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→ 18/05/2012 @19:41

Mixtapes: adormecer & acordar

Ando a escrever pouco e a abusar das mixtapes, mas sei que uns quantos aí desse lado não se importam – para mim, é suficiente.

Quando era puto e não conseguia adormecer, tinha a mania de fazer de conta que a minha cama era uma nave espacial e imaginava-me a voar até finalmente cair de sono. Poderia ter experimentado contar carneirinhos, mas nunca fui bom a Matemática e perdia sempre o fio à meada: nunca sabia muito bem quantos carneirinhos é que tinha contado e quantos mais teria ainda de contar. Voar com propulsão insonilizante era mais divertido.

Infelizmente, nunca cheguei a ficar acordado o tempo suficiente para ir muito longe: lembro-me vagamente que um dia consegui chegar às imediações de Plutão, mas na maior parte das vezes apagava-me mal saía pela janela. A minha nave espacial era uma maravilha da tecnologia, muito flexível, mas o piloto adormecia sempre ao volante.

Serve esta prosa toda para dizer que a primeira parte desta mixtape foi feita para substituir a cama desses velhos tempos: em vez de propulsor insonilizante tenho outra maravilha da tecnologia, uns auscultadores sem fio, e música a condizer.

 

Lado A (Adormecer)



Como me comprometi a fazer sempre dois lados destas mixtapes, achei giro que o Lado B (Acordar) fosse completamente contrastante com o A: onde este é geralmente calmo, melancólico e flutuante, aquele é mais elétrico, barulhento e histriónico. Não se deixem enganar pelas conjuras dos americanos nativos no tema inicial dos O Yuki Conjugate…

 

Lado B (Acordar)

(A inclusão da versão de Jesus Christ Superstar dos eslovenos Laibach é uma resposta à velha questão Does Humor Belong to Music formulada há uns aninhos pelo meu Jedi Master, Frank Zappa. O tema Fightin’ Stance dos Big Dumb Face é dedicado a um ilustre desconhecido que uma vez vi num vídeo porno e que gritava «Hot Damn! Hot Damn!» sempre que atingia o orgasmo. E pronto, segue-se o parágrafo habitual.)

Esta mixtape está assim dividida em dois lados, Adormecer e Acordar, como se estivesse a gravar uma K7 – aquelas cassetes que costumávamos gravar para os amigos quando não nos era possível encurralá-los diante da aparelhagem para que conhecessem as «nossas» músicas…

→ 13/05/2012 @19:36

Mixtape: obviamente, não é uma despedida

Fotos: Carlos Paes

A morte prematura de um artista provoca uma dor de duplo sentido: chora-se pelo que ele já nos deu e pelo que nos poderia ter dado. De Frank Zappa a Jeff Buckley, de Janis Joplin a Lhasa de Sela, de Kurt Cobain a Amy Winehouse, de Esbjörn Svensson a Bernardo Sassetti; Charlie Parker, John Coltrane, Eric Dolphy, Bill Evans, John Lennon…

Sempre existiram muitas razões para lamentar e muitas também para ouvir – felizmente. O que se segue é uma pequena amostra do talento deste músico, compilada a partir de quatro discos: Indigo (2004), Ascent (2006), Unreal: Sidewalk Cartoon (2006) e Motion (2010). Estes e outros discos da sua discografia podem ser comprados através da Clean Feed.

Bernardo Sassetti não se suicidou, como especulam os imbecis que parasitam as caixas de comentários dos jornais, morreu como um artista: completamente focado no que pretendia fazer e esquecendo-se, temporariamente, de que as leis da gravidade também se aplicam aos sonhadores.

«Ter os instrumentos afinados, ter um bom par de sapatos» –  escreveu ele no Facebook. – «Se escorregar, cair na rua e sentir o prazer das pessoas à volta (existe sempre um certo prazer), levantar-me devagarinho e manter sempre a certeza de que aquele espaço onde escorreguei não é lá de muita confiança.»

