20/Agosto/2009

A propósito de Kind of Blue

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Este texto foi originalmente publicado no blogue Ouve-se, do Filipe Marques, visita obrigatória para quem gosta de música (não necessariamente jazz) e está farto da verborreia crítica da maioria dos especialistas.

O Filipe convidou-me a escrever sobre o Kind of Blue, de Miles Davis, fazendo coincidir a publicação do post com a data em que se comemorou 50 anos desde a saída do disco: 17 de Agosto. Aceitei o convite com muito gosto, embora o foco do post não tenha sido apenas esse memorável disco. Agora que já foi lido pelos leitores habituais do Filipe, trago-o para aqui.


Coltrane, Cannonball Adderley, Miles e Bill Evans

Durante muitos anos disse aos meus amigos que o jazz não prestava. Ouvia Pink Floyd, Zappa, Laurie Anderson, Tom Waits, Philip Glass e música clássica (Mahler, Mozart e Wagner, mas só as partes orquestrais, não tinha pachorra para as óperas).

Quanto ao jazz, via-o como um bando de saxofonistas constipados a espirrar notas para os meus ouvidos e encarava esses amigos como sofredores de uma bizarra forma de contágio musical.

Os mais chegados já conheciam a casmurrice e deixaram-me sossegadinho entre os muros do Roger Waters.

Casmurrice porque a primeira vez que ouvi Frank Zappa – um disco muito jazzístico de 1969, Hot Rats – dei por mim a desejar desprender-me do sofá e sair à rua só para apanhar ar livre e sentir-me liberto pelo silêncio. Silêncio? Até os berros histéricos da minha vizinha histérica a chamar os filhos histéricos para um jantar provavelmente histérico, pareciam-me mais doces e musicais do que qualquer composição de Zappa.

Tinha 12 anos, estão a ver, as minhas tripes musicais consistiam em pôr a tocar um vinil dos Queen ao vivo, cobrir o candeeiro do quarto com um pano para dar ambiente de concerto, pegar numa raquete de ténis, abanar o capacete como se tivesse um trampolim invisível diante da testa e impressionar uma plateia de raparigas imaginárias fazendo de conta que era o Brian May a solar no crepúsculo. A propósito, as raquetes foram inventadas para jogar ténis, mas também dão excelentes guitarras.

Só não pude deixar crescer a guedelha porque, para a minha mãe, já era um enorme sacrifício aturar as guitarradas do Brian May, quanto mais tê-lo a jantar todos os dias em casa com o cabelo caindo sobre o prato como as orelhas de um cocker spaniel.

Isto tudo para dizer que no longo processo de reeducação das nossas orelhas é difícil saltar etapas. Conhecemos músicos demasiado cedo e desprezamo-los; conhecemo-los demasiado tarde e então já não nos impressionamos. No primeiro caso, temos a vantagem de usufruir de mais umas quantas oportunidades para rever o que rejeitámos. No segundo, temos a vantagem de não sermos enganados facilmente pela suposta originalidade de certas bandas – estou a pensar nos sobrevalorizados Coldplay, chatos, cansativos e monótonos como o metropolitano de Lisboa numa tarde de Verão.

Seja como for, é preciso passar por experiências intermédias que acabam por nos conduzir às músicas certas para nós, experiências que por vezes nada têm a ver com música. Por exemplo, o meu amor pelo disco The Wall não seria tão visceralmente profundo se não adorasse já o cinema, pois o The Wall é uma banda sonora para um filme que esteve dentro da cabeça do Roger Waters desde que perdeu o pai e, mais tarde, quando Syd Barrett flipou. Não teria gostado tanto de Bela Bartók e de outros compositores clássicos contemporâneos se não tivesse venerado o Shining, do mestre Stanley Kubrick, pois foi nesse filme que os ouvi pela primeira vez.

Tão cedo não teria conhecido Laurie Anderson e Philip Glass – numa bela noite de Verão, assisti a um espectáculo de dança contemporânea em Cascais no qual as suas músicas foram usadas. Só descansei quando arranjei os discos.

Não teria adorado Radiohead se a canção Paranoid Android, a primeira que ouvi da banda, não me tivesse feito reviver a mesma emoção que ainda sinto com o tema Comfortably Numb dos Pink Floyd. Não me perguntem porquê: sei que nada têm a ver uma com a outra. É uma associação emocional, genuína na sua tremenda falta de lógica.

E não teria decidido redescobrir o Zappa rejeitado aos 12 se, seis anos depois, diante da MTV, aborrecido com tanta trampa, me tivesse escapado o precioso momento em que um VJ caridoso (e cheio de visão) decidiu passar o excerto de um concerto de Zappa.

Subitamente encantado com aqueles arranjos doidos e o humor e excelência dos músicos, quase dei um salto do sofá: “Porra, mas quem é este Zappa, quem são estes músicos, são espectaculares, tenho de conhecer mais”.

