16/Maio/2010

O futebol é um fenómeno quântico

A BolaRecord

Sim, eu sei: Benfica, Benfica, Timor, Timor, loucura, loucura. O Benfica é grande e é motivo de orgulho ver os timorenses tão contentes com a visita, mas ao observar os dois jornais desportivos de Lisboa fico confuso em relação à forma como deverei interpretar o acontecimento. No Record, o presidente Luis Felipe Vieira diz que «o Benfica é um clube do Mundo».

Esta é uma afirmação que nem o mais ferrenho anti-benfiquista poderá contestar: o estádio do Glorioso fica em Lisboa, Lisboa fica em Portugal, Portugal fica na Europa, a Europa fica no mundo e o mundo onde acordamos todos os dias, tal como o conhecemos, é um pequeno planeta azul-rochoso que orbita uma estrela de meia-idade, de média grandeza e enorme paciência, tendo em conta a merda que andamos a fazer.

Os idiotas do Benfica que odeiam adeptos do FC Porto e os idiotas do FC Porto que odeiam adeptos do Benfica porque sim (introduzir aqui uma qualquer razão idiota), vivem todos no mesmo planeta e beneficiam todos do calor da mesma estrela. Somos todos do mundo, para o bem e para o mal. O Desportivo de Chaves, que joga hoje a final da Taça de Portugal contra o FCP e cujo feito tem sido ignorado, incluindo no próprio dia do jogo, é também um clube do mundo.

Nem sempre estamos todos no mesmo barco, mas não há dúvida de que estamos todos no mesmo mundo – excepto para o jornal A Bola.

A Bola avança outra conclusão: à constatação presidencial de que o Benfica é do mundo, contrapõe uma afirmação mais ousada e metafísica, como de resto é hábito: um Benfica do outro mundo. Como o jornal não defende a tese de que Timor-Leste fica na Lua, em Marte ou num planeta exosolar por descobrir, um pobre leitor é obrigado a especular para perceber o sentido da mensagem.

Sempre achei que o problema do meu clube, nos últimos anos, foi ter permitido que coexistissem dois Benficas: o Benfica real, que tem combatido com dificuldade a hegemonia desportiva do FC Porto; e o Benfica fantasmagórico, o grande Benfica da década de 60, o Benfica de Eusébio que envaideceu o país orgulhosamente só, pobrezinho mas honrado, com as suas conquistas europeias.

Ora, este problema da coexistência de dois estados diferentes agudizou-se quando caímos na tentação de confundir esse Benfica fantasmagórico com o Benfica real e fazer do Benfica real um fantasma que, de vez em quando, nos assombrava com a realidade das suas derrotas.

Será que é isto que a manchete nos quer dizer, que o Benfica fantasmagórico, o Benfica do outro mundo, ganhou de novo substância e já interage com o real? Bem, assim já se compreende: afinal, que interesse jornalístico pode ter a final da Taça de Portugal se A Bola acabou de descobrir o vencedor da Taça do Outro Mundo?

E se não tiver nada a ver com fantasmas? Será que o jornal A Bola nos está a dar uma perspectiva mais quântica da realidade, dando a entender que um clube tanto pode ser campeão ou corrupto, depende de quem o está a observar? Será que A Bola nos está a dizer que coexistem tantas realidades quanto observadores?

Porra, isto é preocupante e pode estragar a festa a qualquer um. Que realidade alternativa foi esta que colocou 100 mil benfiquistas a festejar o título de campeão nacional no Marquês de Pombal? Será que ao mesmo tempo que festejávamos o nosso título, milhares de portistas festejavam a conquista do caneco europeu com o Mourinho? Teremos estado no Marquês a festejar sem darmos conta dos milhares de sportinguistas que lá estavam também a comemorar o título de campeão nacional, acompanhados pelos sócios do Belenenses que ainda festejavam o título ganho em 1946?

