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→ 30/04/2012 @13:58

Matt Blum: fantasia e realidade

O fotógrafo norte-americano Matt Blum propôs-se fazer algo com o seu The Nu Project que tem a bem-vinda particularidade de contrastar com as presentes práticas de representação do nu feminino.

Em vez de escolher como mote um certo ideal de beleza e como «linguagem» o erotismo, seguindo os padrões da fotografia de moda e da fotografia artística, preferiu ter como modelos mulheres reais, mulheres de seios descaídos e pregas no ventre devido à maternidade, a regimes alimentares descuidados e a histórias de vida semelhantes às de milhões de pessoas – difíceis.

As mulheres de Blum não têm a beleza de Vénus nem a sensualidade de uma pin-up, mas são lindas. Foram por ele fotografadas sem encenações, sem truques de iluminação e maquilhagem, sem melhoramentos das suas características físicas.

Consegui-lo é bem mais difícil do que se possa imaginar. O nu fotográfico segue normalmente outros parâmetros e outros objetivos, como se pode verificar lendo os depoimentos que se seguem, de uma modelo em estreia absoluta, uma mulher não muito diferente das de Blum, e de um fotógrafo com experiência no género.

Pois compare-se o que dizem ambos com as fotos aqui reproduzidas… Ler mais »

→ 30/03/2012 @17:42

Post nº 3644

→ 30/03/2012 @16:32

Senologias 3: da Anatomia ao Labirinto

Ballerina Project, de Dane Shitagi

O corpo existe antes que diga de si mesmo. O que significa que ficamos pelo corpo até quando dele partimos para uma reflexão como esta. E, no entanto, podemos falar do corpo (ou podemos falar o corpo) de duas maneiras opostas: uma tomando-o como um labirinto, a outra considerando-o como um organismo, com um itinerário rígido.

Cabeça, tronco e membros. A anatomia como destino…

Peguemos primeiro nesse corpo-organismo, e compreendamos como a morfologia anatómica o codifica, retirando-o à sua própria natureza labiríntica e levando-o para a instituição, a academia, que decreta a sua inteligibilidade.

É curioso que seja precisamente na pronunciada fluidez da morfologia dos seios e da conceção do corpo feminino através dos tempos que os parâmetros reguladores se tenham fixado…

O que se fixa vem da ordem do ideal, e este não evolui apenas enquanto valor estético. Seria errado pensarmos assim: a questão vai bem mais fundo, porquanto o ideal se impõe na sua concreta qualidade de modelo morfológico, e este igualmente se transmuta.

É por isso que a pintura e a estatuária são as melhores expressões de como cada época e cada civilização supõem um corpo humano que pretendem mais perfeito. Vão-se, pois, sucedendo os padrões de beleza.

Para se atingir a harmonia de um corpo utiliza-se atualmente a medida de sete cabeças e meia, mas diferentes cânones foram antes usados: o dedo médio da mão (!), a mão toda, o nariz, a clavícula, a coluna vertebral, etc. Isto porque há partes do corpo que se considera que são mais corpo do que outras.

É a chamada Regra de Ouro, uma proporção métrica universal colocada em fórmula matemática (b2 = a (a+b)) e que, segundo Fechner, é a chave de toda a morfologia, servindo tanto a cientistas como a artistas.

 

Totalitarismo da forma

Nude on Sand, Edward Weston

É por isto mesmo que se busca uma correlação do corpo com o meio e se relaciona a sua morfologia com outras formas existentes à volta. As da arquitetura, por exemplo, como elucida a sobreposição geométrica da figura humana com o Partenon feita pelos gregos antigos.

Trata-se de um totalitarismo da forma, como é evidente.

O que faz este propósito académico de dar ao corpo uma perfeita harmonização e organização geométrica não é mais do que uma reiterada deformação sua, no interesse do ideal.

A verdade é que os seios nunca são tão redondos quanto os da Vénus de Milo. Desejam-se como tal, porque o círculo é a forma primordial, a imagem geométrica de Deus.

Aliás, as aparições de Nossa Senhora deram-se sempre sobre rochas arredondadas, simbolizando o seio da mãe: o seu ventre e o seu peito.

