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→ 13/11/2010 @15:33

Ecos de Humanidade

É hoje. Dia 3. O último dia no Planeta Verde. Uma alma de extrema sensibilidade musical lembrou-se de encher a sala com os sons de Echoes, um dos melhores temas dos Pink Floyd. Caro DJ, não sei quem tu és, pá, mas desejo-te uma longa e próspera vida, e que os auscultadores nunca te caiam das orelhas.

Faz bem ouvir Pink Floyd aqui. É suficientemente geek para não destoar, contém um travo psicadélico que combina bem com o verde Salada Matrix do pavilhão e é suficientemente rico em termos musicais para nos lembrar que hoje, ao terceiro dia, o Codebits se revela em toda a sua dimensão humana.

Hoje é o dia em que pelo menos 100 equipas apresentam os seus projectos diante de um júri, distribuído pelos palcos secundários. É um processo de triagem absolutamente necessário para que não fiquemos aqui a noite toda e para garantir a qualidade e fiabilidade das apresentações. Este processo de pré-selecção reduzirá as apresentações a metade.

Ecos de humanidade num pavilhão cheio de máquinas: «Tanto trabalho para nada». «Estás triste?», pergunta um. «Não não», responde outro, com tristeza na voz. «Não faz mal, ao menos aprendi umas cenas. Fica para o ano.» Membros de uma equipa eliminada na pré-selecção discutem corajosamente quais os aspectos a melhorar no projecto. Já ganharam, portanto.

São os próprios participantes do Codebits a eleger os vencedores. Cada equipa tem 90 segundos para apresentar o projecto. É uma pré-condição dura, mas promove o lendário desenrascanço tuga ao nível dos bits e bytes. Também pode dar azo a que se mostrem projectos que rebentem na plateia como fogo de artifício ou flutuem como zepelins luminosos, já concebidos com a barreira dos 90 segundos em mente – só para causar uma boa impressão instantânea.

À excepção do júri, ninguém sabe bem o que pode sair destas apresentações – é esse o espírito que anima o evento. Também não é um concurso no sentido José Carlos Malato do termo: acredito que a maioria não saberá dizer de cor a lista completa de prémios. É uma excelente oportunidade de pessoas exporem ideias perante os seus pares e os geeks seniores do Sapo (talvez o factor motivador mais importante).

Por outro lado, o que são 90 segundos num mundo electrónico onde os fenómenos são vulgarmente medidos ao milissegundo? Muito tempo. Se um electrão demorasse um minuto e meio a percorrer a distância entre o ecrã do portátil e a nossa cadeira seria o Manoel de Oliveira dos electrões – não por ser chato ou desinteressante, mas pela sua espectacular longevidade. Do ponto de vista de um electrão, uma apresentação de 90 segundos é uma seca monumental – por isso, geeks, o vosso mundo é rápido, é mesmo muito, muito rápido. Desenrasquem-se.

Na perspectiva de um não-geek, este é o momento em que nos é mostrada, ao mesmo tempo, a força e fragilidade dos seres humanos. Nós somos muito mais inteligentes e flexíveis e criativos do que qualquer máquina conseguirá ser nas próximas décadas, mas temos tendência para cometer erros quando precisamos de processar os dados muito rapidamente. As máquinas, por outro lado, fazem lembrar aquele tipo de aluno capaz de memorizar toda a matéria sem verdadeiramente a perceber – além disso, são rápidas. Mesmo muito rápidas.

As máquinas coleccionam, mas não interiorizam. E eis que se aproxima o momento durante o qual dezenas de seres humanos colocarão no hardware toda a sua confiança. Nervos. Ansiedade. Stress. Tudo correrá bem, e as máquinas com as quais o meu software comunica não me deixarão ficar mal – o verde da esperança geek. Da próxima vez que virem um a falar sozinho com o computador, não pensem que é maluquinho: é simplesmente alguém a esforçar-se desesperadamente para salvar uma relação.

Pronto, está quase. Que os nacos nucleares que comeram ontem não vos embaracem hoje durante as apresentações, é o que vos desejo. E se para o ano a organização organizar uma feijoada nuclear, não ponho cá os pés.

