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→ 02/05/2012 @0:49

Obviamente, demasiado Sol

Uma cidadã não-identificada da localidade de Wolfhalden, no leste da Suíça, viu um documentário sobre um guru indiano que «vivia há 70 anos sem comer nem beber», alimentando-se apenas de ar e raios do Sol.

Impressionada, a senhora decidiu iniciar a sua própria dieta solarenga. Semanas depois, morreu à fome.

 

Teorias de cortar a respiração

Terá a senhora ascendido à «Terra Primordial» ou «Nova Terra»? Tudo é possível no Reino da Suprema Estupidez. Segundo Wiley Brooks, líder do Instituto Respiratoriano da América, a Nova Terra fica lá para os lados da «quinta dimensão – um mundo sem as vibrações do medo ou da dor.»

Este é um mundo onde «se sente amor, paz e alegrias incríveis», amor e alegria com os quais «apenas podemos sonhar neste mundo tridimensional onde vivemos».

Andaram os desgraçados dos físicos a partir a cabeça com a teoria de Kaluza-Klein sem sequer suspeitar que a «dimensão escondida» no espaço-tempo de Einstein estava ao alcance de um comprimido de Xanax.

Wiley Brooks, 74 anos, «professor especialista em ascenções» (nada a ver com elevadores) explica na página de perfil que a sua missão é povoar a «Terra Primordial» de tantos humanos quanto lhe for possível antes de 20 de março de 2013.

Wiley Brooks é um respiratoriano há 30 anos – isto significa que, «sob determinadas circunstâncias», consegue viver sem ingerir «comida física».

As pessoas que costumam afirmar «desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me surpreende» talvez ainda não conheçam o Respiratorianismo.

Sim, é um nome difícil, mas garanto-vos que é ainda mais complicado de aceitar do que soletrar. Seja como for, ambos os fenómenos – o ser humano a alimentar-se de ar e luz do Sol, e o porco a andar de bicicleta –  podem ser explicados da mesma forma.

Segundo esta página, o Respiratorianismo «é um estado do ser humano, caracterizado (entre outras coisas) pela abstinência de comida, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual a pessoa vive».

 

Respiratorianismo versus Ciclosuinismo

Um porco a andar de bicicleta

A caracterização de um respiratoriano é maravilhosamente flexível e pode ser usada para explicar o fenómeno do porco ciclista.

Vamos experimentar? O Ciclosuinismo é «um estado do porco, caracterizado (entre outras coisas) pela capacidade em andar de bicicleta, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual vive».

Como sempre acontece, as expressões-chave usadas por mentes iluminadas como a de Wiley Brooks são precisamente aquelas que nada significam – não significando nada em concreto, podem ser interpretadas segundo as conveniências de cada um.

Com jeitinho, poderíamos usar a expressão «expansão da esfera consciencial» para explicar fenómenos que não conseguimos compreender como, por exemplo, a fotossíntese – não por serem transcendentes mas por serem científicos e não percebermos um boi do que é a Ciência e de como esta transforma hipóteses em teorias verificáveis sem o auxílio de esferas conscienciais.

«Em geral», prossegue o texto, «um respiratoriano ideal (totalmente realizado) não necessita comer e nem beber água para manter o corpo funcionando perfeitamente. Um respiratoriano não consome comida e nem líquidos (incluindo água), ele precisa somente de ar para nutrir o seu corpo.»

O ser humano necessita apenas de ar para comer e o porco só precisa de uma bicicleta para que consiga pedalar. Tudo é possível de acontecer quando a esfera consciencial se expande.

 

Não és um Homem, és uma planta

Wiley Brooks e todos os outros profetas da sub-nutrição querem fazer-nos acreditar que o ser humano, tal como as algas, as plantas e algumas bactérias, é capaz de produzir o seu próprio alimento a partir do dióxido de carbono. Possuímos a capacidade de nos tornarmos seres autotróficos e usarmos a fotossíntese se conseguirmos expandir a esfera consciencial.

O único momento da vida onde pareço estar a expandir a minha esfera consciencial é nas caretas que faço quando estou na casa de banho com prisão de ventre –  mas quem sou eu, pobre terrestre de terceira dimensão, para entender coisas tão espiritualmente elevadas? Eu faço parte do grupo de gente bizarra que precisa de comida para fornecer energia ao organismo.

