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→ 20/05/2012 @23:33

Post nº 6687


O primeiro-ministro inglês David Cameron comemora a vitória do Chelsea sobre o Bayern de Munique na Liga dos Campeões e recebe os cumprimentos de Angela Merkel. Não se percebe se Obama abre a boca de espanto por causa do soccer ou se aproveita o golo para bocejar.

O francês François Hollande, à direita, transborda de emoção por ver um inglês a ganhar na Europa. E Durão Barroso está ali para o caso de alguém inventar uma daquelas anedotas que começam com «era uma vez um americano, um inglês, um francês e um português». (Fotos: Pete Souza)

→ 20/05/2012 @16:43

Ó Relvas ó relvas, nova oportunidade à vista

Cartoon de Henrique Monteiro

Já toda a gente sabe do caso Relvas. Um resumo: o Conselho de Redação do Público denunciou «pressões» do ministro dos Assuntos Parlamentares. Umas horas depois, a direção do jornal reagiu e considerou-as «inaceitáveis».

Miguel Relvas telefonara à editora de Política do jornal depois de ter recebido da jornalista Maria José Oliveira um «conjunto de perguntas relativa a contradições nas declarações que prestara, no dia anterior, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias» a propósito de outro caso, o das Secretas.

No telefonema, denuncia a direção do Público em editorial, ameaçara fazer um «blackout» noticioso ao jornal e «revelar detalhes da vida privada da jornalista».

O ministro devia saber que revelar detalhes da vida privada de alguém costuma ser um exclusivo dos paparazzi, não dos políticos. Os fotojornalistas da imprensa cor-de-rosa souberam transformar essa prerrogativa em notícia de capa, políticos com tiques de rufia aprenderam a transformá-la em ameaça.

No que toca às ações dos políticos deste Governo, contudo, é preciso ter cuidado. Terá Relvas feito uma ameaça ou apenas uma promessa?

É preciso ter em conta se ele disse qualquer coisa como «prometo que faço assim ou assado e tal». Mesmo que dúzias de perdigotos lhe tenham saltado para a secretária como mergulhadores bêbados no salto à prancha, deveremos considerar o teor do telefonema com o mesmo ceticismo com que encarámos a promessa de que não seriam aumentados mais impostos.

Se foi realmente uma ameaça e tivesse sido concretizada, Miguel Relvas teria passado à História de Portugal como o primeiro político a acumular o cargo de ministro com o de paparazzi. A novidade aqui não teria estado na acumulação de cargos e regalias, mas na junção improvável de duas atividades tão díspares.

Dizem então que Miguel Relvas devia ser demitido. Eu cá apontava um bocadinho mais alto, mas pronto, cada um sabe o que fazer ao dedo: vamos supor, nem que seja como hipótese meramente académica, que o caso não morrerá nas próximas 72 horas e Relvas será mesmo forçado a sair.

Eu não penso que este desfecho seja assim tão mau. Do ponto de vista do seu chefe de Governo, a demissão do ministro dos Assuntos Parlamentares – ou de qualquer outro político – não significa cair no desemprego mas ter «uma nova oportunidade». Só é pena que a benevolente visão social do primeiro-ministro se aplique apenas à única classe que conhece bem.

→ 19/05/2012 @3:46

Qual é coisa, qual é ela

Deixa lá, Álvaro. Também me costuma acontecer, referir-me a algo sobre o qual tenho uma ideia mas não encontro a palavra certa para a definir.

Eu costumo usar essa palavra quando procuro uma chave na caixa de ferramentas: «Onde é que eu deixei aquela coisa que eu uso para abrir a caixa do computador

Tu és ministro da Economia, tens obviamente problemas mais complexos e por isso é fácil imaginar-te a perguntar a um colega de Governo «Como é que se chama aquela coisa que a gente tem de resolver? Ah! O desemprego, pois é… »

O que me faz espécie é o teu timing. A tua cadência. Porque estás nitidamente num ponto alto do teu discurso, ora vê:

«O desemprego tem de ser uma preocupação de todos nós» – dizes tu e muito bem.

