Era uma vez um contrabaixista alemão com formação clássica e gostos abrangentes que resolveu colocar em prática um objectivo nada razoável: fundar uma editora cujos discos cobrissem todos os estilos que apreciava e fosse uma alavanca para forjar uma nova música feita de várias músicas.
Pensou-a como uma editora transnacional e transcultural no espírito, características que ele já encontrava no jazz e que, apesar das origens norte-americanas do género, pretendia que tivesse um cunho arreigadamente europeu.
Imaginou a música proposta por essa etiqueta como «o mais belo som depois do silêncio», de alguma maneira representando a «música das esferas celestes», afinal aquela mesma sobre a qual escreveram os filósofos gregos nas suas descrições da formação e do funcionamento do cosmos.

Manfred Eicher
Esse contrabaixista tornado editor e produtor chama-se Manfred Eicher e o seu projecto ficou conhecido como ECM, iniciais de Edition of Contemporary Music.
Decorrida da vontade de gravar um grupo de jazz como se fosse um quarteto de cordas erudito, ou vice-versa, a designação «som ECM» não contempla apenas os aspetos técnicos necessários para chegar à acústica cristalina intencionada por Eicher, mas igualmente uma musicalidade que, em certos casos, pode mesclar a sincopação do jazz com o rigor da música sinfónica e de câmara, a espiritualidade da polifonia sacra, a ancestralidade presente tanto nas canções medievais e na composição barroca como no folclore do Velho Continente, e ainda a energia do rock.
Processo químico

Jan Garbarek fotografado por Iulian Ignat
Esta aspiração a uma meta-música da era global encontrou no norueguês Jan Garbarek um dos seus mais bem-sucedidos praticantes, pelo facto de todos os ingredientes que utiliza nas suas muito pessoais propostas não surgirem simplesmente como um melting pot ou um pastiche de géneros, mas como a decantação das suas respectivas essências – um processo químico muito similar ao da perfumaria que o saxofonista e compositor levou a cabo com um raro sentido de ascetismo estético.
Os encontros de Garbarek com o Hilliard Ensemble, grupo vocal britânico especializado em repertório antigo, ou com Kim Kashkashian, a violetista arménia preferida de autores contemporâneos como Arvo Part, Sofia Gubaidulina, Gyorgy Kurtág e Tigran Mansurian, tornaram-se possíveis pelo facto de o seu programa musical parecer estar além do tempo e do espaço, não obedecendo a conotações de época e de lugar.
E no entanto… Se Manfred Eicher foi atrás de um mito universalista e atemporal e há décadas que está a torná-lo de algum modo em realidade, o jazz transfigurado de Jan Garbarek e de outras figuras dos países escandinavos deram-lhe contornos regionais que provavelmente o patrão da ECM não previra.
É certo que a mitologia germânica tem pontos comuns com a da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Finlândia e da Islândia (Odin, o deus da guerra, mas também da sabedoria e da poesia, é originário da Alemanha Ocidental), mas não é isso que explica o facto de o paganismo nórdico ser neste catálogo uma referência cultural identitária.
Será Garbarek, sobretudo, o responsável: a sua música onírica, fantasiosa e contemplativa recorda-nos o povo de descobridores e guerreiros marítimos que descende do primeiro homem, Bure, nascido da respiração de Audhumbla, a mãe de todas as vacas, gerada pelas chamas lançadas a partir de Muspelheim no abismo de gelo e escuridão que era o mundo dos primórdios.
Esta é, bem-entendido, uma carga difusa nas criações de Garbarek, mas está presente na nostalgia arcaica das suas melodias e na irrealidade enevoada das atmosferas que constrói.
Que distante se encontra o músico, hoje, dos seus ídolos nas décadas de 1960 e 70, John Coltrane e Albert Ayler, mas algumas consequências terá tido o trabalho que desenvolveu na altura com Don Cherry e George Russell – já então o trompetista valorizava o factor etnicidade e o compositor e director de orquestra tinha com o seu Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization demonstrado que circunscrever o material sonoro a utilizar é o melhor recurso contra o excesso de verbosidade que, infelizmente, sempre caracterizou muito do jazz.
Daí partiu para a música de cunho cinemático que imediatamente reconhecemos como sendo dele, por vezes até descritiva da paisagem natural norueguesa.
Ymer, o gigante
Curiosamente, rodeou-se ao longo dos anos por músicos de outras nacionalidades que não a sua – Ralph Towner, Bill Connors, Bill Frisell, David Torn, John Abercrombie, Keith Jarrett, John Taylor, Rainer Bruninghaus, Charlie Haden, Miroslav Vitous, Eberhard Weber, Yuri Daniel, Billy Hart, Peter Erskine, Michael DiPasqua, Nana Vasconcelos, Trilok Gurtu e Manu Katché não são propriamente de ascendência viking, ou, se algum a tem, é muito remota.
Sem recear acusações de «exotismo», foi em diálogos como os estabelecidos com o oudista tunisiano Anouar Brahem ou com o guitarrista e pianista brasileiro Egberto Gismonti que melhor percebemos o quanto a sua voz está enraizada na terra.
O “país musical” de Jan Garbarek pode ser mitológico e estar habitado por faunos e amazonas, mas quando ouvimos o seu saxofone só podemos concluir que existe mesmo.
Há quem lhe tenha encontrado elementos, ou pelo menos «ecos», das tradições balcânica, eslava, turca e carnática, mas a explicação pode estar mais fundo do que a ideia de que todos os folclores do mundo têm um tronco comum ou de que a Eurásia é uma realidade mais evidente do que julgamos.
Talvez os mares sejam efectivamente o sangue de Ymer, o gigante, e o céu que nos cobre as cabeças o lado de dentro do seu crâneo, as nuvens o seu cérebro e as montanhas de todo o planeta o esqueleto em que nos movemos.