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→ 24/10/2008 @4:54

Os «blogues-enquanto-blogues» não valem nada

Cartoon de Bieri

Muitas vezes me têm perguntado por que razão menosprezo tanto os blogues de política, uma vez que são a elite. A razão é simples: sobra-lhes em palavras o que lhes falta em poder de comunicação. Não provocam a curiosidade intelectual das pessoas. São cegos e arrogantes.

Não é possível compreender a blogosfera sem humildade – e essa é uma característica rara nesses projectos. Basta ler o que escreveu Eduardo Pitta, do blogue Da Literatura, quando há dias mencionou as audiências do Blogómetro: «A partir dos números de ontem, e sem contar com os blogues temáticos (pornografia, lingerie, fotografia, desporto, anedotas, infantis, etc.) que lideram as audiências, considerando apenas os blogues-enquanto-blogues, a listagem das audiências é esta. Se a minha avaliação está correcta, esquerda e direita empatam 7-7.»

O diálogo que se estabelece na blogosfera de elite só tem duas direcções: esquerda ou direita. Acima deverá estar Deus, o Capital, as cuecas rendilhadas da Deolinda ou seja o que for que considerem estar num plano superior ao deles (não deverá ser muita coisa). Em baixo estão os outros, os blogues temáticos que não têm o estatuto de blogues, não são blogues-enquanto-blogues porque não falam de política (a política, como se sabe, não é um tema).

A blogosfera não é a blogosfera, a blogosfera são eles.

Só encontro esta visão redutora nesses blogues de elite ou nas farpas que Pacheco Pereira lhes lança. E a superior legitimidade blogosférica destes blogues-enquanto-blogues acaba por ser tristemente irónica porque, sendo eles a nata, o supra sumo, mostram-se com frequência mais apreciadores de uma boa peixeirada: banqueteiam-se de tricas, calúnias, vaidades e novelas inconsequentes, como se vê pelo episódio do abandono de alguns bloggers do Cinco Dias e as croniquetas de escárnio e mal dizer que provocou no Atlântico.

Estou realmente convencido de que os blogues politiqueiros são os principais responsáveis por uma primeira impressão negativa da blogosfera. Não são os que escrevem caralhadas; são os que escrevem caralhadas tentando convencer-nos de que escrevem coisas elevadas.

Os blogues-enquanto-blogues estão fechados sobre si mesmos, ignorantes do meio em que estão inseridos, que é um meio aberto e dialogante, e vivem do grau de representatividade que julgam ter – mas que na verdade não têm, nem aqui nem lá fora. Dado que ignoram o que se passa no exterior do seu círculo de amigos e inimigos, não têm consciência de como são insignificantes. Quando são confrontados com números que indiciam essa insignificância, arrastam os blogues de maior audiência para uma espécie de gueto intelectual fora da blogosfera. À medida que os egos incham, o seu círculo de acção encolhe. E não percebem. Que patéticos.

→ 24/09/2008 @18:47

Magalhães e vaginas «desmancha-prazeres»

Vagina nº1Vagina nº2Vagina nº3O caça-vaginas

Se os putos decidirem usar o Magalhães para encontrar gajas nuas na Web dificilmente usarão uma palavra-chave tão farsola como «vagina». Estou convencido que os mais espertalhões e vivaços conseguirão fazer melhor. Quer usem o Magalhães ou outro caça-vaginas qualquer, cedo aprenderão a usar expressões mais apropriadas.

Do ponto de vista «jornalístico» da SIC, contudo, uma «vagina» seria suficiente para provocar o efeito «desmancha-prazeres» no Governo.

O autor da reportagem sobre o Magalhães decidiu escrever «vagina» porque, como é óbvio, estava a pensar numa cona. No contexto da reportagem, «vagina» não era sequer uma versão bem educada da cona, mas a cuequinha que a tapa.

Restava ao telespectador puxar essa cuequinha para baixo, fazer um minete à SIC e um manguito ao nojento do Magalhães que permitiu toda esta pouca-vergonha; por fim, em blogues e fóruns de discussão, culpar o Sócrates, a ministra da Educação, o Governo e o Programa E-escolinhas pela nossa dificuldade em explicar às crianças que a nossa sobrevivência enquanto espécie assenta em grande parte numa associação biológica entre o útil e o agradável, ou seja, fomos programados para gostar de foder e ainda bem.

