Esta é a história de como a precipitação de quem procura informação, a negligência dos media ao interpretá-la e a utilização absurdamente abusiva de uma fotografia podem mudar para sempre a vida de uma pessoa. Mudar para pior. Muito pior.

A história começa com uma morte. Uma morte horrível. Vocês lembram-se: Neda Agha Soltan, 27 anos, iraniana, morre a 20 de Junho do ano passado numa manifestação de protesto da oposição verde em Teerão. Neda é atingida no coração por uma bala disparada por um sniper das milícias Basij – forças paramilitares fundadas em Novembro de 1979 por ordem do Ayatollah Khomeini.
A morte é filmada pelo telemóvel de um manifestante, chega à Web, primeiro via Twitter, depois YouTube, finalmente aos telejornais, uma morte estúpida e devastadora multiplicada milhares de vezes.
A Neda que nunca conhecemos termina os dias derrubada como um manequim de montra, os olhos sem expressão cruzando-se com os nossos, como se o manifestante que a filmou nos tivesse colocado entre ela e o caminho desconhecido que se prepara para seguir.
Quando o sangue jorra pelo nariz e boca, a rapariga já passou por nós, o professor de música, que a acompanhava naquela tarde, grita «não tenhas medo, Neda, não tenhas medo, fica comigo, Neda, fica comigo», mas essa Neda foi-se embora dois minutos depois de ser atingida a tiro.
Nos dias seguintes nascerá uma outra Neda, a mártir, o ícone da oposição rebelde, «o anjo do Irão», a Neda que nos comoverá a todos para sempre, reencarnada em posters e t-shirts mostrados por manifestantes em todo o mundo; a rapariga bonita e inocente cuja morte alimentou a nossa revolta perante a absurda estupidez dos homens.
É preciso saber quem é esta rapariga. Os media lançam-se na busca desenfreada de um perfil: é urgente arranjar fotos, saber o nome, idade, quem, o quê, onde. Neda é um nome muito comum no Irão, mas rapidamente se chega a um apelido, Soltan, e a uma ocupação: estudante na Universidade Islâmica de Teerão.
O mundo está de olhos postos no Irão e espera com impaciência por notícias. Inicia-se uma busca frenética de perfis no Facebook, porque é preciso reconstituir aquela vida de forma a potenciar nos espectadores o sentimento de perda.
Existe outra mulher, jovem, bonita e iraniana, que também se chama Neda e tem perfil no Facebook. Nunca se saberá quem foi o responsável pelo engano, mas o anónimo que procurou por Neda Soltan, a estudante morta, acaba por descobrir o perfil de uma Neda Soltani, professora.
A pessoa copia a foto da professora Neda Soltani do Facebook e distribui-a, afirmando tratar-se da estudante assassinada. A imagem espalha-se às redes sociais, blogues, portais, chega mesmo a ilustrar as primeiras versões da página da Wikipédia sobre Neda Soltan. Ávidas de informação, as grandes cadeias televisivas mundiais – as americanas CNN e CBS, a inglesa BBC, as alemãs ZDF e ARD – divulgam a foto ao mundo inteiro sem notar que a mulher da foto tinha um apelido diferente: Soltani, em vez de Soltan.


À esquerda, Neda Soltan; à direita, Neda Soltani
Neda Soltani, professora de Literatura Inglesa na Universidade Islâmica Azad, que estava bem, e viva, acabara de concluir um longo trabalho sobre a simbologia feminina na obra de Joseph Conrad. Tinha uma carreira. De um dia para o outro, vê o seu rosto nas fotografias de uma mulher morta. Na manhã de 21 de Junho, um dia depois do assassinato da estudante, milhares de pessoas de todo o mundo pedem para se tornar suas amigas no Facebook. É o primeiro choque. Depois é confrontada com os telefonemas de pessoas que começam a chorar ao verificar que ela, afinal, está viva. A 22 de Junho, o seu rosto já surge em cartazes empunhados pelos manifestantes, em t-shirts, em altares erguidos nas ruas. O seu rosto passa a ser «o anjo do Irão».
A 23 de Junho, desesperada, escreve à Voice of America, a televisão americana destinada ao estrangeiro e que é acompanhada por muitos simpatizantes da oposição iraniana. Explica-lhes que se trata de um erro, a fotografia que estão a divulgar não é a fotografia certa. Como prova, envia-lhes outra foto sua, para que possam comparar.
O que se segue é demonstrativo do comportamento dos media quando se deixa controlar pelo histerismo noticioso: em vez de repor a verdade, a Voice of America divulga-a como sendo uma nova fotografia da falecida estudante. Em breve, a estação de televisão CBS faz o mesmo. Ninguém pára cinco segundos para pensar, ninguém questiona a informação.
Verdadeiramente assustada, Neda Soltani apaga a sua foto de perfil no Facebook. Os bloggers simpatizantes da oposição iraniana interpretam o desaparecimento da foto como uma manobra de censura do regime e voltam a espalhá-la por todo o lado – um sinal de rebeldia e resistência. Nem quando os pais da verdadeira Neda resolvem disponibilizar fotos da filha este processo se inverte: por azar, são vagamente parecidas. E quando amigos da professora tentam repor a verdade em fóruns de discussão, são frequentemente insultados, acusados de querer roubar «o anjo do Irão».
As autoridades iranianas decidem então aproveitar a confusão com as fotos e usá-la como arma contra a oposição, tentando demonstrar que os manifestantes estavam a ser manipulados pelo Ocidente. Neda Soltani começa a receber ameaças.
A 2 de Julho, tomada pelo pânico, foge do país sem sequer se despedir dos pais. Todas as suas economias são gastas para pagar aos passadores, os homens que a ajudam nesta fuga clandestina do Irão e dos telefonemas ameaçadores. Passa pela Grécia e chega à Alemanha sem nada, excepto uma mochila. Está agora com um primo em Bochum, recebe uma pensão do Estado alemão de 180 euros por mês, vive num quarto. E tem medo que a família possa sofrer represálias.
Contou finalmente a sua história ao jornalista David Schraven, do jornal Suddeutsche Zeitung, em Fevereiro deste ano. O artigo foi publicado este mês em Portugal pela revista Courrier Internacional, traduzido do original alemão por Fernanda Barão.
Ainda hoje é frequente ver nos media a sua fotografia como «anjo do Irão». Muitos jornais e cadeias de televisão já publicaram desmentidos e esclarecimentos, mas o erro persiste: em Novembro do ano passado, a CNN passou uma reportagem sobre o Irão e, mais uma vez, mostrou a foto errada. Neda enviou um email à CNN, pedindo que a sua imagem fosse apagada. Recebeu uma resposta automática no correio electrónico, na qual se agradecia antecipadamente o facto de a cadeia de TV não poder responder pessoalmente a todas as mensagens recebidas.
Por baixo desta mensagem de resposta, a assinatura: CNN, The most trusted name in News.















Já cá faltava, não é? Di María marcou um golaço ao Paços de Ferreira e o jornal A Bola fez questão, na edição de hoje, de informar que «o golo correu mundo».




























