19/Julho/2010

Os miolos do trabalhador

Talvez esteja relacionado: Poema da bufa (9)
Marcadores: , , ,

Tenho um sonho bizarro para contar. O sonho consistiu em levar tiros a toda a hora. Estava no meu local de trabalho e alguém cujo rosto se mantinha sempre fora do meu campo de visão despachava-me com uma bala na cabeça. Ter sido despedido e ver muitos filmes do Scorsese e do Sergio Leone provoca estes delírios.

Levar vários tiros seguidos na tola é um bocado incomodativo, sobretudo quando se tem um trabalho mais intelectual. Uma pessoa não pode perder a concentração.
Os aborrecimentos começaram mal me sentei à secretária: pam, balázio na nuca. «Miolos a nadar num aquário? Pá, estes screensavers que instalaram nos computadores são de muito mau gosto», comentei eu, sem me aperceber que estava a ver o meu reflexo no vidro do monitor ainda desligado.

Achei aquilo muito peculiar, cocei a parte de trás da cabeça ensanguentada e levantei-me para pensar sobre o assunto. Mal me pus de pé, recebi outro em cheio na testa. Este deitou-me ao chão, pelo que me pus a meditar no significado daqueles disparos numa posição mais confortável. Felizmente continuava humano, não fiquei cego. Posso imaginar o sofrimento que seria se no sonho fosse um ciclope.

Ainda assim, perdera a capacidade de ver pessoas – só conseguia vislumbrar os computadores, os mobiliários e fotos de umas naturezas mortas às quais alguns colegas costumam chamar de celebridades.

Acabei por me fartar. Resolvi apanhar o elevador e descer à rua para fumar um cigarro. No elevador, alguém me deu outro tiro. Comecei a ficar um bocado aborrecido. Já me doíam as costas de estar sempre agachado a apanhar as minhas cenas do chão.

Cá fora devo ter fumado um cigarro tranquilo, pois não precisei de dar cabo das costas outra vez. Quando acabei, reentrei no elevador e, já sem surpresa, ouvi uma detonação familiar. Desta vez também me apercebi do som de gente a sussurrar. Dado que estava incapaz de ver pessoas, apenas objectos inanimados, não identifiquei ninguém.

Fiquei mesmo zangado. Calculando que podia estar a ser ouvido, protestei: «Ao menos ajudavam-me a apanhar os miolos espalhados no chão». Não vi ninguém, e de novo fui atingido por uma bala certeira. «Porra, isto teve graça ao princípio, mas agora já não tem piadinha nenhuma». E fui passando o tempo entre luminosos tiros e sombrias conversas.

Ao fim do dia de trabalho, outra vez no elevador, cruzei-me com o patrão, o Joaquim Oliveira, o tipo da Olivedesportos e outras cruzadas empresariais.

Como a minha deficiência de visão não me permitia ver seres humanos, fiquei contente por tê-lo reconhecido: era sinal que estava a recuperar as minhas faculdades.

Mesmo assim, achei-o esquisito. O rosto era quase bidimensional, um retrato pálido e sem espessura que se limitava a sorrir.

Intimamente agradecido por não me ter dado um tiro nos miolos e encorajado pela imutabilidade do seu sorriso, resolvi contar-lhe o que se passara.

«De maneira que estou farto de andar sempre a apanhar isto do chão», concluí. «Vê aquele bocado de cérebro que ficou ali pegado no botãozinho do segundo andar? É meu.» O Oliveira ficou com ar enojado: «Miolos de trabalhador, realmente!»

À saída, deu-me uma palmadinha tranquilizadora no ombro: «Não se preocupe, amanhã de manhã a mulher-a-dias vem cá limpar essa merda

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 23 comentários »
15/Junho/2010

Mania de não deixar jogar

Talvez esteja relacionado: A maldição de Queiroz (21)
Marcadores: , ,

Esta mania agora de os adversários não jogarem como nós queremos ainda vai provocar a desgraça do melhor treinador do mundo, Carlos Queiroz.

O mister tem razão ao franzir as suas geniais sobrancelhas perante as manhas do principiante Sven Eriksson. Não se percebe, realmente, que a Costa do Marfim tenha jogado com a selecção portuguesa usando aquela táctica que tantas vezes nos lixou, a táctica do Deixa-os pousar, ou seja, deixando-nos entretidos a trocar a bola enquanto espera pelo melhor momento de nos marcar um golo. Que escândalo. Foi assim que os ladrões dos gregos nos levaram a taça do Euro 2004: à socapa.