Não obstante o meu ceticismo, as seguintes questões mantém-se válidas: o que é e como se consegue expandir a esfera consciencial?

A resposta é simples: recorrendo aos ensinamentos pagos de pessoas como Wiley Brooks, o ascensorista das almas. E de que forma passamos a saber da existência de pessoas como Wiley Brooks? Através de documentários onde alegações insanas nos são apresentadas sem o espírito crítico que recuperaria a verdade dos factos e a sanidade mental do espectador, mas prejudicaria o espetáculo circense – documentários como o que a senhora na Suíça terá visto.

Claro que a livre circulação de informação também pode prejudicar os vigaristas, ao invés de os beneficiar. Que o diga o nosso respiratoriano Brooks, que em 1983 foi apanhado a sair de uma loja 7-Eleven (uma marca de lojas de conveniência) com um refrigerante gelado, um cachorro-quente e um bolinho twinkie

(hum, que delícia cremosa, muito melhor do que apanhar um escaldão. Terá sido uma semana muito chuvosa?)

Em 2003, com o negócio da sub-nutrição a falhar, Brooks foi obrigado a dar umas quantas explicações: a culpa era da poluição do ar – o que faz sentido, pois ninguém gosta de ingerir comida estragada. Antecipando futuras transgressões à dieta de Sol e ar, ressalvou que consumir o ocasional cheeseburguer e uma coca-cola lhe permitia «adicionar equilíbrio» num mundo repleto de restaurantes fast-food e junk-food –  uma explicação tão satisfatória como a esfera consciencial em expansão. E afirmou também que Diet Coke é «luz líquida».

Conclusão: se te faltar a luz em casa não uses lanternas, bebe Diet Coke! Nem os criativos do Marketing da Coca-Cola seriam capazes de nos impingir esta.

 

Ciência, só depois de amanhã

Quem diz que se alimenta de ar só pode influenciar cabeças cheias de ar. Não se trata de ter uma «mente aberta», como tantas vezes se ouve dizer como resposta às vozes céticas, mas de a ter quase completamente oca, a ponto de desprezar as evidências e muitos séculos de aprendizagem médica. Mente aberta, neste caso, é sinónimo de mentir abertamente.

O guru indiano tem uma teoria fundamentada e verificada por fontes independentes? Não. Os trinta médicos que o observaram partilharam os seus resultados com a comunidade científica? Não, preferiram contar a história aos jornalistas. As condições em que o guru da anorexia solar foi observado… Rigorosas? Népia, pois nem sequer se procedeu a uma vigilância 24 horas por dia – ao contrário do que diz a notícia aqui em cima.

O que temos são «histórias» – e «histórias» não são provas nem teorias. E esta tem como protagonista um vígaro sobre o qual o AstroPT já escreveu o suficiente.

A ideia de suprimir a voz destes loucos e vigaristas é atraente, mas contra-producente: não só cultivamos um fruto proibido como perdemos uma excelente oportunidade de aproveitar o interesse das pessoas nestes pseudo-fenómenos circenses para contrapor uma boa dose de análise crítica.

E foi essa oportunidade que o sítio Ciência Hoje perdeu, quando divulgou a história do guru indiano acima mencionado sem se preocupar com as suas responsabilidades pedagógicas. O artigo acabou por desaparecer nas sombras de um eclipse solar e só a cache lunar do Google prova que alguma vez existiu. O sítio soube reconhecer o erro e, como tantas vezes tem feito, abraçou a Luz – a luz do Conhecimento, claro.

Post-it para colar nos ecrãs do Ciência Hoje: a ausência de espírito crítico num sítio de Ciência que escolhe divulgar estes fenómenos só contribui para que vígaros como Wiley Brooks continuem a povoar a «quinta dimensão». Antes de apagar, expliquem aos leitores porquê. Um post não é propriamente um Triângulo das Bermudas.

→ 27/04/2012 @17:11

Palavras desencarnadas

Joos van Craesbeeck

Segundo o compositor eletroacústico Yannis Kyriakides, a voz é a «música como natureza», a natureza da música, o nível em que a música está ainda no domínio do som, ou seja, em que não é música propriamente, organização de sons, mas Ruído.

Yannis Kyriakides

Expressão da fisicalidade e até da sensualidade do som, a voz primordial, a voz ainda não determinada pela palavra, está desligada da mente e do domínio do significado. É o som pelo som. É ruído. É a primitiva acústica humana, murmúrio e grito.

