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→ 04/09/2011 @1:46

Festa do Avante 2011

→ 24/08/2011 @17:13

Notícias verdadeiramente importantes (5)

Ilse Uyttersprot, presidente da câmara de Aalst, na Bélgica, foi «apanhada» a fazer amor com o namorado no castelo da cidade.

Um grupo de jovens turistas que nunca deve ter dado uma queca de jeito na vida decidiu filmar a senhora autarca e companheiro sem que estes se apercebessem; finalmente, demonstrando que por vezes a pornografia nada tem a ver com a foda propriamente dita, mostraram o vídeo nas redes sociais.

Uma queca ao ar livre é uma experiência que todos já tiveram pelo menos uma vez na vida – se não a tiveram, então experimentem.

Não é preciso um castelo, uma praia deserta à noite é suficiente. O valor da experiência de uma rapidinha à luz das estrelas compensa a quantidade de areia que se infiltra em todos os buracos corporais que encontra – sim, incluindo esse que estás a pensar.

E reza para que um idiota com uma câmara de filmar não transforme o teu momento num vídeo do YouPorn.

Seguiu-se então o inevitável: os jornais falaram no assunto quente do sexo autárquico. Não o fizeram com a intenção de devassar a intimidade da senhora Uyttersprot, justificar-se-ão, mas porque nas redes sociais já não se falava de outra coisa.

Não importa a merda sobre a qual se fale: desde que sejam muitos a falar no assunto, é notícia e vale a pena divulgar. Da rapidinha da autarca ao medo que não me assiste, são as multidões que ditam as regras do que deve ou não ser publicado, do que é relevante ou irrelevante.

Experimentem meter o seguinte na cabeça de quem estuda Jornalismo: as multidões de voyeurs são os teus futuros decisores editoriais, pá – aposto que te chamará maluquinho ou então, com os olhos bem abertos, procurará outra profissão.

Claro que a hipocrisia no tratamento deste tipo de «notícias» é visível no título: «Autarca belga apanhada a fazer sexo em castelo (COM VÍDEO)». Com vídeo em maiúsculas, para que não haja dúvida nenhuma de que também nós poderemos assistir à queca da autarca. O jornal satisfaz, assim, o voyeurismo da multidão.

No final do texto, coloca o aviso: «As imagens que se seguem podem ferir a susceptibilidade de alguns leitores.». E assim se demarca moralmente da «fonte» noticiosa. Jornalismo bipolar no seu melhor.

Enquanto os jornalistas e editores andam entretidos com as quecas da autarca, não prestam atenção à ferramenta mais preciosa desta profissão: a escrita. Um exemplo: «As cenas, filmadas por um grupo de jovens, está a causar polémica porque foram parar agora às redes sociais.»

Quando a única prioridade é fazer dinheiro, tudo o resto se pode destruir.

→ 09/08/2011 @4:42

Os pretos

Foto: David Jones

Foto: Jonathan Brady

E quando os incêndios forem dominados e as cinzas espalhadas pelo vento e esses «criminosos» encerrados nas cadeias, já não teremos muito mais em que pensar. Os acampados em Espanha, as batalhas na Grécia, os incêndios em Londres, as pilhagens em Birmingham, Liverpool, Nottingham e Bristol? Polícias e ladrões. Os bons contra os maus. A lei contra a anarquia. Caso encerrado.

Porque é mais fácil fornecer uma explicação assim, linear, baseada no que vemos, do que uma explicação baseada no que podemos inferir – estão aí as fotografias e as fotografias não mentem, não é assim? Vejam como se comportam estes selvagens, estes criminosos feios, porcos e maus, vejam!

Há dois tipos de criminosos: os que de vez em quando são filmados e os que de vez em quando mandam filmar. Não te deixes iludir pelo que te é mostrado: aos olhos de quem manda no dinheiro, tu também és preto.

Culpa só aqueles da fotografia e não culpes mais ninguém nem penses mais no assunto: pode ser então que os senhores tomem conta de ti por seres um pretinho tão bem comportado.

→ 01/08/2011 @18:00

A culpa é dos jogos. Não se fala mais no assunto.

