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→ 25/09/2011 @18:33

Meu Deus, dá saúde ao John Lurie

Senhor que estás no Alto,

Sabes bem que nunca te pedi nada. Sou como o Nick Cave, não acredito num Deus interventivo (não sei se, na tua omnisciência, já ouviste o álbum «The Boatman’s Call», mas se não, aconselho-te uma escuta – ele canta um verso sobre essa questão).

Aliás, o Deus em que creio é a matéria gasosa original de que nascem as estrelas e de que fala o Marco neste post, de que também me permito recomendar-te a leitura…

(as minhas desculpas, mal comecei esta oração e já me estou a desviar do assunto que me traz)

Mesmo desconfiando que o meu apelo não resulte, atrevo-me pela primeira vez a fazer-te um pedido. O de que dês saúde ao John Lurie, um músico muito cá da minha predileção.

Com certeza que sabes quem é. Pelo menos cresci a ouvir dizer que conheces pessoalmente todas as tuas criaturas. Pois o John sofre de uma doença neurológica que o impede de tocar o seu saxofone. Em consequência, uma das minhas bandas de jazz preferidas deixou de existir: Lounge Lizards.

O exemplar que tenho do último CD que publicou, «Queen of All Ears», de 1998 D.C., já está com soluços digitais de tanto ser usado. Gostaria muitíssimo que saíssem outros da forja.

Eu sei que estou a incorrer no pecado do egoísmo, mas peço que compreendas. Viver sem os Lounge Lizards é como… sei lá… viver longe do mar, ou num país onde o sol aparece poucas vezes.

Por favor, conserta lá o homem e faz um grande favor à parte da humanidade que gosta de música da boa e a mim que gosto ainda mais do que todos os outros. Permite que os Lounge Lizards voltem a dar concertos e a gravar discos.

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Olha, deixo-te aqui um vídeo do grupo para ajuizares por ti mesmo da necessidade desta reparação. O John é aquele tipo com aspeto de lagartixa que está a soprar no sax.

Cura-o, está bem? Ámen e obrigado. O quê? Devo fazer uma promessa? Pronto, prometo que nunca mais ouço o Cave…

→ 25/09/2011 @12:59

Para sempre juntos

Quando vi esta foto pela primeira vez, ainda muito jovem, fiquei fascinado.

A pose dos dois fotografados podia ser encenada e ostentava essa condição, mas ao mesmo tempo emanava destas duas figuras – o cantor pop-rock David Bowie e o escritor William S. Burroughs – uma força interior que me fazia sentir que não se tratava, apenas, de personagens de uma representação teatral.

Uma havia partido da encarnação de Ziggy Stardust, o extraterrestre que liderava a banda Spiders From Mars, a outra personificava William Lee, o protagonista junkie de «Naked Lunch». Mas já não eram seres de ficção – os criadores Bowie e Burroughs tinham-se tornado eles próprios nas suas criaturas.

Bem sei que estes dois homens foram sempre uns refinados poseurs, com a consciência de que estavam permanentemente no palco. Ainda assim, acreditava eu que pessoas capazes de desafiar as convenções e de afirmar mundos criativos únicos como estes fizeram têm, inevitavelmente, uma substância mais densa do que a dos comuns mortais.

Fizeram do seu imaginário uma realidade, algo que está vedado à maior parte de nós…

O ser andrógino que era David Bowie podia apenas querer ser condizente com a estética de baton e plumas do glam rock, mas foi entendido de forma mais abrangente como um símbolo da bissexualidade, o nome que se deu à capacidade de amar qualquer um independentemente da sua morfologia genital.

O certo é que esse ícone subsistiu ao longo de décadas, apesar de o músico ter optado na «vida real» por relacionamentos heterossexuais. Especulou-se muito sobre as suas ligações íntimas com Iggy Pop e Mick Jagger, mas não só estes também seguiram por caminhos straight como Bowie, mais tarde, colocou uma pedra sobre o assunto dizendo à imprensa que ninguém tinha nada que saber onde (em quem) ele metia a pila quando tinha 20 anos.

Quanto a Burroughs, que até se vestia como um conservador gentleman britânico, é que não há dúvidas quanto à sua homossexualidade, publicamente assumida e retratada nos seus romances. Isso apesar de ter casado com uma mulher, a mesma que ele matou quando, um dia, em estado alterado de consciência, resolveu fazer um número à Guilherme Tell disparando para uma maçã colocada no cimo da cabeça dela. O fruto ficou intacto, mas a desafortunada senhora é que não.