Assim o futebol não tem piada nenhuma. Um adversário deve deixar-nos jogar, é para isso que está lá.

Quando isso não acontece, Queiroz fica triste, injustiçado com a vida. E essas emoções transmitem-se aos jogadores, que andam pelo campo tristes, sem garra, sentindo que um jogo que permite ao adversário jogadas baixas como fazer cortes em antecipação é, sem sombra de dúvida, um jogo injusto.

Por que razão não nos deixa o adversário à vontade para demonstrarmos a nossa superioridade técnica? Que direito tem a Costa do Marfim de impedir que o espectador se delicie com as nossas habilidades e, por uma vez na puta da vida, abra a boca de espanto e não para soprar a vuvuzela?

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 22 comentários »
1/Junho/2010

Questões de privacidade

Talvez esteja relacionado: Cães, Clifford D. Simak e umas obscenidades (9)
Marcadores: , ,

Uma fotografia tirada pelo jornalista da SIC Nuno Luz já corre no Twitter, em breve chegará ao Facebook – enfim, a todo o lado. Três pré-adolescentes no estágio da selecção nacional mostram um cartaz que diz Cristiano, sê o meu Lobo Mau… Vê-me, ouve-me e come-me. Um dia destes o pai ou a mãe de uma destas raparigas reconhecerá o rosto da própria filha e, se tiver azar, os comentários que vai gerar.

O jornalista deu-lhe um título humorístico: «Anda um pai a criar uma filha para isto». É um lado da questão, mas não é o único: é preciso também criá-los para que não publiquem este tipo de fotos sem pensar um bocadinho primeiro nas consequências.

Elas são jovens, demasiado jovens. Essa do lobo mau não é uma mensagem que deva ser levada demasiado a sério – com aquela idade, ser ousada é uma forma de afirmação e independência, a expressão de uma feminilidade emergente mas ainda imatura.

O problema é vivermos num mundo ligado em rede, onde o melhor e o pior deste mundo se encontra à distância de meia-dúzia de cliques. Uma brincadeira inócua e um bocado pateta com um jogador de futebol é fotografada, publicada na Net e vista por milhares de pessoas com milhares de interpretações diferentes e, às vezes, muito pouco bondosas.

Este exemplo destas raparigas é comparativamente benigno e nem sequer tem assim tanta importância perante outros casos muito mais graves, mas toca-me por uma questão de princípio e porque sou pai.

Em relação à presença dos miúdos na Net, a nossa principal preocupação tem sido ensinar que a fronteira entre o que se passa no nosso quarto e o que pode ser visto numa página da Web está cada vez mais esbatida. Por vezes, nem sequer existe. Que a privacidade, tal como a confiança, é um bem precioso; que a verdadeira independência está em encontrar o equilíbrio perfeito entre o nosso direito à livre expressão e a necessidade de nos preservarmos; que a discussão sobre privacidade não pode focar-se apenas no Facebook, porque defendê-la ou atacá-la é uma decisão formada em primeiro lugar na nossa cabeça.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Pessoal | 30 comentários »
25/Maio/2010

Avé Covilhã, os que vão dar seca te saúdam

Talvez esteja relacionado: O futebol é tramado (0)
Marcadores: , ,

Cristiano Ronaldo

Bom, temos de ser pacientes. A rapaziada está com medo de sujar o equipamento novo. Quando começar o Mundial, vai ser diferente.

Só não percebo é a atitude de Cabo Verde. Ó país irmão, não podia ter dado uma moral para a gente? Nem era preciso goleada, bastava deixar entrar um ou dois golinhos. Afinal o jogo era a feijões, certo? Regressavam a casa tranquilos e Portugal voltava a ser candidato a campeão do mundo. Em vez disso, jogaram futebol como se fosse um jogo a sério e não nos deixaram marcar um único golo. Nem um. Ó Cabo Verde, isso faz-se? Ainda por cima sem nos avisar primeiro? Escândalo!

Ora bem, vamos lá ver se vale a pena pensar mais nisto. Não, não vale.