No princípio era o Verbo, reza a Bíblia, mas o verbo de que aqui se fala, Deus, não é necessariamente a Palavra ou o Sentido. «Logos», o termo grego original de difícil tradução que está na origem de tantos equívocos, é aquilo que somos enquanto seres humanos, mesmo que não saibamos como afirmá-lo.

Com mais importância ainda, na opinião de um outro compositor dos nossos dias, Andrew McKenzie (Hafler Trio), é ainda aquilo que queremos / podemos ser no processo de construção a que chamamos vida.

 

Genocídio do som

Por algum motivo, assim que a voz se tornou no veículo da palavra e da comunicação entre os homens também a música foi normatizada na correspondência das suas estruturas linguística e narrativa.

A funcionalização da voz fez com que os seus usos ficassem delimitados fonética, social e racionalmente. Da mesma forma, a música surgiu como a domesticação do som e a conversão utilitária deste.

Fala e canto são os dois aspetos de uma mesma vitória do cultural sobre o natural. E curiosamente, uma vitória instituída não pela prática oral da dita fala e do referido canto, mas pela escrita.

Através da escrita, a documental e a musical do mesmo modo, definiu-se o que se fala e o que se canta. Sobretudo, excluiu-se do seu âmbito tudo o que foi considerado desnecessário e supérfluo.

Com autorização da escrita, foram-se subtraindo sons. Chegou-se mesmo ao ponto de considerar que a escrita podia substituir a produção sonora dos signos que inicialmente formulara apenas para os indicar. É já música, como se advogou no século XVIII, a partitura que a sinaliza, não passando tal de um absurdo, de um contrassenso.

Noutro sector, o teatro (encenação da fala), o que é também a dramaturgia senão a transladação para a oralidade de um texto impronunciável?

A escrita, percebeu-se ao longo do passado século, é a perversão da linguagem e representa até o genocídio do som.

Acontece, porém, que o som é selvagem e não aceita este jugo passivamente… O EVP (Electronic Voice Phenomena) é bem um exemplo da sua tendência para se manifestar fora do confinamento a que foi sujeito.

Desde a invenção da rádio, do fonógrafo e dos gravadores áudio que vem sendo referida a audição de vozes vindas do Além, seja de espíritos ou de seres extraterrestres inteligentes.

«Apanhadas» no meio da estática e do ruído de superfície de discos e fitas, estas vozes vindas dos túmulos e do espaço sideral, sejam autênticas ou produto de imaginações mais férteis, começaram por nos surgir como irmãs da voz primordial que fomos obrigados a calar dentro de nós.

Irmãs, digo, porque vindas do «outro lado», aquele que desmente a nossa realidade.

Giacinto Scelsi

Este fator, mais a circunstância de se ter perdido o controlo do ruído nas urbes e nos complexos industriais, a que se somou entretanto a overdose informativa, e necessariamente oral, da televisão, levou a transformações radicais no uso da palavra e na música.

A improvisação como fator de criação teatral e musical trouxe o regresso da fala e do canto à voz, e para aí caminhou também a poesia, desestruturando-se, abandonando o campo semântico, entregando o sentido ao caos.

 

Visões pós-punk

Na música, a contemporaneidade manifestou-se por meio do primado do som. O som é já a «música», mesmo que não seja «musical». As vozes não cantam, são elas próprias: murmúrios e gritos de novo.

Provenientes dos media ou gravadas na rua, estão finalmente soltas. Podem até ter significado, mas este relativiza-se, confunde-se com todos os outros significados da sonosfera.

Quando perdem a racionalidade, é como se entrássemos na Esfera de Giacinto Scelsi (era assim que este via o som, como uma bola perfeita, sem arestas, cheia e erotizada): submergimos no som, somos Som.

No fim será o Verbo, é o que anuncia esta visão pós-punk de Deus, o nome que damos ao Absoluto do som, à Voz, a nós mesmos no mais fundo de nós, desencarnados e pela primeira vez expostos ao mundo.

→ 28/03/2012 @23:23

Cosmos, rugidos e silêncios

O vídeo: de acordo com as instruções fornecidas pelo utilizador que o colocou no YouTube, devemos colocar o som das colunas quase no máximo e certificarmo-nos de que aquelas têm woofers suficientemente bons para aguentar a potência sonora dos motores que lançam o vaivém para fora da atmosfera terrestre.

