A 29 de Abril de 1979, a mulher que está prestes a morrer decide atravessar a Avenida Chapultepec pela rua Monterrey, uma das mais movimentadas da Cidade do México.
Trinta e dois anos depois já pouco se conhece dela, exceto o nome, a beleza e a elegância, que sobreviveram.
Enquanto Adela Legarreta Rivas atravessa a rua, o condutor de um Datsun branco passa um cruzamento com o sinal vermelho e embate noutro carro.
Deste homem também nada se conhece, exceto o sexo e a criminosa imprudência. Perde o controle do Datsun e apanha Adela em cheio, lançando-a contra um poste.
Este poste, esta mulher.
O homem que captou o momento em que Adela morreu como uma soprano numa tragédia de ópera fotografara o seu primeiro cadáver aos doze anos.
O pai tinha uma loja que vendia máquinas fotográficas e fazia revelações, e mudou a vida do filho quando lhe colocou uma nas mãos.
Enrique Metinides, mexicano, grande consumidor de filmes de gangsters americanos, plantava-se à porta das delegacias para recriar com a jovem câmara as cenas que via na televisão.
Aos treze, já trabalhava para os tabloides mexicanos ávidos do sangue que escorria abundantemente pelas estradas e ruelas do país.
A nota roja, como é conhecida a imprensa sensacionalista no país, deu-lhe fama e uma alcunha: El niño, por ser miúdo e pela turbulência com que enfrentava o perigo só para conseguir as melhores fotos.
Tirou muitas em que é preciso um estômago forte para suportar o que os olhos veem, mas também procurou ser discreto, variar o ângulo dos acontecimentos mórbidos e sangrentos que se repetiam dia após dia e focar-se também nos rostos dos que assistiam, compondo um quadro geral de vítimas e voyeurs do macabro. Estas são as suas melhores fotos.
Ainda assim, «se pudesse empilhar todos as vítimas e cadáveres que já fotografei, teria uma pilha com a altura de uma montanha» – calculou ele numa extensa entrevista gravada em vídeo. – «Você não faz ideia os milhares e milhares de acidentes que testemunhei ao longo de cinquenta anos de carreira, as vezes em que testemunhei o ódio e a maldade entre os homens, o instinto do ser humano de matar por matar».
Aos 72, é um homem habituado à presença dos mortos e ao sofrimento dos que lhes sobrevivem, e só admite ter sentido «transtorno» quando se deparava com crianças mortas em acidentes ou em circunstâncias ainda mais horríveis – o que lhe aconteceu muitas vezes.
Mas «aquela foto é especial» – recorda ele na mesma entrevista – «porque a senhora não parece estar morta».
O fotógrafo afirma que a senhora era uma jornalista e estava ali para se encontrar com a irmã para se dirigirem à apresentação do seu último livro – daí estar tão impecavelmente vestida e maquilhada; todos os artigos de jornais que consultei sobre Enrique Metinides e a sua famosa foto dizem que Adela, «na verdade», era uma atriz mexicana.
Na verdade, a excentricidade da foto tornou todos estes pormenores insignificantes, o que não deixa de ser triste para quem realmente a conheceu.
É uma das fotos mais invulgares que já vi. Todos os elementos são a antítese do que normalmente se espera encontrar em imagens de acidentes, com os corpos ensanguentados, horrivelmente mutilados, virados do avesso. Contudo, impressiona.
A presença da morte nesta foto é tão subtil que, à medida que nos apercebermos dos seus sinais, nos sentimos mais afetados; um riacho de sangue a escorrer-lhe pelo rosto parece chocar mais do que os lagos vermelhos que banham as margens dos continentes inexplorados da morte.
Como refere um artigo no site Iconic Photos, «Death of a Beautiful Woman», olhamos para a foto e julgamos estar perante a encenação de uma campanha publicitária da United Colors of Benetton ou uma imagem editorial, cheia de glamour, da revista Face: a expressão do rosto, o olhar sereno, «o cabelo tão macio, as unhas vermelhas e cuidadas, a pulseira brilhante, a bolsa, o homem da Cruz Vermelha inclinando-se sobre a mulher para a cobrir com um casaco»
tão solícito como um cavalheiro procurando proteger a sua donzela do frio.
The New York Times: Pulp Nonfiction, Ripped From the Tabloids | Crítica da Fotografia Contemporânea: Entrevista em vídeo com Enrique Metinides | Iconic Photos: Death of a Beautiful Woman | (Obrigado, Alexandre, pelo teu email)