→ 11/05/2012 @18:28

Porque o Jazz é só barulho (7)

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(Bernardo Sassetti Trio, Homecoming Queen)

→ 11/05/2012 @15:57

Até um dia, Bernardo

Bernardo Sassetti fotografado por Carlos Paes

A notícia deixou em choque os meios musicais. Num circuito pequeno como é o da música criativa portuguesa (chamemos-lhe assim para distingui-la da pop), minado por fraturas estéticas e questiúnculas pessoais, Bernardo Sassetti era dos poucos que tinham o privilégio de reunir a unanimidade das admirações.

Diga-se que, não só pela enorme dimensão da sua música, como igualmente pela gentileza com que sempre tratava as pessoas – os seus colegas de profissão, o seu público, todos.

Este vosso amigo tinha pouco mais do que 20 anos quando o viu e ouviu a tocar pela primeira vez, no Parque Palmela, em Cascais. Ele era um miúdo e a segurança com que se atirava a um repertório de standards vaticinava duas coisas: que estava ali um futuro grande músico e que, muito provavelmente, o seu território de ação seria o mainstream.

A minha primeira adivinhação confirmou-se, mas não a segunda. A música do Bernardo não se deixou espartilhar: tocou um jazz mais formal tanto quanto se atirou a projetos mais audaciosos nessa área, andou pelas franjas da música erudita e fez sucesso como compositor para cinema, sobretudo, e para teatro.

Depois de ouvir a banda sonora do filme «Alice», de Marco Martins, e o concept album «Unreal: Sidewalk Cartoon», complementado por um livro com montagens fotográficas e textos surrealistas também de sua autoria, desvaneceu-se qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter: aqui estava uma das mais importantes figuras da música deste país.

São duas obras-primas, as acima assinaladas. Não hesito em dizê-lo. Foi com assombro que ouvi essas obras pela primeira vez e continuo a descobrir-lhes pormenores, segredos, recantos escondidos.

Conheci Bernardo Sassetti pessoalmente apenas há uns quatro ou cinco anos. Eu, ele e Rafael Toral fomos convidados pela Trienal de Arquitetura, na sua primeira edição, para conferenciarmos e fazermos um debate entre nós na Fundação Calouste Gulbenkian.

Lembro-me que, na ocasião, conversámos sobre as origens do nosso comum apelido, que ele não utilizava: Paes. Ele descendia de famílias burguesas do Norte e era bisneto de um dos primeiros Presidentes da República Portuguesa, Sidónio Paes; eu provenho de várias gerações de pescadores e armadores do Algarve.

Além do apelido e do gosto pela música e muito em especial pelo jazz, partilhávamos apenas outra particularidade: tivemos algures antecedentes judeus. Com a diferença de que, no meu caso, os tenho ainda árabes.

Depois disso, fomo-nos encontrando nos concertos, tanto os dele como de outros. Os muitos afazeres de ambos nunca proporcionaram uma relação mais próxima.

Nem por isso senti menos o desaparecimento do Bernardo. Porque é insubstituível, deixando o lugar que ocupava para sempre vazio, e porque a sua morte não podia ter sido mais estúpida: caiu da falésia no Guincho quando estava a fotografar. E que fantástico fotógrafo ele era…

Aqui lhe deixo uma vénia por tudo o que de magnífico nos deu. Até um dia, Bernardo.

→ 11/05/2012 @13:42

Enquanto não chega o tributo que mereces

Pouco há a escrever de momento: estou demasiado chocado com este desaparecimento.

Um dos grande músicos deste nosso empobrecido país, Bernardo Sassetti, 41 anos, cidadão do mundo, cancelara recentemente um concerto na Culturgest por razões de saúde, mas não foi uma doença que o matou. Bernardo morreu ontem quando caiu de uma falésia. O corpo foi encontrado numa zona rochosa perto da Praia do Abano, no Guincho. Estava a fotografar – outra das suas grandes paixões, a par do Cinema.

Uma perda enorme. Maravilhoso piano que acompanhou momentos tão importantes da minha vida. Sinto-me muito triste.