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Quanto melhor for o sistema de som, mais poderosa a experiência. A ideia de colocar este vídeo, prossegue o utilizador, foi a de «compensar» os que nunca puderam deslocar-se a Cape Canaveral, na Florida, e assistir ao vivo a um destes lançamentos.

Subam o som, se puderem, e oiçam. Impressionante, não acham?

 

Mas vejam agora esta foto, tão maravilhosa para cientistas como para poetas.

Esta é uma imagem já bem conhecida de todos os amantes de Astronomia, captada em infravermelhos pelo telescópio espacial Spitzer, as lentes apontadas mesmo ao coração da nossa galáxia, a Via Láctea.

O que observam encontra-se a 26 mil anos-luz e é por isso – só por isso – que subitamente o monumental rugido dos motores principais do vaivém parece agora tão insignificante perante a imensidão de todo este silêncio.

O Universo é silencioso porque o som não se propaga no vácuo e é silencioso por nos esconder ainda tantos mistérios… Mas comunica de muitas formas, muitas das quais invisíveis ao limitado olhar terrestre.

E é por termos instrumentos cada vez mais sofisticados para descodificar o significado das mensagens que o Universo nos envia que um grupo de cientistas da Universidade Grenoble, em França, pôde partilhar uma conclusão que até há poucas décadas seria impensável de obter: milhares de planetas potencialmente habitáveis devem existir na nossa galáxia.

 

100 estrelas anãs, 40 Super-Terras

Observem a foto outra vez. Haverá algum ser inteligente extraterrestre (para conveniência do post e da fraca imaginação do autor, não vamos caracterizá-lo radicalmente diferente de nós) observando uma foto semelhante à nossa, uma esplendorosa imagem do braço da galáxia por onde andamos?

Caso exista e for ingénuo como nós, que problemas poderá esperar que os misteriosos extraterrestres do terceiro planeta a contar do Sol tenham resolvido? Será o Universo um gigantesco «espelho» onde pudemos observar o que fomos ou o que poderemos vir a ser como espécie?

Do que temos quase a certeza, a julgar pelos resultados obtidos pelos investigadores, é que ao número considerável de estrelas anãs na nossa galáxia – 160 milhares de milhões, conta o estudo agora divulgado – deverão corresponder milhões de planetas «potencialmente habitáveis». Uma centena desses planetas – chamamos-lhe «Super-Terras», por serem rochosos e massivos – estará a menos de 30 anos-luz do nosso planeta. À escala cósmica, é malta vizinha.

Os cientistas chegaram a esta conclusão devido à premissa segundo a qual pelo menos 40 por cento das estrelas anãs possuem um planeta rochoso semelhante à Terra a orbitar na chamada «zona habitável».

Mas é preciso ter atenção a estas notícias e à forma como rapidamente os media associam conclusões baseadas em premissas à existência de vida extraterrestre e, pior ainda, a homenzinhos verdes em naves espaciais: quando um cientista diz «potencialmente habitável» refere-se a duas perspetivas diferentes: primeiro, pode ser habitável de acordo com as únicas condições que conhecemos para a existência de vida, ou seja, as condições terrestres; segundo, pouco sabemos de planetas terrestres na galáxia (muito menos ET’s) mas, tal como vós, leigos, adorávamos saber.

E é então que a poderosa e inspiradora muralha de sons à Stockhausen sugerida pelos motores do vídeo me deixa a pensar o que poderá acontecer quando, num futuro longínquo, a nossa engenharia desvendar os mistérios deste silêncio cósmico e pudermos espreitar para o outro lado do espelho…

→ 22/01/2012 @19:00

Abelha Maya

Eu já devia ter aprendido que quando me chega aos ouvidos um disparate anti-científico divulgado na televisão o melhor é desligar e seguir em frente.

Para quê chatear-me? O Universo continuará a ser regido por leis físicas, independentemente das tretalogias medievais que nos dizem o contrário; o Universo permanecerá indiferente à nossa presença, sejam quais forem as convicções egocêntricas sobre a importância central da nossa espécie.

Eu já devia ter aprendido, mas não aprendo. Fico furioso. Passo-me da cabeça.

