

Fotos: Isabel Santiago Henriques/Lightshot
Esta manifestação começou calma, muito calma.
Gente a conversar, juntar cartazes, pessoal de bicicletas, amigos sentados no chão no Saldanha. Arranca não arranca, quase uma hora depois começaram a andar. Do Saldanha seguiram em direção à Avenida Almirante Reis e, mais tarde, ao Rossio. O único ponto mais «quente» foi em frente ao Banco de Portugal, onde a polícia teve que fazer um cordão por causa dos ovos que estavam a ser arremessados, mas nada de especial.
Durante duas horas, eu e a Patrícia de Melo Moreira (da Agência France Presse) seguimos a manifestação até chegar ao Rossio, onde outras plataformas se juntaram ao protesto.
A cara do polícia que me bateu era de raiva, até a língua estava a morder. Repeti não sei quantas vezes que era jornalista, em pânico, e nem assim ele parou, ainda deu com mais força.
Ao vermos que iriam dar mais uma volta lenta à Praça, sentámo-nos os dois num café a tentar editar umas fotografias (estas que aqui vêm, à exceção da última) para depois os apanharmos a caminho da Assembleia da República onde pensámos que possivelmente poderia haver alguma situação mais «quente». Acabou por não dar tempo para editar.
Começámos a subir a Rua do Carmo, depois a Rua Garret, onde começámos a ver o movimento anormal de carrinhas da Polícia de Intervenção. Corremos até ao local para onde se dirigiam.
Perdi-me da Patrícia e fui direito ao rapaz que aparece em todos vídeos a tirar o sangue da testa e atirar para cima da Polícia e apenas tirei uma fotografia (a penúltima aqui). Não tive tempo para me aperceber do que realmente estava a acontecer ali.
Quando me virei para trás, tirei esta última que aqui está e vi que estavam a começar a avançar e iriam varrer tudo o que estava à frente. Por mais absurdo que possa ser o comunicado da PSP que refere que nós, jornalistas, devemos estar atrás da linha policial (provavelmente para apanhar a cara de quem leva e não a de quem bate, como diz o Francisco Paraíso hoje no CM), foi exatamente isso que eu tentei fazer porque me vi numa situação em que iria ser apanhado no meio da confusão, sem sítio para escapar.
A falta de inteligência daqueles animais não alcança que para cada câmara que tentam que não fotografe ou filme a sua brutalidade, há dezenas de outras a captar o que está acontecer?
Andei na direção deles a dizer que era jornalista, em voz alta, e fiz sinal para que me deixassem passar para trás da linha que estavam a fazer e foi aí que me bateram pela primeira vez na cabeça e caí ao chão.
O resto, as imagens mostram como foi, sendo o resultado dois cortes na cabeça, seis pontos, ombro, costas e joelhos amassados mas, acima de tudo, uma sensação de medo e impotência perante tudo o que estava a acontecer.
A cara do polícia que me bateu era de raiva, até a língua estava a morder. Repeti não sei quantas vezes que era jornalista, em pânico, e nem assim ele parou, ainda deu com mais força. Nunca pensei que aquilo pudesse acontecer no meu país.
Ainda mais revolta causa ver as imagens da Patrícia a ser agredida daquela maneira! Como é possível?! Desde quando uma mulher com uma câmara fotográfica é ameaça para alguém? Não sei se foi premeditado ou não, mas a falta de inteligência daqueles animais não alcança que para cada câmara que tentam que não fotografe ou filme a sua brutalidade, há dezenas de outras a captar o que está acontecer?
O resultado está à vista. As imagens daquelas duas senhoras já mais velhas, uma a levar uma joelhada no peito e outra a ser atirada ao chão… Também não há palavras para descrever. Parabéns a quem captou tudo isto para que se possa ver e rever. A única coisa boa que se tira disto é exatamente a atenção que o assunto está a ter, para que não se repita. Ler mais »