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(Bernardo Sassetti (1970-2012): Tema principal do filme Alice, de Marco Martins, gravado, sete anos depois, na Timbuktu Solo Sessions)

 

Excertos de uma entrevista ao Diário Económico

À vontade, copiem os meus discos. Pirateiem a minha música à vontade, mas oiçam-na. Eu prefiro que o façam, mas que oiçam, que tentem compreender, gostar, partilhar.

Vender não é a minha palavra de ordem. E a minha carreira desde o «Nocturno» (disco editado em 2002) tem sofrido uma baixa de vendas muito mais substancial do que eu estava à espera. O que não é grave. Eu não ganho nada com os discos que edito. A verdade é que nunca ganhei. O que eu quero é manter a ambição de melhorar os projectos de ano para ano. O que eu gostava realmente era que as pessoas ouvissem a minha música, percebessem a música e percebessem o porquê da música. Percebessem o projecto e o desenvolvimento.

Foto: Rita Carmo

Não acho legítimo que exista uma autoridade assertiva relativamente à música que os outros fazem. Eu seria incapaz de dizer «João Pedro não escrevas assim, escolhe outra palavra, outra abordagem para o teu texto».

As opções criativas e artísticas são qualquer coisa que é sentida cá dentro. E o facto de eu fazer uma música que não tem swing nem procura o swing, nem a tradição negra, ou negra/branca com estas influências todas que a Europa agora tem no jazz, deixou muitas pessoas desiludidas. Mas a realidade é que eu… olhe, não sei o que hei-de dizer. É um caminho. Gosto muito da música. Gosto de ir à procura. Estou sempre à procura.

Eu acho que cada um ouve música como quer. Mas acredito que 90% do mundo ouve música de forma errada e não é por culpa sua. É apenas porque não conhecem outro som, outra forma de ouvir. A culpa, de facto, é das editoras, dos produtores. Chegámos a um ponto em que está tudo altíssimo e que torna impossível ouvir o detalhe. E o detalhe na música, como em qualquer outra arte, às vezes é tudo.

A fotografia é uma coisa que nasceu naturalmente desta minha paixão de sempre pelo cinema. E da minha vontade de conseguir uma ligação profunda, ainda que abstracta, entre música e imagem. Adoro o acto de fotografar. Fisicamente é um prazer, como tocar piano, uma coisa muito orgânica. A forma como tiro uma fotografia tem muito a ver com a forma como me atiro ao piano. É difícil explicar… A fazer fotografia oiço música, a fazer música vejo sempre imagens. É uma ligação muito íntima para mim, que ainda não consegui pôr em palco como queria.

A entrevista ao jornalista João Pedro Oliveira pode ser lida aqui.

→ 30/04/2012 @17:35

Mixtape: Notas de Viagem II

Esta é a segunda de uma série – Notas de Viagem – preenchida com alinhamentos que recuperei graças à vossa ajuda com os ficheiros CUE, complementada com a inclusão de músicas e músicos que entretanto fui descobrindo. Algumas ser-vos-ão familiares, outras totalmente novas.

Pouco mais há para dizer que já não saibam: estas mixtapes são misturas ecléticas de sons e géneros e épocas, longas viagens musicais com diferentes paisagens, todas com os seus próprios encantos. Já agora, a mixtape anterior – No Chill Out Zone – ainda se mantém «válida».

 

Notas de Viagem (II – Lado A)


Notas de Viagem (II – Lado B)

A informação do costume: decidi dividir estas mixtapes em dois, Lado A e Lado B, como se estivesse a gravar uma K7 – aquelas cassetes que costumávamos gravar para os amigos quando não nos era possível encurralá-los diante da aparelhagem para que conhecessem as «nossas» músicas…

→ 27/04/2012 @17:11

Palavras desencarnadas

Joos van Craesbeeck

Segundo o compositor eletroacústico Yannis Kyriakides, a voz é a «música como natureza», a natureza da música, o nível em que a música está ainda no domínio do som, ou seja, em que não é música propriamente, organização de sons, mas Ruído.

Yannis Kyriakides

Expressão da fisicalidade e até da sensualidade do som, a voz primordial, a voz ainda não determinada pela palavra, está desligada da mente e do domínio do significado. É o som pelo som. É ruído. É a primitiva acústica humana, murmúrio e grito.