A última irresponsabilidade televisiva teve como protagonista uma astróloga, Maya. Também é uma «tárologa» – chamam-na assim por ser uma especialista em cartas Tarot, mas eu prefiro definir uma tárologa como uma pessoa que é tarada, tarada por astrologia.

Tarada no sentido Alcina Lameiras do termo: não sei se lembram (eu não – e tive de corrigir o post), Alcina é uma espécie de astróloga que durante demasiado tempo surgiu num spot televisivo a dizer-nos «não negue à partida uma ciência que não conhece».

Infelizmente, a especialista em calos cósmicos Maya não seguiu o conselho da guru Alcina e decidiu, em direto na televisão, negar à partida uma ciência que não conhece: a medicina.
 

O calo da questão

Depois de receber um telefonema de uma mulher que estava acamada por ter fraturado a bacia, Maya aconselhou-a a ir a uma clínica, pois precisava de «ser operada para ser tratada convenientemente.

A sua situação tem solução, mas não está ser bem conduzida, de todo».

Depois sugeriu à mulher que contrariasse as ordens do médico e saísse da cama: «O repouso absoluto não está a pôr as coisas no lugar. E agora como é que o osso cola? É estando deitadinha? E se o osso ganha calo no sítio errado?»

Ilustração: Nelson Santos

Eu não estou obviamente qualificado para explicar seja o que for na área da ortopedia, mas parece-me que Maya brincou demasiado aos médicos quando era pequenina e está agora a aplicar tudo o que aprendeu.

Se uma boneca se partia e fazia dói-dói, a doutora Maya curava com cola UHU; tantos anos depois, o método não variou: se um osso se parte, é preciso colá-lo.

 

Não negue à partida um joanete que não conhece

Esqueçam o papel dos osteoclastos, células de «limpeza» dos ossos fraturados, ponham de parte os angioblastos, células de reparação responsáveis pela formação de novos vasos sanguíneos dentro do osso; nem sequer se atrevam a pensar nos osteoblastos, as células que dão origem a novo tecido ósseo e que levam à formação de calo ósseo nas zonas afetadas, em suma, não se informem.

Esqueçam essas trapalhadas medicinais e confiem no doutor Júpiter que tirou um diploma na Universidade de Kuiper: para Maya, uma fratura não passa de um joanete mais complicadinho. Dito por outras palavras: cara fratura, não negue à partida um joanete que não conhece.

 

Ser livre é um aborrecimento

Enfim, para quê chatear-me? Deveria ficar surpreendido por ver astrólogos na televisão e raramente ver astrónomos?

Maya é uma astróloga, ou seja, partilha da irracional convicção de que corpos celestes localizados a milhares ou milhões de quilómetros de distância têm uma misteriosa e determinante influência sobre o nosso destino, a nossa personalidade e as nossas escolhas. E sendo a especialista em interpretar esses sinais, é ela quem acaba por influenciar o destino, a personalidade e as escolhas de quem acredita em Astrologia.

Terão essas pessoas assim tanto medo de fazer as suas próprias escolhas ou de serem livres que até preferem deixar as suas decisões nas mãos de astrólogos, cartomantes e outros pseudos?

Enfim, da próxima vez que alguém tiver partido a perna e te disser «Ui, até vi estrelas», não penses que é apenas uma força de expressão: também pode ser um diagnóstico diferencial da Maya.

→ 21/01/2012 @17:18

Criaturas em Vénus, ceticismo na Terra

Se ainda não deram com a notícia, deixem estar, a notícia irá dar convosco.

E a notícia é a seguinte: cientista russo encontrou seres vivos nas fotos do planeta Vénus. O cientista chama-se Leonid Ksanfomaliti, é Doutor em Ciências Físicas e Matemática, escreveu já mais de 300 artigos científicos e trabalha no Instituto de Estudos Espaciais da Academia Russa de Ciências.

O artigo no qual defende esta hipótese publicou-o numa revista de Astronomia russa, Astronomicheskiy Vestnik.

Não sei se Ksanfomaliti descobriu criaturas venusianas. O que se conhece são excertos do artigo divulgados nos media. O cientista afirma – depois de ter analisado fotografias panorâmicas da sonda Venera 13 – ter descoberto «objetos de um tamanho entre 10 a 50 centímetros que apareciam, desapareciam ou sofriam mutações».

«A presença desses objetos nas imagens», conclui Ksanfomaliti, «dificilmente pode ser explicado por interferências».

