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→ 27/04/2012 @1:43

Mixtape: No Chill Out Zone

Há muitos anos (raios, estou a ficar velho) as madrugadas da MTV, aos fins de semana, eram preenchidas por um programa chamado Chill Out Zone. Sempre que podia, ficava a ver: era completamente diferente do lixo habitual. Cheguei a gravar os videoclips de que mais gostava.

Nessa altura só ouvia jazz, Floyd e Zappa, pelo que a descoberta dessas músicas alternativas mais eletrónicas veio aumentar o meu reportório de músicos e CDs para comprar. Nesse programa descobri Bjork, Portishead, Massive Attack, Tricky e muitos outros – uns ficaram até hoje, outros foram perdendo interesse.

 

No Chill Out Zone (Lado A)


Esta mixtape é feita a pensar no espírito de descoberta madrugadora desses tempos. Chamei-lhe No Chill Out Zone porque o alinhamento não é exclusivamente eletrónico como acontecia no programa original, contém rock e os habitualmente presentes Radiohead.

Ainda assim, a escolha de grande parte dos temas foge ao habitual (nada de jazz ou rock progressivo, por exemplo) e acredito que ainda não conheçam alguns destes músicos – tal como me aconteceu a mim nessas noites de insónia. Por exemplo, um dos meus temas preferidos desta mixSelatius, 17th Century – é do Victor Afonso, aka Kubik, entrevistado por mim neste post. É português e lançou um dos melhores discos do ano. Outro dos meus preferidos é também português, Carlos Bica: uma versão maravilhosa do tema do filme Paris, Texas. Quem os conhece?

Se gostarem, daqui a uns tempos faço outra.
 

No Chill Out Zone (Lado B)

Eis uma informação que se repetirá sempre: no espírito de partilha e divulgação que caracteriza estes posts, decidi dividir estas mixtapes em dois, Lado A e Lado B, como se estivesse a gravar uma cassete – aquelas cassetes que costumávamos gravar para os amigos quando não nos era possível encurralá-los diante da aparelhagem para que conhecessem as «nossas» músicas…

→ 22/04/2012 @0:42

Notas de viagem: as novas mixtapes

Como forma de agradecimento aos que me enviaram os ficheiros CUE das ‘rádios’ que perdi, resolvi iniciar uma nova série de mixtapes baseada parcialmente nessas sequências.

Os que já conhecem bem o blogue dispensam grandes considerações, já sabem com o que contam. Para os que partilham os meus gostos ecléticos e sempre descarregaram as anteriores vejo duas vantagens em ‘colecionar’ esta série: primeiro, porque embora algumas sequências vos sejam familiares, acabei por refazer tudo com muita música nova; segundo, porque incluí um ficheiro WAV (máxima qualidade, portanto) e um CUE compatível com qualquer programa de gravação. Por razões óbvias, estes ficheiros têm prazo de validade.

Aos que ainda não conhecem bem o blogue: estas mixtapes misturam diversos géneros e épocas, ao sabor do momento, fluindo como uma viagem de paisagens diferentes – daí o nome.

Só existem dois géneros de música para mim: a que gosto e não gosto. Tanto oiço Debussy como Jimi Hendrix. Se é realmente necessária uma indicação, encontrarão ao longo destas séries muito jazz, rock progressivo, outras variantes do rock, sobretudo post-rock, alguma clássica e música de expressão portuguesa. Também tenho tendência a escolher os temas mais calmos, a ver se corrijo estes favorecimentos em futuras ‘cassetes’.

 

Notas de Viagem (I – Lado A)


 

Notas de Viagem (I – Lado B)

No espírito de partilha e divulgação que caracteriza estes posts, decidi dividir estas mixtapes em dois, Lado A e Lado B, como se estivesse a gravar uma cassete – sabem, aquelas cassetes que costumávamos gravar para os amigos quando não nos era possível encurralá-los diante da aparelhagem para que conhecessem as «nossas» músicas…

→ 19/04/2012 @19:07

Jan Garbarek, o filho de Bure

Era uma vez um contrabaixista alemão com formação clássica e gostos abrangentes que resolveu colocar em prática um objectivo nada razoável: fundar uma editora cujos discos cobrissem todos os estilos que apreciava e fosse uma alavanca para forjar uma nova música feita de várias músicas.