→ 30/10/2010 @18:17

E o Nick fez do Justin Bieber um rapaz genial

Já ouviram falar de Justin Bieber? É um cantor que faz acelerar os corações das adolescentes.

Já ouviram falar de Paul Nasca? É um programador associado ao sítio SourceForge há mais de dez anos. Criou um software para Windows e Linux – PaulStretch – capaz de alongar algoritmicamente um determinado ficheiro musical em formato wav, mp3 ou ogg: mexendo em dois botões, uma música de três minutos pode ser extendida quase indefinidamente, ficar irreconhecível e, ao mesmo tempo, soar a qualquer coisa que faz sentido. Depois é só guardar o resultado.

Já ouviram falar de Nick Pittsinger? É um jovem músico e produtor de 20 anos que vive na Florida e cujo passatempo predilecto é dizer piadas sobre Justin Bieber.

Nick usou o programa de «alongamentos musicais» do Paul para brincar com a última música do Justin, U Smile (oiçam-na para depois compararem). Esticou-a a 800 por cento e publicou os resultados no seu sítio.

Nick acabara de criar um daqueles gigantescos e repentinos sucessos só possíveis de obter na Internet. Milhares de pessoas escutaram, deliciadas, uma música quase «celestial», um «épico», a fazer lembrar Sigur Rós, Brian Eno, música ambiental electrónica, música new wave, mais uma dúzia de coisas fixes obviamente impossíveis de associar ao Justin.

Paul continua a ser um excelente programador de software, embora ninguém se tenha lembrado de o nomear como o principal responsável pelo feito de Nick; Justin continua a fazer suspirar adolescentes; Nick, cuja carreira mal tinha começado, já está a ser muito solicitado para trabalhos como músico e produtor. Desacelerar o Justin mudou a sua vida.

Agora a moda é desacelerar músicas. Já existe um tutorial em vídeo a explicar como se faz. E a malta começou a desacelerar: está para nascer uma corrente provavelmente tão duradoura como a dos diálogos fictícios do Hitler.

Actualização: o autor retirou o ficheiro de áudio.

→ 23/10/2010 @22:25

O jazz é uma festa

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A minha opção em alojar os vídeos permite mostrar bons momentos com a melhor qualidade de som e imagem possível. Eis uma interpretação de Al Jarreau (à direita) e Kurt Elling do tema-bandeira do quarteto do pianista Dave Brubeck, composto pelo seu saxofonista Paul Desmond: o sobejamente conhecido Take Five. O jazz não é barulho, é um festim para os ouvidos. Bom domingo!

→ 09/10/2010 @2:39

Chillout, pá

Fãs dos Pink Floyd, querem ficar com as veias inchadas de tanta indignação? Pois vieram ao sítio certo!

Imaginem os vossos temas preferidos de uma das maiores bandas de todos os tempos dissolvidos num suave cocktail de notas de piano, sopros de saxofone ou trompete, acordes de guitarra e de sintetizadores tão frescos como chocolate de hortelã-pimenta, daquele que se vende em pacotinhos viciantes, acho que se chama AfterEight, mais uma voz feminina muito almofadada para dar ainda mais sabor e sensualidade, e uma bateria de bar jazzístico em fim de noite.

Difícil de imaginar, não é? Temas como Wish You Here, Brain Damage, Mother, Shine On You Crazy Diamond, Confortably Numb, Time ou Another Brick in the Wall (Part 2) são transformados em terapias musicais para as ressacas de fim de noite. Nunca pensei vir a sentir que as notas de Brain Damage, por exemplo, estavam a fazer-me festinhas – deve ser por isso que este género de música se chama chillout. Acalma, relaxa e, ao contrário de outras manifestações artísticas, incluindo as dos próprios Floyd, tem como objectivo supremo adormecer-te.

O génio criativo de Waters, Gilmour e Wright – engomado e perfumado até à exaustão – é-nos servido numa sessão de massagens musicais (não-tailandesas) que nos leva assim inexoravelmente ao sono. São duas e tal da manhã neste momento, parece-me um post apropriado.