Se esses «objetos» não podem ser explicados por interferências, então só podem ser criaturas extraterrestres – certo?

O escorpião venusiano

Ksanfomaliti está convencido que sim. Nos nove panoramas transmitidos pela Venera em março de 1982, vislumbrou um objeto semelhante a um «disco», outro parecia «uma mancha preta» e um terceiro fazia lembrar um «escorpião».

«Pondo de parte os conceitos atuais de que não pode existir vida nas condições de Vénus, vamos audaciosamente sugerir que as características morfológicas desses objetos nos permitem dizer que estão vivos», escreve Ksanfomaliti.

 

Fantástico, só falta verificar e provar tudo

O artigo de Ksanfomaliti pode bem vir a ser a descoberta ou o engano do século; em última análise, poderá ser um bom princípio de discussão sobre os nossos velhos preconceitos biológicos quando reduzimos as possibilidades de vida extraterrestre à «vida tal como a conhecemos» – não é, de forma nenhuma, o anúncio de uma descoberta de seres vivos em Vénus.

Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias, dizia Sagan; da mesma forma, títulos extraordinários exigem factos extraordinários. Até ver, as únicas criaturas venusianas que conheço são os oucher-poucher.

→ 09/12/2011 @11:06

Ai Jazus que descobriram um ET

Esperem, esperem, esperem. Estou tão excitado com esta revelação que os dedinhos até me tremem no teclado. É melhor respirar fundo e proceder de imediato à contextualização desta história.

Já ouviram falar do caso Roswell? No dia 7 de Julho de 1947, um disco voador despenhou-se numa zona desértica perto da pequena localidade de Roswell, no Novo México. Os destroços da nave e os corpos dos seus ocupantes extraterrestres foram recuperados por elementos da Força Aérea dos Estados Unidos, que os esconderam numa base situada na fatídica Área 51.

(Os livros policiais têm sempre um mordomo, as histórias de ET’s têm sempre uma Área 51.)

Nunca ouviram falar? Caramba, até se «descobriu» um filme da autópsia realizada aos extraterrestres, revelado ao mundo por um aldrabão de falinhas mansas chamado Ray Santilli.

Pronto. Agora que respirei fundo, regresso a esta foto. Está-se mesmo a ver que este ET todo tostadinho é um dos que se despenharam em Roswell. Os sítios da tretatologia estão a fervilhar de entusiasmo por causa desta imagem – os  misteriosos números verde-matrix ainda a tornam mais plausível e os círculos vermelhos desenhados em redor fazem-na parecer um cacho de segredos.

Portanto aqui há gato – e não é o do Schrödinger.

Os tais sítios da tretalogia cósmica – especialistas na plantação de rabanetes nos canais de Marte e nas filosofias tântricas dos esquentadores a gás – dizem que um homem chamado Leonard Dobson descobriu que usando um processo designado como «Digital Pictogram Scan» é possível tornar visível o invisível em todas as fotografias – e assim se chegou à espantosa descoberta!

O Bitaites também descobriu que se usarmos um processo chamado «é humanamente impossível serem tão idiotas», em combinação com outro, «ao menos googlem essa merda e não escrevam disparates», é possível descobrir que a foto do ET queimado em Roswell…

… faz parte do portefólio de um cavalheiro chamado Norman J. Cabrera. O Norman é um artista de efeitos especiais especializado em criar monstrinhos e outras coisas tenebrosas para filmes de terror e de ficção científica, e até criou uma empresa, a Shadowmill Productions.

Digital Pictogram Scan? Uau.

→ 09/12/2011 @9:56

Pseudos e aeróbicas quânticas

(Texto originalmente escrito para os nossos amigos do AstroPT e agora roubado para aqui)

Eu sou jornalista e vou aproveitar a minha posição privilegiada como observador social – desculpem, deixem-me aclarar a garganta – para explicar algumas ideias sobre pseudos, botelhos e aeróbicas quânticas.

Também tenho o hábito de arranjar sempre um pretexto para mencionar a Scarlett Johansson nos posts que escrevo para o AstroPT e quero aproveitar a oportunidade para revelar que não são referências gratuitas, mas insistências do «astrólogo do Texas».

