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→ 09/08/2011 @3:10

The Grand Wazoo

Os Maias marcaram uma data específica para o fim do mundo – 21 de dezembro de 2012 – e caímos que nem uns patinhos.

2012 era apenas um isco. Não significava nada. Um boi com problemas de flatulência seria capaz de causar mais devastação do que um simples dia num calendário.

A data que haveria de mudar o mundo para sempre era outra: 13 de novembro de 2009.

Nesse dia – em milhares de salas de cinema espalhadas pelo mundo – uma criatura malévola chamada Roland Emmerich deu seguimento a um subtil processo de transformação neurológica do ser humano que já se iniciara há muitos anos: chamemos-lhe o processo 2012.

As salas muito escuras, a destruição digital no ecrã gigantesca; o barulho ensurdecia, o ritmo avassalador pregava os indígenas às cadeiras; contentes por estarem entretidas, as pessoas não deram por nada.

O malvado Emmerich tinha um plano secreto: apoderar-se dos nossos miolos.

Aproveitando a histeria esotérica provocada pelas «profecias» maias que inundam os sites da tretatologia cósmica, Emmerich apresentou ao mundo um catastrófico e irresistível «2012», mostrando aos seus discípulos como se faz um filme de sucesso sem fotografia, história, pessoas ou diálogos.

Nenhum elemento que nos habituámos a associar ao cinema estava presente – contudo, as pessoas continuavam convencidas de que estavam a ver um filme.

Nenhuma demonstração científica podia ser encontrada para explicar um fim do mundo previsto pelos Maias – contudo, as pessoas continuavam convencidas de que aquele haveria de chegar.

Era óbvio que o malévolo Emmerich estava feito com os Maias para dominar a Humanidade.

Quando finalmente terminou, pessoas com espírito crítico recusaram-se a aceitar que aquilo fosse realmente um filme. Precisavam de escapar dali, antes de serem abatidas. Algumas conseguiram.

Era tarde demais para inverter o processo: os neurónios da Humanidade começaram gradualmente a ser substituídos por bagos de milho.

E é esta a situação atual. Lamento que ainda não te tenhas dado conta.

Da próxima vez que sentires o impulso repentino de levantar um dedo e gritar eureka, desconfia: talvez não seja realmente uma ideia, mas o som de pipocas a saltar. Talvez já nem tenhas um crânio, mas um micro-ondas que criaturas malévolas como o senhor Emmerich podem ligar ou desligar.

Mas que seria de uma história de conquista e domínio sem uma boa rebelião?

Os rebeldes pouco mais têm do que convicções, mas são tão teimosos como cinquenta mulas teimosas – e têm bons pulmões. Reivindicam, para a Arte, a ousadia de confrontar; para a Ciência, a liberdade de ensinar. Alguns misturam as duas e fazem experiências; outros, fabricam finca-pés. São resistentes e obstinados. Alguns têm mau feitio, mas sabem ser generosos. Vivem em refúgios, mas não têm medo de se expor e não perderam o espírito de conquista.

O exército do inimigo é poderoso.

O adversário possui uma Força Aérea capaz de largar quatrocentas bombas criacionistas e seiscentas previsões astrológicas num único raide aéreo.

A marinha tem capacidade para transportar, em muito pouco tempo, uma força de combate constituída por um milhão de bonecos insufláveis com as caras dos atores de Anatomia de Gray e uma divisão blindada de cinquenta mil mamas de silicone. As metralhadoras do exército conseguem disparar, em média, trinta linguados da Megan Fox.

E têm a bomba atómica: quando explode, forma um cogumelo de eurodólares.

É uma luta desigual.

 

→ 16/07/2011 @19:32

Sexo é corpo a corpo, mas nunca se sabe (repost)

(Imagem: autor desconhecido - aceitam-se sugestões)

 

(Do arquivo – 09/12/2010) – Peço desculpa aos estimados visitantes do Bitaites por esta interrupção no fluxo normal de posts.

Tem a ver com sexo.

Ia escrevendo fluxo vaginal de posts, portanto estão a ver que é um assunto muito sério. Porque também mete o Natal. E eu juro que não queria usar o verbo «meter» no contexto deste post, mas saiu-me cá para fora de uma forma incontrolável.

Nada a fazer. Sexo. Natal. Época de boa-vontade. Compras. E o spam a dar-me lições de vida.

Ainda estou chocado. A queca atingiu níveis de sofisticação inimagináveis para a mente de um labrego sexual como eu.