Portugal nunca ganhou nada. Jogámos um Europeu em casa, fomos à final e perdemo-la justamente com a equipa que nos tinha derrotado no primeiro jogo. A Grécia, que agora conhecemos pela crise.

Portugal é o Eusébio a chorar depois de perder a meia-final com a Inglaterra. Portugal é o Cristiano Ronaldo a chorar depois de perder a final com a Grécia. Somos os campeões do mundo das lágrimas.

Portugal é a revolta indisciplinada quando foi afastado pela França com um penalti claríssimo. Portugal é o murro desesperado de João Vieira Pinto nas costelas do árbitro. Somos os campeões da Europa do mau-perder.

Brasil, Argentina, Espanha, Alemanha ou Inglaterra – um destes países ficará com a taça. Portugal, não. Todas as vitórias obtidas têm como objectivo aumentar a decepção que inevitavelmente nos acompanha. Os deuses do futebol são trocistas e cruéis, e gostam de gozar com a fé e o sonho irrealista dos portugueses. Não mediremos esta campanha por mais nada a não ser pela quantidade de lágrimas que provocará: quando mais chorarmos, melhor nos teremos saído.

Primeiro fico furioso, depois desencantado e, agora, simplesmente indiferente. Há cada vez mais gente a pensar assim, a querer distância. Já passei uma noite sem dormir por causa da maldita final com os gregos e não quero passar por uma decepção estúpida outra vez. Obrigado, digna selecção de Cabo Verde, por me teres ajudado a descobrir um atalho para longe do caminho que me conduz à irracionalidade.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 21 comentários »
19/Maio/2010

Eu vi um fantasma, mas ele não me viu a mim

Talvez esteja relacionado: O homem que fotografava os espíritos (56)
Marcadores: , ,

A rapariguinha-fantasma

Estão a ver o fantasma da rapariga na foto aqui em cima? Impressionante, não é? A imagem foi captada por um fotógrafo amador, Tony O’Rahilly, a 19 de Novembro de 1995, dia em que fotografou o incêndio de uma antiga construção em Wem, Shropshire, na jolly good England.

O’Rahilly fez então uma revelação ao mundo: acabara de captar uma jovem rapariga com roupas muito antigas, pelo que só podia ser um fantasma. Os habitantes de Wem sugeriram que podia ser o fantasma de Jane Churm, uma rapariga de 14 anos que acidentalmente provocara um incêndio naquele edifício em 1677.

Sugiro que examinem a foto outra vez, agora em maior resolução. Impressionante, não é? Uma primeira análise ao negativo não conseguiu encontrar provas da existência de qualquer fraude, pelo que o rosto da rapariga podia dever-se a um fenómeno psicológico conhecido como Pareidolia.

A Pareidolia é uma ilusão que consiste em reconhecer pessoas ou objectos em estímulos vagos ou caóticos. Quem olhar para as nuvens imaginando formas familiares estará a experimentar um fenómeno típico de Pareidolia.

Mais tarde, uma nova análise revelou que o rosto continha umas misteriosas linhas horizontais que não se encontravam em mais nenhum lado na foto, pelo que, pela primeira vez, se avançou com a hipótese de fraude: alguém colara um rosto captado num ecrã de televisão, sobrepondo-o na foto. Mesmo assim, a dúvida permaneceu. Fantasma, aldrabice ou Pareidolia?

Um respeitável senhor de 77 anos com olhos de águia e memória de elefante, porém, acabou de lançar uma nova luz sobre o assunto, eliminando a teoria da televisão mas não descartando a hipótese de fraude.

Ao examinar o fantasma, Brian Lear notou que a rapariga lhe fazia lembrar uma jovem retratada num certo postal antigo que já vira reproduzido em qualquer lado. Prosseguiu a sua investigação e descobriu que o fantasma da foto, afinal, já tinha aparecido num cartão postal de 1922. Vejam-na. É a rapariguinha que está no lado esquerdo da foto, à porta de uma loja.

O poder de observação do senhor Brian Lear deixa-nos, assim, na dúvida: será que o fotógrafo foi um bocadinho aldrabão ou será a rapariga do postal também um fantasma determinado a assombrar todas as fotos que conseguir desde que a fotografia foi inventada? Dúvidas que assaltam a mente de um pobre céptico.

