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→ 20/07/2011 @22:30

Uma «injeção de confiança»

Foto: António Cotrim

Quando aos 88 minutos o Benfica marcou o único golo no jogo de apresentação aos sócios, o locutor da RTP afirmou que aquele tinha sido uma «injeção de confiança». O golo foi tão confuso que cheguei a pensar que o autor, Jardel, o tinha marcado com o rabo – daí a perspicaz expressão do nosso especialista da bola. É uma hipótese ainda em aberto.

Esta imagem de um dos grandes do nosso foto-jornalismo – António Cotrim – faz muito mais sentido agora: há muito tempo que estes simpáticos franceses do Toulouse estavam cheios de vontade de nos dar a tal «injeção de confiança».

→ 20/07/2011 @0:57

A máquina fotográfica é o meu diário

Sarah Hermans, belga, 21 anos, talentosa, promissora, poética, insegura, fotografa sobretudo para preservar memórias.

«Tenho dificuldade em recordar as coisas boas que me acontecem na vida e a câmara ajuda-me a memorizá-las», afirmou numa entrevista dada aos 19 anos. «E as imagens que eu tiro, sejam ou não inventadas na minha cabeça, quer pareçam esperançosas, melancólicas ou dolorosas, são sempre sobre coisas que me aconteceram, que eu vi ou senti».

Sarah Hermans não é uma fotógrafa de «momentos decisivos», à maneira de um foto-jornalista; prefere captar momentos em que a beleza, a luz, os lugares, as roupas e os gestos se produzem como coincidências.

Escolhe esta frase para se definir: «Tenho tanto medo de perder algo que ame que me recuso a amar seja o que for». Exceto quando se encontra sob a proteção da sua câmara.

Aí, talvez se sinta mais livre para captar estas inseguranças refletidas nos gestos e nos olhos de quem fotografa. As memórias de quem foi: uma rapariga-mulher. E muito mais.

→ 18/07/2011 @17:09

Salto de fino recorte

Foto: Kim Ludbrook/EPA

Enquanto não se retoma o ritmo normal dos posts aqui no Bitaites, deixo-vos esta foto, magnífica, tirada por Kim Ludbrook a dois saltadores nos Campeonatos do Mundo de Natação em Xangai.

→ 16/07/2011 @14:42

A Força

Foto: Paul Kane/Getty Images

Este é o senhor Paul French, australiano.

Paul fez uma promessa: caminhar cerca de 4000 quilómetros – de Perth a Sidney – com um fato de Storm Trooper dos filmes de A Guerra das Estrelas. O fotógrafo Paul Kane apanhou-o ao quinto dia de viagem. Este storm trooper tenciona fazer entre 30 a 40 quilómetros por dia e jura que só vai parar quando chegar a Sidney.

Paul é maluco? Não, mas tem a determinação de um Forrest Gump. Organizou toda esta travessia na esperança de conseguir angariar dinheiro para uma fundação, a Starlight Children. Esta fundação trabalha com crianças hospitalizadas em estado terminal ou com doenças irreversíveis, e tem como principal objetivo realizar-lhes «o desejo de uma vida inteira». Se a criança sonha em brincar com um golfinho, a fundação realiza esse sonho; se a criança quer conhecer o seu ídolo, a Fundação organiza um encontro – por aí fora.

Paul tem uns quatro meses de caminhada para fazer. May the Force be with you.

→ 12/07/2011 @2:07

Duplo casamento

Foto: Christine Rucker

→ 10/07/2011 @14:41

Duplas exposições e retratos de zombies

Andre de Freitas, 22 anos, é um fotógrafo e ilustrador de Lima, no Peru. A série de fotos que tornou o trabalho de Andre mais conhecido é «Double Exposure», que resulta da exposição de dois negativos de forma a conseguir imagens sobrepostas.

Na era digital em que vivemos, a dupla (ou múltipla) exposição pode ser conseguida de forma mais fácil usando software de processamento de imagem como o Photoshop ou o Gimp.

Geralmente a utilização de Photoshop parece ter o efeito de fazer com que as pessoas desautorizem o fotógrafo, retirando-lhe mérito, mas o software é apenas uma ferramenta ao serviço da criatividade humana – tal como todas as ferramentas, pode ser bem ou mal usada. No caso de Andre, esta dupla exposição resulta muito bem.

Andre é também um talentoso ilustrador – os seus retratos de zombies entraram instantaneamente na minha galeria de favoritos. Link

→ 10/07/2011 @0:33

No fio da morte

A 29 de Abril de 1979, a mulher que está prestes a morrer decide atravessar a Avenida Chapultepec pela rua Monterrey, uma das mais movimentadas da Cidade do México.