Eu ainda sou da geração Gina.

A velha Gina era uma revista inaceitável para a condição feminina e o papel não era muito resistente, ao fim de três ou quatro idas à casa-de-banho já não se conseguia ler as legendas.

Sim, a Gina tinha as suas limitações filosóficas, mas pelo menos permitia-nos esgalhar o pessegueiro com um profundo sentido de independência e afirmação pessoal. Bastava-nos a Gina. A Gina era a nossa vizinha do lado. A Gina ensinava-nos a fechar os olhos. A Gina era barata e fácil de usar por toda a gente. A Gina éramos nós.

Não tínhamos edições da Playboy em 3D: éramos realmente labregos. E ainda somos. Eu sou.

Choca-me pensar que o futuro é um puto a brincar aos elevadores no meio das pernas, equipado com um daqueles óculos 3D que se vendem nas bilheteiras do cinema para ver o Harry Potter e a subir do rés-do-chão ao primeiro andar do pirilau como uma porteira histérica. Um dia destes irá trazer as pipocas e a civilização chegará ao fim.

Quero acreditar que isto é apenas exagero mas, lá está, o spam encarregou-se de me tirar as esperanças.

É uma loja do sexo qualquer que me caiu hoje na caixa do correio. A loja não vende sexo, mas vende os talheres.

Como estava sem nada para fazer e o sexo é sempre clicável, com ou sem link, fui ver quais os produtos que aconselhavam para tornar «o natal mais sexy».

 

E agora, a grande revelação

Plug anal

Este aqui constituiu uma revelação para mim. É espantoso, vejam só. Chama-se Plug Diamond Love e custa quase 60 euros. Terá também um rádio-despertador?

Segundo a loja, é um «plug anal em aço cirúrgico cuidadosamente polido com uma função decorativa e estimuladora em simultâneo». E está disponível para entrega imediata «em cristal Swaroviski ou cor vermelha».

O Plug Diamond Love enfia-se no cu mas depois pode ser guardado em cima da mesa. É um objeto prático e multi-disciplinar. Talvez permita um bonito arranjo de flores para alegrar a sala de jantar e receber as visitas. Talvez sirva para pendurar na árvore de Natal, escondido atrás das fitinhas e das bolinhas para não ser visto do presépio – as possibilidades devem ser muitas, mas percebo pouco de decoração e ainda menos de sexualidade natalícia.

Usar um aparelho destes é agradável e estimulante para quem gosta, mas pode ser um bocadinho intimidativo devido à sofisticação e dupla funcionalidade.

Imagino um pobre diabo a pegar no plug anal cristalizado e balbuciar, cheio de expectativas saltitantes, «Então, querida, queres…?»

A senhora, dona de casa boazona e muito competente

«Nem pensar, que tu ainda me estragas isso»

tira-lhe bruscamente o plug anal, observa o precioso dispositivo com ar preocupado, examina-o com ar de quem já está à espera do que vai encontrar, zangada e sem reconciliação possível, dispara

«Olha o que tu fizeste ao meu Swaroviski, tens as mãos todas suadas e agora está baço! Vai já buscar um pano!»

 

Nã nã nã. Faça-você-mesmo, é o meu lema.

→ 08/07/2011 @0:15

Mangooty’s

Imagem: Susana Caetano

O Zézinho precisa urgentemente de 200 euros emprestados e garante ao Joãozinho que tem condições para os pagar.

O Joãozinho não vai em cantigas e, cauteloso como sempre, pede a mister Sam que dê uma vista de olhos ao Zézinho. O Joãozinho justifica-se encolhendo os ombros, com ar pesaroso, garantindo que tem muita pena mas não pode emprestar dinheiro sem primeiro conhecer a opinião de mister Sam.

Mister Sam diz que sim senhor, fará a avaliação. Com um sorriso experiente, informa-os de que infelizmente não pode trabalhar de graça e deixa-se ficar quieto, à espera. O Joãozinho assobia para o lado e brinca discretamente com um burrié preso na pontinha do dedo. O Zé está tão desesperado em conseguir os 200 euros que concorda em pagar vinte pelo serviço.

Mister Sam recebe os vinte euros e começa logo a trabalhar, mirando-o de alto a baixo com ares de entendido. Quando dá por concluída a sua avaliação, cumprimenta calorosamente o Zézinho, como sempre faz com todos os zézinhos, oferece-lhe o seu cartão e vira-lhe as costas.