Ficou dito acima que há duas maneiras de falar o corpo. Não é exatamente correto: cada sujeito falará do seu corpo singularizando-o enquanto campo de experiências, e isso é inevitável.

Por isso mesmo é que o seio é esse objeto imaginário que todos, à nossa maneira, alucinamos. Como referiu Barthes, o corpo «é mais velho do que nós», e quando dele falamos ainda não saímos do corpo de onde viemos, esse corpo ancestral do qual partimos e ao qual ambicionamos secretamente regressar.

Tal partida e tal chegada é que suscitam a efabulação do escritor, do pintor e, afinal, de todos nós. Tudo o que se encontrava em estado virtual desponta, pois o corpo é plasticizável e malealizável, podendo e devendo estar aberto à multiplicidade.

É dessa efabulação que guardamos o que nos convém à compensação da perda inicial. Há sempre uma imagem mnésica, sempre uma recordação que se vivifica.

Lugar de fixação do olhar voluptuoso, segundo Urbano Tavares Rodrigues, os seios facilmente se singularizam, identificam e conotam.

Disse-me o romancista que «é a própria especificidade da literatura que está em causa: o escritor, o poeta, transfigura magicamente determinado objeto e o seio pode ser emblemático, pode entrar no sonho como um corpo estranho, independente de outro corpo do qual era apêndice».

A literatura, para si, nunca é denotativa: «O texto literário é um texto projetivo.» Ler mais »

→ 11/03/2012 @16:10

Senologias 2: O corpo não é uma tela em branco

O corpo humano não é propriamente uma tela em branco, pela simples razão de que não é liso e uniforme. Há nele volumes e reentrâncias, zonas de luz e de sombra, côncavos e formas, partes. Como tal, dispõe de uma linguagem que lhe é própria, uma linguagem silenciosa que o erotiza.

Se os seios têm um lugar fundamental na erotização do corpo da mulher é porque se encontram em destaque…

Ora, a sexualidade não é mais do que a fala deste corpo poliforme. O órgão sexual por excelência é aquele que nos garante a unidade corporal «dada a ver», a pele. E o que é um seio senão uma superfície de pele, com enervações extremamente condensadas e numerosas, sobretudo no mamilo, que o fazem tão receptivo?

A palavra seio, note-se antes de mais, provém do Latim «sinus», que possuía o significado de curvatura, volta ou bojo, e dizia-se, no vocabulário da marinharia, em referência a uma vela de navio ou a qualquer tecido enfunado pelo vento.

A verdade é que a nossa sociedade hipervaloriza o seio. É a herança cartesiana: temos a tendência para particularizar.

Depois acontecem os empolamentos e os fetichismos, e aí temos toda a máquina publicitária que utiliza os seios femininos para vender automóveis. Até no espectáculo político os seios entraram, com o fenómeno Cicciolina.

Em grande parte, tal é possível porque os seios já têm por si um carácter distintivo, mesmo na sua função «estratégica» natural. À semelhança de outras formas arredondadas e até do tom de voz, são um sinal contra-agonístico, inibidor de agressão, distinguindo o sexo feminino do masculino.

Enquanto as mamas dos primatas só estão tumefactas no período da aleitação, na espécie humana o volume do peito da mulher é permanente, pois esta deixou de ter as oscilações de ciclo sexual que têm as fêmeas de orangotangos e chimpanzés.

 

Criar laços

Estes sinais, chamados de epimeléticos, permitem a permanência da ligação sexual, suscetíveis que são de criar laços e captar ternura, suscitando a proteção do macho.

Há etnias primitivas em que mesmo as crianças com 4 ou 5 anos de idade, quando assustadas, saltam para o colo das mães e começam a mamar, apesar de já não haver leite. O peito é sempre um sinal apaziguador, o que demonstra que o contacto corporal que inclui o seio é mais importante do que o fator alimentício em si.

Montagner, um etólogo que trabalha com crianças, fez algumas curiosas experiências sobre este aspeto da ligação mãe-filho, descobrindo que, seis horas após o nascimento, o bebé já conhece o cheiro da progenitora.