Infelizmente, o autor da fotografia faleceu em 2005 com um ataque cardíaco e já não poderá defender-se, mas a verdade é que sempre negou que tivesse feito retoques na foto. Bem, talvez um dia ele possa aparecer na imagem de outra pessoa e tirar todas as dúvidas sobre esta tendência dos fantasmas em comportarem-se como aquela malta que se coloca aos saltinhos atrás do repórter, só para aparecer na televisão. Fonte

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 12 comentários »
19/Maio/2010

O dia em que todos desenhamos Maomé

Manifestação de protesto no Paquistão contra uma página do Facebook

Manifestação no Paquistão em protesto contra a página do Facebook, «Everybody Draw Mohammed Day!» [Foto: Shakil Adil/AP

O Dia em que todos desenhamos Maomé é, segundo o mentor da ideia, uma resposta às ameaças de extremistas islâmicos e, ao mesmo tempo, um teste à capacidade ocidental em recusar vergar-se ao delírio persecutório dos fanáticos, não cedendo ao medo.

No caso do Islão e dos muçulmanos, também existe uma longa tradição de medo, luta e resistência, sobretudo se tivermos em conta a muita merda que ingleses, franceses e americanos lá fizeram, desde a criação do Estado de Israel até à invasão do Iraque e ao problema palestiniano.

Não é preciso ser um especialista no Médio Oriente para concluir que estas reacções exacerbadas existem porque, para nós, desenhar o Maomé até pode ser um acto de liberdade garantido pela Constituição mas, para eles, é uma nova invasão ocidental, desta vez a um «território» que consideram sagrado.

Lembro-o não por qualquer simpatia em relação a esta gente que deseja impor, em nome de Deus, o seu estilo de vida aos outros; digo-o porque também não tenho qualquer simpatia por quem deseja impor, em nome do dinheiro, o seu estilo de vida aos outros.

É uma luta destinada ao fracasso, pois estabelece-se em dois planos diferentes. E provoca a indignação, que é a força moral dos fanáticos. Ainda assim, há quem insista em travá-la.

A história deste Dia em que todos desenhamos Maomé começou a propósito do episódio censurado de South Park, mas podia ter começado muito antes.

Os exemplos são muitos: o escritor Salman Rushdie foi condenado à morte por causa do livro Versículos Satânicos e nunca mais teve um minuto de sossego na vida. O realizador holandês Theo van Gogh foi assassinado por um extremista muçulmano devido a um filme em que denunciava a violência exercida sobre as mulheres no Islão. Três pessoas (um dinamarquês de descendência marroquina e dois tunisinos) planearam assassinar o autor dos desenhos sobre Maomé, Kurt Westergaar, de 73 anos. Lembram-se da história? Em Setembro de 2005, no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, publicaram-se 12 cartoons nos quais o rosto de Maomé era retratado – o que é proibido pelo Islão –, ainda por cima associado ao terrorismo islâmico.

O último episódio conhecido sucedeu aos criadores de South Parker porque, num episódio em que diversos líderes religiosos eram criticados sem dó nem piedade, mostraram Maomé com um fatinho de urso.

Um site de extremistas islâmicos, RevolutionMuslim, publicou uma fotografia do cadáver de Theo van Gogh, o realizador holandês assassinado, juntamente com o aviso dirigido aos criadores da série: «Vocês podem ter o mesmo destino».

Finalmente, publicaram a morada dos escritórios em Nova Iorque da Comedy Central e do estúdio onde South Park é produzido.

O RevolutionMuslim tem um pequeno banner mostrando uma petição dirigida a Barack Obama. A petição é uma carta aberta «em nome dos muçulmanos» dirigida ao presidente americano, exigindo-lhe que acabe com a «guerra de terror» e diga «não ao Império Americano».

Obama, socialista e fascista ao mesmo tempo

O banner que anuncia a petição mostra-nos Obama com um bigode à Hitler, o que só demonstra o fosso enorme que separa uns e outros: para alguns ocidentais, incluindo americanos, Obama é o presidente mais à esquerda da história do país. Radicais ultraconservadores nos Estados Unidos insultam-no, chamando-lhe «socialista» como se o socialismo fosse uma doença infecciosa, usando o mesmo tipo de banner que os extremistas muçulmanos. Só faltou acrescentarem-lhe uma guedelha à Karl Marx.