Pensou-a como uma editora transnacional e transcultural no espírito, características que ele já encontrava no jazz e que, apesar das origens norte-americanas do género, pretendia que tivesse um cunho arreigadamente europeu.

Imaginou a música proposta por essa etiqueta como «o mais belo som depois do silêncio», de alguma maneira representando a «música das esferas celestes», afinal aquela mesma sobre a qual escreveram os filósofos gregos nas suas descrições da formação e do funcionamento do cosmos.

Manfred Eicher

Esse contrabaixista tornado editor e produtor chama-se Manfred Eicher e o seu projecto ficou conhecido como ECM, iniciais de Edition of Contemporary Music.

Decorrida da vontade de gravar um grupo de jazz como se fosse um quarteto de cordas erudito, ou vice-versa, a designação «som ECM» não contempla apenas os aspetos técnicos necessários para chegar à acústica cristalina intencionada por Eicher, mas igualmente uma musicalidade que, em certos casos, pode mesclar a sincopação do jazz com o rigor da música sinfónica e de câmara, a espiritualidade da polifonia sacra, a ancestralidade presente tanto nas canções medievais e na composição barroca como no folclore do Velho Continente, e ainda a energia do rock.

 

Processo químico

Jan Garbarek fotografado por Iulian Ignat

Esta aspiração a uma meta-música da era global encontrou no norueguês Jan Garbarek um dos seus mais bem-sucedidos praticantes, pelo facto de todos os ingredientes que utiliza nas suas muito pessoais propostas não surgirem simplesmente como um melting pot ou um pastiche de géneros, mas como a decantação das suas respectivas essências – um processo químico muito similar ao da perfumaria que o saxofonista e compositor levou a cabo com um raro sentido de ascetismo estético.

Os encontros de Garbarek com o Hilliard Ensemble, grupo vocal britânico especializado em repertório antigo, ou com Kim Kashkashian, a violetista arménia preferida de autores contemporâneos como Arvo Part, Sofia Gubaidulina, Gyorgy Kurtág e Tigran Mansurian, tornaram-se possíveis pelo facto de o seu programa musical parecer estar além do tempo e do espaço, não obedecendo a conotações de época e de lugar.

E no entanto… Se Manfred Eicher foi atrás de um mito universalista e atemporal e há décadas que está a torná-lo de algum modo em realidade, o jazz transfigurado de Jan Garbarek e de outras figuras dos países escandinavos deram-lhe contornos regionais que provavelmente o patrão da ECM não previra.

É certo que a mitologia germânica tem pontos comuns com a da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Finlândia e da Islândia (Odin, o deus da guerra, mas também da sabedoria e da poesia, é originário da Alemanha Ocidental), mas não é isso que explica o facto de o paganismo nórdico ser neste catálogo uma referência cultural identitária.

Será Garbarek, sobretudo, o responsável: a sua música onírica, fantasiosa e contemplativa recorda-nos o povo de descobridores e guerreiros marítimos que descende do primeiro homem, Bure, nascido da respiração de Audhumbla, a mãe de todas as vacas, gerada pelas chamas lançadas a partir de Muspelheim no abismo de gelo e escuridão que era o mundo dos primórdios.

Esta é, bem-entendido, uma carga difusa nas criações de Garbarek, mas está presente na nostalgia arcaica das suas melodias e na irrealidade enevoada das atmosferas que constrói.

Que distante se encontra o músico, hoje, dos seus ídolos nas décadas de 1960 e 70, John Coltrane e Albert Ayler, mas algumas consequências terá tido o trabalho que desenvolveu na altura com Don Cherry e George Russell – já então o trompetista valorizava o factor etnicidade e o compositor e director de orquestra tinha com o seu Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization demonstrado que circunscrever o material sonoro a utilizar é o melhor recurso contra o excesso de verbosidade que, infelizmente, sempre caracterizou muito do jazz.