Sem voltar a olhar para o Zézinho, mister Sam comunica ao Joãozinho a sua decisão: «lixo».

Mister Sam é uma pessoa educada e muitíssimo civilizada. Nem lhe passa pela cabeça que «lixo» possa significar, aos olhos dos leigos, que o pobre Zé é um desperdício mal-cheiroso.

«Lixo» é apenas uma imagem deselegante criada pelos jornalistas para classificar aqueles que ocupam os degraus mais baixos da escala evolucionária do dinheiro – no caso do Zézinho, o degrau Ba2, aquele que fica mesmo ao lado do caixote do lixo onde a vizinhança mais rica despeja os excrementos. Talvez seja por causa disto que os malandros dos jornalistas se lembraram desse nome.

Felizmente, tanto mister Sam como o próprio Joãozinho são pessoas de bem e solidárias que gostam de ajudar os pobres. Para que o Zézinho não fique de mãos a abanar, resolvem financiá-lo à mesma. Como o Zé possui vitalidade e não vai morrer tão cedo, estão em condições de lhe emprestar 200 euros desde que se comprometa a devolver 600 nos próximos anos.

Se o Zézinho não tiver esses 600, poderá pedi-los ao Ratinho, um tipo simpático que por acaso é primo do Joãozinho e uma pessoa obviamente séria, da máxima confiança e generosidade. E sempre que o Zézinho precisar de ser reavaliado, a ver se ao menos baixa as taxas de juro, lá estará o solícito mister Sam para lhe fazer o serviço. E assim continuará a acontecer, provavelmente até ao fim dos tempos.

São tempos loucos, na verdade. Nenhuma nação se deverá preocupar com a sua liberdade: sempre que sentir que esta lhe está a faltar, os donos do dinheiro (ou seja, do mundo) lá estarão para a negociar – é só uma questão de se discutir as taxas de juro sobre o empréstimo.

Não se conhecem as relações entre o Joãozinho e mister Sam, mas costumam sair os dois juntos, como bons compinchas. Embora ninguém o tenha conseguido provar, fala-se que mister Sam costuma ser mais brando nas avaliações a pessoas da sua terra – na pior das hipóteses, é um sentimental.

Conta-se também – embora ninguém saiba ao certo – que um dia mister Sam colocou o braço sobre os ombros do Joãozinho e lhe disse, entre os escombros da Europa: «Quem sabe isto não será o princípio de uma bela amizade?».

→ 04/05/2011 @15:35

Tributo ao Chuck Norris que há em nós

É tão bom observar o mundo através dos olhos de Chuck Norris. O dele é um mundo de justiceiros inequivocamente bons que combatem criminosos inequivocamente maus – e vencem.

Para Chuck Norris, o mundo é tremendamente simples porque não existe outro mundo além daquele que ele é capaz de observar.

O Chuck Norris é mais do que um homem: é uma visão. Um espírito. Uma forma perfeita de exercer Justiça, pois no mundo que ele é capaz de ver – o seu – não há tempo nem espaço para a dúvida.

Todos temos um bocadinho de Chuck Norris dentro de nós.

O espírito Chuck Norris manifesta-se de múltiplas formas ao longo da nossa vida. Lembram-se dos tempos em que se imaginaram a dar uma carga de porrada ao rufia da escola? Ou das vezes em que insultaram mentalmente o patrão ou um colega de trabalho durante uma viagem de metro? Já foram apanhados a falar sozinhos em voz alta? Como dizia George Carlin, alguma vez tentaram convencer a outra pessoa que a expressão «se me voltas a dizer isso dou-te um pontapé nos tomates cabrão» é apenas parte da letra de uma canção?

Se responderam afirmativamente a pelo menos uma destas questões, então já saberão o que é viver um momento Chuck Norris.

É o momento em que nada do que fazemos tem consequências, pois o mundo de Chuck Norris em que habitamos temporariamente é construído conforme as nossas necessidades e com o tamanho exacto da nossa visão.

Quando um fanático como Bin Laden – um tipo inequivocamente mau – leva um tiro nos cornos, em nome da Justiça, claro, e essa operação é triunfalmente difundida pelo mundo inteiro, sentimo-nos como se Chuck Norris estivesse outra vez ao nosso lado a dar-nos palmadinhas no ombro e a sussurrar-nos

«Estás a ver, pá. E tu com essa mania que o mundo é um sítio complicado. Osama é responsável pela morte de milhares dos teus fellow americans e agora levou um tiro nos cornos das tropas do Nobel da Paz. Justice is done».

