Já toda a gente sabe do caso Relvas. Um resumo: o Conselho de Redação do Público denunciou «pressões» do ministro dos Assuntos Parlamentares. Umas horas depois, a direção do jornal reagiu e considerou-as «inaceitáveis».
Miguel Relvas telefonara à editora de Política do jornal depois de ter recebido da jornalista Maria José Oliveira um «conjunto de perguntas relativa a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias» a propósito de outro caso, o das Secretas.
No telefonema, denuncia a direção do Público em editorial, ameaçara fazer um «blackout» noticioso ao jornal e «revelar detalhes da vida privada da jornalista».
O ministro devia saber que revelar detalhes da vida privada de alguém costuma ser um exclusivo dos paparazzi, não dos políticos. Os fotojornalistas da imprensa cor-de-rosa souberam transformar essa prerrogativa em notícia de capa, políticos com tiques de rufia aprenderam a transformá-la em ameaça.
No que toca às ações dos políticos deste Governo, contudo, é preciso ter cuidado. Terá Relvas feito uma ameaça ou apenas uma promessa?
É preciso ter em conta se ele disse qualquer coisa como «prometo que faço assim ou assado e tal». Mesmo que dúzias de perdigotos lhe tenham saltado para a secretária como mergulhadores bêbados no salto à prancha, deveremos considerar o teor do telefonema com o mesmo ceticismo com que encarámos a promessa de que não seriam aumentados mais impostos.
Se foi realmente uma ameaça e tivesse sido concretizada, Miguel Relvas teria passado à História de Portugal como o primeiro político a acumular o cargo de ministro com o de paparazzi. A novidade aqui não teria estado na acumulação de cargos e regalias, mas na junção improvável de duas atividades tão díspares.
Dizem então que Miguel Relvas devia ser demitido. Eu cá apontava um bocadinho mais alto, mas pronto, cada um sabe o que fazer ao dedo: vamos supor, nem que seja como hipótese meramente académica, que o caso não morrerá nas próximas 72 horas e Relvas será mesmo forçado a sair.
Eu não penso que este desfecho seja assim tão mau. Do ponto de vista do seu chefe de Governo, a demissão do ministro dos Assuntos Parlamentares – ou de qualquer outro político – não significa cair no desemprego mas ter «uma nova oportunidade». Só é pena que a benevolente visão social do primeiro-ministro se aplique apenas à única classe que conhece bem.












