O Magalhães conseguiu até resistir às manápulas do Hugo Chavez, mas não me parece que tenha sido concebido para carregar esse tipo de responsabilidade.

→ 08/02/2008 @18:48

O menino querido da América

Por cada blogue que acompanha a luta pré-eleitoral nos Estados Unidos aparece sempre alguém que vem criticar o ênfase dado ao tema. Essa malta acha que ao ficarmos interessados por determinado assunto corremos o risco de anular qualquer possibilidade de nos interessarmos por outro. Parece que só nos podemos interessar por um assunto de cada vez; se coexistirem três ou quatro, estes devem estar sujeitos a uma rígida hierarquia que obedece a critérios de proximidade.

Vá lá que neste assunto das primárias americanas estamos mais ou menos safos: não corremos o risco de atraiçoar critérios de proximidade porque o destino do nosso planeta depende em grande parte das pessoas que ocuparem a Casa Branca.

Portanto é natural que tenhamos interesse em saber se o futuro Presidente da maior potência militar do mundo será democrata ou republicano, liberal ou conservador, culto ou ignorante, tolerante ou violento, se é gajo para discutir segredos de Estado enquanto a secretária lhe faz um broche na Sala Oval, se é tipo para bombardear o Irão por ser um eixo do Mal e o aiatolá o Darth Vader ou, finalmente, se é rapaz (ou rapariga, desculpem) para deixar poluir a terra, a atmosfera e os oceanos por razões exclusivamente económicas.

 

Adorável, adorável, adorável

Dito isto, posso agora garantir-vos que o actual menino querido dos democratas, Barack Obama, não pega. Talvez seja pela extraordinária capacidade que o homem tem de nos convencer de que é mesmo aquilo que parece. Não há nada que eu queira ouvir que o tipo não diga. Caramba, às vezes só depois de o ouvir é que eu fico a saber que eram precisamente aquelas frases e aquelas palavras que eu queria ouvir.

Deixem-me explicar melhor: Barack Obama tem uma pose de pregador benevolente e idealista mais reconfortante do que o falcão amestrado que ocupa a Casa Branca actualmente, mas há ali uma óbvia fabricação que provoca ressonâncias no meu cérebro e me leva a interpretá-lo com desconfiança.

O Obama é um DJ que actua sempre com dois gira-discos no palanque: de um lado, um 45 rotações com o famoso sermão de Martin Luther King, I Have a Dream (vídeo); do outro, um disco com o histórico discurso de John F. Kennedy quando se encostou ao muro de Berlim para proclamar um comovente e inesquecível Ich Bin Ein Berliner (vídeo). Samples empolgantes de Kennedy recriados com a voz arrebatadora de Luther King.

Às vezes o computador falha: no discurso que proferiu na consequência dos resultados da chamada Super Tuesday, saiu-se com um «Ordinary people can do ordina… Extraordinary things.» Chamem-me cínico, se quiserem, mas não há nada pior para um político americano deste calibre do que tropeçar quando acabou de calçar os seus sapatinhos Kennedy.

Obama é um homem de plástico embrulhado em papel de celofane. E é tão preto como eu. Dado que as suas fontes de inspiração são Kennedy e Luther King, não tenho dúvidas de que é um produto da maior qualidade e que o plástico é obviamente reciclável – mas será ele de facto o corajoso homem de convicções que a Humanidade precisa?

→ 02/07/2007 @13:34

Que Futuro para as Democracias?

Por uma questão de continuidade conceptual do Planet Geek, ficou determinado que mensalmente todos os seus membros escreveriam sobre um assunto específico. O tema de estreia é Que Futuro para as Democracias? Segue-se a minha contribuição.

Dark Power

Never underestimate the dark power of the force...

O meu antigo professor da Escola Salesiana tinha um método infalível para nos fazer interessar pela matéria: cada erro que o aluno desse no teste era marcado à carolada.