O jogo da culpa, de David Fitzsimmons

A maior cadeia de revenda de videojogos na Noruega decidiu retirar um total de «51 jogos violentos» das prateleiras por causa dos massacres em Oslo e Utoya. É uma medida muito diplomática, tendo em conta o sentimento generalizado de repulsa pelo que aconteceu, mas também completamente inútil e demagógica: insere-se no velho ciclo que o cartoonista David Fitzsimmons já denunciara a propósito das execuções em escolas americanas.

O ciclo do blá blá blá, das explicações que nada explicam e dos bodes do costume.

O assassino da Noruega escreveu um manifesto de quase 2000 páginas explicando as suas motivações políticas e religiosas, mas haveremos de chegar à conclusão de que os massacres nunca teriam acontecido se ele não jogasse o Call of Duty. Como todos estamos fartos de saber, a banalização da violência começou com esses jogos e acabará no dia em que deixarem de existir.

A única responsabilidade que se pode apontar aos videojogos é a de contribuirem para que os putos hoje em dia se sintam mais relutantes em levantar o rabo da cadeira e ir brincar lá fora, jogar à bola, correr, andar de bicicleta – nós sabemos muito bem avaliar essa relutância, pois também nos sentamos diante da televisão e do computador todos os dias.

Quanto ao resto, é muito mais fácil culpar o Call of Duty do que pensar por que razão alguns dos argumentos racistas de Breivik são vistos como «razoáveis» por algumas pessoas.

Esqueçam a auto-crítica: a culpa é dos videojogos.

Proponho, por isso, que o processo de reabilitação de Anders Breivik seja feito com sessões de cinema intensivas: 21 comédias românticas de Hollywood por semana, dois filmes da Disney por dia e 4500 canções de amor por mês.

Só assim será possível reverter esta influência nefasta dos videojogos na mente de Breivik e fazer desta pobre vítima do Call of Duty um cidadão modelo, cheio de vontade de beijar e abraçar toda a gente que reencontrar cá fora – incluindo muçulmanos e os «traidores» que consideram que uma sociedade multi-cultural é sempre uma sociedade mais rica ou, se quiserem, mais «jazzística».

→ 26/07/2011 @22:27

Notícias verdadeiramente importantes (4)

E não há melhor forma de conhecer uma certa desenvoltura feminina do que ler esta notícia de uma ponta à outra e depois, com o gesto mais elegante de que formos capazes

(levanta o cu da cadeira: estás prestes a fazer o gesto mais elegante de que és capaz)

saudar respeitosamente a atriz Helena Laureano por falar ao país inteiro e a toda a comunidade de internautas sobre o premente assunto das suas mamocas?

«Estava com o peito um pouco descaído», «os meus seios penderam um pouco», «nunca usei soutien na vida» (like), precisava de uns ajustamentos, estava na clínica do cirurgião [nome do cirurgião a negrito, será uma publi-reportagem?] estava lá a fazer umas massagens quando pensei «e porque não?»

Realmente – e porque não? A bonita Helena acabara de resumir 99 por cento do critério editorial do jornalismo cor-de-rosa.

Toda a minha simpatia e compreensão para a atriz. Tal como ela, eu nunca usei soutien e sei bem que se não tiver cuidado com a alimentação também as minhas mamas podem começar a descair. Mas não posso deixar de prestar a minha homenagem à desenvoltura desta mulher.

 

A caixa de Marsupilami

Considerem, por exemplo, esta notícia igualmente importante do jornal A Bola e os comentários que gerou.

Uma loira espampanante esteve no treino do Real Madrid (com vídeo) e deixou os jogadores em alvoroço: parece que o Coentrão ficou com o cabelo ainda mais arrebitado e o Ronaldo se viu ao espelho de cinco em cinco segundos, em vez da habitual média de dez segundos.

Vejam como um lapso de linguagem de um dos comentadores originou de imediato comentários jocosos sobre os supostos «dotes» de Ronaldo.

