23/Julho/2010

Any Cover You Like

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Covers de Pink Floyd

Os que acompanham este blogue já sabem que esta é a prometida segunda parte da mixtape de covers dos Pink Floyd. Os que aqui chegaram agora podem começar por este post. Sem mais considerações, algumas notas sobre esta mix.

Depois de o projecto ter sido recusado por várias editoras, Tim Elsenburg, guitarrista e principal compositor da banda inglesa Sweet Billy Pilgrim, comprou um portátil MAC, um Power Book, usou o Pro Tools – software profissional de edição e produção áudio – um «excelente microfone» e o ambiente acústico de uma simples barraca de jardim (fonte: Wikipédia) para gravar os primeiros temas.

É esta banda que inicia a segunda parte desta mix de covers dos Pink Floyd, com uma das versões mais bizarras da faixa que abre, de forma «pesada», o disco The Wall. In The Flesh é cantado com um enorme desprendimento emocional e uma escolha de instrumentos completamente inusitada – aliás, em muitos dos covers às faixas desse disco essa distanciação ocorre: sendo Roger Waters o supremo intérprete dos seus dramas nas versões originais, fico com a impressão de que muitos músicos optam por uma distância prudente em relação ao estilo mais histriónico de Waters.

Isso nota-se também na faixa seguinte, o hino Another Brick In The Wall (Part 2), desta vez recriado pelos Slaraffenland – uma banda de pop/rock experimental da Dinamarca: o The Wall é pessoal, muito pessoal; tal como a designação Pink Floyd resultou da junção de dois nomes – os bluesman Pink Anderson e Floyd Council –, também o personagem Pink do disco e do filme resulta da justaposição de duas histórias e duas pessoas: Waters e os seus dramas de infância e a progressiva deterioração mental de Syd Barrett. Waters usou os seus próprios traumas para contar e explicar o isolamento do fundador da banda.

Na terceira cover desta mix, outra vez o mesmo desprendimento dramático: trata-se de The Trial, o momento mais operático do disco, cantado pela voz bonita e bem-educada de Simon Bookish. Bookish vem da música clássica, é esta a sua escola, mas ao ouvi-lo cantar lembro-me (muito vagamente, claro) dos tempos remotos em que devorava óperas-rock do Andrew Lloyd Webber. Mas esta é uma excelente cover, porque gosto da voz dele e porque os violinos parecem ter sido tocados pelo espírito de Philip Glass.

A faixa seguinte, The Great Gig in the Sky, tinha sido originalmente pensada para fechar a mix – infelizmente, não encontrei nenhuma cover à altura. Então entrou esta versão sinfónica da London Philharmonic Orchestra, bem bonita, por sinal.

Será Roger Waters tão visceral assim, a ponto de transmitir a sensação de que as melodias se tornam mais doces e suaves quando interpretadas por outros? Vejam, na quinta faixa, a cover de Goodbye Blue Sky, dos Snowbird, uma banda inglesa muito pouco conhecida que disponibiliza alguns temas para descarregar na sua página oficial. Serão mesmo bombardeiros que sobrevoam céus cobertos de sangue ou pequenos e encantadores pássaros de neve?

A faixa seguinte é o regresso à normalidade: uma versão muito porreira de Corporate Clegg, escrita por Roger Waters para o segundo disco da banda, A Saucerful of Secrets. Quem a interpreta é Morgan Samarin e Hull LLP, sobre quem não sei absolutamente nada.

À sétima faixa, estamos outra vez em modo WTF. É mais uma versão de Another Brick In the Wall (Part 2), mas em estilo rap. Eu não tenho nada contra o rap como fenómeno cultural – os meus ouvidos, já traumatizados pelo rap postiço e exibicionista das estrelas da MTV, simplesmente preferem outras músicas. Neste caso, o que me cativou foi a recriação da letra de Big Lee, um importante rapper da cena nova-iorquina da década de 90 e que acabou por ser assassinado a tiro em 1999, pouco antes de lançar o segundo disco.