Também eu tenho bons motivos. Considerem o fator distância e a rapariga em questão. Um cartógrafo leitor da revista Caras poderá dizer-me, com ar cético, «tu com a Scarlett? A mansão dela na Califórnia encontra-se a mais de 9 mil quilómetros, pá». Um geólogo encolherá os ombros, com ar enfadado: «a Scarlett? Duas placas tectónicas até lhe pores as mãozinhas em cima!»

Contudo, se eu perguntar a um astrónomo, é provável que este sugira observar as estrelas através de um telescópio e anuncie: «9 mil quilómetros? Isso não é nada! Olha para isto. À escala cósmica, é como se tu e a Scarlett estivessem enroscadinhos no bem-bom. Parabéns!»

Portanto aproveito este momento no AstroPT para agradecer à Astronomia tudo o que tem feito pela qualidade da minha vida sexual imaginária.

 

Física Quântica para tolinhos

Ainda não consegui largar as larachas porque me preparo para meter a Física Quântica ao barulho e isso deixa-me sempre à rasca porque percebo tanto de Física Quântica como a Laura Botelho.

Ao escrever aqui sinto-me como se fosse o gato de Schrödinger e o AstroPT a própria caixinha: tanto posso escrever disparates, escrever coisas acertadas ou fazer ambas em simultâneo – depende da pessoa que estiver a ler.

A Física Quântica faz parte da nossa vida, isso até a mim parece óbvio. Os conceitos da Mecânica Quântica são a base de sustentação deste mundo tecnológico que nos rodeia. De certa forma, descobrimos que Deus não é o único que está em todo o lado.

Os cientistas conseguiram compreender uma área que, tal como um polvo, tem agora os seus braços estendidos em muitas outras aplicações do conhecimento, desde lasers, passando pela estrutura das proteínas, e acabando em transístores (a eletrónica, como computadores ou microscópios, beneficiou imenso com esta área científica).

Mas é uma área de estudo e investigação tramada, desconcertante e desafiadora até para os próprios físicos. Aos leigos curiosos mas sem bases matemáticas, resta interpretar as palavras que os cientistas conseguem arranjar para transmitir uma ideia, o mais aproximada possível, de fenómenos que só podem ser descritos através da linguagem matemática. Recorrem a alegorias, metáforas, analogias, a tudo o que lhes permita evitar um pelotão de números e fórmulas.

Também vou recorrer a uma analogia para explicar-vos, físicos e matemáticos, a forma como o leigo se relaciona com que lhe é dito sobre Física Quântica.

Esse relacionamento não é diferente do que temos com a música: podemos adorar o que estamos a ouvir, podem fazer sentido notas e harmonias, mas não sabendo cantar, tocar um instrumento e não conhecendo as notas, ser-nos-á impossível reproduzi-la com exatidão.

Podemos cantarolar a música, tal como podemos «cantarolar» a Física Quântica, conseguindo algumas aproximações ao material original, mas só uma plateia de surdos se deixará convencer de que temos «unhas» para tocar um instrumento e reproduzir uma sinfonia quando só aprendemos dois acordes.

É assim que vejo pessoas como a Laura Botelho: leigos que se transformaram em «especialistas» e que por vaidade, dinheiro, desejo de poder ou mera insanidade de inspiração divino-reptilínea, procuram convencer uma plateia de surdos de que são capazes de reproduzir uma sinfonia de Mahler ou uma «oração» de Coltrane com dois acordes de guitarra.

Especialistas que tiram «cursos científicos» instantâneos e se predispõem a dar «workshops» de Física Quântica relacionam-na, sem qualquer pudor, com acontecimentos que aquela jamais descreveu ou se debruçou. Têm sucesso porque, quando o lago é pequeno, é muito mais fácil parecer um peixe graúdo. E o lago do conhecimento científico, infelizmente, é mesmo pequeno.

 

Mundos alternativos

O que faz uma pessoa razoavelmente inteligente noutros aspetos da sua vida a procurar orientação nestes «especialistas» em vez de procurar informar-se com cientistas? Talvez por a Ciência se recusar a responder às perguntas erradas. Dito de outra forma, por não ter em conta a religiosidade do ser humano e a sua propensão para a fantasia, e por ser muito cautelosa nas divagações.

A minha criança, sempre muito curiosa em relação à Astronomia, perguntou-me uma vez durante um daqueles documentários do National Geographic: «Pai, o que havia antes do Big Bang?» Este parece-me um exemplo de uma dessas perguntas que a Física não pode responder porque, filhota, o Tempo surgiu com o Big Bang e portanto, não havendo Tempo, não faz sentido mencionar um «antes» ou um «depois».