Bem, a Comedy Central acabou por levar a sério as ameaças no site, substituindo o urso por um Pai Natal e colando um sonoro beep sobre as referências ao nome do profeta.

O dia de amanhã, 20 de Maio, é assim um desafio, o dia em que todos desenhamos Maomé: existe um grupo no Facebook chamado Everybody Draw Mohammed Day! , já com mais de 42 mil pessoas.

Esta é uma iniciativa de uma cartoonista de Seattle, Molly Norris.

Incomodada com a censura imposta pela Comedy Central ao episódio «profano», Norris pensou numa iniciativa através da qual fosse possível calcular a extensão do nosso medo face às ameaças dos extremistas islâmicos. Assim, quantos terão a coragem de desenhar Maomé? Convidou vários artistas a enviar um desenho para o sítio Citizens Against Citizens Against Humor.

«A minha intenção não é desrespeitar a religião», explica a cartoonista, «mas proteger o direito de as pessoas se expressarem». Como conciliar esta visão do problema quando, do outro lado, o direito à expressão é visto precisamente como desrespeito?

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 7 comentários »
16/Maio/2010

Síndrome Mães de Bragança

Mike Luckovich, The Atlanta Journal-Constitution

Cartoon de Mike Luckovich, The Atlanta Journal-Constitution


A sério que não queria abordar este assunto da «professora» que posou para a Playboy e por isso foi afastada das suas funções, mas vou fazê-lo porque também quero saber o que pensam sobre o assunto.

Em primeiro lugar, Bruna Real não é uma professora contratada através do concurso nacional de professores; foi contratada para as chamadas AEC, ou seja, actividades de enriquecimento curricular. Quem faz a gestão destes contratos são as autarquias. É um trabalho em part-time, e bem gostava de ter tempo de saber que tipo de contrato é feito e quais são as remunerações. Talvez alguém me possa elucidar, mas aposto que não se ganha muito dinheiro.

Bruna Real posou para a Playboy, que lhe pagou mais do que a autarquia, seguramente, o assunto tornou-se público, os alunos divertiram-se a passar as fotos da professora uns para os outros, os pais escandalizaram-se e o director do Agrupamento de Escolas de Torre Dona Chama, onde Bruna Real trabalhava, protestou: «Aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora». Que declaração tão pomposa, não é, tendo em conta o provável baixo ordenado da «educadora».

Finalmente, a vereadora da Educação da Câmara Municipal de Mirandela colocou a professora noutro serviço, sem contacto com os alunos ou os pais dos alunos, anunciando que não seria contratada no próximo ano.

Este é o essencial do caso, parece-me. Já agora, Bruna Real era vista em Mirandela como uma mulher bonita e vistosa, que gosta de dar nas vistas, como escreveu o Jornal de Notícias. Os vizinhos, prossegue o jornal, dizem que Bruna quer ser conhecida, já participou no concurso televisivo «Pedro, o milionário», em busca da fama. Não sei se isto é verdade ou se é apenas conversa de alcoviteiras. Como escreveu Pierre Marivaux, «todas as beatas se desforram dos pecados que não cometeram pelo prazer de saberem os pecados das outras: sempre é alguma coisa». (Obrigado, Citador, por dares valor intelectual a estes posts).

Com todos estes elementos, como formular a nossa opinião? Condenando a autarquia por ter tomado a decisão de não renovar o contrato com uma mulher tendo por base não uma ilegalidade, mas apenas moralismos da treta e o preconceito contra a nudez?

E Bruna Real, é mesmo uma desmiolada à procura de fama ou uma vítima desses preconceitos? Se a sua intenção fosse a de seguir carreira como professora, não deveria ter pensado nas consequências sociais, nos gozos e mexericos dos alunos, nas reacções dos pais? Se não pensou ou não as teve em consideração, é por ser simplesmente burra, libertária, independente ou porque, no seu entender, o futuro não passa pelo Ensino e a sessão na Playboy terá sido mais uma forma de alcançar a fama?

Por último, o que é a fama nos dias de hoje? Será Bruna Real mais uma daquelas pessoas que apenas procuram a fama pela fama, não buscando nem arte nem conhecimento? Se é esse tipo de tontinha, valerá a pena criar grupos de apoio no Facebook quando o seu único interesse é ser famosa?