«Todos nós temos de trabalhar em conjunto» – prossegues tu e muito bem.

Repara, Álvaro, que os teus colegas de coligação nas bancadas já toparam que estás a chegar ao climax do discurso. À medida que te aproximas da ribombante frase final e a entoação se vai tornando mais determinada, vão correspondendo com um aumento na intensidade das palmas. Isto é profundamente político, Álvaro. É assim que a gente percebe que o que dizes faz sentido.

Se ouvires com atenção, há um que até grita «Muito bem!» quando te ouve dizer «Todos nós temos de trabalhar em conjunto». Porque foi isso precisamente que aconteceu, um trabalho conjunto: tu discursaste, a malta da tua bancada aplaudiu, foste até capaz de sacar uma excelente banalidade para os telejornais e alguém te incentivou com um sonoro «muito bem».

Trabalho parlamentar de alto nível. Parte-me o coração que tenhas estragado tudo, Álvaro.

«Todos nós temos de trabalhar em conjunto», dizias tu não é

e depois exemplificas: «sindicatos, patrões e partidos».

Muito bem, outra vez. Tiveste o cuidado de inverter a ordem com que os apresentaste: os que te chateiam primeiro, os bacanos a seguir e os tipos que te aplaudem no fim – excelente exemplo de pluralismo democrático.

Chega agora o momento em que terminarás a frase em alta e colherás os aplausos da bancada e um minuto e meio a fazer boa figura nos telejornais –  que dizes tu?

«para conseguirmos ultrapassar este… coiso».

E terminas assim de fugida, como quem enxota uma melga.

Ó Álvaro, isso é lá forma de tratar os teus colegas de bancada que estavam a fazer tão bem o seu papel e até largaram o Twitter para te ouvir melhor? Sabes o que custa aplaudir banalidades como se estivessem na presença de um novo Barack Obama? Podes imaginar como terão ficado desapontados quando esse lamentável «coiso» te saiu pela boca?

E o compromisso com os eleitores? A malta não escolhe deputados para andarem a aplaudir uma palavra qualquer. A política funciona como um mercado, precisa de boas palavras para vender e de gente disposta a comprá-las. Um bom político está sempre empenhado nessa transação. Experimenta meter no boletim de voto «Votem no meu coiso para ultrapassarmos esta coisa» e vais ver como perdes as eleições.

Custava teres rematado a frase com o mais sofisticado «este flagelo social» ou, se tivesses preferido um estilo mais vintage, «este grande desafio»?

→ 17/05/2012 @0:43

Já cá faltava a merda

Um cartoon de John Trever resumiu um dia as diferenças entre dois métodos, o científico e o criacionista, com humor e sabedoria. Os métodos eram exemplificados da seguinte forma:

Método científico – «Aqui estão os factos. Que conclusões podemos retirar deles?»

Método criacionista – «Aqui está a conclusão. Que factos podemos encontrar que a suporte?»

Partindo do duvidoso princípio de que é aceitável vasculhar a intimidade de um músico já falecido (ou de qualquer outra figura pública) por razões comerciais, o jornalismo poderia ao menos considerar o método científico e formular corretamente o problema: «Aqui estão os factos. Que título e que peça poderemos retirar deles?»

O jornalismo criacionista da VIP (e outras publicações do género) usa o outro método: «Aqui está o título e a peça. Que factos podemos encontrar que os suporte?».

Na ausência de factos além dos que foram noticiados – Bernardo Sassetti escorregou de uma falésia enquanto fotografava – o jornalista criacionista não esmorece e socorre-se do cliché do «génio atormentado». E conta com a concordância de muitos dos seus leitores, para quem um «génio» só o poderá ser se estiver «atormentado».

Pobre artista que se atreva a gostar de viver, já não terá hipóteses de ser genial.

Até a diretora da VIP, «uma das últimas pessoas» a vê-lo com vida, descreve o encontro na bomba de gasolina das Amoreiras nos seguintes termos: «Homem magro, vestido com um blazer cinzento e com barba severa. Bernardo Sassetti, músico, pensei eu, estranhando a magreza».

Pois, estranhou porque era um músico. Pior, artista. Quando o jornalista criacionista escreve um artigo sobre saúde e bem estar, a magreza é aspirar à elegância; quando escreve um artigo sobre um artista genial, a magreza é um sinal de depressão.

Depois, para compor a peça, arranja-se um «amigo» que fale anonimamente a uma revista destas – eufemismo para coscuvilheiro – e suporte esta visão dúbia e preconceituosa, ignorando-se com matreirice o depoimento de todos os outros que deram a cara pela sua alegria de viver, entusiasmo contagiante e enorme ambição artística.

→ 03/05/2012 @13:37

Antropologia homeopática

Principal queixa que tenho lido nas redes sociais: a Rita Pereira não mostrou as maminhas na Playboy. O que nos vai valendo é esta capacidade inesgotável de nos chatearmos com as pequenas coisas, sempre se vão misturando com as importantes até transformar a nossa consciência social numa enorme papinha muito diluída e nada espessa.

Para que conste: também eu me sinto indignado com a pudica sessão fotográfica publicada na revista. Bastou lançar uma versão portuguesa para que a velhinha e fiável Playboy deixasse de cumprir o que promete. Pobre lusitano, desejava coelhinha à moda de Hugh Hefner e só lhe é servido, todos os dias, Coelho à moda de Pedro Passos.

→ 02/05/2012 @0:49

Obviamente, demasiado Sol

Uma cidadã não-identificada da localidade de Wolfhalden, no leste da Suíça, viu um documentário sobre um guru indiano que «vivia há 70 anos sem comer nem beber», alimentando-se apenas de ar e raios do Sol.

Impressionada, a senhora decidiu iniciar a sua própria dieta solarenga. Semanas depois, morreu à fome.

 

Teorias de cortar a respiração

Terá a senhora ascendido à «Terra Primordial» ou «Nova Terra»? Tudo é possível no Reino da Suprema Estupidez. Segundo Wiley Brooks, líder do Instituto Respiratoriano da América, a Nova Terra fica lá para os lados da «quinta dimensão – um mundo sem as vibrações do medo ou da dor.»

Este é um mundo onde «se sente amor, paz e alegrias incríveis», amor e alegria com os quais «apenas podemos sonhar neste mundo tridimensional onde vivemos».

Andaram os desgraçados dos físicos a partir a cabeça com a teoria de Kaluza-Klein sem sequer suspeitar que a «dimensão escondida» no espaço-tempo de Einstein estava ao alcance de um comprimido de Xanax.

Wiley Brooks, 74 anos, «professor especialista em ascenções» (nada a ver com elevadores) explica na página de perfil que a sua missão é povoar a «Terra Primordial» de tantos humanos quanto lhe for possível antes de 20 de março de 2013.

Wiley Brooks é um respiratoriano há 30 anos – isto significa que, «sob determinadas circunstâncias», consegue viver sem ingerir «comida física».

As pessoas que costumam afirmar «desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me surpreende» talvez ainda não conheçam o Respiratorianismo.

Sim, é um nome difícil, mas garanto-vos que é ainda mais complicado de aceitar do que soletrar. Seja como for, ambos os fenómenos – o ser humano a alimentar-se de ar e luz do Sol, e o porco a andar de bicicleta –  podem ser explicados da mesma forma.

Segundo esta página, o Respiratorianismo «é um estado do ser humano, caracterizado (entre outras coisas) pela abstinência de comida, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual a pessoa vive».

 

Respiratorianismo versus Ciclosuinismo

Um porco a andar de bicicleta

A caracterização de um respiratoriano é maravilhosamente flexível e pode ser usada para explicar o fenómeno do porco ciclista.

Vamos experimentar? O Ciclosuinismo é «um estado do porco, caracterizado (entre outras coisas) pela capacidade em andar de bicicleta, resultado de uma expansão da esfera consciencial na qual vive».

Como sempre acontece, as expressões-chave usadas por mentes iluminadas como a de Wiley Brooks são precisamente aquelas que nada significam – não significando nada em concreto, podem ser interpretadas segundo as conveniências de cada um.

Com jeitinho, poderíamos usar a expressão «expansão da esfera consciencial» para explicar fenómenos que não conseguimos compreender como, por exemplo, a fotossíntese – não por serem transcendentes mas por serem científicos e não percebermos um boi do que é a Ciência e de como esta transforma hipóteses em teorias verificáveis sem o auxílio de esferas conscienciais.

«Em geral», prossegue o texto, «um respiratoriano ideal (totalmente realizado) não necessita comer e nem beber água para manter o corpo funcionando perfeitamente. Um respiratoriano não consome comida e nem líquidos (incluindo água), ele precisa somente de ar para nutrir o seu corpo.»

O ser humano necessita apenas de ar para comer e o porco só precisa de uma bicicleta para que consiga pedalar. Tudo é possível de acontecer quando a esfera consciencial se expande.

 

Não és um Homem, és uma planta

Wiley Brooks e todos os outros profetas da sub-nutrição querem fazer-nos acreditar que o ser humano, tal como as algas, as plantas e algumas bactérias, é capaz de produzir o seu próprio alimento a partir do dióxido de carbono. Possuímos a capacidade de nos tornarmos seres autotróficos e usarmos a fotossíntese se conseguirmos expandir a esfera consciencial.

O único momento da vida onde pareço estar a expandir a minha esfera consciencial é nas caretas que faço quando estou na casa de banho com prisão de ventre –  mas quem sou eu, pobre terrestre de terceira dimensão, para entender coisas tão espiritualmente elevadas? Eu faço parte do grupo de gente bizarra que precisa de comida para fornecer energia ao organismo.

Não obstante o meu ceticismo, as seguintes questões mantém-se válidas: o que é e como se consegue expandir a esfera consciencial?

A resposta é simples: recorrendo aos ensinamentos pagos de pessoas como Wiley Brooks, o ascensorista das almas. E de que forma passamos a saber da existência de pessoas como Wiley Brooks? Através de documentários onde alegações insanas nos são apresentadas sem o espírito crítico que recuperaria a verdade dos factos e a sanidade mental do espectador, mas prejudicaria o espetáculo circense – documentários como o que a senhora na Suíça terá visto.

Claro que a livre circulação de informação também pode prejudicar os vigaristas, ao invés de os beneficiar. Que o diga o nosso respiratoriano Brooks, que em 1983 foi apanhado a sair de uma loja 7-Eleven (uma marca de lojas de conveniência) com um refrigerante gelado, um cachorro-quente e um bolinho twinkie

(hum, que delícia cremosa, muito melhor do que apanhar um escaldão. Terá sido uma semana muito chuvosa?)

Em 2003, com o negócio da sub-nutrição a falhar, Brooks foi obrigado a dar umas quantas explicações: a culpa era da poluição do ar – o que faz sentido, pois ninguém gosta de ingerir comida estragada. Antecipando futuras transgressões à dieta de Sol e ar, ressalvou que consumir o ocasional cheeseburguer e uma coca-cola lhe permitia «adicionar equilíbrio» num mundo repleto de restaurantes fast-food e junk-food –  uma explicação tão satisfatória como a esfera consciencial em expansão. E afirmou também que Diet Coke é «luz líquida».

Conclusão: se te faltar a luz em casa não uses lanternas, bebe Diet Coke! Nem os criativos do Marketing da Coca-Cola seriam capazes de nos impingir esta.

 

Ciência, só depois de amanhã

Quem diz que se alimenta de ar só pode influenciar cabeças cheias de ar. Não se trata de ter uma «mente aberta», como tantas vezes se ouve dizer como resposta às vozes céticas, mas de a ter quase completamente oca, a ponto de desprezar as evidências e muitos séculos de aprendizagem médica. Mente aberta, neste caso, é sinónimo de mentir abertamente.