Trinta e dois anos depois já pouco se conhece dela, exceto o nome, a beleza e a elegância, que sobreviveram.

Enquanto Adela Legarreta Rivas atravessa a rua, o condutor de um Datsun branco passa um cruzamento com o sinal vermelho e embate noutro carro.

Deste homem também nada se conhece, exceto o sexo e a criminosa imprudência. Perde o controle do Datsun e apanha Adela em cheio, lançando-a contra um poste.

Este poste, esta mulher.

O homem que captou o momento em que Adela morreu como uma soprano numa tragédia de ópera fotografara o seu primeiro cadáver aos doze anos.

O pai tinha uma loja que vendia máquinas fotográficas e fazia revelações, e mudou a vida do filho quando lhe colocou uma nas mãos.

Enrique Metinides, mexicano, grande consumidor de filmes de gangsters americanos, plantava-se à porta das delegacias para recriar com a jovem câmara as cenas que via na televisão.

Aos treze, já trabalhava para os tabloides mexicanos ávidos do sangue que escorria abundantemente pelas estradas e ruelas do país.

A nota roja, como é conhecida a imprensa sensacionalista no país, deu-lhe fama e uma alcunha: El niño, por ser miúdo e pela turbulência com que enfrentava o perigo só para conseguir as melhores fotos.

Tirou muitas em que é preciso um estômago forte para suportar o que os olhos veem, mas também procurou ser discreto, variar o ângulo dos acontecimentos mórbidos e sangrentos que se repetiam dia após dia e focar-se também nos rostos dos que assistiam, compondo um quadro geral de vítimas e voyeurs do macabro. Estas são as suas melhores fotos.

Ainda assim, «se pudesse empilhar todos as vítimas e cadáveres que já fotografei, teria uma pilha com a altura de uma montanha» – calculou ele numa extensa entrevista gravada em vídeo. – «Você não faz ideia os milhares e milhares de acidentes que testemunhei ao longo de cinquenta anos de carreira, as vezes em que testemunhei o ódio e a maldade entre os homens, o instinto do ser humano de matar por matar».

Aos 72, é um homem habituado à presença dos mortos e ao sofrimento dos que lhes sobrevivem, e só admite ter sentido «transtorno» quando se deparava com crianças mortas em acidentes ou em circunstâncias ainda mais horríveis – o que lhe aconteceu muitas vezes.

Mas «aquela foto é especial» – recorda ele na mesma entrevista – «porque a senhora não parece estar morta».

O fotógrafo afirma que a senhora era uma jornalista e estava ali para se encontrar com a irmã para se dirigirem à apresentação do seu último livro – daí estar tão impecavelmente vestida e maquilhada; todos os artigos de jornais que consultei sobre Enrique Metinides e a sua famosa foto dizem que Adela, «na verdade», era uma atriz mexicana.

Na verdade, a excentricidade da foto tornou todos estes pormenores insignificantes, o que não deixa de ser triste para quem realmente a conheceu.

É uma das fotos mais invulgares que já vi. Todos os elementos são a antítese do que normalmente se espera encontrar em imagens de acidentes, com os corpos ensanguentados, horrivelmente mutilados, virados do avesso. Contudo, impressiona.

A presença da morte nesta foto é tão subtil que, à medida que nos apercebermos dos seus sinais, nos sentimos mais afetados; um riacho de sangue a escorrer-lhe pelo rosto parece chocar mais do que os lagos vermelhos que banham as margens dos continentes inexplorados da morte.

Como refere um artigo no site Iconic Photos, «Death of a Beautiful Woman», olhamos para a foto e julgamos estar perante a encenação de uma campanha publicitária da United Colors of Benetton ou uma imagem editorial, cheia de glamour, da revista Face: a expressão do rosto, o olhar sereno, «o cabelo tão macio, as unhas vermelhas e cuidadas, a pulseira brilhante, a bolsa, o homem da Cruz Vermelha inclinando-se sobre a mulher para a cobrir com um casaco»

tão solícito como um cavalheiro procurando proteger a sua donzela do frio.

 

The New York Times: Pulp Nonfiction, Ripped From the Tabloids | Crítica da Fotografia Contemporânea: Entrevista em vídeo com Enrique Metinides | Iconic Photos: Death of a Beautiful Woman | (Obrigado, Alexandre, pelo teu email)