Conhecem a versão original Young Lust, certo? Esta cover de John Law é feita em modo pop-rock ressaca. O que é extraordinário é que John Law é um pianista de jazz com formação clássica, esta é uma versão totalmente inesperada que o leva a seguir caminhos muito diferentes do que é habitual. Oiçam.

A versão de Time tocada com a guitarra a fazer ta-na-na, ta-na-na, como se fosse uma música dos Fischer-Z? Não, esperem: agora já parece reggae. E aquela guitarra não faz lembrar o estilo ska dos velhinhos Madness? E a tipa que canta como se não tivesse pressa nenhuma? Desisto, oiçam vocês. É interpretada por Kelsey Wood (quem? Pois, eu também não conheço) e é o momento verdadeiramente WTF desta mixtape.

Os Billion Stars são uma banda americana da Califórnia e fazem aqui uma bela cover de Lucifer Sam, composta pelo primeiro génio dos Pink Floyd, Syd Barrett. Brook Claman (quem? Não sei) também recria uma boa versão de Let There Be More Light. O mesmo para a versão de Jugband Blues, outra de Syd Barrett, tocada pelos Eden, uma banda belga.

Crippled Black Phoenix é uma banda inglesa de post-rock composta por elementos de outras bandas (Iron Monkey, Gonga, Mogwai e Electric Wizard, entre outras). A versão de Run Like Hell não foge muito ao estilo da original, mas ouve-se bem. Segue-se uma versão de See Emily Play, o segundo single lançado pelos Pink Floyd da era Barrett, interpretada por James Combs. Combs é um músico de Los Angeles conhecido sobretudo por ter formado com a irmã April (vocalista) uma banda de art-rock chamada Arson Garden.

Segundo a Wikipédia, os Sky Cries Mary são um grupo de trance rock oriundo de Seattle. A sua cover de Wots… Uh the Deal é das melhores que já ouvi. O mesmo sucede com Hey You, a faixa seguinte, de S.A.M., que não conheço. Procurei na net e só encontrei referências a uma estação de rádio.

As últimas quatro faixas desta mix são todas do mesmo disco, um tributo aos Pink Floyd editado em 2005 e praticamente despercebido. O álbum foi projectado pelo ex-Yes Billy Sherwood e reuniu uma série notável de músicos, incluindo Dweezil Zappa (sim, é o filho de Frank Zappa), Aynsley Dunbar, Tony Levin (dos King Crimson) e Vinnie Colaiuta, entre outros.


Any Cover You Like

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20/Julho/2010

Careful With That Cover, Eugene

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Careful!

Esta é a primeira parte (ou o Lado A, se preferirem) de uma mixtape toda ela com covers de músicas dos Pink Floyd. Embora faça parte das emissões da Rádio Bitaites (nas tags é a MixTape 26), resolvi fazer desta um post normal.

Não incluí covers mais óbvias como as versões dub dos Easy Star All Stars ou a desbunda electrónica dos The Flaming Lips, preferi nomes e versões menos conhecidas. Importante também foi escolher interpretações que provocassem nos fãs dos Pink Floyd o efeito WTF (internetês da expressão inglesa que transmite espanto e incredulidade, What The Fuck). A segunda parte sairá daqui a uns dias.

Seguem-se algumas notas sobre os músicos desta mixtape.

Os Rat Hat Blue (a designação da banda foi retirada de uma canção dos Deep Purple do álbum Who Do We Think We Are, de 1973) eram uma banda de Los Angeles. O grupo foi contratado pela Atlantic Records em 1999. Um processo de reestruturação que afectou então a indústria discográfica levou a Atlantic a deixar cair a banda – e, com ela, o seu disco de estreia, Out With My Friends, já finalizado. O álbum pode ser livremente descarregado a partir desta página, de onde esta informação foi retirada. A sua contribuição para esta mix é feita por uma versão infame do The Wall, condensado em seis minutos de colagens: o zapping aplicado à música.