Ainda hoje se pergunta se Bowie e Burroughs deram alguma cambalhota juntos quando se conheceram, mas a verdade é que tal não interessa…

O que interessa é que, no mundo cada vez mais cinzento, medíocre, uniformizado e conformista em que vivemos, eles representam a genial loucura que nos faz (fazia) humanos. Podemos, ou não, lamentar o abuso de drogas e torcer o nariz à promiscuidade sexual, mas por algum motivo David Bowie surge ao lado de William S. Burroughs, e William S. Burroughs ao lado de David Bowie, nesta fotografia, e não eu ou quem me está agora a ler.

→ 24/09/2011 @23:56

É pá, eu gosto é de rock (7)

Aguentem-se à bronca, que este post é duro. Vai aqui jazz-rock ultra-riffado, um rock tão free que entra pelos infernos do noise, um herético misto com o gospel temente a Deus e psicadelia American weird alimentada a ácidos estragados da Alemanha dos anos 70.

São muitos os caminhos da música dos pedregulhos e estes são quatro dos mais acidentados. Bom proveito e fiquem bem…

 

Led Bib: «Sensible Shoes» (Cuneiform)

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Por esta altura, só não acredita na morte do jazz de fusão, vulgo jazz-rock, quem não percebeu que, algures na década de 1970, este se estava a dirigir para um beco sem saída.

Porque ficou exaurido de ideias e também porque o quiseram comercialmente pasteurizado.

E no entanto, algo lhe sobreviveu: a equação proposta por «Bitches Brew» de Miles Davis, do lado do jazz, e por «Three» dos Soft Machine, do lado do rock, foi retomada mais adiante com a descoberta de que a vertente free do jazz, a música contemporânea menos académica, o punk e o metal ofereciam vocabulários que a podiam revitalizar.

Para tal, foi necessário chegar a uma verificação que tardava: a de que as principais virtudes dos investimentos crosscurrent originais tinham sido a inovação e o não-conformismo. A banda Led Bib surge no âmbito deste novo estádio fusionista.

Ambas as formações ganharam um rótulo tão (des)propositado quanto qualquer outro: o de death jazz. Se com a designação se procura referir a energia e o rocking power da música dos Led Bib, até que se aplica.

«Sensible Shoes» é tão entusiasmante em termos de criatividade e inventividade quanto de performance. Ao longo do álbum, há sempre mais uma faceta para descobrir (repare-se em «2.4.1.», um tributo à compositora eletrónica Delia Derbyshire, arranjadora do tema musical da série televisiva «Doctor Who»).

O que os caracteriza, sobretudo, é terem uma frontline com dois saxofones alto – a principal referência está nos Prime Time de Ornette Coleman, mas com o filtro de «Spy Vs. Spy», o disco-duelo de John Zorn e Tim Berne.

Ora, se o sax se tornou num ícone do jazz, neste CD o instrumento está tão cool que rivaliza com o poder da guitarra.

O que David Jackson, o soprador dos Van Der Graaf Generator, tanto ambicionou ao ligar as suas ferramentas a um amplificador, poderá finalmente estar perto de acontecer… Ler mais »

→ 24/09/2011 @2:48

Rádio Bitaites /3

Quando decidi que havia condições para «ressuscitar» estas rádios, achei que seria uma estupidez deixar cair alinhamentos anteriores; se tivesse tempo tentaria recriar alguns deles – os que me ficaram na cabeça, pelo menos.

Os visitantes mais antigos que reconhecem algumas dessas músicas ou alinhamentos têm a vantagem de os poder descarregar com a qualidade de som que não existia anteriormente.

Nesta abusei: quase hora e meia de música de todos os géneros – do pop mais apetitoso (mas nunca demasiado enjoativo) ao jazz, claro, sempre o jazz; passando por música clássica, folk, folk/rock, rock, rock progressivo. Uma viagem musical de múltiplas paisagens mas sempre com a preocupação de agradar ao maior número possível de pessoas: embarquem!

Elliott Smith. Ilustração: Michelle Eastman

[foi-se] E agora repito a regra habitual: o ficheiro mantém-se online enquanto não entrar a próxima «emissão» com o seu próprio ficheiro substituto. Os que se interessam realmente por estes posts nunca vão perder a oportunidade de sacar o flac. Bom fim de semana e boa música!