Parece-me compreensível que as pessoas procurem dar sentido ao que está para além do horizonte – e é aí normalmente que as imaginações costumam descobrir deuses a tomar um chazinho sentados numa nuvem piroclástica.

Os pseudos-cientistas apropriam-se da Ciência e fazem-se passar por autoridades em buracos negros e anãs castanhas disfarçados de cometas, anjos ou demónios tecnológicos a que chamam extraterrestres, misteriosos alinhamentos galácticos que por sua vez são alinhados com misteriosas profecias do passado, por aí fora – aceitam todas as premissas erradas e são especialistas em respondê-las. Oferecem o bolo existencial completo e regam-no com o doce e inebriante vinho da conspiração.

O que de outra forma seria incompreensível sem estudo torna-se de fácil e rápido entendimento. E, assim, este mundo cheio de mistérios e contradições começa a fazer sentido outra vez. Não admira por isso que teorias fantasistas, sempre fáceis e acessíveis e luminosas, sejam encaradas como «reais» e a realidade, complicada e trabalhosa e muitas vezes dececionante, seja olhada com desconfiança.

Conspiradores sem credibilidade como a Laura Botelho só me merecem desprezo, mas sinto pena das pessoas que se deixam levar por palestras de Aeróbica Quântica.

 

Partículas de Deus e outras ansiedades

Uma das características que mais me toca no pouco que consegui entender de Física Quântica é pensar que um eletrão se pode comportar como uma partícula ou uma onda, ou como ambas em simultâneo – mas só podermos determinar o seu estado quando o observamos.

É difícil para um leigo evitar cair na tentação de estabelecer uma associação livre e direta entre a consciência do observador (o cientista) e este fenómeno, sem cair em extrapolações metafísicas. É como se estas implicações da Física Quântica o levassem a pensar que, a nível sub-atómico, as partículas estão todas coladas umas às outras com a saliva de Deus.

Devido à sua importância e ao carácter «fantasmagórico» e primordial dos fenómenos que estuda, o leigo pode procurar na Física Quântica respostas às suas dúvidas e ansiedades religiosas.

A quântica não tem culpa nenhuma de que lhe sejam colocadas tantas expectativas metafísicas.

Mesmo quando o físico Leon Lederman chamou ao bosão de Higgs «a partícula de Deus» não o fez com o objetivo de dar uma dimensão religiosa à Física, mas para transmitir aos leigos a importância de uma eventual descoberta dessa partícula (Lederman também é conhecido pelo sentido de humor e o jeito em cunhar expressões excelentes para títulos de jornal).

 

Flutuações quânticas

Uma vez que a dimensão «religiosa» das revelações esteja estabelecida, é muito difícil abrir os olhos às pessoas e apontar-lhes as contradições do seu «guru».

Por exemplo, a Laura Botelho parte das peculiaridades da Física Quântica já referidas para concluir que «não se pode prever nada nesta vida» (o que é o total oposto da realidade). No entanto, apesar de anunciar que não se pode prever nada, ela pouco mais faz do que sustentar profecias.

Tudo é permitido quando o sentido crítico se desvanece. Eu até posso sustentar que o meu cabelo, ao levantar-me de manhã, é um bom exemplo de «flutuação quântica» – mas no dia em que vos disser que estou mesmo a falar a sério estão à vontade para me internar, desde que não me coloquem na mesma sala que a Botelho.

Não sei portanto qual é a solução para esta batalha que se trava entre os que defendem o conhecimento e os que o atacam – nem sei, sequer, se deve ser imputada ao cientista a responsabilidade de não conseguir chegar a mais pessoas (embora esforços como o que se faz no AstroPT já provoquem os seus efeitos).

Se vivêssemos num mundo perfeito essa responsabilidade deveria ser assumida também pelos jornalistas, os principais responsáveis em filtrar a informação científica e transformá-la em material que o grande público possa entender.

Infelizmente, os media estão mais preocupados com a Astrologia do que com a Astronomia, com o Espiritualismo do que com a Física; e quando se interessam por Ciência é para anunciar, com pomposa ignorância, que a estrela Betelgeuse vai explodir em 2012 ou que foram anunciadas «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves…