Any Cover You Like
Os que acompanham este blogue já sabem que esta é a prometida segunda parte da mixtape de covers dos Pink Floyd. Os que aqui chegaram agora podem começar por este post. Sem mais considerações, algumas notas sobre esta mix.
Depois de o projecto ter sido recusado por várias editoras, Tim Elsenburg, guitarrista e principal compositor da banda inglesa Sweet Billy Pilgrim, comprou um portátil MAC, um Power Book, usou o Pro Tools – software profissional de edição e produção áudio – um «excelente microfone» e o ambiente acústico de uma simples barraca de jardim (fonte: Wikipédia) para gravar os primeiros temas.
É esta banda que inicia a segunda parte desta mix de covers dos Pink Floyd, com uma das versões mais bizarras da faixa que abre, de forma «pesada», o disco The Wall. In The Flesh é cantado com um enorme desprendimento emocional e uma escolha de instrumentos completamente inusitada – aliás, em muitos dos covers às faixas desse disco essa distanciação ocorre: sendo Roger Waters o supremo intérprete dos seus dramas nas versões originais, fico com a impressão de que muitos músicos optam por uma distância prudente em relação ao estilo mais histriónico de Waters.
Isso nota-se também na faixa seguinte, o hino Another Brick In The Wall (Part 2), desta vez recriado pelos Slaraffenland – uma banda de pop/rock experimental da Dinamarca: o The Wall é pessoal, muito pessoal; tal como a designação Pink Floyd resultou da junção de dois nomes – os bluesman Pink Anderson e Floyd Council –, também o personagem Pink do disco e do filme resulta da justaposição de duas histórias e duas pessoas: Waters e os seus dramas de infância e a progressiva deterioração mental de Syd Barrett. Waters usou os seus próprios traumas para contar e explicar o isolamento do fundador da banda.
Na terceira cover desta mix, outra vez o mesmo desprendimento dramático: trata-se de The Trial, o momento mais operático do disco, cantado pela voz bonita e bem-educada de Simon Bookish. Bookish vem da música clássica, é esta a sua escola, mas ao ouvi-lo cantar lembro-me (muito vagamente, claro) dos tempos remotos em que devorava óperas-rock do Andrew Lloyd Webber. Mas esta é uma excelente cover, porque gosto da voz dele e porque os violinos parecem ter sido tocados pelo espírito de Philip Glass.
A faixa seguinte, The Great Gig in the Sky, tinha sido originalmente pensada para fechar a mix – infelizmente, não encontrei nenhuma cover à altura. Então entrou esta versão sinfónica da London Philharmonic Orchestra, bem bonita, por sinal.
Será Roger Waters tão visceral assim, a ponto de transmitir a sensação de que as melodias se tornam mais doces e suaves quando interpretadas por outros? Vejam, na quinta faixa, a cover de Goodbye Blue Sky, dos Snowbird, uma banda inglesa muito pouco conhecida que disponibiliza alguns temas para descarregar na sua página oficial. Serão mesmo bombardeiros que sobrevoam céus cobertos de sangue ou pequenos e encantadores pássaros de neve?
A faixa seguinte é o regresso à normalidade: uma versão muito porreira de Corporate Clegg, escrita por Roger Waters para o segundo disco da banda, A Saucerful of Secrets. Quem a interpreta é Morgan Samarin e Hull LLP, sobre quem não sei absolutamente nada.
À sétima faixa, estamos outra vez em modo WTF. É mais uma versão de Another Brick In the Wall (Part 2), mas em estilo rap. Eu não tenho nada contra o rap como fenómeno cultural – os meus ouvidos, já traumatizados pelo rap postiço e exibicionista das estrelas da MTV, simplesmente preferem outras músicas. Neste caso, o que me cativou foi a recriação da letra de Big Lee, um importante rapper da cena nova-iorquina da década de 90 e que acabou por ser assassinado a tiro em 1999, pouco antes de lançar o segundo disco.
Conhecem a versão original Young Lust, certo? Esta cover de John Law é feita em modo pop-rock ressaca. O que é extraordinário é que John Law é um pianista de jazz com formação clássica, esta é uma versão totalmente inesperada que o leva a seguir caminhos muito diferentes do que é habitual. Oiçam.
A versão de Time tocada com a guitarra a fazer ta-na-na, ta-na-na, como se fosse uma música dos Fischer-Z? Não, esperem: agora já parece reggae. E aquela guitarra não faz lembrar o estilo ska dos velhinhos Madness? E a tipa que canta como se não tivesse pressa nenhuma? Desisto, oiçam vocês. É interpretada por Kelsey Wood (quem? Pois, eu também não conheço) e é o momento verdadeiramente WTF desta mixtape.
Os Billion Stars são uma banda americana da Califórnia e fazem aqui uma bela cover de Lucifer Sam, composta pelo primeiro génio dos Pink Floyd, Syd Barrett. Brook Claman (quem? Não sei) também recria uma boa versão de Let There Be More Light. O mesmo para a versão de Jugband Blues, outra de Syd Barrett, tocada pelos Eden, uma banda belga.
Crippled Black Phoenix é uma banda inglesa de post-rock composta por elementos de outras bandas (Iron Monkey, Gonga, Mogwai e Electric Wizard, entre outras). A versão de Run Like Hell não foge muito ao estilo da original, mas ouve-se bem. Segue-se uma versão de See Emily Play, o segundo single lançado pelos Pink Floyd da era Barrett, interpretada por James Combs. Combs é um músico de Los Angeles conhecido sobretudo por ter formado com a irmã April (vocalista) uma banda de art-rock chamada Arson Garden.
Segundo a Wikipédia, os Sky Cries Mary são um grupo de trance rock oriundo de Seattle. A sua cover de Wots… Uh the Deal é das melhores que já ouvi. O mesmo sucede com Hey You, a faixa seguinte, de S.A.M., que não conheço. Procurei na net e só encontrei referências a uma estação de rádio.
As últimas quatro faixas desta mix são todas do mesmo disco, um tributo aos Pink Floyd editado em 2005 e praticamente despercebido. O álbum foi projectado pelo ex-Yes Billy Sherwood e reuniu uma série notável de músicos, incluindo Dweezil Zappa (sim, é o filho de Frank Zappa), Aynsley Dunbar, Tony Levin (dos King Crimson) e Vinnie Colaiuta, entre outros.
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