O corpo existe antes que diga de si mesmo. O que significa que ficamos pelo corpo até quando dele partimos para uma reflexão como esta. E, no entanto, podemos falar do corpo (ou podemos falar o corpo) de duas maneiras opostas: uma tomando-o como um labirinto, a outra considerando-o como um organismo, com um itinerário rígido.
Cabeça, tronco e membros. A anatomia como destino…
Peguemos primeiro nesse corpo-organismo, e compreendamos como a morfologia anatómica o codifica, retirando-o à sua própria natureza labiríntica e levando-o para a instituição, a academia, que decreta a sua inteligibilidade.
É curioso que seja precisamente na pronunciada fluidez da morfologia dos seios e da conceção do corpo feminino através dos tempos que os parâmetros reguladores se tenham fixado…
O que se fixa vem da ordem do ideal, e este não evolui apenas enquanto valor estético. Seria errado pensarmos assim: a questão vai bem mais fundo, porquanto o ideal se impõe na sua concreta qualidade de modelo morfológico, e este igualmente se transmuta.
É por isso que a pintura e a estatuária são as melhores expressões de como cada época e cada civilização supõem um corpo humano que pretendem mais perfeito. Vão-se, pois, sucedendo os padrões de beleza.
Para se atingir a harmonia de um corpo utiliza-se atualmente a medida de sete cabeças e meia, mas diferentes cânones foram antes usados: o dedo médio da mão (!), a mão toda, o nariz, a clavícula, a coluna vertebral, etc. Isto porque há partes do corpo que se considera que são mais corpo do que outras.
É a chamada Regra de Ouro, uma proporção métrica universal colocada em fórmula matemática (b2 = a (a+b)) e que, segundo Fechner, é a chave de toda a morfologia, servindo tanto a cientistas como a artistas.
Totalitarismo da forma
É por isto mesmo que se busca uma correlação do corpo com o meio e se relaciona a sua morfologia com outras formas existentes à volta. As da arquitetura, por exemplo, como elucida a sobreposição geométrica da figura humana com o Partenon feita pelos gregos antigos.
Trata-se de um totalitarismo da forma, como é evidente.
O que faz este propósito académico de dar ao corpo uma perfeita harmonização e organização geométrica não é mais do que uma reiterada deformação sua, no interesse do ideal.
A verdade é que os seios nunca são tão redondos quanto os da Vénus de Milo. Desejam-se como tal, porque o círculo é a forma primordial, a imagem geométrica de Deus.
Aliás, as aparições de Nossa Senhora deram-se sempre sobre rochas arredondadas, simbolizando o seio da mãe: o seu ventre e o seu peito.
Ficou dito acima que há duas maneiras de falar o corpo. Não é exatamente correto: cada sujeito falará do seu corpo singularizando-o enquanto campo de experiências, e isso é inevitável.
Por isso mesmo é que o seio é esse objeto imaginário que todos, à nossa maneira, alucinamos. Como referiu Barthes, o corpo «é mais velho do que nós», e quando dele falamos ainda não saímos do corpo de onde viemos, esse corpo ancestral do qual partimos e ao qual ambicionamos secretamente regressar.
Tal partida e tal chegada é que suscitam a efabulação do escritor, do pintor e, afinal, de todos nós. Tudo o que se encontrava em estado virtual desponta, pois o corpo é plasticizável e malealizável, podendo e devendo estar aberto à multiplicidade.
É dessa efabulação que guardamos o que nos convém à compensação da perda inicial. Há sempre uma imagem mnésica, sempre uma recordação que se vivifica.
Lugar de fixação do olhar voluptuoso, segundo Urbano Tavares Rodrigues, os seios facilmente se singularizam, identificam e conotam.
Disse-me o romancista que «é a própria especificidade da literatura que está em causa: o escritor, o poeta, transfigura magicamente determinado objeto e o seio pode ser emblemático, pode entrar no sonho como um corpo estranho, independente de outro corpo do qual era apêndice».
A literatura, para si, nunca é denotativa: «O texto literário é um texto projetivo.» Ler mais









