Harvette é outra banda de Los Angeles, composta pelo vocalista, guitarrista e compositor Danny Allen, o baixista Dave Chapple e o percussionista Mich Kink, também conhecido por ser um dos designers responsáveis pelas cores da série de animação Family Guy. A banda interpreta uma das pérolas da era Syd Barrett, Bike.

Sally Semrad é uma cantora do Texas – «um diamante», como escreveu Duane Leyva na crítica ao seu álbum de estreia. A sua voz quente, doce, quase maternal, interpreta Wish You Were, escrito em memória de Syd Barrett, como se estivesse ali só para nos dar colinho.

Mike Keneally nasceu para o mundo da música quando integrou a banda que Frank Zappa formou para a digressão de 1988 – a última. Keneally é, por direito próprio, um dos melhores guitarristas da actualidade e um dos mais interessantes músicos que já ouvi. Qualquer álbum que gravou é de audição obrigatória. A prova de como é um excelente guitarrista? Oiçam esta versão de Astronomy Domine, tocada quase 41 anos depois de Frank Zappa e os Pink Floyd se terem juntado em palco no Festival de Amougies, na Bélgica.

Segundo a Wikipédia, Ulver (lobos, em norueguês) é uma banda rock (norueguesa…) que mistura folk metal e black metal com ambient music e avant-garde e foi criada em 1993. Nesta versão de Another Brick In The Wall (Pt.1), nota-se mais o lado ambiental e electrónico do que qualquer outro género. Esta cover também preenche um dos requisitos para esta mix, provocar nos fãs dos Floyd o efeito WTF.

A versão que The Gentle Good (do multi-instrumentista galês Gareth Bonello) fez da faixa One of My Turns é também susceptível de provocar o efeito WTF entre os fãs de Pink Floyd. Gareth Bonello pegou no original (do disco The Wall), transformou-o e incorporou-o na sua própria linguagem musical, ignorando as guinadas psicóticas de Waters.

Da Wikipédia: Nik Turner, nascido a 28 de Agosto de 1940, em Oxford, é um músico britânico, mais conhecido como membro fundador dos Hawkwind, um grupo pioneiro do chamado space rock. Turner toca saxofone, flauta, canta e é compositor. Na banda, era reconhecido pelas suas actuações em estilo free jazz experimental e pela presença extravagante em palco, surgindo com frequência totalmente maquilhado, vestido roupas inspiradas no Antigo Egipto. É Turner o responsável pela cover de Careful With That Ax, Eugene.

Numira é uma banda de rock alternativo de Los Angeles liderada por John Stack, um músico bastante ecléctico e que por várias vezes já tocou ao vivo canções dos Pink Floyd. Esta é a sua versão de Sheep, do álbum Animals.

Os Yortoise são outra banda de rock alternativo de Los Angeles. A sua versão de Money provocará certamente o efeito WTF que pretendo. A cover que se segue de Have a Cigar, dos Ira, também deverá provocar o mesmo efeito. Logo dirão de sua justiça, não é?

Tom Freund é um cantor e compositor norte-americano mais conhecido pelas suas colaborações com Ben Harper, Graham Parker, Mandy Moore e Josh Kelley, entre outros, do que propriamente pela sua carreira a solo. A sua versão de Fearless é pouco excitante, mas muito, muito certinha e agradável de ouvir. Freund dispensou as claques de futebol da versão original.

Dave Chappel é o companheiro de aventuras musicais de Danny Allen e membro do grupo Harvette, já mencionado por causa da cover de Bike. Toca aqui uma versão de San Tropez, agradável mas não especialmente memorável. Quanto ao que Tim Mayer fez da canção Goodbye Blue Sky… modo WTF, outra vez.