Imaginem então que em vez da Helena Laureano tínhamos, por exemplo, o Ronaldo a ser entrevistado:

«Eu andava um bocado preocupado com o tamanho da minha pilinha goleadora», confessaria este Ronaldo fictício, «via a cauda do meu Pinscher e depois a cauda do Marsupilami nos livros do Spirou e então começava a ficar com a cabeça à roda

e estava a ver o meu email quando de repente topo um a dizer aumente o tamanho do seu pénis, resultados garantidos, OK, eu pensei… e porque não?»

Estão a ver o que eu quero dizer com desenvoltura feminina?

→ 24/07/2011 @1:37

O norueguês que queria subjugar a Europa

«Foi horrível, mas necessário».

Estas são as palavras que a comunicação social na Noruega atribui a Anders Behring Breivik, o confesso autor da explosão em Oslo e dos disparos na ilha de Utøya, ao ser confrontado pelos interrogadores. Horrível, mas necessário.

Esta gelada determinação perpassa por algumas citações retiradas das 1518 páginas de um manifesto escrito por Breivik que se encontra online e cuja autenticidade foi confirmada por fontes policiais contactadas pelo The New York Times e pela televisão norueguesa.

O manifesto intitula-se «2083: Uma Declaração de Independência Europeia» e foi publicado no Stormfront.org, um sítio de fascistas que defendem a supremacia branca. O documento foi descoberto por um blogger americano, Kevin I. Slaughter.

O que se segue é uma transcrição do post de Blake Hounshell feito no sítio Foreign Policy.

No manifesto, Breivik declara-se «um comandante cavaleiro da justiça» e um membro proeminente de um «refundado» grupo de Cavaleiros Templários, formado numa reunião organizada em Abril de 2002, em Londres. O grupo fundador tem nove membros, além de um número não-especificado de simpatizantes que não puderam comparecer.

«O nosso objetivo» – escreveu ele no manifesto – «é tomar o controlo político e militar dos países europeus ocidentais» e implementar nesses países uma «política cultural conservadora». Numa linguagem que o blogger classifica como «apocalíptica», o grupo defende ataques aos «traidores» na Europa que permitem que muçulmanos estejam a conquistar o continente.

Em 2010, contava já ter provocado «não mais de 45 mil mortos e 1 milhão de feridos» nos «marxistas/multiculturalistas» da Europa Ocidental. «O tempo para o diálogo acabou. Demos uma oportunidade à paz. O tempo para a resistência armada começou

Slaughter relata que o manifesto é também um extenso manual de instruções para «praticamente tudo, desde como fazer uma bomba, angariar fundos e preparar-se psicologicamente para o que o autor descreve como uma «guerra civil» entre «patriotas nacionalistas» e os «multiculturalismos que estão a destruir a civilização europeia

O documento contém várias fotografias de Breivik, incluindo esta aqui em cima.

No manifesto ele relata em grande detalhe as suas tentativas de construir secretamente uma bomba à base de fertilizantes capaz de matar o maior número possível de pessoas.

E embora no documento sejam frequentes as manifestações de ódio contra os muçulmanos, Breivik admite sentir admiração pelos terroristas da Al Qaeda, pois considera-a uma das duas únicas «organizações militares de sucesso» devido à «superior adaptação estrutural».

«Se Maomé fosse vivo hoje», escreve, «Bin Laden seria o seu ajudante de comando». E declara: «Se não estás disposto a operações suicidas ao serviço de uma causa maior, então os Cavaleiros Templários do PCCTC não são para ti».

(PCCTC é um acrónimo para Pauperes commilitones Christi Templique Solomonici, ou seja, «os pobres cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão».)

Outra das frases de Breivik citadas por Slaughter: «Para que os ataques possam ter um efeito influente, assassínios e a utilização de armas de destruição massiva devem ser considerados».

Religião: «Não sou um homem excessivamente religioso; sou, acima de tudo, um homem de Lógica».

Nós: «Eles, os nazis dos nossos tempos, chamar-nos-ão terroristas».

Finalmente, como quem escreve um diário: «Acredito que esta é a minha última entrada. É agora sexta-feira, 22 de Julho, 12.51.»

Pelas 15.30, explodia a bomba em Oslo.

