generosidade dos Estados? Claro que não. Será formado um comité especial do qual farão parte a Comunidade das Caraíbas (CARICOM), representantes das Nações Unidas, da Organização dos Estados Americanos e da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Brasil, México e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

O auxílio internacional não será gratuito, embora presumivelmente as taxas de juro possam ser mais suaves: os sete mil milhões de euros serão emprestados e as oportunidades para as indústrias de reconstrução dos países mais ricos não deixarão de ser aproveitadas.

Façam um pequeno exercício: assim que a poeira das ruas e do sofrimento assentar e não existirem mais histórias dramáticas de vítimas do terramoto para contar diariamente nos telejornais, tentem saber quais as empresas estrangeiras encarregues de reconstruir o país, quantos haitianos dependerão dos empregos que forem criados e, por último, se a capacidade de produção do país aumentou (afinal é uma reconstrução) ou, pelo contrário, aumentou apenas a sua capacidade para prestar serviços a outros.

Veremos até que ponto o mundo continuará a acompanhar o Haiti na sua previsível e igualmente dramática luta pela independência política e económica.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 16 comentários »