Pierre de Beauport (dos Becca & Pierre, que tocam Childhood’s End) é conhecido por ser o técnico pessoal das guitarras de Keith Richards, dos Rolling Stones, e co-autor de uma canção, Thief in the Night, que apareceu no álbum Bridges to Babylon, lançado em 1997.

Courtney Fairchild é uma cantora do Texas com uma bela voz – gosto tanto da voz de Fairchild que até desculpo esta versão de sabor folk-country de Nobody Home.

Da Wikipédia: os Engineers são uma banda inglesa formada em 2003. Os seus trabalhos são frequentemente conotados com o estilo psicadélico e o post-rock, mas o grupo já afirmou que as suas influências são muito mais abrangentes, de The Cocteau Twins a Curtis Mayfield. Tocam Hey You.

Peter Broderick é um músico e compositor norte-americano, membro de uma banda indie dinamarquesa chamada Efterklang. Broderick é essencialmente um músico de estúdio recrutado para projectos de outros, mas já lançou vários discos em nome próprio. Gostei muito da sua versão de Is There Anybody Out There.

Os Quetzal foram formados por Quetzal Flores. A banda toca um misto de ritmos mexicanos e afro-cubanos, jazz, blues e rock, e tem uma excelente vocalista, Martha Gonzalez. A sua versão de Mother está bastante boa.

A última cover desta emissão é feita pelos Soundcarriers, que transformaram a catarse final de The Wall (Outside the Wall) numa canção que poderia ter sido escolhida por Tarantino ou mesmo Steven Soderbergh para o filme Ocean’s Eleven. O resultado é tão bizarro que decidi concluir esta primeira parte assim.


Careful With That Cover, Eugene

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19/Julho/2010

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (III)

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16/Maio/2010

O quadrado da hipotenusa

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24horas

Esta capa do 24horas fez-me lembrar o filme The Wall: estão a ver aquela cena em que o professor, a meio de Money, começa a dizer «num triângulo rectângulo o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos»?

O título fez-me imaginar uma cena semelhante, com um professor de Jornalismo a dizer «sobrinha de Feio é amiga da assassina de Setúbal», e os alunos repetindo, em voz monocórdica, «sobrinha de Feio é amiga da assassina de Setúbal». Se sou apanhado a escrever este post ainda levo uma reguada.

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25/Fevereiro/2010

Pink Floyd e uma experiência mística

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A primeira vez que ouvi Pink Floyd tinha uns doze anos. Andava na Escola Salesiana – uma escola de padres – e cantarolava mentalmente o Another Brick in the Wall (Part II), sobretudo durante as aulas de Religião e Moral, as mais tirânicas e repressivas que vivi.

O professor bem se esforçava por formar uma geração de crentes tementes a Deus, mas só conseguiu com que o temêssemos a ele – Deus podia ser omnipresente e Todo-Poderoso e essas coisas impressionantes, mas a sua potencial ameaça não era comparável ao poder moral da galheta terrena.

Comparar o tamanho de Deus e o tamanho daquelas manápulas até podia ser tão absurdo como comparar o tamanho de Júpiter com o de um calhau da calçada, mas nenhum de nós tinha dúvidas sobre qual dos dois objectos teria mais probabilidades de nos fazer um galo na cabeça.

O professor era mais pequeno e muito menos omnipotente que Deus, mas estava mais perto de nós e era muito mais interventivo. Um moralista com as costas quentes costuma desenvolver muita musculatura nos ombros e nos braços.

Teríamos uma vida mais descansada se tivéssemos sido entregues exclusivamente aos cuidados divinos: Deus ao menos não se metia nos nossos assuntos nem se chateava com nada.

Deus fazia lembrar o pai do Formiga. O Formiga era um tipo com muito jeito para jogar futebol. Tinha tanta habilidade que o campo parecia um carreiro de formigas quando jogava: ele à frente, gigante, a carregar a bola de Berlim; todos os outros atrás a ver se conseguiam umas sobras.

