
Ilustração: Giorgio Comolo (1999)
As próximas cinco emissões da Rádio Bitaites serão exclusivamente dedicadas à música de um dos melhores compositores de todos os tempos: Frank Zappa. As primeiras quatro, aproximadamente uma hora e 25 minutos cada, serão uma compilação das músicas do mestre – as 50 melhores, pelos menos. Ficaram centenas de fora.
A quinta emissão será ocupada apenas com covers que outros fizeram e continuam a fazer das suas músicas, desde grupos avant-guard e bandas de jazz, a músicos de diferentes backgrounds que se juntam em concerto para lhe prestar tributo. Zappa previa, com ironia, que dificilmente a sua música seria tocada no futuro, «por ser muito difícil». Ainda bem que estava enganado.
Sim, já sei. Lá está o gajo outra vez com o raio do Zappa. Bem, das doze emissões já feitas dei-vos a conhecer, pelo menos foi essa a intenção, a obra de muitas dezenas de grandes músicos que adoro. Depois destas emissões dedicadas ao mestre, verei se é viável seguir as vossas ideias.
Haverá sempre alguém a contradizer-me neste ponto, mas a minha experiência ao mostrar Zappa a outras pessoas diz-me que é difícil encontrar alguém para quem estas músicas sejam indiferentes: já vi maluquinhos do jazz rejeitando aqueles sons como se estes fossem clisteres aplicados nos ouvidos; já vi maluquinhos do jazz completamente apanhados; já vi amantes de música clássica abrindo a boca de espanto, sobretudo com as composições para os concertos com os Ensemble Modern, editados no disco The Yellow Shark; outros falando dele com gestos de repúdio. Já vi conversões e rejeições instantâneas. Também há quem o recorde como «o tal gajo que comia merda em palco» ou «o tal gajo que cagou nas teclas do piano e depois começou a tocar».
Comer merda em palco
A lenda segundo a qual Zappa comeu merda em palco circula há muito, muito tempo, sempre em diferentes versões e variedades. Se me disserem que 90 por cento dos rappers da MTV come merda em palco, então a única interpretação que poderei dar é que os rappers da MTV acabaram por engolir as suas próprias palavras – finalmente. Zappa é avesso a comportamentos escatológicos, embora as suas entrevistas possam ser verdadeiros tratados acerca dos excrementos musicais que infestam as rádios. Só quem desconhece a obra e personalidade deste compositor poderia acreditar numa história tão mirabolante.
Aliás, a malta que vai a determinados concertos, hoje em dia, consegue comer mais merda do que aquela que este pseudo-Zappa alguma vez conseguiu.
Não sei se ainda valerá a pena mencionar que o próprio mestre se viu forçado a desmentir tais refeições no livro The Real Frank Zappa Book. O venerável guitarrista esclareceu então que o único momento da vida em que sentira ter comido merda tinha sido num local mais plausível: adivinharam, um restaurante.
Por rigor histórico e continuidade conceptual, Zappa não só mencionou o nome do estabelecimento como publicou, na mesma página, um mapa com a sua localização detalhada.
A música de Zappa é demasiado visceral e angular, resultado de uma formidável colagem de muitos estilos musicais diferentes, por vezes numa única composição. Tais colagens não surgem por acaso, mas sempre ao serviço de uma ideia musical ou teatral. Zappa era uma esponja que absorvia todos os sons, de Edgar Varèse e Anton Webern a Johnny Guitar Watson, devolvendo-os depois, já transfigurados e enriquecidos pela sua própria personalidade musical.
Dito isto, qualquer zappanóico vos poderá confirmar que encontrar alguém que deteste Zappa não é necessariamente ofensivo, pois a obra do mestre não foi feita para inspirar sentimentos menores. Não serve para elevadores, não presta como música ambiente, não entra no ouvido como um sucesso de Verão nem é muito boa para meter no iPod enquanto ziguezagueamos pela cidade: é uma música que nos desafia constantemente e exige total atenção.