No princípio era o Verbo, reza a Bíblia, mas o verbo de que aqui se fala, Deus, não é necessariamente a Palavra ou o Sentido. «Logos», o termo grego original de difícil tradução que está na origem de tantos equívocos, é aquilo que somos enquanto seres humanos, mesmo que não saibamos como afirmá-lo.

Com mais importância ainda, na opinião de um outro compositor dos nossos dias, Andrew McKenzie (Hafler Trio), é ainda aquilo que queremos / podemos ser no processo de construção a que chamamos vida.

 

Genocídio do som

Por algum motivo, assim que a voz se tornou no veículo da palavra e da comunicação entre os homens também a música foi normatizada na correspondência das suas estruturas linguística e narrativa.

A funcionalização da voz fez com que os seus usos ficassem delimitados fonética, social e racionalmente. Da mesma forma, a música surgiu como a domesticação do som e a conversão utilitária deste.

Fala e canto são os dois aspetos de uma mesma vitória do cultural sobre o natural. E curiosamente, uma vitória instituída não pela prática oral da dita fala e do referido canto, mas pela escrita.

Através da escrita, a documental e a musical do mesmo modo, definiu-se o que se fala e o que se canta. Sobretudo, excluiu-se do seu âmbito tudo o que foi considerado desnecessário e supérfluo.

Com autorização da escrita, foram-se subtraindo sons. Chegou-se mesmo ao ponto de considerar que a escrita podia substituir a produção sonora dos signos que inicialmente formulara apenas para os indicar. É já música, como se advogou no século XVIII, a partitura que a sinaliza, não passando tal de um absurdo, de um contrassenso.

Noutro sector, o teatro (encenação da fala), o que é também a dramaturgia senão a transladação para a oralidade de um texto impronunciável?

A escrita, percebeu-se ao longo do passado século, é a perversão da linguagem e representa até o genocídio do som.

Acontece, porém, que o som é selvagem e não aceita este jugo passivamente… O EVP (Electronic Voice Phenomena) é bem um exemplo da sua tendência para se manifestar fora do confinamento a que foi sujeito.

Desde a invenção da rádio, do fonógrafo e dos gravadores áudio que vem sendo referida a audição de vozes vindas do Além, seja de espíritos ou de seres extraterrestres inteligentes.

«Apanhadas» no meio da estática e do ruído de superfície de discos e fitas, estas vozes vindas dos túmulos e do espaço sideral, sejam autênticas ou produto de imaginações mais férteis, começaram por nos surgir como irmãs da voz primordial que fomos obrigados a calar dentro de nós.

Irmãs, digo, porque vindas do «outro lado», aquele que desmente a nossa realidade.

Giacinto Scelsi

Este fator, mais a circunstância de se ter perdido o controlo do ruído nas urbes e nos complexos industriais, a que se somou entretanto a overdose informativa, e necessariamente oral, da televisão, levou a transformações radicais no uso da palavra e na música.

A improvisação como fator de criação teatral e musical trouxe o regresso da fala e do canto à voz, e para aí caminhou também a poesia, desestruturando-se, abandonando o campo semântico, entregando o sentido ao caos.

 

Visões pós-punk

Na música, a contemporaneidade manifestou-se por meio do primado do som. O som é já a «música», mesmo que não seja «musical». As vozes não cantam, são elas próprias: murmúrios e gritos de novo.

Provenientes dos media ou gravadas na rua, estão finalmente soltas. Podem até ter significado, mas este relativiza-se, confunde-se com todos os outros significados da sonosfera.

Quando perdem a racionalidade, é como se entrássemos na Esfera de Giacinto Scelsi (era assim que este via o som, como uma bola perfeita, sem arestas, cheia e erotizada): submergimos no som, somos Som.

No fim será o Verbo, é o que anuncia esta visão pós-punk de Deus, o nome que damos ao Absoluto do som, à Voz, a nós mesmos no mais fundo de nós, desencarnados e pela primeira vez expostos ao mundo.

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