Talvez o pai do Formiga tivesse a esperança de que o filho se tornasse milionário: deixava-o sempre à vontade mesmo quando o puto faltava às aulas para jogar à bola ou se embrenhava no mato às escondidas dos padres. O Formiga nunca chegou a tornar-se uma vedeta da bola, pelo que espero que o pai não o tenha castigado por ter atraiçoado a fé de que um dia aquele miúdo o tornaria milionário.

Havia imensas missas a que éramos obrigados a assistir. Não consigo descrevê-las de memória, mas lembro-me que na nossa escala do aborrecimento supremo, do mito da criação E, ao sétimo dia, Deus criou o bocejo, enfim, numa escala de 1 a dez, as missas nos Salesianos chegavam ao 11 nos primeiros minutos.

A única experiência dotada de uma certa qualidade mística que podíamos experimentar era brincando com coisas proibidas. Como era uma escola de rapazes e não havia raparigas, restava-nos o mato.

A escola tinha um grande terreno de mato muito cerrado. Ficava ao pé do campo de futebol e ninguém sabia onde terminava, excepto que estava vedado aos alunos.

Dizia-se que naquela mata vagueava um padre doido e grandalhão, cuja única ocupação na vida era dar caça aos desgraçados alunos que se atrevessem a invadir-lhe os terrenos. Era um psicopata sancionado por Deus, como muitos outros. Dizia-se que a equipa cuja baliza ficasse do lado da mata tinha mais hipóteses de não sofrer golos, pois os avançados adversários tinham sempre receio de chutar com demasiada força e perder a bola para sempre.

Qualquer manifestação de autoridade eclesiástica vinha com um carimbo de Deus a dizer Aprovado. Não havia discussão possível, pelo que só nos restava a fuga silenciosa.

Também se dizia que no mato havia lobisomens, vampiros, bodes, serpentes importadas do Jardim do Éden e uma porrada de seres mitológicos desconhecidos mas sempre fatais. Como eu fiz parte do grupo de aventureiros que se pirava às missas e se escondia na mata proibida, posso garantir que o que lá se fazia era muito mais perigoso e subversivo: fumavam-se cigarros que o Formiga gamava ao pai, contavam-se histórias, especulava-se sobre o que seria o sexo, falava-se de miúdas que ainda não tínhamos conhecido e, adivinharam, escutávamos Pink Floyd num gravador a pilhas meio arrebentado.

Roger Waters escreveu a letra de Another Brick in the Wall a pensar no sistema de educação britânico da sua infância, repressivo, quadrado e castrador de mentes criativas; para nós, cantar estes versos We don’t need no education, We dont need no thought control, No dark sarcasm in the classroom, Teachers leave them kids alone, mesmo a medo, equivalia a viver uma experiência mística que nem o pivete a incenso e suor de padre conseguia dissipar.

Uma ilusão desesperada era transformada em pequenos momentos durante os quais os sonhos se tornavam realidade: na mata respirávamos ar puro, o ar puro trazia uma brisa de liberdade, a liberdade vinha com aquela música dos Pink Floyd. Nesse ano fui expulso dos Salesianos – «convidado a sair», foi o piedoso eufemismo usado para informar a minha família.

A partir daí, fiquei livre para explorar matas desconhecidas ao som dos Pink Floyd.

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29/Outubro/2009

Orgulhómetro

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O meu orgulhómetro subiu em flecha: a minha filha, 12 anos, deixou temporariamente de ouvir Queen de manhã à noite e começa agora a descobrir a discografia dos Pink Floyd, que eu ouvia (de manhã à noite) quando tinha uns 16 anos. Canção preferida: Comfortably Numb. Ela também já ouve Radiohead, em pequenas doses.

Hoje Pink Floyd e Radiohead, amanhã Frank Zappa, um dia chegará o jazz. Tudo é possível quando se começa tão bem!

