É hoje. Dia 3. O último dia no Planeta Verde. Uma alma de extrema sensibilidade musical lembrou-se de encher a sala com os sons de Echoes, um dos melhores temas dos Pink Floyd. Caro DJ, não sei quem tu és, pá, mas desejo-te uma longa e próspera vida, e que os auscultadores nunca te caiam das orelhas.
Faz bem ouvir Pink Floyd aqui. É suficientemente geek para não destoar, contém um travo psicadélico que combina bem com o verde Salada Matrix do pavilhão e é suficientemente rico em termos musicais para nos lembrar que hoje, ao terceiro dia, o Codebits se revela em toda a sua dimensão humana.
Hoje é o dia em que pelo menos 100 equipas apresentam os seus projectos diante de um júri, distribuído pelos palcos secundários. É um processo de triagem absolutamente necessário para que não fiquemos aqui a noite toda e para garantir a qualidade e fiabilidade das apresentações. Este processo de pré-selecção reduzirá as apresentações a metade.
Ecos de humanidade num pavilhão cheio de máquinas: «Tanto trabalho para nada». «Estás triste?», pergunta um. «Não não», responde outro, com tristeza na voz. «Não faz mal, ao menos aprendi umas cenas. Fica para o ano.» Membros de uma equipa eliminada na pré-selecção discutem corajosamente quais os aspectos a melhorar no projecto. Já ganharam, portanto.
São os próprios participantes do Codebits a eleger os vencedores. Cada equipa tem 90 segundos para apresentar o projecto. É uma pré-condição dura, mas promove o lendário desenrascanço tuga ao nível dos bits e bytes. Também pode dar azo a que se mostrem projectos que rebentem na plateia como fogo de artifício ou flutuem como zepelins luminosos, já concebidos com a barreira dos 90 segundos em mente – só para causar uma boa impressão instantânea.
À excepção do júri, ninguém sabe bem o que pode sair destas apresentações – é esse o espírito que anima o evento. Também não é um concurso no sentido José Carlos Malato do termo: acredito que a maioria não saberá dizer de cor a lista completa de prémios. É uma excelente oportunidade de pessoas exporem ideias perante os seus pares e os geeks seniores do Sapo (talvez o factor motivador mais importante).
Por outro lado, o que são 90 segundos num mundo electrónico onde os fenómenos são vulgarmente medidos ao milissegundo? Muito tempo. Se um electrão demorasse um minuto e meio a percorrer a distância entre o ecrã do portátil e a nossa cadeira seria o Manoel de Oliveira dos electrões – não por ser chato ou desinteressante, mas pela sua espectacular longevidade. Do ponto de vista de um electrão, uma apresentação de 90 segundos é uma seca monumental – por isso, geeks, o vosso mundo é rápido, é mesmo muito, muito rápido. Desenrasquem-se.
Na perspectiva de um não-geek, este é o momento em que nos é mostrada, ao mesmo tempo, a força e fragilidade dos seres humanos. Nós somos muito mais inteligentes e flexíveis e criativos do que qualquer máquina conseguirá ser nas próximas décadas, mas temos tendência para cometer erros quando precisamos de processar os dados muito rapidamente. As máquinas, por outro lado, fazem lembrar aquele tipo de aluno capaz de memorizar toda a matéria sem verdadeiramente a perceber – além disso, são rápidas. Mesmo muito rápidas.
As máquinas coleccionam, mas não interiorizam. E eis que se aproxima o momento durante o qual dezenas de seres humanos colocarão no hardware toda a sua confiança. Nervos. Ansiedade. Stress. Tudo correrá bem, e as máquinas com as quais o meu software comunica não me deixarão ficar mal – o verde da esperança geek. Da próxima vez que virem um a falar sozinho com o computador, não pensem que é maluquinho: é simplesmente alguém a esforçar-se desesperadamente para salvar uma relação.
Pronto, está quase. Que os nacos nucleares que comeram ontem não vos embaracem hoje durante as apresentações, é o que vos desejo. E se para o ano a organização organizar uma feijoada nuclear, não ponho cá os pés.





























