O norte-americano Lee Jeffries é contabilista de profissão e fotógrafo dos sem-abrigo nas horas vagas. A sua máquina fotográfica é implacável: capta a porosidade da tragédia, da solidão, da miséria e da dor com a concentração de um dermatologista.

Jeffries usa a máquina fotográfica para criar esculturas, tão super-realistas como as de Ron Mueck e, ao mesmo tempo, tão frágeis como cera. Ao ver-lhes o brilho nos olhos e a rugosidade da pele, fico com a sensação de que já nem são pessoas nas fotos, mas velas a derreter.



Tal nível de detalhe consegue-o criando empatia com os pobres desgraçados que descobre nas ruas de Londres e da América, explicando-lhes abertamente o que está a fazer e com que intenções, e oferecendo-lhes dinheiro. Nem sempre consegue fotografá-los, mesmo quando passa dias a tentar convencê-los – aí, vira as costas e segue a sua vida, como qualquer outro turista.
Jeffries não é um fotógrafo puro à maneira de um Cartier-Bresson, um romântico de outros tempos: o detalhe também é conseguido através de longas sessões de Photoshop para ajudar a acentuar seletivamente pormenores do rosto – os olhos, sobretudo.
Também não tem a envolvência comprometida de Diane Arbus, uma freak que fotografava, cheia de carinho, as aberrações humanas que a sociedade rejeitava mas que ela considerava parte da família.
Embora Jeffries fotografe a preto e branco, é no trabalho de um fotógrafo que usa sempre a cor que encontro algum paralelismo: o polaco Andrzej Dragan.
Dragan vai buscar uma citação ao filme «The Lost Highway», de David Lynch, para explicar a sua fotografia: «Gosto de recordar as coisas à minha maneira. Não necessariamente como aconteceram, mas como eu as recordo».
O polaco é fotógrafo de moda, usa os efeitos no Photoshop para brincar às bizarrices e constrói um museu de cera em fotografia, procurando o mesmo nível de detalhe nos rostos que Jeffries, mas sem interesse em captar «a verdade» do modelo.


Jeffries é diferente: também recorda as coisas à sua maneira mas inquieta, não diverte. Trabalha num olhar, numa expressão que descobriu nas ruas e o tocou: «Se eu não me sentir emocionado, a foto não poderá transmitir nada».
Ele nada nos conta sobre a vida destas pessoas que partilham o mesmo planeta que nós, o que lhes aconteceu, o que correu mal; apenas nos deixa rostos semi-despedaçados que nos assombram a consciência como fantasmas da civilização.