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 13 comentários »
14/Maio/2010

Uma derrota para todos (última actualização)

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Este dia foi confuso com notícias de rumores e rumores de notícias sobre a morte de um adepto do Benfica em Braga, depois de ter sido espancado. A informação foi veiculada pelo Público, citando fonte da Benfica TV.

Mais tarde, eu soube que a notícia não correspondia à verdade: um adepto benfiquista tinha sido agredido em Braga, estivera hospitalizado mas tinha tido alta na terça-feira.

Dado que o jornal Público afirmava ser aquela uma notícia avançada pela Benfica TV, a minha esperança enquanto adepto benfiquista, como escrevi na segunda versão deste post, foi a de que a Benfica TV tivesse feito mau jornalismo, não um jornalismo maldoso.

Finalmente, um comentário de Ricardo Martins veio esclarecer as circunstâncias em que esta notícia foi cozinhada: «Tudo isto começa com uma chamada telefónica, do presidente da casa do Benfica de Braga, para um programa de opinião da Benfica TV em que refere que tinha sido avisado de que essa tal pessoa teria falecido. Fim de chamada, segue programa Benfica TV com outras análises. Muito possivelmente este telefonema foi descredibilizado pela Benfica TV, pois esse facto, a suposta morte de adepto do Benfica, nunca mereceu qualquer destaque nos telejornais da Benfica TV, nem ontem, nem hoje.»

Sabemos como funciona este tipo de  programas de participação popular, ainda por cima num canal específico de um clube de futebol, e a explicação do Ricardo parece-me muito plausível.

O presidente da Casa do Benfica de Braga, contactado por um colega do meu jornal a propósito desta notícia, remeteu o assunto para o vice-presidente; este, por seu turno, afirmou que não sabia de nada, nem sequer sabia quem era esse adepto que morrera. Se for preciso, pedirei ao colega que fez estes telefonemas para os confirmar aqui. Esta discrepância mostra que, quando se trata de futebol, a principal regra parece ser a de não pensar antes de falar.

O que levou o Público online a considerar esta situação digna de ser tratada como notícia, ainda por cima atribuindo-a como tendo sido lançada pela Benfica TV? A minha explicação mantém-se: este é o resultado do crescente desinvestimento nas redacções. E eu, patinho, cometi o erro de «confiar» neste parente pobre do grande Público de outrora. Já devia saber o que a casa pode (sobretudo, não pode) gastar. Entretanto, no pasquim 24horas, procurava-se saber a verdade com o sentido de responsabilidade que o Público não teve.

Adenda: O texto da primeira versão deste post, embora defendendo ideias que considero válidas e não dependentes deste facto concreto, foi escrito (e concluído) no pressuposto de que o adepto morrera. Como isso não sucedeu, decidi retirá-lo para não criar confusão a quem lê este post desconhecendo que já teve várias versões.

Já agora, no Jugular, Cronologia de uma triste história (e mais uns pozinhos)

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 47 comentários »
3/Maio/2010

O post do consolo

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A bela Rai

O FC Porto mereceu este resultado. Jogou melhor, com garra, dez contra onze, salvou a época, parabéns. Os portistas ganharam, eu ganhei uma pequena azia. Nada de especial, nada de novo, não é a primeira nem será a última. A música cura-me logo destas tontices da bola.
Planeara publicar aqui um daqueles posts de consagração, com uma bela águia a voar ou o Bruno Alves em biquíni numa posição embaraçosa, estão a ver a cena, mas terá de ficar para a próxima semana. Se ganharmos ao Rio Ave, claro.

Seja como for, o clima de violência entre os idiotas e fanáticos de ambos os clubes parece dar cabo da cabeça dos jogadores e quase me fez perder a vontade de ver a porcaria do jogo. Só à última me decidi. O ódio dá cabo do prazer de jogar futebol e o que noto nestes jogos entre Benfica e FC Porto é que raramente transmitem prazer pelo futebol em si, só pelo resultado.