Os responsáveis são uma banda de estúdio chamada Lazy. São indiscutivelmente bons músicos, sabem muito bem o que estão a fazer e a vocalista, Analiah, tem uma voz agradável. A receita deve estar a funcionar, porque para além de mimetizarem os Floyd também resolveram fazer o mesmo com os U2.

Neste caso, a sensação é igualmente estranha. Ouvir With Or Without You ou Sunday Bloody Sunday em versão chillout é como ver o The Edge a tocar acordes metafísicos de guitarra com um gorro a dizer Hello Kitty enquanto o Bono canta uma canção do Noddy em dueto com a Myra Cyrus, em suma, os problemas do mundo não existem e quem considerar o contrário é louco varrido.

Pronto, está bem, estou a exagerar um bocadinho, para efeitos blogosféricos. Tanto o disco dos Floyd como o dos U2 estão muito, muito bem feitos, um trabalho de verdadeiros pros. Se o chillout é a tua cena, passa para o próximo parágrafo.

Pois, cá estás tu. Serve então este bloquinho de texto para vos apresentar as devidas provas documentais do que tenho estado para aqui a escrever: o chillout dos Floyd, clica aqui, e o chillout dos U2, clica aqui, valente. Boas audições. Cá estarei à espera de ler as vossas impressões sobre os documentos que vos coloquei à disposição. Não se acanhem e opinem sobre o que escutaram. Até logo e bom fim-de-semana!

→ 03/09/2010 @17:44

Radiohead: mais uma pequena e exemplar história

A 23 de Agosto de 2009, um grupo de fãs checos dos Radiohead filmou um concerto em Praga: a ideia era reunirem-se depois, juntar as múltiplas filmagens captadas pelas câmaras digitais, fazer a montagem e mostrar a banda sob o maior número possível de ângulos. Finalmente, um DVD seria feito e distribuído na Internet.

Os Radiohead souberam disto. Em vez de ameaçar os fãs com processos legais como fazem os mafiosos da RIAA, resolveram ajudar. E forneceram, sem exigir nada, a gravação do concerto registado pelo próprio equipamento de mistura da banda. Da decisão dos Radiohead em apadrinhar o projecto resultou uma qualidade sonora superior a qualquer gravação pirata. O concerto pode ser descarregado livremente em qualidade DVD ou visto no YouTube, dividido por temas. Link

→ 23/07/2010 @17:18

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (V)

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O blues, a base do jazz. Uma cantora com uma voz única: conta José Duarte que a primeira vez que tocou um disco de Billie Holiday na rádio o locutor reagiu, alarmado: «Está na rotação errada!». Não, não estava, a voz dela é mesmo assim. Depois os músicos que a acompanham neste especial da CBS, gravado em 1957, dois anos antes da morte da cantora: Ben Webster, um fadista a solar, Coleman Hawkins, enérgico, Lester Young, frágil e nostálgico (também morreu dois anos depois), Gerry Mulligan, lírico – cada um com o seu estilo, técnica e personalidade.

Na sua essência, creio, é isto o jazz. O vídeo expõe-nos este maravilhoso estilo de música. E se este tema, Fine and Mellow, se encontra nesta série de momentos arrepiantes deve-se precisamente a este grande momento de televisão: vejam como Billie Holiday reage aos solos de cada um dos músicos que a rodeam, às vezes com uma expressão de reconhecimento (Hawkins), surpresa (Mulligan) ou profunda cumplicidade (Lester Young). O Jazz, neste vídeo, surge-nos como pura poesia.

→ 21/07/2010 @15:04

Músicas que me arrepiam até à raiz dos cabelos (IV)

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O prelúdio de Tristão e Isolda, de Wagner: música que se ouve de olhos fechados, pelo que o elemento vídeo aqui não é tão importante. Parafraseando um comentador no YouTube, «se me paran los pelos del culo. Increible.»

(Nota: o vídeo termina um minuto antes do prelúdio chegar ao fim, mas o que está lá é suficiente para se ter uma ideia, acreditem. E escolham a opção HD On para uma melhor qualidade de som!)