→ 23/07/2011 @17:43

Amy Winehouse (1983-2011)

A notícia: Amy Winehouse foi encontrada morta no seu apartamento em Londres. A polícia já confirmou o óbito, mas adianta que as causas da morte são ainda inexplicáveis (falta a autópsia), embora a Sky News já tenha avançado uma possível causa: overdose.

Quando a equipa de emergência médica chegou ao apartamento, ela já estava «para além de qualquer possibilidade de ajuda» e a morte foi confirmada no próprio local. Não havia sinais de violência (física).

Atualização 24/07 @17.00 – O Daily Mail cita fontes não-identificadas que afirmam que na noite de sexta-feira Winehouse misturou álcool, cocaína, ecstasy e cetamina (uma droga analgésica). E «amigos» garantem que a morte se deveu à ingestão de ecstasy «estragado».

Amy tinha 27 anos e cancelara a sua agenda de concertos depois de uma série de «aparições desastrosas», segundo as crónicas. Amy junta-se ao chamado Clube dos 27, formado por gente talentosa que, por diversas razões, morreu aos 27 anos: Jimi Hendrix, Jim Morrison, Brian Jones, Janis Joplin e Kurt Cobain, entre muitos outros (ver comentário do Victor Afonso).

 

Adenda: o castigo de Amy

As piadinhas à volta da morte de Amy Winehouse e dos seus excessos já começaram, como seria de esperar.

As piadinhas e os clichés moralistas do costume.

Na verdade, não quero saber. Se mesmo agora foram surdos à sua voz, à sua música, terei todo o prazer em permanecer surdo a esta bizarra veia oportunista de alguns portugueses que consiste em fazer do desaparecimento de uma pessoa a ocasião perfeita para mostrar ao mundo como são uns espantosos cagadores de anedotas (ou mandamentos).

Amy era única – a sua vida estava feita em pedaços e os jornais trataram de documentar todos os episódios desse folclore maldito: as bebedeiras em palco, as atuações desastrosas, as fotografias em que parecia ter envelhecido 30 anos.

Amy era única – nunca saberemos realmente o que esteve na origem dos seus problemas, se as drogas e o álcool ou outra história de vida qualquer que só podemos intuir ouvindo a sua voz, sublime e carente, desejosa de ser amada.

Havia qualquer coisa naquela maneira de cantar que me fazia lembrar a expressão triste e quase resignada de Billie Holiday quando, em 1957, dois anos antes de morrer, gravou «Fine and Mellow» para a CBS rodeada por uma trupe de músicos que pareciam compreendê-la na perfeição e partilhar as suas dores.

Todas as pessoas têm problemas e nem todas entram em caminhos de auto-destruição, mas em vez de condenarmos as suas opções de vida talvez seja mais saudável pensarmos nela como uma das poucas cantoras capazes de vender milhões de discos permanecendo genuína – até as «tristes figuras» em palco poderão ser vistas como uma expressão dessa autenticidade e entrega. Não eram encenações nem birras de menina mimada, e talvez por isso fossem ainda mais chocantes, difíceis de aceitar e fáceis de compreender.

Amy cantava como se o mundo inteiro a tivesse posto de castigo a um canto, por ser quem era.

Amy era única – a editora tolerava-a por vender milhões de discos. Muitos pareciam dispostos a tolerá-la, mas poucos a protegê-la. Talvez ela não quisesse ajuda. Talvez não quisesse ser vista apenas como um produto muito rentável; talvez encarasse a vontade de ser «reabilitada» não como uma preocupação genuína de quem a rodeava, mas como uma forma de preservar o filão lucrativo da sua voz; talvez as drogas e o álcool fossem expressões de uma rebeldia sem idade – nunca saberemos ao certo o que a destruiu e a levou a morrer aos poucos.

Tenho a certeza disto: neste universo balofo da música de consumo que passa na MTV, os dois discos que gravou – Frank (2003) e Back in Black (2006) – passarão à história como duas pérolas de bom gosto, um encontro musical feliz entre dois tempos: o rhythm & blues da década de 60 e as batidas das pistas de dança dos anos 90.

No centro deste turbilhão de referências e de músicas pairava a sua voz dolorosa, magnífica, indiferente a todos os tempos.

Amy era única – não é preciso funeral: a cantora vive.

 
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