Nem tudo é mau, benfiquistas! Vamos esquecer a azia e portarmo-nos bem, pois a bela Aishwarya Rai está neste momento a observar-nos, e aqueles olhos são mais fogosos que o bafo de qualquer dragão!

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29/Abril/2010

Humores do futebol

Benfica no Dragão

Como o Benfica pode garantir a conquista do campeonato se ganhar ou empatar no estádio do principal rival, esta foto já começou a circular pela Net, mimetizando a corrente dos reservados iniciada no Marquês de Pombal. A mim parece-me ser uma montagem, mas deixo a palavra final aos especialistas em Photoshop que visitam o blogue.

A eliminação do Barça

Já nas fotos aqui em cima, não restam qualquer dúvidas: são fotomontagens criadas pelos adeptos do Real Madrid destinadas a celebrar a eliminação do rival Barcelona pelo Inter de Mourinho. Os originais estão aqui nesta página «dedicada aos anti-madrilistas» Estas coisas são iguais em todo o lado.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 15 comentários »
22/Março/2010

Fotos do clássico

O clássico do futebol português deu aos fotógrafos muitas oportunidades para conseguir bons bonecos. Neste post partilho algumas fotografias tiradas no jogo entre Benfica e FC Porto. Para não sobrecarregar a página principal, dividi-o em duas páginas – quem acompanha pelos feeds só consegue ver a primeira, pelo que o melhor é dar um pulo aqui.


Cabeçadas e caretas

Aimar, Rúben Micael e Airton

Aimar, Rúben Micael e Airton [Foto: Jorge Amaral/Global Imagens]

Rolando e Kardec

Rolando e Kardec [Foto: Jorge Amaral/Global Imagens]

Falcão, Fábio Coentrão e David Luiz

Falcão, Fábio Coentrão e David Luiz [Foto: Francisco Seco/AP]

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21/Março/2010

Este ano é só tirar a barriga das misérias

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Mats MagnussonMats Magnusson

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10/Março/2010

Deixa lá, a vida são cinco dias

Existe uma explicação científica para o que se está a passar. Há uma espécie de Gripe A no futebol português, A de abada. Primeiro, atacou o Sporting; agora, ataca o FC Porto.

Scarlett, a diva das boquinhas de broche

Se acharem a letra A ofensiva, tendo em conta os acontecimentos recentes, chamem-lhe Gripe C, C de crise. É mais suave. Tal como a gripe, esta crise pega-se. O FC Porto chegou a Alvalade, cheio de saúde e pujança depois da goleada ao Sporting de Braga, jogou com o moribundo Sporting, perdeu 3-0 e pronto, ficou contaminado. Quando andaram a dizer que o Benfica era uma equipa cansada cheguei a pensar que também tinha apanhado qualquer coisa quando empatou em Alvalade – foi só um susto, felizmente.

Quanto ao Porto, os sintomas de Gripe C começaram de imediato. Olhanense? Empate à rasquinha. Arsenal? Concentrem-se na Scarlett. Não há nada a fazer contra a corrente de transmissão deste vírus. Até o treinador do Sporting Carlos Carvalhal – a quem o jornal Record passou semanas a querer fazer a cama – se ergueu e caminhou, como um Lázaro das tácticas.

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1/Março/2010

Futebolisticamente, tem sido perfeito

BenficaSporting

Fotos: Pedro Ferrari (esq) e António Cotrim (dir)

O FC Porto treinado pelo benfiquista Jesualdo fez-nos o favor de derrotar o Sporting de Braga; nós fizemos a nossa obrigação e goleámos o Leixões; o Sporting ganhou ao FC Porto com dois um dos três golos a ser marcado pelo filho do ilustre benfiquista Veloso. E só a ex-equipa do benfiquista Jorge Jesus poderá impedir que fiquemos com o caneco.

