O futebol é um fenómeno quântico
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Sim, eu sei: Benfica, Benfica, Timor, Timor, loucura, loucura. O Benfica é grande e é motivo de orgulho ver os timorenses tão contentes com a visita, mas ao observar os dois jornais desportivos de Lisboa fico confuso em relação à forma como deverei interpretar o acontecimento. No Record, o presidente Luis Felipe Vieira diz que «o Benfica é um clube do Mundo».
Esta é uma afirmação que nem o mais ferrenho anti-benfiquista poderá contestar: o estádio do Glorioso fica em Lisboa, Lisboa fica em Portugal, Portugal fica na Europa, a Europa fica no mundo e o mundo onde acordamos todos os dias, tal como o conhecemos, é um pequeno planeta azul-rochoso que orbita uma estrela de meia-idade, de média grandeza e enorme paciência, tendo em conta a merda que andamos a fazer.
Os idiotas do Benfica que odeiam adeptos do FC Porto e os idiotas do FC Porto que odeiam adeptos do Benfica porque sim (introduzir aqui uma qualquer razão idiota), vivem todos no mesmo planeta e beneficiam todos do calor da mesma estrela. Somos todos do mundo, para o bem e para o mal. O Desportivo de Chaves, que joga hoje a final da Taça de Portugal contra o FCP e cujo feito tem sido ignorado, incluindo no próprio dia do jogo, é também um clube do mundo.
Nem sempre estamos todos no mesmo barco, mas não há dúvida de que estamos todos no mesmo mundo – excepto para o jornal A Bola.
A Bola avança outra conclusão: à constatação presidencial de que o Benfica é do mundo, contrapõe uma afirmação mais ousada e metafísica, como de resto é hábito: um Benfica do outro mundo. Como o jornal não defende a tese de que Timor-Leste fica na Lua, em Marte ou num planeta exosolar por descobrir, um pobre leitor é obrigado a especular para perceber o sentido da mensagem.
Sempre achei que o problema do meu clube, nos últimos anos, foi ter permitido que coexistissem dois Benficas: o Benfica real, que tem combatido com dificuldade a hegemonia desportiva do FC Porto; e o Benfica fantasmagórico, o grande Benfica da década de 60, o Benfica de Eusébio que envaideceu o país orgulhosamente só, pobrezinho mas honrado, com as suas conquistas europeias.
Ora, este problema da coexistência de dois estados diferentes agudizou-se quando caímos na tentação de confundir esse Benfica fantasmagórico com o Benfica real e fazer do Benfica real um fantasma que, de vez em quando, nos assombrava com a realidade das suas derrotas.
Será que é isto que a manchete nos quer dizer, que o Benfica fantasmagórico, o Benfica do outro mundo, ganhou de novo substância e já interage com o real? Bem, assim já se compreende: afinal, que interesse jornalístico pode ter a final da Taça de Portugal se A Bola acabou de descobrir o vencedor da Taça do Outro Mundo?
E se não tiver nada a ver com fantasmas? Será que o jornal A Bola nos está a dar uma perspectiva mais quântica da realidade, dando a entender que um clube tanto pode ser campeão ou corrupto, depende de quem o está a observar? Será que A Bola nos está a dizer que coexistem tantas realidades quanto observadores?
Porra, isto é preocupante e pode estragar a festa a qualquer um. Que realidade alternativa foi esta que colocou 100 mil benfiquistas a festejar o título de campeão nacional no Marquês de Pombal? Será que ao mesmo tempo que festejávamos o nosso título, milhares de portistas festejavam a conquista do caneco europeu com o Mourinho? Teremos estado no Marquês a festejar sem darmos conta dos milhares de sportinguistas que lá estavam também a comemorar o título de campeão nacional, acompanhados pelos sócios do Belenenses que ainda festejavam o título ganho em 1946?


































