O rock é um vírus. Movimenta-se pelo ar e vai nidificando em cada vibração sonora que encontra. É invisível, mas tem o poder de transformar radicalmente as superfícies em que se deposita – os rostos de Keith Richards e Iggy Pop, por exemplo. A epidemia alastra e surge mesmo onde menos esperamos. Apurem os ouvidos para saberem quando é a vossa vez de sucumbirem…
VVV: «Resurrection River» (Mego)
Os três V que identificam o trio responsável por este «Resurrection River» são os dos apelidos de Alan Vega, Mika Vainio e Ilpo Vaisanen.
Para quem ainda não sabe – haverá quem? -, o primeiro é metade dos lendários Suicide e os dois últimos constituem o projeto Pan Sonic.
A estreia desta formação que combina o punkabilly eletrónico que Vega e Martin Rev “inventaram” na década de 1970 com a presente techno experimental made in Escandinávia aconteceu em 1998 e chamou-se «Endless».
Esta segunda incursão pelo mundo do disco não se distancia muito do que aí propuseram, a não ser, talvez, em termos de aprimoramento desta parceria que não é tão estranha quanto seria de pensar. Que músicos eletrónicos da atualidade não têm os Suicide como referência, ao lado dos Kraftwerk e dos Coil?
Todo o CD volta a abrir-nos as bocas de espanto, e se a faixa que lhe dá título, logo a inicial, tem um enlevo pop que só as estações de rádio mais obtusas – as portuguesas, por exemplo – colocaram fora das suas playlists, o mais incrível que aqui ouvimos é «It Was Her Eyes», com Jimi Tenor como convidado especial no órgão.
Vega transfigura-se, tal como nos tempos áureos, e quase não seria necessário o beat encadeado pelos finlandeses que lhe proporcionaram este regresso em grande para sentirmos a taquicardia rítmica das suas vocalizações.
Esta é uma voz-máquina, fria e implacável, vinda das entranhas do diabo, de um lugar em que as chamas são feitas de gelo – Resurrection, convém assinalar, é o nome de um rio do Alasca cujas águas provêm dos glaciares.
Dir-se-ia que os demónios do autor das letras de «Ghost Rider» são lunares, ao contrário dos nossos, que irrompem das profundezas da Terra e nos abrasam.
A analogia justifica-se com o facto de este trabalho ter temática religiosa – a cover art presenteia-nos, aliás, com a típica iconografia do catolicismo espanhol.
O mais maldito dos vocalistas do rock, a par, está claro, de Iggy Pop, canta os pregos de Cristo no mesmo verso em que alude aos carros de corrida de James Dean e a um crucifixo negro que não parece ser muito cristão.
Mais uma vez, Alan Vega surgiu neste título como o alter-ego de Elvis Presley e a má consciência do rock and roll.
Woven Hand & Ultima Vez: «Puur» (Glitterhouse Records)
Quem gosta de imprevistos tem em «Puur» com que se entreter.
De facto, ninguém poderia imaginar que um cantautor americano do country-folk-rock cristão como David Eugene Edwards, antigo líder dos 16 Horsepower e depois mentor destes Woven Hand, se pudesse associar a uma companhia de dança europeia, a Ultima Vez, dirigida por um coreógrafo com as características avant de Wim Vandekeybus, que de uma das componentes desse formato musical, o rock, o mais que se tinha aproximado foi com os zappianos X-Legged Sally.
E o curioso é que Edwards nunca foi tão pouco folk ou rock como neste contexto. A música que faz é o menos ortodoxa que lhe conhecemos.
As canções surgem apenas enquanto tal em algumas secções da banda sonora, intercaladas por interessantes e surpreendentes – vindas de quem vem – paisagens sonoras.
Além disso, soube enredar os seus préstimos propriamente musicais com os textos falados e os sons de cena do espetáculo.
Seja como for, é da redenção ainda que estava à procura e pelo testemunhado Deus correspondeu às suas preces.
Oiçam isto e fiquem na ideia com a imagem de uma bailarina que se debruça sobre o seu parceiro para lhe dar de beber a água que traz guardada na boca. Puro Vandekeybus… Ler mais





