Existem discos que rompem esta lógica das etapas e circunstâncias fortuitas, podem ser ouvidos por qualquer um, independentemente do género musical preferido. Não posso adivinhar o que teria acontecido se para me apresentar ao jazz tivessem escolhido o disco Kind of Blue, de Miles Davis, mas posso garantir-vos que se têm mais de 12 anos e curiosidade em perceber por que razão tanta gente se deixa fascinar pelo jazz, este disco contém todas as respostas.

Quantas vezes ouviram um disco de jazz e não conseguiram identificar as qualidades que os fãs deste género de música tanto lhe atribuíam? Kind of Blue é o disco do clique. Se não gostarem, esqueçam o jazz puro e duro porque dificilmente encontrarão outro disco capaz de fazer uma apresentação tão bela, melódica e espontânea.

Kind of Blue marcou o início da minha pancada pelo jazz. Foi a partir deste disco que descobri os outros – primeiro, mais obras do próprio Miles; depois, os discos a solo dos elementos da banda, principalmente John Coltrane, Bill Evans e Cannonball Adderley; finalmente, tudo o que consegui comprar ou sacar. Mas por mais que a partir daqui tenha conhecido músicos extraordinários, a minha história do jazz começa e termina com Kind of Blue. Dele parti, a ele regresso sempre.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Música | 11 comentários »
11/Novembro/2008

O desafio das sete canções (mais ou menos)

Nunca alinhei em memes, mas abri uma excepção para este. A ideia é dizermos quais as sete canções que nos marcaram e porquê, portanto não é necessário responder se fosse uma flor gostaria de ser um eucalipto ou merdas do género. Além disso, gosto do blogue que me desafiou. Obrigado pela referência, Felipe Marques.

Sete canções não escolho, prefiro escolher sete momentos musicais que foram e continuam a ser importantes para mim por diversas razões: coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos (Uri Caine), coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos e fizeram-me descobrir novas músicas (Zappa), fizeram-me amar o jazz tanto quanto odeio a música que passa na MTV (John Coltrane, Keith Jarrett, Carla Bley, Miles Davis) e porque, finalmente, me deixaram emocionado por terem surgido numa época tão musicalmente medíocre (Radiohead).

De fora desta selecção ficaram os Pink Floyd e as nuvens distantes fumegando nos horizontes de Roger Waters, os Queen do disco A Night at the Opera, os músicos clássicos contemporâneos que Zappa e os filmes do Kubrick me fizeram descobrir (Varèse, Bartók, Ligeti, Debussy); o grande saxofonista Wayne Shorter; o bar de sombras e copos cintilantes de Tom Waits; os violinos do Wagner; a voz de Lene Lovich; bandas como os Morphine ou os Soul Coughing; os solos de guitarra do Mark Knopfler dos Dire Straits, porque no meu processo de aprendizagem o Knopfler foi para a guitarra o que Jack Nicholson foi para a representação; os novos mothers of invention, filhos bastardos de Zappa (X-Legged Sally, Fukkeduk, dEUS, bandas originárias da Bélgica); enfim, talvez numa segunda série mencione toda esta malta. O meme dá pano para mangas – e é por isso que gosto dele.

As regras do meme determinam que devo passar o desafio a outros sete bloggers – não estou para isso. Passo a batatinha quente a três: Pedro Marques, do Fora de Cena; Seven e Júnior, do Obvious; Nelson Moraes, do Ao Mirante, Nelson. E pronto, fica assim.

Seguem-se os sete momentos, devidamente documentados.

Uri Caine

Uri Caine Este grandioso disco – Ulricht/Primal Light – é tudo ao molho e fé nos arranjos, e resulta maravilhosamente. Explico: Uri Caine, músico de jazz, pianista, judeu nascido na Filadélfia em 1956, pegou em trabalhos do grande compositor erudito Gustav Mahler, reuniu um grupo de músicos da vanguarda nova-iorquina (Don Byron, Dave Douglas, Mark Feldman, Michael Formanek, Larry Gold, Arto Lindsay) e criou as suas próprias e blasfemas versões das belas composições do mestre austríaco.

O resultado é um quebrar de barreiras entre géneros musicais que eu não ouvia desde Frank Zappa – daí o meu grande entusiasmo quando descobri o disco. A fusão entre sagrado e profano, passado e presente, resulta maravilhosamente bem, ao contrário do que sucedeu com Charlie Parker ou Bill Evans que gravaram com orquestras – vou usar as palavras do próprio Parker no filme do Clint Eastwood – «músicas tão bonitas como margarina no rabo da irmã».

Uri Caine apropria-se do jazz, da música kelzmer, dos blues, do rock, do funk, da música electrónica, do que lhe soar bem; chega a colocar DJ Olive, outro dos membros da banda, a samplar discos em vinil de Mahler, integrando-os nos arranjos, picos e tudo, misturando-os e colocando-os em confronto com os nossos próprios preconceitos musicais. Não é fácil de ouvir, mas é inspirador. Documentação que talvez queiram consultar: I Went Out This Morning Over the Countryside/Symphony No.5: Adagietto


Radiohead

Radiohead Foi Paranoid Android que me fez conhecer Radiohead. No meu local de trabalho ouvia-se a saudosa XFM e o tema passava todos os dias, às vezes mais do que uma vez. Devia ser também uma paixão assolapada de muitos dos que trabalhavam naquela estação de rádio. Ouvi-los era como regressar aos bons velhos tempos em que passava noites a ouvir o The Wall dos Pink Floyd até decorar todas as letras e cantar o disco de uma ponta à outra.

Para mim foi uma revelação – não é todos os dias que a música de uma banda me consegue fazer arrepiar até à raiz dos cabelos, bater o pé com vontade de dançar e ficar em silêncio deslumbrado – e tudo na mesma canção. Não descansei enquanto não comprei o disco. Depois, como é costume comigo – e vocês que acompanham este blogue não me deixariam mentir! – chateei toda a gente até à exaustão para que conhecessem a nova maravilha do mundo. Os discos que se seguiram – Kid A e Amnesiac – são obras-primas: mostram os Radiohead no seu mais absoluto estado de graça musical. Em vez de seguir a linha de OK Computer, a banda arriscou e seguiu em frente, tornou-se mais experimental, mais arrojada nos arranjos, em suma, magnífica. Os Radiohead são actualmente a maior banda do mundo e arredores – sem espinhas. Este documento poderá demonstrar a veracidade desta afirmação: Paranoid Android/Pyramid Song/How To Disappear Completely

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25/Outubro/2007

O dia em que Miles os forçou a fazer maravilhas

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Pode tocar-se muito melhor quando se está furioso? Miles Davis poderia responder de caras que sim, dando como exemplo uma ocasião em que foi testemunha privilegiada: o célebre concerto dado a 12 de Fevereiro de 1964.

Nesse concerto, a banda de Miles (Herbie Hancock, piano; George Coleman, saxofone; Ron Carter, contrabaixo; Tony Williams, bateria) tocou magistralmente. E quis o destino que essa maravilhosa música que então se ouviu ficasse gravada para a posteridade tornando possível que tu, 43 anos depois do evento, possas conhecer as maravilhas do jazz e apaixonar-te como tanta gente antes de ti. Ufa!

Segundo recordaria o próprio Miles, «eles estavam todos muito zangados uns com os outros – a fúria criou uma chama, uma tensão criativa que afectou a maneira como toda a gente tocou. Essa foi talvez uma das razões porque todos tocaram com tanta intensidade.»

O que se terá passado nos bastidores? O habitual entre músicos que não são ricos e que tiram dos concertos, e não dos discos, grande parte do seu sustento: discussões por causa de dinheiro.
Aquele concerto de 12 de Fevereiro era muito especial para Miles Davis porque os lucros da venda dos bilhetes ajudariam a financiar associações que lutavam pelo direito ao recenseamento dos negros do Lousiana e Mississipi. 1964, lembrem-se.

Davis não só decidiu que iria prescindir do seu cachet como, numa atitude muito típica, decidiu que os seus músicos fariam o mesmo. O problema é que nunca lhes pediu opinião, limitando-se a apresentar-lhes o facto consumado poucas horas antes do concerto.

Os músicos da banda não gostaram nada de saber que tinham de tocar de borla e fizeram barulho. Diziam que prescindir do cachet era um sacrifício muito maior para eles do que para Miles, o líder da banda, que ganhava muito mais. Os protestos foram em vão: tocavam de borla naquela noite, avisou Miles, e quem não quisesse estaria fora da banda.

E foi assim que um grupo de quatro músicos muito irritados – madder than a motherfucker, é a expressão de Miles – deu um dos melhores concertos das suas vidas. Dos temas que tocaram e que foram reunidos no duplo CD The Complete Concert 1964: My Funny Valentine plus Four & More, deixo-vos o clássico All Blues, sublime, sublime, sublime. Saca

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18/Abril/2005

Flamenco Sketches

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Miles Davis[Miles Davis: Kind of Blue: Flamenco Sketches] Sou apanhadinho por jazz, mas nem sempre foi assim. Cheguei a dizer que aquilo não prestava. Um amigo não se deixou levar pelas minhas cantigas e chegou a casa com o Kind of Blue. Músicos: Bill Evans, Coltrane, Cannonball Adderley. «Cala-te e ouve isto. Depois dizes-me se o jazz não presta». Pois presta. Obrigado, Luís Carlos. És o maior.

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