A minha opinião é que sim, Bruna Real deve ser apoiada mesmo que seja uma dessas tontinhas – por uma questão de princípio, o princípio que nos coloca ao lado da Liberdade contra o preconceito e as mentalidades tacanhas. Qual é a vossa opinião sobre este caso?

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fricções | 42 comentários »
15/Maio/2010

O papel do Público na falsa morte em Braga

Talvez esteja relacionado: Uma derrota para todos (última actualização) (47)
Marcadores: , ,

O papel do Público online neste episódio do adepto «morto» em Braga é uma história que deve ser contada, mas não acredito que seja o jornal a fazê-la. Contá-la implicaria reconhecer que um jornal de referência se portou como um tablóide.

O Público é a Bruxa Má que diante do espelho pergunta Espelho Meu, Espelho Meu, há jornal de maior referência do que eu?, permanentemente obcecado com a imagem que os seus excelentes jornalistas outrora souberam criar e não prestando atenção aos estilhaços do seu jornalismo actual.

O Público tomou como facto uma intervenção num programa de debate público num canal de televisão de um clube de futebol. Um debate entre adeptos, para adeptos, com os excessos que qualquer pessoa com um cérebro deve ter em conta, se estiver ligada ao mundo.

Dado que no Público também existem cérebros, a opção de transformar um rumor em «facto lançado» por uma estação de televisão de um clube de futebol teve como origem uma escolha: entre analisar qualitativamente a credibilidade da fonte, o Público optou pelo efeito-bomba. Quando até os blogues começaram a apurar a verdade negligenciada na «citação» do jornal, o Público corrigiu a informação mas não assumiu a sua negligência: desculpou-se atirando, com manha, o estigma da notícia para a Benfica TV. Crítico quando lhe convém, acrítico quando lhe convém, eis o Público actual.

Esta é a história, a génese deste triste boato publicado pelo Público, e não há ninguém que me faça acreditar noutra.


O papel da Benfica TV

Ninguém espera que um canal de televisão de um clube de futebol seja isento. A Benfica TV não é transmitida a pensar nos portugueses, mas nos benfiquistas. Existe como instrumento de propaganda e exaltação dos feitos do clube.

Ninguém deve esperar que os seus serviços noticiosos sejam imparciais, mas há limites que não se devem ultrapassar.

A Benfica TV permitiu que num programa de debate público se deixasse correr o rumor de que um adepto do clube tinha morrido e, em vez de procurar confirmar a história, deixou que a falsa informação continuasse à solta. A notícia da morte de um adepto não é o mesmo que a notícia da contratação de um guarda-redes. O Benfica não pode ser rápido a desmentir a contratação do Eduardo ao Sp.Braga e, ao mesmo tempo, permitir que um rumor destes circule durante tanto tempo.

A rouquidão histriónica do locutor José Carlos Soares relatando os jogos do Benfica é inofensiva e não me chateia nada, às vezes até me diverte; ser a televisão do Benfica justifica os exageros, imparcialidades e exaltações próprias do futebol, mas não desculpa a irresponsabilidade.

Agora sujeitam-se a que os adversários e rivais do clube a acusem de ser uma televisão incendiária, como já ouvi várias vezes. Tenham juízo, o futebol não é tudo nesta vida.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Cromos | 17 comentários »
27/Abril/2010

Mamamoto: análise estatística

Talvez esteja relacionado: Um mamamoto na segunda-feira (1)
Marcadores: , , , , ,

Jennifer no mamamotoTirando o facto de ter aproveitado o acontecimento para brincar aos mamamotos, este Boobquake organizado pela estudante Jennifer McCreight toca-me pelo triunfo da Razão sobre a superstição, da Ciência sobre o fanatismo religioso, da inteligência sobre a ignorância e do humor sobre a estupidez. Nem todos os dias se pode cantar vitória assim.

Jennifer, como a boa geek de ciências que é, não perdeu tempo com grandes considerações: analisou os dados da United States Geological Survey (USGU) e demonstrou que mesmo que um par de mamocas nos faça tremer, não é suficiente para provocar um aumento na frequência e intensidade dos terramotos. Viva a Jennifer e as maminhas da Jennifer; que ambas tenham um belo futuro.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Instantes | 1 comentário »