Este professor não se distinguia pelos métodos de ensino da Língua Portuguesa, mas fez um excelente trabalho a ensinar-nos o significado da palavra Medo. Antes do 25 de Abril, o ensino do Medo era uma disciplina tão obrigatória como Moral e Religião.

Naquele seu exercício de justiça democrática ninguém era poupado. Aquele professor chegava-se às carteiras como um anjo papudo, pegava na folha de teste e começava a distribuir as notas: à primeira calinada que detectasse, punha imediatamente em acção a sua bigorna pedagógica. As mãos eram enormes, sempre suadas e gordurosas, provavelmente por passar as horas livres a mexer nas cuecas, julgando-as o avental da mulher que nunca teve. Só de me lembrar desse tipo me dá vontade de ouvir outra vez o The Wall dos Pink Floyd.

As caroladas tinham vários graus de intensidade, pois aqueles que eram maus alunos normalmente levavam com as marretadas mais implacáveis. Ainda hoje estou para saber se aquela era uma forma peculiar de querer meter-lhes a matéria toda na cabeça ou se era apenas uma manifestação de tristeza pelo facto de a sua colecção de bonequinhos de feira não atingir os objectivos pedagógicos.

Para os alunos bons a Português, os seus preferidos, os carolos eram mais condescendentes. Às vezes mais pareciam festinhas na cabeça dadas com o nó dos dedos do que propriamente castigos ou repreensões. Quanto aos outros «canalhas», não interessava se fossem excelentes a Matemática ou a Ciências – se não prestavam para a gramática, não prestavam para mais nada.

Hoje em dia são inúmeros os casos em que alunos batem nos professores e de professores arrasados e que vivem no medo – a prova de que não estamos a ter grande sucesso em transmitir às novas gerações as lições do passado. O futuro das Democracias depende então da forma como seremos capazes de fazer equilibrismo enquanto caminhamos na corda bamba.

Apesar de gostar de ficção científica, fazem-me impressão exercícios futuristas. O futuro do futuro, digamos assim, o futuro de qualquer coisa, é determinado pelo conjunto das nossas memórias, por mais pessoais que sejam: por exemplo, desejamos não repetir com os nossos filhos os erros dos nossos pais.

O futuro também é determinado pela memória daqueles que morreram ou sofreram em nome da Liberdade e da Democracia. Hoje em dia estas são apenas palavras para a maior parte das pessoas, mas mesmo aqueles que não se interessam pelas coisas do passado têm a noção de que estas duas palavras não podem viver uma sem a outra.

As pessoas do passado de que vos falo não morreram por motivos políticos – morreram por Amor. Morreram e sofreram para que o romance entre Democracia e Liberdade tivesse um final feliz ou, pelo menos, uma relação estável.

Para quem nasceu depois do 25 de Abril, Liberdade e Democracia são tão naturais como o ar que se respira. Mas tenham em conta um facto muito simples transmitido de geração em geração pelos valentes que levantaram as cabeças contra as grandes e pequenas tiranias da vida: nenhum ser humano pode viver sem respirar mas há sempre alguém que vos quer tapar a boca. Não o permitam porque é assim que as tiranias começam: ao princípio não vos querem impedir de respirar, apenas tapar-vos a boca; depois, se protestarem, sufocam-vos. E sempre para vosso bem.

Tudo isto são banalidades – por isso é que nos esquecemos.

→ 14/11/2006 @19:57

That’s the way i like it

Logo abaixo do rei [o Abrupto] está a nobreza, um grupo muito selecto que se relaciona a um nível superior, sempre educada e cordialmente, trocando gentilezas e manifestando admiração mútua através de inúmeros links, que se repetem com frequência e invariavelmente dentro do mesmo grupo. Para entrar para esta elite não é fácil, e, se bem que ser bom ajude, não basta – doutra forma não se explica a total ausência de referências ao Bitaites dentro desta elite, um blogue completo, bem escrito, com uma constância invejável, e um dos mais lidos de Portugal sem ser de gajas nuas. Para tal é preciso conhecer-se as pessoas certas, de preferência pessoalmente, e passar pela aprovação dos mais conceituados bloggers, verdadeiros barómetros de popularidade, de quem uma referência elogiosa ou de desdém podem fazer toda a diferença e deitar por terra qualquer oportunidade de se ser brasonado.