Daí partiu para a música de cunho cinemático que imediatamente reconhecemos como sendo dele, por vezes até descritiva da paisagem natural norueguesa.

 

Ymer, o gigante

Curiosamente, rodeou-se ao longo dos anos por músicos de outras nacionalidades que não a sua – Ralph Towner, Bill Connors, Bill Frisell, David Torn, John Abercrombie, Keith Jarrett, John Taylor, Rainer Bruninghaus, Charlie Haden, Miroslav Vitous, Eberhard Weber, Yuri Daniel, Billy Hart, Peter Erskine, Michael DiPasqua, Nana Vasconcelos, Trilok Gurtu e Manu Katché não são propriamente de ascendência viking, ou, se algum a tem, é muito remota.

Sem recear acusações de «exotismo», foi em diálogos como os estabelecidos com o oudista tunisiano Anouar Brahem ou com o guitarrista e pianista brasileiro Egberto Gismonti que melhor percebemos o quanto a sua voz está enraizada na terra.

O “país musical” de Jan Garbarek pode ser mitológico e estar habitado por faunos e amazonas, mas quando ouvimos o seu saxofone só podemos concluir que existe mesmo.

Há quem lhe tenha encontrado elementos, ou pelo menos «ecos», das tradições balcânica, eslava, turca e carnática, mas a explicação pode estar mais fundo do que a ideia de que todos os folclores do mundo têm um tronco comum ou de que a Eurásia é uma realidade mais evidente do que julgamos.

Talvez os mares sejam efectivamente o sangue de Ymer, o gigante, e o céu que nos cobre as cabeças o lado de dentro do seu crâneo, as nuvens o seu cérebro e as montanhas de todo o planeta o esqueleto em que nos movemos.

→ 15/04/2012 @12:57

Algoritmos, meias e sapatos

Foto: José Carneiro

Quem estudou um pouco de matemática e percebe de computadores sabe que diferentes algoritmos podem realizar a mesma tarefa de várias maneiras, com performances necessariamente distintas para a completar.

A esse propósito, encontramos na Internet um exemplo curioso: «Um algoritmo pode especificar que você calce primeiro as meias e os sapatos antes de vestir as calças, enquanto outro especifica que você deve primeiro vestir as calças e só depois calçar as meias e os sapatos. Fica claro que o primeiro algoritmo é mais difícil de executar do que o segundo.»

A divertida alusão tem um pressuposto, o de que um algoritmo não é apenas executável com uma máquina. Afinal, trata-se do nome que se dá a um conjunto de processos determinados por um cálculo, processos e cálculo esses que podem ser desempenhados por um indivíduo com os seus próprios meios físicos e mentais.

Para todos os efeitos, o ser humano ainda é a máquina mais complexa que existe, e também a mais espontânea nas execuções a que se propõe.

Ora, o núcleo de trabalho algorítmico na área da música e do audiovisual designado por @c tem a particularidade de combinar algoritmos humanos e algoritmos informáticos nas suas atuações…

O que quer dizer que a sua arte eletrónica não é «auto-erótica» (nesse aspeto estando bem longe dos conceitos aplicados por Markus Popp no projecto Oval) e sim um sucedâneo da excelente imagem de William Burroughs em «Naked Lunch»: nesta, a personagem-escritor estimula o ânus de uma máquina de escrever mutante com uma mão que antes mergulhara em veneno para baratas.

Ouvimos a encenação da disfuncionalidade digital que é, por exemplo, «Study» e essa referência performativa vem-nos inevitavelmente à memória.

Aliás, lá está a máquina de escrever de Burroughs a manifestar-se ruidosamente na faixa 6…

Os algoritmos utilizados ao longo das peças deste CD do duo constituído por Miguel Carvalhais e Pedro Tudela e respetivos laptops (cada um deles com mais capacidade do que o computador que levou os americanos à Lua) preferem, na maior parte dos casos, calçar primeiro as meias e os sapatos e só depois as calças.