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20/Agosto/2009

A propósito de Kind of Blue

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Este texto foi originalmente publicado no blogue Ouve-se, do Filipe Marques, visita obrigatória para quem gosta de música (não necessariamente jazz) e está farto da verborreia crítica da maioria dos especialistas.

O Filipe convidou-me a escrever sobre o Kind of Blue, de Miles Davis, fazendo coincidir a publicação do post com a data em que se comemorou 50 anos desde a saída do disco: 17 de Agosto. Aceitei o convite com muito gosto, embora o foco do post não tenha sido apenas esse memorável disco. Agora que já foi lido pelos leitores habituais do Filipe, trago-o para aqui.


Coltrane, Cannonball Adderley, Miles e Bill Evans

Durante muitos anos disse aos meus amigos que o jazz não prestava. Ouvia Pink Floyd, Zappa, Laurie Anderson, Tom Waits, Philip Glass e música clássica (Mahler, Mozart e Wagner, mas só as partes orquestrais, não tinha pachorra para as óperas).

Quanto ao jazz, via-o como um bando de saxofonistas constipados a espirrar notas para os meus ouvidos e encarava esses amigos como sofredores de uma bizarra forma de contágio musical.

Os mais chegados já conheciam a casmurrice e deixaram-me sossegadinho entre os muros do Roger Waters.

Casmurrice porque a primeira vez que ouvi Frank Zappa – um disco muito jazzístico de 1969, Hot Rats – dei por mim a desejar desprender-me do sofá e sair à rua só para apanhar ar livre e sentir-me liberto pelo silêncio. Silêncio? Até os berros histéricos da minha vizinha histérica a chamar os filhos histéricos para um jantar provavelmente histérico, pareciam-me mais doces e musicais do que qualquer composição de Zappa.

Tinha 12 anos, estão a ver, as minhas tripes musicais consistiam em pôr a tocar um vinil dos Queen ao vivo, cobrir o candeeiro do quarto com um pano para dar ambiente de concerto, pegar numa raquete de ténis, abanar o capacete como se tivesse um trampolim invisível diante da testa e impressionar uma plateia de raparigas imaginárias fazendo de conta que era o Brian May a solar no crepúsculo. A propósito, as raquetes foram inventadas para jogar ténis, mas também dão excelentes guitarras.

Só não pude deixar crescer a guedelha porque, para a minha mãe, já era um enorme sacrifício aturar as guitarradas do Brian May, quanto mais tê-lo a jantar todos os dias em casa com o cabelo caindo sobre o prato como as orelhas de um cocker spaniel.

Isto tudo para dizer que no longo processo de reeducação das nossas orelhas é difícil saltar etapas. Conhecemos músicos demasiado cedo e desprezamo-los; conhecemo-los demasiado tarde e então já não nos impressionamos. No primeiro caso, temos a vantagem de usufruir de mais umas quantas oportunidades para rever o que rejeitámos. No segundo, temos a vantagem de não sermos enganados facilmente pela suposta originalidade de certas bandas – estou a pensar nos sobrevalorizados Coldplay, chatos, cansativos e monótonos como o metropolitano de Lisboa numa tarde de Verão.

Seja como for, é preciso passar por experiências intermédias que acabam por nos conduzir às músicas certas para nós, experiências que por vezes nada têm a ver com música. Por exemplo, o meu amor pelo disco The Wall não seria tão visceralmente profundo se não adorasse já o cinema, pois o The Wall é uma banda sonora para um filme que esteve dentro da cabeça do Roger Waters desde que perdeu o pai e, mais tarde, quando Syd Barrett flipou. Não teria gostado tanto de Bela Bartók e de outros compositores clássicos contemporâneos se não tivesse venerado o Shining, do mestre Stanley Kubrick, pois foi nesse filme que os ouvi pela primeira vez.