O cientista utilizou duas gazes, uma delas impregnada com as feromonas dos seios maternais (uma feromona é um produto químico segregado para o exterior do corpo que também funciona como sinal), e à proximidade desta o recém-nascido reagiu como se estivesse na presença da mãe. No contacto com a outra gaze nada acontecia.

A faculdade de reagir a uma feromona desaparece ao chegarmos a adultos. Tais substâncias são, no ser humano, apenas vestigiais – a sua finalidade vai-se perdendo.

O que se explica facilmente: entre a infância e o estado adulto dá-se o desenvolvimento do córtex, que nos distingue dos outros animais e impõe a predominância do cultural sobre a dimensão biológica.

A própria sexualidade humana ultrapassa os limites da organização reprodutora dos primatas, escapando ao estrito âmbito da necessidade para se concretizar enquanto fantasia. Ler mais »

→ 05/03/2012 @19:18

Senologias 1: o nome e o objeto

Pérolas rolavam em direção ao seio da mulher. O fio da viagem parecia ao corpo regressado. Falava-se, a vida suspensa na mesa branca e lisa. / Olhava-se curiosamente, na perplexidade dos instantes de paragem. Falava-se do que parecia ser-lhes exterior. / Pérolas rolavam insistentemente sobre a mesa em direção ao seio da mulher. Bela, muito direita, o fato branco. / O cigarro e o prazer discretos, os dedos terminando finos junto à unha, talvez finos de mais para tanto corpo. / Uma pérola rolava muito lenta em direção ao seio da mulher. Falava-se de música. O piano, a hora disponível. A voz.

(in «Nervura», Isabel de Sá)

Estamos rodeados de seios: encontramo-los na publicidade, na literatura, na pintura, no cinema, nas praias… É uma zona do corpo sublimada como nenhuma outra o foi até hoje. E de múltiplas maneiras.

Numa tela de Louis Soutter, intitulada «Oú sont nos seins?», são a revelação da perda torturada. Num inquérito da Playboy, pede-se a sua descoberta: «De quem são estes seios?»

O escritor Philip Roth tem um conto justamente chamado «The Breast», no qual dá kafkianamente conta de metamorfose de um homem… num seio. A verdade é que, no mundo de hoje, os seios – e sobretudo os femininos, por motivos óbvios – estão profundamente arreigados nas nossas cabeças e na nossa cultura.

 

No princípio era o Verbo, não o Nome…

«- Como sabes que era ela? – Tinha-a visto com aquele vestido. Além disso, reparei no verniz prateado das unhas. E nas tetas. Nunca reparaste nas tetas de Laurel?»

(in «Os Duros não Dançam», de Norman Mailer)

As coisas têm o seu começo antes de qualquer designação. Mas porque as falamos, e falamos frases estruturadas entre nomes, este e o outro, sujeito e objeto, já as coisas ficam para nós com outra feição.

Quando se diz algo, diz-se conforme as circunstâncias o exigem ou o permitem. E como são essas circunstâncias que nos fazem falar, reparamos que existem palavras diferentes com um significado único ou uma só palavra com vários significados.

Ficamos a saber, de imediato, que as razões que determinam a escolha e que julgam da sua adequação são estranhas ao discurso.

Tome-se como exemplo a nomeação de um objeto que seja um órgão do corpo humano com características e funções definidas que o fazem, logo à partida, não ser um objeto como os outros – a mama.

E tenhamos como um dado adquirido que «mama» é o radical que aparece no género designativo da classe zoológica dos possuidores desse órgão, os mamíferos, machos e fêmeas. Que esse é o uso médico e também o registo do quotidiano em tudo o que se relaciona com o corpo e particularmente com os lugares sensual e sexualmente ativos.

Partamos do princípio que é essa a atribuição primeira do nome ao «objecto» significado. Lembremo-nos, todavia, que as coisas podem tornar-se outras para alguém, como nos ensina a psicanálise.