Luna, A Sociologia da Blogosfera I

As minhas desculpas: ultimamente falou-se aqui demasiado de blogues. Também se tem mencionado o Bitaites mais do que é normal, mas a prosa da Luna atingiu o meu ponto G blogosférico, ou seja, fiquei com ganas de escrever sobre esta merda.

Conheço bem estes elitistas da blogosfera – a maior parte das vezes ignoro-os mal começo a ler, outras vezes deixo-me ficar mais tempo porque, no fundo, até são divertidos.

Um blogue desse género não é fechado sobre si próprio porque participa num grupo de bloggers aos quais pode chamar seus semelhantes. Esses grupos são fechados – não só aos outros blogues, os plebeus, como aos próprios visitantes.
Um blogger desta categoria pode começar um post escrevendo:

«Sim, porque devo dizer-lhe, meu caro Fulano não-sei-das-quantas [link para o blogue do Fulano não-sei-das-quantas], sobre o assunto que escreveu [link para o assunto que o outro escreveu], em resposta ao desafio que lhe coloquei [link para o desafio que colocou ao outro gajo], como tinha referido o Beltrano não-sei-das-quantas quando tão bem mencionou o axioma da redutibilidade dos esquentadores a gás [link para o blogue do Beltrano não-sei-das-quantas], que considera, tal como você, de resto, a plantação de nabos e rabanetes nos canais de Marte como perniciosa do ponto de vista da lei de Euclides, o que, na verdade, é escandaloso, conforme comentei aqui [link], a propósito do que você escreveu ali [link], inspirado pelo que leu acolá [link] e reagindo ao post colocado há dois dias pelo Sicrano do não-sei-das-quantas sobre as tipologias endoplasmáticas da Scarlett Johansson [link para o Sicrano do não-sei-das-quantas]» – e por aí fora.

Posts deste tipo (descontem a paródia) são comuns em grupinhos onde o número de tronos corresponde judiciosamente ao número de lugares marcados. No exemplo que eu dei – é fácil descobrir posts assim, basta procurar – os próprios visitantes são postos de parte: o post nem sequer lhes é dirigido. Aos visitantes resta agradecer a benesse (se lhes for concedido a graça de um comentário) e acompanhar o diálogo entre as iluminadas figuras como burros num palácio.

Outra característica que identifica um blogue elitista é quando o blogger coloca um poema em francês com uns cinquenta metros de altura sem sequer traduzir. O rei Abrupto, o tal que está no trono como diz a Luna, costuma fazê-lo – mas nem sequer é o pior.

A razão porque embirro com este tipo de posts tem a ver com o facto de os blogues em questão não serem formalmente secretos ou de acesso restrito. A restrição é cultural e a pose elitista. Fico fodido quando alguém usa a Cultura para se diferenciar dos outros quando para mim a cultura deve servir é para aproximar as pessoas. Se o autor estivesse de facto interessado em divulgar um poema, tentaria colocá-lo também em português. A isto se chama partilhar. Como não o faz, fico com a impressão de que o que está a mostrar não é o poema, mas os seus conhecimentos de francês.

Há uma situação em que são divertidos: quando a diplomacia falha e as comadres declaram guerra. Nessas alturas, eles arregaçam as rendas e as palavras tornam-se mais caras, as citações mais sofisticadas e os argumentos ainda mais redondos. O que de facto eles estão a fazer é a medir o tamanho das suas intelectuais pichas – e é isso que me diverte. Porque, apesar de tentar escrever correctamente, prefiro ler a opinião de alguém que vai buscar dentro de si as palavras, prefiro ler alguém que dá erros e se atrapalha, do que aturar esses imbecis.

A Luna foi simpática em querer fazer justiça ao Bitaites, mas raios ma partam se quero essa gente atolando a caixa de comentários com cagadelas pseudo-intelectuais – nem que eles julguem que essas cagadelas se soltaram do cu dos pássaros do Hitchcock.

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