Como vêem, este ano só dá Benfica. :mrgreen:

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28/Janeiro/2010

Estamos em guerra civil por causa do futebol?

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Tenho feito os possíveis por ignorar os últimos romances policiais que envolvem Benfica e FC Porto, mas o título de um artigo do Jornal O Público fez-me mudar de opinião.

Diz O Público que o futebol português está em «guerra civil».

Como as duas batatas que o Sá Pinto espetou no Liedson só dizem respeito ao Sporting, o que está a provocar esta «guerra civil» deve ser o confronto entre o meu clube e o FC Porto.

É natural que a expressão sirva para definir de forma resumida a situação – eu preferia chamar-lhe estupidez aguda. Não sei se «estupidez aguda» é a expressão mais correcta do ponto de vista jornalístico, mas pelo menos tem o mérito de dar aos protagonistas da contenda – os dirigentes dos dois clubes – a importância que ambos merecem.

Não é isso que sucede – eles estão em «guerra civil».

Os clubes e respectivos dirigentes têm tanta importância e são tão representativos na nossa sociedade que até têm o poder de provocar uma «guerra civil». Deviam ser envergonhados e ridicularizados até à exaustão, mas são analisados com toda a seriedade. Têm o tempo de antena que pessoas que fazem de facto alguma coisa de útil neste país nunca sonharão ter.

Se estamos mesmo em guerra e não podemos evitá-la, então sugiro que os clubes tomem medidas. Se as camisolas e os símbolos através dos quais Benfica e FC Porto sustentam a sua honra desportiva já não são adequados à situação actual, então que os substituam pelas fardas. Dá-se mais um passo na direcção errada.

Aliás, acho até que os adeptos dos clubes não deviam ser sócios apenas por pagar as quotas. Todos os candidatos a sócios entre os 18 e os 40 anos deviam cumprir um serviço militar obrigatório dentro dos próprios clubes. A recruta podia ser dada em campos de futebol adaptados para o efeito.

Em vez de aprenderem a jogar à bola (que interesse tem isso, afinal?) podiam ser ensinados a lançar – bem, não digo granadas, porque somos um povo pacífico, mas umas pedras; vá, uns pedregulhos para as situações mais apertadas, pois é importante afinar a pontaria perante as formações inimigas, como se viu há uns tempos num jogo entre juniores do Benfica e do Sporting.

A recruta também podia ser usada para os sócios aprenderem a dar cacetadas como deve ser, com os pés e as mãos. Umas técnicas para mandar pauladas nas costelas inimigas à maneira do Corpo de Intervenção também seriam bem-vindas.

Finalmente, chegaria o Dia do Juramento de Bandeira. Os recrutas – agora prestes a fazerem-se sócios – receberiam os seus cartões de sócio e cantariam a plenos pulmões o seu hino nacional: Contra os dragões marchar, marchar ou Contra os lampiões, marchar, marchar.

Enfim, é uma guerra. Que pode fazer um gajo que gosta de futebol? Talvez um movimento de desportistas do FC Porto e do Benfica se pudesse reunir, marcar uma conferência de imprensa e, com o microfone ligado, mandar os seus respectivos dirigentes e toda a corja do futebol português para o caralho que os foda.

Eu proponho outra solução para evitar uma guerra em grande escala.

Os dois chefes das tribos rivais podiam encontrar-se para um duelo. Uma cena à moda antiga. Que escolhessem as armas à vontade: pistolas, espadas, punhos, pés, dentes ou unhas – mas resolvessem essa merda de uma vez por todas. Que Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira se matem à porrada nos túneis dos ratos de Mafra, se quiserem, mas deixem o futebol e quem gosta de futebol em paz.

Eu ainda tenho a esperança de poder ir à bola ver o meu clube jogar contra o seu principal rival sem estar preocupado com o que possa acontecer ao meu filho. Com o ambiente actual não é possível – numa guerra há sempre baixas entre os inocentes.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Futeboladas | 7 comentários »