
De todas as mensagens de protesto anti-SOPA que vi, foi esta que me tocou mais. É escrita por Randall Munroe, o físico que se tornou ilustrador e fez do XKCD uma referência entre todos os geeks e fãs de BD na Internet.
Tocou-me pela simplicidade, mas também pelo exemplo deste veterano da web: Munroe consegue viver confortavelmente do trabalho que faz como ilustrador e atribui a responsabilidade deste sucesso ao facto de as pessoas serem livres de partilhar os seus comics em todo o lado.
Ele encoraja essa partilha e não se põe a choramingar por causa dos direitos de copyright, insistindo que não é necessária qualquer autorização para reproduzir o seu trabalho; pede apenas, em troca, o pagamento habitual: um link atribuindo-lhe a autoria dos desenhos. Mesmo publicações comerciais em papel podem usar os comics do XKCD, desde que respeitem a atribuição e enviem um email a informá-lo do que pretendem fazer.
Claro que não estou a comparar a situação de Randall Munroe com os imbecis que copiam filmes na Net e os vendem na Feira da Ladra, mas a reforçar quão estupidamente radicais são as atitudes dos inquisidores do copyright.
Quando as pessoas partilham no YouTube excertos das suas séries preferidas de televisão, cenas preferidas de um filme, um videoclip, a única lei que estão a infringir é a lei da insensatez imposta pelas indústrias do entretenimento.
Porque o que essas pessoas estão a dizer é simples: «isto que está aqui faz parte da minha vida, das minhas referências culturais e ideológicas, isto sou eu, portanto conheçam e conheçam-me também». Só numa sociedade gerida unicamente pela ganância se poderia ignorar o lado humano desta questão.
São estes Torquemadas de fato e gravata que fazem do dinheiro a sua religião os verdadeiros ladrões: roubam a vivência das pessoas, a sua necessidade de comunicar e partilhar, negam-lhes o direito à conversação, tão essencial na vida «real» como na Net.
Ao defender os sacrossantos direitos do copyright acima das próprias pessoas, estas empresas estão a dizer-nos que somos apenas consumidores. Querem transformar-nos em espectadores passivos de comando na mão, à procura de alternativas previamente escolhidas por quem detém os meios de produção – eles próprios. O SOPA quer montar um gigantesco sofá e sentar-nos a todos na Internet.
Bastaria um mínimo de flexibilidade e inteligência para perceber que um link, uma citação, é já de si uma forma de pagamento. E que o material que se partilha não tem apenas o valor de «propriedade intelectual», mas a potencialidade de fazer parte da vida das pessoas – é o que faz a diferença entre ser um mero produto e um objeto cultural. A livre partilha na Net permite que isto aconteça, muito mais do que campanhas de marketing.
A Google anunciou ter recolhido, só num dia de protestos, mais de 4,5 milhões de assinaturas para uma petição anti-SOPA/PIPA, instigando políticos ignorantes a desistir desta estúpida tentativa de corromper a rede.
Pode não ser suficiente. As pessoas começam agora a considerar em levar estes protestos para as ruas, manifestando-se à porta dos gabinetes dos senadores para que estes saibam que isto não é apenas uma coisa de nerds ou piratas. Tem a ver com todos. Esta lei não passará.