→ 21/09/2011 @4:06

Um dia a minha guitarra vai matar a tua mamã (V)

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(Brasil Duo interpretando «Sete Anéis», de Egberto Gismonti)

→ 20/09/2011 @16:26

Phill Niblock: fotógrafo de jazz

Diretor da Experimental Intermedia Foundation, de Nova Iorque, Phill Niblock é sobretudo conhecido como compositor e cineasta/videasta, mas poucos sabem que, antes dos discos e dos concertos e antes dos filmes tornou-se conhecido, em finais da década de 1950, como fotógrafo.

A sua obra musical continua os preceitos do minimalismo, com peças longas em formato de drone (blocos contínuos de som, mas com uma miríade de pormenores no interior) que devem aos elevados volumes sonoros, equivalentes aos do metal, os pretendidos choques de frequências.

A própria posição do ouvinte no espaço implica uma diferente perceção dos sons. Em alguns casos, basta virar a cabeça para a esquerda ou para a direita: a música muda substancialmente. Tudo é feito para que cada indivíduo oiça de maneira distinta os seus processos de fantasmização sónica.

No cinema são uma marca de estilo as imagens repetitivas de trabalho manual que foi registando nos quatro cantos do mundo, dos arrozais asiáticos à faina da pesca na Nazaré.

Sim, Portugal tem estado no mapa das constantes deslocações deste poli-artista de 78 anos de idade que várias gerações de músicos experimentais têm como referência. É o presidente do júri da Bolsa Ernesto de Sousa, que há cerca de 18 anos envia para a Big Apple nomes portugueses que entretanto se destacaram nas cenas nacional e internacional, em homenagem ao pioneiro da arte intermedia no nosso país.

Figuras como João Paulo Feliciano, Rafael Toral, Manuel Mota, David Maranha, Adriana Sá, Paulo Raposo, André Gonçalves, João Castro Pinto e Francisco Janes, entre outros, fizeram estágios no espaço que dirige na Chinatown nova-iorquina e estiveram em contacto ou trabalharam com criadores de primeiro plano como David Behrman, Ron Kuivila, Anthony Braxton, John Zorn ou Lee Ranaldo.

A simultaneidade da projeção dos seus filmes com as densas composições de estruturas aparentemente estáticas tem provocado nas audiências um efeito hipnótico. Algo de muito semelhante, inclusive, aos estados alterados de consciência quimicamente induzidos.

Já a fotografia de Niblock tinha como principal tema o jazz. Teve a oportunidade de privar com algumas das figuras históricas deste género musical, como Duke Ellington, Ben Webster e Charles Mingus, que fotografou em concertos, ensaios, nos camarins ou em casa.

Serve este post para apresentar essa faceta menos conhecida deste incansável viajante.

A paixão pelo jazz fazia pressupor que o seu futuro na música passaria por aí, mas assim não aconteceu – de qualquer modo, muitos dos instrumentistas que desde a década de 1960 lhe fornecem a matéria-prima sonora são improvisadores.

Quando as imagens em movimento o seduziram, começou por fazer um filme sobre / com Sun Ra, o emigrante do planeta Saturno na Terra. «Magic Sun» é hoje objeto de culto. Mas também virou a câmara para Arthur Russell, violoncelista experimental que foi igualmente um pioneiro da club music eletrónica e nos deixou excelentes canções pop – morreu em 1992, depois de uma dura batalha com o vírus HIV.

Aqui ficam dois exemplos desse investimento, provando uma vez mais que, nas artes, tudo está ligado.

Max Roach e Duke Ellington

Charles Mingus

→ 20/09/2011 @16:01

Rádio Bitaites /2

Segunda emissão desta «rádio» ressuscitada. É excelente para estudar, ler um livro, fazer meninos ou, se preferirem, ouvir música. Nomes e géneros tão díspares convivem no mesmo espaço sonoro – o costume.

Para os mais desatentos, a repetição das regras: o link [já se foi] manter-se-á online até ser publicada a próxima. Quando isso acontecer, o ficheiro desaparecerá do servidor para dar lugar ao novo.

Esta é a única forma que arranjei de disponibilizar um ficheiro de mais 400 megas com todas estas músicas em formato flac – uma espécie de Winzip dos ficheiros musicais. Inclui obviamente o .cue da praxe (flac e wave) e também uma playlist compatível com qualquer player decente de qualquer sistema operativo – o Windows Media Player não suporta flac e portanto não consta dessa lista, lamento. Boas audições.