Tão cedo não teria conhecido Laurie Anderson e Philip Glass – numa bela noite de Verão, assisti a um espectáculo de dança contemporânea em Cascais no qual as suas músicas foram usadas. Só descansei quando arranjei os discos.

Não teria adorado Radiohead se a canção Paranoid Android, a primeira que ouvi da banda, não me tivesse feito reviver a mesma emoção que ainda sinto com o tema Comfortably Numb dos Pink Floyd. Não me perguntem porquê: sei que nada têm a ver uma com a outra. É uma associação emocional, genuína na sua tremenda falta de lógica.

E não teria decidido redescobrir o Zappa rejeitado aos 12 se, seis anos depois, diante da MTV, aborrecido com tanta trampa, me tivesse escapado o precioso momento em que um VJ caridoso (e cheio de visão) decidiu passar o excerto de um concerto de Zappa.

Subitamente encantado com aqueles arranjos doidos e o humor e excelência dos músicos, quase dei um salto do sofá: “Porra, mas quem é este Zappa, quem são estes músicos, são espectaculares, tenho de conhecer mais”.

Existem discos que rompem esta lógica das etapas e circunstâncias fortuitas, podem ser ouvidos por qualquer um, independentemente do género musical preferido. Não posso adivinhar o que teria acontecido se para me apresentar ao jazz tivessem escolhido o disco Kind of Blue, de Miles Davis, mas posso garantir-vos que se têm mais de 12 anos e curiosidade em perceber por que razão tanta gente se deixa fascinar pelo jazz, este disco contém todas as respostas.

Quantas vezes ouviram um disco de jazz e não conseguiram identificar as qualidades que os fãs deste género de música tanto lhe atribuíam? Kind of Blue é o disco do clique. Se não gostarem, esqueçam o jazz puro e duro porque dificilmente encontrarão outro disco capaz de fazer uma apresentação tão bela, melódica e espontânea.

Kind of Blue marcou o início da minha pancada pelo jazz. Foi a partir deste disco que descobri os outros – primeiro, mais obras do próprio Miles; depois, os discos a solo dos elementos da banda, principalmente John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Adderley; finalmente, tudo o que consegui comprar ou sacar. Mas por mais que a partir daqui tenha conhecido músicos extraordinários, a minha história do jazz começa e termina com Kind of Blue. Dele parti, a ele regresso sempre.

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25/Março/2009

Uma Foto e uma Música [Para ti, meu palerma]

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Thawing, de Long Jim

Foto: Long Jim (Thawing) | Música: Pink Floyd (If)

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27/Fevereiro/2009

Mix Tape (IV)

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Não vos aconselho a ouvir esta mix tape. A escolha das músicas, sobretudo ao princípio, é um bocadinho bizarra – eu cá adoro, claro!

Os amigos e familiares são muito importantes para educar os nossos gostos musicais, mas sempre acreditei – pelo menos no meu caso é assim – que os grandes educadores são os músicos que ouvimos. Vejam os Radiohead e as influências que se notam nos seus discos: Jeff Buckley, Charles Mingus, Pink Floyd, só para mencionar os mais evidentes para mim. Há muito mais, com certeza. Os grandes músicos bebem sempre de muitas fontes.

Os meus grandes educadores musicais foram os Floyd, sobretudo Roger Waters; depois, com muitíssima amplitude, como já estão fartos de saber, obrigado pela paciência, Frank Zappa.

Dado que Frank Zappa é capaz de misturar vários géneros musicais num único tema, foi graças sobretudo a ele que me interessei por jazz e música clássica mais contemporânea.

Gravar uma sequência de temas que passam de ritmos africanos para a opereta de Gershwin até ao rock histriónico dos X-Legged Sally é a coisa mais natural do mundo para um zappanóico como eu – outras pessoas poderão achar completamente idiota. Seja como for…


Nota: estas mix tapes deixaram de estar disponíveis e podem ser escutadas em streaming na Rádio Bitaites)

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 6 comentários »