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→ 27/01/2012 @21:38

Photoshop ou uma grande carvalhada da SIC?

Veredicto: uma enorme carvalhada.

→ 26/01/2012 @19:29

Erro de sistema (*)

(*) José Cid também quer ser pago por cada cópia que fizermos das nossas fotos.

→ 26/01/2012 @10:54

Paparazzis lunares

Um dia vou ter de criar uma rubrica no blogue chamada tretatologia da semana, pois todos os dias encontro uma.

E com o sentido crítico que caracteriza o jornalismo quando se trata de divulgar alegações de maníacos pseudo-científicos, tanto o Correio da Manhã como o Jornal I divulgaram hoje uma nova notícia: «parapsicólogos» garantem que os astronautas John Young e Charles Duke, da missão Apollo 16, viram vestígios de uma nave extraterrestre que se despenhou na Lua.

O Jornal I escreve: «De acordo com as constatações de seis especialistas da Transception Incorporation, com base na técnica de visualização remota, John Young e Charles Duke realmente conseguiram ver extraterrestres».

Estão a ver o que quero dizer quando me queixo desta ausência de sentido crítico?

O que raio é uma «técnica de visualização remota»? Se um mirone comprar uns binóculos para observar a vizinha do lado a experimentar coleções de biquínis, também estará a utilizar uma «técnica de visualização remota»? Será esta técnica a mesma que costumávamos organizar nas caçadas aos gambozinos? E estes seis «especialistas» da Transception Incorporation especializaram-se em quê, no terceiro filme dos Transformers? No trabalho dos fotógrafos paparazzi?

 

Esperem, nem tudo é mau

Se as técnicas de visualização remota mostram que os astronautas viram ET’s na Lua, então isso significa que afinal de contas sempre fomos lá, não é tanga!

Como resolver o paradoxo? Será possível criar um calendário especificamente para crentes em teorias da conspiração anti-NASA?

Por exemplo, à segunda e terça acreditar que as missões Apollo são uma farsa dos americanos, à quarta e quinta jurar a pés juntos que a NASA escondeu os ET’s na Lua, e deixar a sexta-feira para a consulta no psicólogo?

→ 24/01/2012 @10:40

SPA e o mistério das aspas

A SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) publicou um documento intitulado «Dez coisas que deveria saber sobre a Lei da Cópia Privada». O PDF pode ser lido aqui, se quiserem.

O texto está dividido em dez pontos, dez perguntas com as respetivas respostas. As perguntas foram elaboradas pela própria SPA, obedecendo ao velho paradigma se queres dar as melhores respostas possíveis, certifica-te de que és tu a fazer as perguntas.

O documento também faz um uso muito peculiar das aspas. E é apenas sobre as aspas que quero falar. Porque as aspas da SPA dão-me tanta informação como o documento inteiro, elaborado com base em coisas, coisinhas e petas. (*)

 

Aspas entre aspas

As aspas aparecem logo a seguir à pergunta número 1: «Qual é o motivo pelo qual a tarifa tem que ser aplicada aos equipamentos e suportes se os mesmos também podem ser usados apenas para fins pessoais?»

Resposta: «os casos particulares de equipamentos exclusivamente utilizados para a reprodução e armazenagem de “conteúdos” próprios não são um “comportamento-padrão”»

Não percebo as aspas à volta da palavra conteúdos. Teria a SPA a gentileza de explicar a diferença entre conteúdos e “conteúdos”, entre comportamento-padrão e “comportamento-padrão”?

Talvez não sejam aspas, mas pinças.

Os conteúdos independentes produzidos pelos cidadãos que não estão sob a alçada da SPA são disfunções nojentas no sistema nacional de recolha de fundos a que chamaram projeto lei 118.

Deve-se portanto pegar nessa palavra com pinças esterilizadas, tal como se deve fazer o mesmo com os extraterrestres manhosos que produzem tais conteúdos: fotógrafos, cineastas, músicos, estudantes, designers, ilustradores, essa cambada toda que anda a poluir a net com licenças infecciosas da Creative Commons.

Também pode dar-se o caso de as aspas não serem pinças, mas brincos ou piercings.

Se for assim, então é óbvio que “conteúdo” significa que a SPA acha que é tudo tanga, a malta anda toda a armazenar conteúdo pirata; e que o “comportamento-padrão” desses produtores independentes é o dos marginais que andam na má vida do download ilegal. É uma visão preconceituosa da sociedade, um bocadinho bota de elástico, mas é também uma estratégia de Relações Públicas.

Menções mais ou menos veladas à pirataria têm sido feitas e continuarão a ser feitas pelos defensores deste acordo, mesmo que o assunto nada tenha a ver com a cópia privada: é uma forma fácil de a SPA se elevar moralmente numa discussão diante de cidadãos menos informados.

Se a SPA é capaz de tipificar e isolar comportamentos sociais usando apenas umas simples aspas, o que poderá fazer com palavras e frases inteiras?

Resposta: «os casos particulares de equipamentos exclusivamente utilizados para a reprodução e armazenagem de “conteúdos” próprios não são um “comportamento-padrão”. Os novos suportes e equipamentos são hoje utilizados, maioritariamente e em larga escala, para armazenar e reproduzir obras e prestações protegidas».

Estão a ver? Com as aspas, isola comportamentos individuais; com uma frase, a SPA já é capaz de definir o comportamento de uma sociedade inteira.

 

Sim, é extorsão

Estamos todos sob o jugo do princípio da culpabilidade, embora por ausência de estudos credíveis seja preferível chamar-lhe princípio do ovo no cu da galinha. E galinhas seremos nós, se os deixarmos levar por diante este elaborado esquema de extorsão.

A Internet dá a milhões de pessoas a oportunidade de partilhar e distribuir os seus próprios conteúdos: as pessoas fazem-no em blogues, no YouTube, no SoundCloud, nas redes sociais. Este processo carece de mediadores e estes artistas não precisam de representação.

Como não é possível fechar a Internet ou obrigar as pessoas a prescindir das suas livres escolhas, então resta à SPA minimizar publicamente a sua importância e número, e transformar os dispositivos de armazenamento numa nova joia de inscrição: mesmo que tenhas decidido não registar-te na SPA, tens de pagar para gravar o que é teu.

Se fizeres parte dos amiguinhos da SPA então já poderás ser reconhecido como legítimo produtor audiovisual ou artista (sem enfrentar um inferno burocrático) e ficar isento de taxa. É uma oferta que ninguém pode recusar.

 

(*) Para uma análise mais acutilante e assertiva a todo o documento, prefiro encaminhá-los para o post da Maria João Nogueira: é assim a Net, uma dinâmica de partilha imparável.

Também não fui o único – nem o primeiro – a estranhar as aspas da SPA. Leiam este excelente post n’A Loja do Mestre João: «10 coisas que a SPA não sabe sobre a lei da Cópia Privada».

→ 23/01/2012 @19:18

Esta foto precisa urgentemente de uma legenda

Foto: Leonardo Negrão/Global Imagens

Não sei quem é o autor desta foto e quando foi tirada, infelizmente, mas não resisti em mostrá-la aqui por captar um momento extraordinário.

Das duas uma: a postura robôqueque do ministro Gaspar é apenas pose de Estado e no fundo o homem é um bonacheirão amante da farra; Passos Coelho cometeu a proeza de descobrir a melhor anedota do mundo e resolveu contá-la ali mesmo. Sugestões?

→ 22/01/2012 @19:00

Abelha Maya

Eu já devia ter aprendido que quando me chega aos ouvidos um disparate anti-científico divulgado na televisão o melhor é desligar e seguir em frente.

Para quê chatear-me? O Universo continuará a ser regido por leis físicas, independentemente das tretalogias medievais que nos dizem o contrário; o Universo permanecerá indiferente à nossa presença, sejam quais forem as convicções egocêntricas sobre a importância central da nossa espécie.

Eu já devia ter aprendido, mas não aprendo. Fico furioso. Passo-me da cabeça.

A última irresponsabilidade televisiva teve como protagonista uma astróloga, Maya. Também é uma «tárologa» – chamam-na assim por ser uma especialista em cartas Tarot, mas eu prefiro definir uma tárologa como uma pessoa que é tarada, tarada por astrologia.

Tarada no sentido Alcina Lameiras do termo: não sei se lembram (eu não – e tive de corrigir o post), Alcina é uma espécie de astróloga que durante demasiado tempo surgiu num spot televisivo a dizer-nos «não negue à partida uma ciência que não conhece».

Infelizmente, a especialista em calos cósmicos Maya não seguiu o conselho da guru Alcina e decidiu, em direto na televisão, negar à partida uma ciência que não conhece: a medicina.
 

O calo da questão

Depois de receber um telefonema de uma mulher que estava acamada por ter fraturado a bacia, Maya aconselhou-a a ir a uma clínica, pois precisava de «ser operada para ser tratada convenientemente.

A sua situação tem solução, mas não está ser bem conduzida, de todo».

Depois sugeriu à mulher que contrariasse as ordens do médico e saísse da cama: «O repouso absoluto não está a pôr as coisas no lugar. E agora como é que o osso cola? É estando deitadinha? E se o osso ganha calo no sítio errado?»

Ilustração: Nelson Santos

Eu não estou obviamente qualificado para explicar seja o que for na área da ortopedia, mas parece-me que Maya brincou demasiado aos médicos quando era pequenina e está agora a aplicar tudo o que aprendeu.

Se uma boneca se partia e fazia dói-dói, a doutora Maya curava com cola UHU; tantos anos depois, o método não variou: se um osso se parte, é preciso colá-lo.

 

Não negue à partida um joanete que não conhece

Esqueçam o papel dos osteoclastos, células de «limpeza» dos ossos fraturados, ponham de parte os angioblastos, células de reparação responsáveis pela formação de novos vasos sanguíneos dentro do osso; nem sequer se atrevam a pensar nos osteoblastos, as células que dão origem a novo tecido ósseo e que levam à formação de calo ósseo nas zonas afetadas, em suma, não se informem.

Esqueçam essas trapalhadas medicinais e confiem no doutor Júpiter que tirou um diploma na Universidade de Kuiper: para Maya, uma fratura não passa de um joanete mais complicadinho. Dito por outras palavras: cara fratura, não negue à partida um joanete que não conhece.

 

Ser livre é um aborrecimento

Enfim, para quê chatear-me? Deveria ficar surpreendido por ver astrólogos na televisão e raramente ver astrónomos?

Maya é uma astróloga, ou seja, partilha da irracional convicção de que corpos celestes localizados a milhares ou milhões de quilómetros de distância têm uma misteriosa e determinante influência sobre o nosso destino, a nossa personalidade e as nossas escolhas. E sendo a especialista em interpretar esses sinais, é ela quem acaba por influenciar o destino, a personalidade e as escolhas de quem acredita em Astrologia.

Terão essas pessoas assim tanto medo de fazer as suas próprias escolhas ou de serem livres que até preferem deixar as suas decisões nas mãos de astrólogos, cartomantes e outros pseudos?

Enfim, da próxima vez que alguém tiver partido a perna e te disser «Ui, até vi estrelas», não penses que é apenas uma força de expressão: também pode ser um diagnóstico diferencial da Maya.

→ 22/01/2012 @5:00

Amena Cavaqueira

Ilustração: HenriCartoon

Por esta altura não há português que não esteja a par da última laracha de Cavaco Silva. O presidente queixou-se na televisão de que a reforma de 1300 euros já não lhe chegava para as despesas.

Queixar-se de uma reforma de 1300 euros quando existem tantos reformados a sobreviver com 300 já seria insulto suficiente; no entanto, ainda faltava contabilizar a reforma do Banco de Portugal para o seu nível, o 18, o mais alto da tabela, até trepar ao coqueiro da ignomínia.

E Cavaco conseguiu-o.

Os jornalistas meteram mãos à obra e fizeram notar que «o nível 18 da tabela do Banco de Portugal (…) tem por base mínima 2343 euros por mês e máxima 3735 euros. Valor ao qual se pode juntar ainda complementos de reforma que podem chegar a um máximo de 4500 euros. Se o Presidente estiver no topo da tabela receberá, com o complemento, 8235 euros».

O jornal Expresso, fonte destes números, acrescentou ainda que, «de acordo com a sua declaração de rendimentos em 2009, o Presidente da República recebia cerca de 10 mil euros brutos por mês, relativos à pensão do Banco de Portugal (BdP) e da Caixa Geral de Aposentações (CGP)».

A tudo isto, acrescente-se 3000 euros por despesas de representação, segundo o Jornal I.

Eu sempre suspeitei que o homem não tinha onde cair morto – agora tenho a certeza.

As miseráveis declarações de Cavaco tiveram como consequência imediata o maior alarido anti-cavaquista desde que na campanha presidencial de 1996 foi filmado a mastigar um bolo-rei como se fosse a traqueia dos jornalistas que insistiam em colocar-lhe perguntas incómodas.

Nessa altura, ao vê-lo naquela badalhoquice, tão desagradável, de boca escancarada, muitos portugueses tiveram a perceção de que Cavaco estava a fazer ao bolo-rei o mesmo que fizera ao país e as eleições foram ganhas por Jorge Sampaio.

 

Depois do bolo-rei, a fava

Como somos uma nação de bons costumes e memória curta, saiu-nos a fava cavaquista outra vez, tantos anos depois: depois do Governo, a Presidência da República.

O que se segue é um apanhado do gozo português – a típica reação corrosiva e bem-humorada do tuga, apanhada um pouco por todo o lado. Não consigo saber quem são os autores destas imagens, por isso não posso creditá-las; quem souber que se acuse.

Apesar das excelentes caricaturas e montagens e falsas promessas de solidariedade para com o pobre estadista, estas imagens conseguem ser mais agradáveis do que a monumental vaia com que as gentes de Guimarães, incluindo muitos reformados, o receberam ontem.

Cavaqueira