Ai de mim se eu manifestar ao Chuck Norris algumas dúvidas em relação à legitimidade de matar um adversário desarmado, em vez de o capturar, levá-lo à Justiça e fazê-lo pagar pelos seus crimes.

No mundo a preto e branco que Chuck Norris é capaz de ver, tais dúvidas significam que estou a ser conivente com o assassino e – não tarda nada – estarei a arranjar desculpas para um cabrão responsável pela morte de tantos inocentes.

No questão Bin Laden, Chuck Norris considera que a Justiça dos tribunais é uma justiça de piça mole, própria de liberais e esquerdistas de merda, e não serve para carniceiros como ele. O símbolo da Justiça – uma menina a segurar uma balança – é do mais maricas que há. Na questão Bin Laden, o símbolo da Justiça deve ser uma estátua do John Holmes a enrabar nádegas terroristas enquanto uma cheerleader lhe acaricia os colhões da metralhadora.

Poderia dizer ao Chuck que é precisamente com tipos asquerosos como o Bin Laden que devemos preservar os nossos princípios. Poderia dizer-lhe que, ao contrário do que se diz, capturá-lo vivo seria um excelente exemplo do que é resistir à barbárie e ao fanatismo – inútil. O Chuck vive num mundo impenetrável.

Há uns anos escrevi o que desejava a Bin Laden: uma vida longa.

Guarda as armas, Chuck, já vou explicar porquê e em que circunstâncias.

Consideramos cada uma das vítimas do terrorismo como pessoas. A nossa imaginação reconstrói todas essas vidas perdidas sem ter em conta nacionalidades, modos de vida ou crenças religiosas. Osama bin Laden era um fanático e um psicopata do Além, portanto, não conseguia pensar nas suas vítimas como pessoas.

Matá-lo é apenas glorificar o seu modo de vida – nada tem a ver com Justiça. Justiça, para mim (e repito o que escrevi há uns anos) seria sujeitá-lo a conhecer em pormenor as histórias de todos os seres humanos que mandou matar. Podia ser um tratamento à Alex do filme A Laranja Mecânica – mas sem a música de Beethoven, só com canções da Celine Dion ou do Justin Bieber, para ser ainda mais doloroso.

E em vez de o massacrarem com imagens de ultra-violência, torturavam-no até ao fim da vida com representações ininterruptas de exemplos da nossa mais profunda humanidade: amor, compaixão, solidariedade e respeito pela vida – sem explicações ou catequeses.

→ 03/05/2011 @23:41

Resistência desarmada

Há uma cena na sequência inicial do filme do Spielberg com o desembarque das tropas americanas no Dia D que me fez lembrar os últimos desenvolvimentos na operação que liquidou Bin Laden.

Depois de uma batalha sangrenta na praia e muitos planos de corpos despedaçados, os primeiros alemães começam a ceder. Um deles aproxima-se e ergue os braços num desesperado sinal de rendição, gritando palavras alemãs; o sargento americano mata-o.

Um outro soldado, pouco importunado com a execução que acabara de presenciar, pergunta, curioso: «Sargento, o que estava a dizer o tipo?»

O sargento levanta as mãos, imitando o sinal de rendição, e responde em tom jocoso: «Estava a dizer: ‘Olha, mamã, lavei as mãos antes de almoçar!»

Spielberg rodeou-se de veteranos do Dia D para se documentar – este episódio foi-lhe contado por quem viveu os acontecimentos. E lembrei-me desta cena porque, à semelhança do nazi, Bin Laden não estava armado quando os soldados irromperam no quarto onde dormia com uma das suas mulheres.

As primeiras notícias davam a entender que a morte ocorrera na sequência de uma troca de tiros entre o terrorista e os soldados. Que usara a própria mulher como escudo humano. Confusão provocada pelos fumos da batalha, assegurou agora o porta-voz da Casa Branca: Bin Laden não usou a mulher como escudo e nem estava armado. Contudo, acrescentou, ofereceu resistência.

Pergunto-me que tipo de resistência letal pode oferecer um homem desarmado a um grupo de soldados de elite.

Se a mulher que o acompanhava foi neutralizada com um tiro na perna, que metafísica ameaça terá pairado no ar para que fosse derrubado com uma bala no peito e outra junto ao olho esquerdo? Terá Bin Laden erguido os braços e gritado «Mamã, lavei as mãos antes de almoçar!»

→ 31/03/2011 @20:20

Portugal, província do Brasil e outras histórias

Portugal está a ser falado no mundo. Sabemos porquê.
A crise. É. Económica. A falência do modelo económico do desenrascanço que nos planeia a vida há mais de 30 anos.
A crise. A culpa, nossa.

A crise, já agora, também tem origem na falência de um modelo à escala mundial que nos deixa a todos reféns de bancos, fundos e agências de ratings. Tenho feito um esforço enorme para não escrever um post em letras garrafais mandando-os a todos para a rainha-abelha que os pariu. Mas isso é o amor pelo meu país a falar – um amor mais despeitado e orgulhoso do que seria desejável nesta altura, porque turva o pensamento.

Mas olhem que é difícil resistir à tentação de sugerir aos arrogantes dos ingleses que enfiem um supositório gigantesco no cu. Um colunista do Financial Times, por exemplo, goza connosco e tenta beliscar-nos a consciência de antigo país colonizador, sugerindo que Portugal poderá escapar à crise tornando-se uma província do Brasil. Este artigo, distante e jocoso, transformou-se na arena que os gladiadores de meia-tigela dos dois lados do Atlântico precisavam para se manifestar, com portugueses e brasileiros a fumar uns charros de História e mandando fumo aos rostos uns dos outros.

A hipótese de o Brasil comprar parte da nossa dívida também serviu para sentirmos outra vez os maus hálitos da história, provando que para alguns portugueses e brasileiros essa coisa de «país irmão» só faz sentido para andarmos à pancada e fazermos queixinhas uns dos outros à mamã providência. Estou farto de ver gente pedrada com tanta estupidez, maledicência e racismo. Se os idiotas conseguissem ao menos perceber que a ignorância não tem nacionalidade seriam… bem, um bocadinho menos idiotas.

O Pravda, muito mais sério, avança um diagnóstico impiedoso: aponta sem complexos e com frontalidade a pobreza das nossas escolhas políticas desde 1974 e também das nossas idiossincrasias – é uma crítica dirigida à responsabilidade de um povo. Dizer que os políticos são todos uns mamões e uns filhos da mãe no poleiro é também uma forma de fugirmos às nossas responsabilidades – desde 1974, colocamos nesse poleiro aqueles que criticamos.

O artigo também nos acusa – e com razão, parece-me – de termos algumas dificuldades em aceitar as críticas que nos são feitas por estrangeiros. Que nos tornamos agressivos. Que até temos uma expressão para lidar com o problema: «Quem não está bem que se mude».

O autor do artigo, Timothy Bancroft-Hinchey, só precisaria de uns anos em Portugal para perceber a verdadeira dimensão desta expressão.

A agressividade do português não é a agressividade do colonizador delirando com falsas grandezas do passado: não somos ricos; não temos a capacidade de bombardear outras países quando precisamos de espevitar a Economia ou impor a nossa forma de viver. Não somos bons com as bombas, e ainda bem, mas temos jeito para as palavras; não temos um mega-exército, mas temos Cultura; não temos juízo, mas temos sensibilidade; temos dificuldade em fazer contas, mas somos uns poetas. Falta-nos o equilíbrio. E ultrapassar o síndroma Festival Eurovisão da Canção – por mais qualidade que tenha a nossa canção, nunca haveremos de ganhar aquela merda. Para quê perder tempo?

A agressividade do português perante a crítica estrangeira é a agressividade do amante rejeitado. O que Portugal deseja é conquistar os corações dos estrangeiros e fazer amor com o mundo, se possível. Não é por acaso que somos um grande destino turístico na Europa.

Se este fosse um país verdadeiramente dono do seu próprio destino, não estaríamos tão dependentes de aprovações exteriores e tão despeitados quando os outros não reconhecem a nossa beleza ou aproveitam para nos apalpar o cu sem pedir licença (digo isto só para não deixar a analogia do parágrafo anterior mal vista). Sim, também somos um país de machos plantados à beira-mar.

Eu não vivo no Brasil e não posso afirmá-lo com certezas absolutas, mas já ouvi muito brasileiro queixando-se do mesmo – há demasiada sensibilidade em relação à opinião do estrangeiro. Demasiada tendência a pensar que o que vem de fora é sempre melhor.

A principal razão que nos leva a olhar uns para os outros com desconfiança talvez seja esta: o português vê no brasileiro os seus próprios defeitos – e vice-versa. Tal como o português, o brasileiro também passa da euforia à depressão num abrir e fechar de olhos, do Carnaval à quarta-feira de cinzas, de campeão do mundo a campeão da tragédia.