O guru indiano tem uma teoria fundamentada e verificada por fontes independentes? Não. Os trinta médicos que o observaram partilharam os seus resultados com a comunidade científica? Não, preferiram contar a história aos jornalistas. As condições em que o guru da anorexia solar foi observado… Rigorosas? Népia, pois nem sequer se procedeu a uma vigilância 24 horas por dia – ao contrário do que diz a notícia aqui em cima.

O que temos são «histórias» – e «histórias» não são provas nem teorias. E esta tem como protagonista um vígaro sobre o qual o AstroPT já escreveu o suficiente.

A ideia de suprimir a voz destes loucos e vigaristas é atraente, mas contra-producente: não só cultivamos um fruto proibido como perdemos uma excelente oportunidade de aproveitar o interesse das pessoas nestes pseudo-fenómenos circenses para contrapor uma boa dose de análise crítica.

E foi essa oportunidade que o sítio Ciência Hoje perdeu, quando divulgou a história do guru indiano acima mencionado sem se preocupar com as suas responsabilidades pedagógicas. O artigo acabou por desaparecer nas sombras de um eclipse solar e só a cache lunar do Google prova que alguma vez existiu. O sítio soube reconhecer o erro e, como tantas vezes tem feito, abraçou a Luz – a luz do Conhecimento, claro.

Post-it para colar nos ecrãs do Ciência Hoje: a ausência de espírito crítico num sítio de Ciência que escolhe divulgar estes fenómenos só contribui para que vígaros como Wiley Brooks continuem a povoar a «quinta dimensão». Antes de apagar, expliquem aos leitores porquê. Um post não é propriamente um Triângulo das Bermudas.

→ 29/04/2012 @22:46

Jorge Jesus e as pastilhas elásticas

Foto: José Coelho

Se quisermos entender as opções táticas de Jorge Jesus ao longo da época é importante saber qual o sabor daquelas pastilhas elásticas que o nosso Rod Stewart da Musgueira está sempre a mastigar. Sabem a laranja, morango, menta, tutti-frutti?

É um mistério. Sem informação, só me resta especular.

Parece-me evidente que aquelas pastilhas têm mais importância no planeamento estratégico da época do que o próprio Jorge Jesus estará disposto a reconhecer. É natural, nenhum mágico (ou mestre da tática) gosta de revelar os seus segredos.

A minha teoria é a de que cada pastilha elástica do Jorge Jesus representa um jogador. Aposto que ele as mastiga (o chamado processo de assimilação) e depois as guarda, só para as poder usar naquele quadro que os treinadores mostram aos futebolistas para explicar movimentações da equipa. Cada um dá o que pode: os jogadores suam, o Jesus saliva.

Percebem agora a minha insistência nos sabores? Aposto que a pastilha Capdevila lhe sabe mal, por alguma razão que só o mestre da tática entenderá, e por isso insistiu na pastilha Emerson. Este deve ser de mentol, tendo em conta os calafrios que provocou nos adeptos.

As pessoas no futebol têm memória curta, mas eu ainda me lembro da forma como Jesus despediu o guarda-redes Quim: durante uma entrevista televisiva, sem sequer ter informado o jogador pessoalmente da sua decisão.

Percebem a minha dificuldade em dissociar o treinador das pastilhas que mastiga? Não existe diferença entre o que ele fez ao Quim e atirar uma pastilha para o lixo.

A teoria das pastilhas também explica esta época.

Quando metemos uma pastilha na boca pela primeira vez, é colorida, saborosa, sumarenta; à medida que a vamos mastigando, torna-se esbranquiçada, seca, um pedacinho de plasticina entre os dentes. A metamorfose das pastilhas elásticas na boca de Jorge Jesus é semelhante à que ocorre nos próprios jogadores: à medida que o tempo passou, foram ficando pálidos, mortiços, colados ao relvado, obrigados a esticar-se até rebentarem.

E assim chegamos ao fim da época: empatando tristemente com o Rio Ave e entregando o título de campeão a uma equipa que joga sem treinador. Vítor Pereira pode vir a ser recambiado para uma equipa russa por ser um bronco sem carisma, mas pelo menos teve a vantagem de não tratar os jogadores como o Jesus trata as pastilhas.

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