
Joos van Craesbeeck
Segundo o compositor eletroacústico Yannis Kyriakides, a voz é a «música como natureza», a natureza da música, o nível em que a música está ainda no domínio do som, ou seja, em que não é música propriamente, organização de sons, mas Ruído.

Yannis Kyriakides
Expressão da fisicalidade e até da sensualidade do som, a voz primordial, a voz ainda não determinada pela palavra, está desligada da mente e do domínio do significado. É o som pelo som. É ruído. É a primitiva acústica humana, murmúrio e grito.
No princípio era o Verbo, reza a Bíblia, mas o verbo de que aqui se fala, Deus, não é necessariamente a Palavra ou o Sentido. «Logos», o termo grego original de difícil tradução que está na origem de tantos equívocos, é aquilo que somos enquanto seres humanos, mesmo que não saibamos como afirmá-lo.
Com mais importância ainda, na opinião de um outro compositor dos nossos dias, Andrew McKenzie (Hafler Trio), é ainda aquilo que queremos / podemos ser no processo de construção a que chamamos vida.
Genocídio do som
Por algum motivo, assim que a voz se tornou no veículo da palavra e da comunicação entre os homens também a música foi normatizada na correspondência das suas estruturas linguística e narrativa.
A funcionalização da voz fez com que os seus usos ficassem delimitados fonética, social e racionalmente. Da mesma forma, a música surgiu como a domesticação do som e a conversão utilitária deste.
Fala e canto são os dois aspetos de uma mesma vitória do cultural sobre o natural. E curiosamente, uma vitória instituída não pela prática oral da dita fala e do referido canto, mas pela escrita.
Através da escrita, a documental e a musical do mesmo modo, definiu-se o que se fala e o que se canta. Sobretudo, excluiu-se do seu âmbito tudo o que foi considerado desnecessário e supérfluo.
Com autorização da escrita, foram-se subtraindo sons. Chegou-se mesmo ao ponto de considerar que a escrita podia substituir a produção sonora dos signos que inicialmente formulara apenas para os indicar. É já música, como se advogou no século XVIII, a partitura que a sinaliza, não passando tal de um absurdo, de um contrassenso.
Noutro sector, o teatro (encenação da fala), o que é também a dramaturgia senão a transladação para a oralidade de um texto impronunciável?
A escrita, percebeu-se ao longo do passado século, é a perversão da linguagem e representa até o genocídio do som.
Acontece, porém, que o som é selvagem e não aceita este jugo passivamente… O EVP (Electronic Voice Phenomena) é bem um exemplo da sua tendência para se manifestar fora do confinamento a que foi sujeito.
Desde a invenção da rádio, do fonógrafo e dos gravadores áudio que vem sendo referida a audição de vozes vindas do Além, seja de espíritos ou de seres extraterrestres inteligentes.
«Apanhadas» no meio da estática e do ruído de superfície de discos e fitas, estas vozes vindas dos túmulos e do espaço sideral, sejam autênticas ou produto de imaginações mais férteis, começaram por nos surgir como irmãs da voz primordial que fomos obrigados a calar dentro de nós.
Irmãs, digo, porque vindas do «outro lado», aquele que desmente a nossa realidade.

Giacinto Scelsi
Este fator, mais a circunstância de se ter perdido o controlo do ruído nas urbes e nos complexos industriais, a que se somou entretanto a overdose informativa, e necessariamente oral, da televisão, levou a transformações radicais no uso da palavra e na música.
A improvisação como fator de criação teatral e musical trouxe o regresso da fala e do canto à voz, e para aí caminhou também a poesia, desestruturando-se, abandonando o campo semântico, entregando o sentido ao caos.
Visões pós-punk
Na música, a contemporaneidade manifestou-se por meio do primado do som. O som é já a «música», mesmo que não seja «musical». As vozes não cantam, são elas próprias: murmúrios e gritos de novo.
Provenientes dos media ou gravadas na rua, estão finalmente soltas. Podem até ter significado, mas este relativiza-se, confunde-se com todos os outros significados da sonosfera.
Quando perdem a racionalidade, é como se entrássemos na Esfera de Giacinto Scelsi (era assim que este via o som, como uma bola perfeita, sem arestas, cheia e erotizada): submergimos no som, somos Som.
No fim será o Verbo, é o que anuncia esta visão pós-punk de Deus, o nome que damos ao Absoluto do som, à Voz, a nós mesmos no mais fundo de nós, desencarnados e pela primeira vez expostos ao mundo.