Levam mais tempo a consegui-lo, mas é na dificuldade, e na ultrapassagem desta, que está a mais-valia dos seus conseguimentos. Travail accompli.

→ 13/04/2012 @16:40

Bestial Bestiário

Conheço o Rui há mais de 15 anos, desde os tempos remotos em que era copydesk numa revista de televisão e eu um dos jornalistas.

Sendo a música uma parte tão importante da minha vida, podem imaginar o que significou conversar com alguém conhecedor de músicos e músicas que jamais suspeitei que existissem e, ainda por cima, um tipo porreiro e acessível, desejoso de partilhar conhecimentos. Tornámo-nos grandes amigos e, à conta dele, sofri várias ‘apoplexias musicais’.

Perdemo-nos de vista durante quatro ou cinco anos, mas quando finalmente nos reencontrámos para beber um café, há uns meses, retomámos a conversa como se nos tivéssemos despedido no dia anterior. Atualmente é co-autor deste blogue – e assim se manterá.

Li e tenho todos os livros que publicou, de «Ruínas» ao «Stravinski Morreu», e lá estarei em Lisboa para a apresentação do último, «Bestiário Ilustríssimo». É um longo percurso profissional e humano sobre o qual já disse o essencial no prefácio que me convidou a escrever.

Ele é de longe o melhor jornalista de música em Portugal: não sou apenas eu que o digo, o Google também concorda (para grande embaraço do Rui).

É o melhor porque parte da música para nos dar um maior conhecimento da vida e das vidas que a fazem. Tem imensa cultura, mas expõem-a com simplicidade e sem exibicionismos: o foco da sua escrita é sempre o que os outros fazem, por que razão o fazem e quais os significados que podemos retirar do que fazem. Para o Rui, a música é um mapa da vida e cada livro um convite à exploração. E se ele não tem o reconhecimento público que merece deve-se ao facto de a sua excelente escrita e abordagem serem incompatíveis com a passividade acrítica do consumidor de três minutos e meio de música.

Convido por isso todos os leitores e visitantes do Bitaites a deslocarem-se esta terça, 17 de Abril, à Rua do Alecrim 21-A (ao Cais do Sodré), na Trem azul Jazz Store, a partir das 21.30, onde este livro nos será apresentado.

→ 30/03/2012 @13:33

Mercedes Benz artilhado

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(Janis Joplin, Mercedes Benz: Medicine Head Remix 2)

→ 29/03/2012 @19:26

Descobri que gosto de azeitonas

Em primeiro lugar, a notícia que muitos de vocês já conhecerão: o Partido Socialista decidiu retirar a proposta de lei 118, uma taxa extorsionária que visava, mais do que «compensar» os músicos pelas «cópias privadas», salvar economicamente uma SPA descontroladamente despesista.

Claro que esta batalha foi ganha, mas a guerra irá continuar: a ex-ministra Canavilhas e a sua pandilha de representantes da cultura voltarão à carga, mais tarde ou mais cedo. E cá estaremos nós, os «representantes de interesses obscuros», para lhes moer o juízo e proteger as nossas carteiras.

 

E agora o que interessa, a música


Quero dar-vos a conhecer um projeto de um grupo de malta suficientemente louca para fazer música e disponibilizá-la gratuitamente – só para chatear os psicopatas do copyright, aposto.

Eles acreditam «em cães-robô, naves espaciais, colónias em Marte, teletransporte, cápsulas de bacalhau à brás, fatos de latex espelhado» e, como é natural em gente doida que não faz do dinheiro o primeiro e único objetivo da sua vida, «música distribuída gratuitamente através da rede global».

Que muita gente goste destas músicas (eu gosto do humor e do sentido «conceptual» do projeto) e muitos compareçam aos seus concertos e os apoiem assim, é o que lhes desejo. Vai umas azeitonas?

Gostam do disco Rádio da Alegria? É só uma pequena parte da história. No blogue do grupo há mais: telediscos (aposto que eles detestam videoclips), conversa de xaxa, desenvergonhadas manobras de auto-promoção e muita música. (Obrigado ao Gilberto Pereira pela dica no Twitter)