Meus caros: vocês são os portugueses da América e nós os brasileiros da Europa. Somos mais ricos do que pensamos.

→ 23/03/2011 @2:31

Espetador ou espectador, eis a questão (*)

Scarlett Johansson fotografada por Sheryl Nields

Pelo menos duas pessoas afirmaram que deixarão de ler o Bitaites caso passe a ser escrito segundo o novo acordo ortográfico. Podem começar por cancelar os feeds porque é isso precisamente que vai acontecer, a partir de agora. Deste post.

Se uma mera mudança na forma – e não no conteúdo – é suficiente para deixarem de ser leitores, então é porque nunca o foram verdadeiramente. Se for esse o caso, eu também dispenso a visita.

Estamos a fazer uma tempestade num copo de água. Reagimos ao acordo ortográfico como se estivéssemos a ser vítimas de um processo de aculturação. Reagiria mais depressa se me falassem de telenovelas brasileiras – ora aqui está um exemplo que eu preferia que não tivéssemos assimilado. Nem precisámos de ser espetadores para comermos essa trampa; bastou sermos orgulhosos espectadores portugueses.

Consequências da introdução de telenovelas brasileiras e soap-operas americanas na nossa cultura? Instituir o fiteirismo como um modo de representação – eis a grande escola de teatro em Portugal. Confundir a vontade de ser ator com a ambição de ser famoso – eis a que está reduzida a nobreza de uma vocação. Acordo ortográfico? Uma ninharia, se o compararmos a fenómenos que de facto têm o poder de mudar o significado das coisas.

Quanto à nova forma de escrever, não me preocupa. É só uma questão de ortografia. Se um dia mudarem os símbolos de uma partitura, isso não ditará o fim da nona sinfonia de Beethoven; simplesmente significa que teríamos uma nova forma de chegar aos mesmos resultados.

A estranheza em relação à grafia de certas palavras – apontada neste post – é pessoal. Uma questão de hábito. Hábito de escrita. Tão profundo como o hábito de tomar um cafezinho no café da esquina. O café de outro estabelecimento não é forçosamente de menor qualidade só porque não o frequentamos. Estamos habituados a certas palavras – são nossas; se nos dizem que as devemos escrever de outra forma, sentimo-nos roubados. E se juntarmos à sensação de roubo um elemento estrangeiro co-responsável, então temos a nossa capacidade de raciocínio deturpada.

Mas eu escrevo todos os dias – em maior quantidade do que a maioria de vocês – e digo que continuarei a escrever da mesma maneira. Este acordo ortográfico não tem o poder de mudar o que eu sinto ou acredito. Continuarei a fazer-me entender, se me for possível. E continuarei a sentir-me tão português e tão ligado à língua universal do meu país como aqueles que são contra este acordo.

Ortografia é forma, não é conteúdo. A mudança de ortografia não muda o significado das palavras.

Dizer que um dia vamos passar a usar «enxergar» em vez de «ver» é falso e demagogo. Afirmar que este é um primeiro processo de transformação da nossa língua ao qual se seguirão outros ainda piores é um delírio que necessita de demonstração. E atacar o acordo ortográfico dando erros de português também é desprezar a ortografia que tão afincadamente se defende.

É pena que essa defesa não tenha surgido por si mesma. Todos os dias vejo na Internet atropelos à língua portuguesa que nenhum acordo ortográfico será capaz de fazer. Contudo, nunca achei que escrever com erros fosse assim tão grave – o pior é escrever sem ideias. Troco sem hesitar uma frase formalmente correta, mas vazia, por uma frase repleta de gralhas e cheia de sumo. Os erros corrigem-se; a falta de ideias é mais difícil. Exige mais independência de pensamento; exige respeito pelo conhecimento, não basta fazer choradinhos por causa de umas consoantes.

Incomoda-me também que esta defesa do «nosso» português dependa tanto do ataque ao «outro» português – o do Brasil. Atacamos o acordo como se a sua implementação não só significasse o início de um processo de aculturação, mas também de colonização – espero que ainda haja lucidez para se ver o exagero.

Um povo cujos indivíduos saibam pensar por si próprios não tem nada a temer. Nesse caso, por que razão parecem ter tanto medo que comecemos a escrever como os brasileiros? Uma nação com quase 900 anos de História ainda tem crises de afirmação?

(*) – Espetador ou espectador é uma falsa questão: na nova grafia, continuamos a ser espectadores.

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