Para os humanos uma coisa não é ela mesma, mas o que significa para cada um de nós e para a comunidade que lhe deu o nome…

Perguntemo-nos, em suma, se poderá haver objeto que não seja totalmente passivo. Ler mais »

→ 09/02/2012 @23:58

A atriz de Hollywood que nos deu o telemóvel

Em 1933 aparece nua e tem um orgasmo. Esta é uma época em que falar abertamente de sexo num filme mainstream é impensável, quanto mais representá-lo.

No mesmo ano casa com um marido possessivo e controlador que mantém negócios com Hitler e outros altos oficiais nazis. Foge para Paris, daí voa para os Estados Unidos.

Na década de 40 patenteia o sistema de espalhamento espectral que formará a base da tecnologia usada em telemóveis e routers wireless, entre muitas outras aplicações.

Até meados da década de 40 é considerada uma das grandes atrizes de Hollywood, embora seja vista como pessoa demasiado independente e de temperamento difícil.

A Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) vende-a como a mulher mais bela do mundo.

Walt Disney inspira-se nela para desenhar Branca de Neve. Muitos anos depois, a Corel faz do seu rosto a imagem de marca do software CorelDraw.

Nasce a 9 de Novembro de 1914, em Viena. Dão-lhe o nome de Hedwig Kiesler, mas nos Estados Unidos ressurge como Hedy Lemarr. Assim é apresentada à América. Nos dez anos seguintes, reina na mecca do Cinema como «uma diva de mármore frio», segundo a própria. Tão cedo Hollywood conhecerá mulher tão inteligente e peculiar.

Segue-se uma breve história dos seus feitos, tumultos e contradições.

 

Em êxtase

Hitler saudado por apoiantes em Berlim

1933. O ano da derradeira ascenção dos nacionais-socialistas ao poder na Alemanha. Enquanto Hitler presta juramento como chanceler na Câmara do Reichstag, uma jovem aspirante a atriz aceita participar numa produção arriscada para lançar a carreira.

Hitler desfila pelas ruas de uma Alemanha falida e deprimida em paradas gloriosas e cheias de orgulho nacionalista.

Em breve, todos os partidos políticos são proibidos, exceto o nazi. Em breve, a ocupação militar das zonas desmilitarizadas da Alemanha, a anexação da Áustria e da Checoslováquia, a invasão da Polónia, a guerra mundial e os milhões de mortos.

Lemarr é ainda Hedwig Eva Maria Kiesler, filha de judeus convertidos ao Catolicismo. O pai é um banqueiro austríaco bem sucedido. A mãe é uma pianista húngara, razoavelmente liberal para os padrões da época e culturalmente evoluída.

Depois de uma passagem por uma escola de teatro em Viena, a  ambiciosa Hedwig frequenta em Berlim as aulas do realizador Max Reinhardt, para quem vem a trabalhar como assistente de direção e atriz secundária em dois dos seus filmes.

Os dois papéis não deixam grandes recordações entre os cinéfilos.

 

Um orgasmo para a história

À «mulher mais bonita da Europa», como já lhe chama um babado Reinhardt, é então proposto o papel principal no filme do realizador, ator e argumentista checoslovaco Gustav Machatý, «Ecstasy».

Hedwig tem 19 anos e o mundo a seus pés, se aceitar despir-se.

Vai fazer de jovem mulher insatisfeita com o marido, um sujeito mais velho e sem grande apetência para os assuntos da cama. Ela acaba por conhecer um homem mais novo e descobrir o sexo.

É uma história típica sobre a perda da inocência, mas a ausência de julgamentos moralistas sobre a liberdade sexual feminina  e a independência conquistada pela mulher torna-o num filme único.

«Ecstasy» entra para a história como o primeiro filme não-pornográfico a incluir abertamente cenas de sexo.

Apenas se usam grandes planos dos rostos, mas o da bela Hedwig – gozando um orgasmo – mostra expressões suficientemente explícitas para provocar escândalo e ser censurado em muitos países, incluindo os Estados Unidos. E também para a tornar famosa. Ler mais »

→ 21/01/2012 @15:09

Sem o Citador não sei o que seria deste post XXIX

Por vezes a curiosidade abre novos horizontes, quando não, acende a chama do entusiasmo para procurá-los.

- Rabi Yaacov ben Shimon

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