
Paulo Trezentos, 28, é casado e pai de um rapaz de quatro anos. Dá aulas de Arquitecturas de Computadores e Sistemas Operativos no ISCTE, é investigador na ADETTI, um centro de investigação do ISCTE, é o Director-Técnico da distribuição portuguesa de Linux, a Caixa Mágica, fundou o GUL (Grupo de Utilizadores de Linux) e o Poli (Projecto Português de Documentação de Linux), iniciou ou colabora em dezenas de outros projectos e escreve regularmente artigos e livros de divulgação destinados ao utilizador comum. Não há dúvida de que o apelido Trezentos lhe assenta que nem uma luva: fica-se com a ideia de que só vivendo os dias a trezentos à hora o homem consegue ter tempo para tudo.
Você é o rosto mais conhecido de uma equipa de portugueses que criou uma distribuição Linux chamada Caixa Mágica. A televisão, em tempos, foi vista como a “caixa mágica” que seria capaz de revolucionar o mundo. O modelo de negócio do Software Livre tem o poder de revolucionar o mercado português? Ou procura-se antes uma contra-revolução?
Geralmente, as revoluções não são sentidas como tal quando estão a acontecer. Com a ajuda do tempo, é que os homens tendem a chamar de revolução a uma determinada alteração do regime vigente. O Software Livre/Aberto (SL/A) é hoje um modelo legal e técnico de desenvolver software que varia do modelo clássico ou proprietário. O negócio passa a estar na prestação de serviços e na formação e não no pagamento de licenças. Surgiu naturalmente e tem-se imposto em países com os Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha de forma natural e suave. Tem vindo a crescer porque serve as necessidades de quem procura soluções informáticas (o cliente) e serve quem oferece essas mesmas soluções (o fornecedor). Como é bom para ambos, funciona como bola de neve que vai integrando cada vez mais elementos sem disrupção da realidade existente. Não está a acontecer de forma brusca, violenta ou fundamentalista. O mercado português é muito conservador. Tem pouca mobilidade e não se move ao ritmo de economias mais dinâmicas. Assim, a mudança está acontecer de forma mais lenta do que noutros países mas também cá de forma irreversível.
O Linux Caixa Mágica é oficialmente lançado a 14 de Abril, durante o evento Linux 2005. Só a própria ideia da existência de uma distribuição portuguesa de Software Livre é louvável mas, quanto à implementação dessa ideia, há quem afirme que a CM, em relação a outras distribuições, está sempre um passo atrás. Considera a crítica válida, justa? Quer rebatê-la?
Em cinco anos de desenvolvimento já ouvimos bastantes críticas e todas elas úteis. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Mas todas serviram para perceber o que é que os utilizadores de Linux e Windows gostariam de ter no seu desktop. A base tecnológica da Caixa Mágica 10 – inteiramente desenvolvida em Portugal – não fica aquém de outras distribuições. As versões anteriores foram sendo progressivamente melhoradas e considero que esta versão chegou a um estado de maturidade tecnológica muito interessante. Sendo concreto: é fácil instalar pacotes, é fácil configurar hardware, o desktop está bem cuidado, etc… Nos laboratórios testamos sempre seis a sete distribuições para saber o que de melhor se faz em cada uma. O nosso mérito é seleccionar a melhor de cada uma, acrescentar a nossa parte e disponibilizá-la ao utilizador. A versão Desktop 10 é uma alternativa viável para o desktop, da mesma forma que acreditamos que quando a versão Servidor 10 for lançada, em Julho, irá revelar-se uma mais-valia para muitas organizações.
Na fase de desenvolvimento do Caixa Máxica, não será tremendamente complicado a uma pessoa na sua posição tentar perceber como tornar as operações mais user-friendly? E nesse sentido – apenas nesse sentido – não será o Windows uma fonte inspiradora?
Em 2000 e 2001 for difícil mas agora acaba por não o ser. Existe um conjunto de pessoas na equipa da Caixa Mágica que tem uma especial sensibilidade para a questão de tornar um sistema “user-friendly”. Questões tão simples como: “Se receber um mail com um PDF em attach, será que consigo abrir com um duplo clique?” Esse é o tipo de frustrações a que não queremos que os utilizadores da Caixa Mágica sejam sujeitos. Assim, a integração do software, bindings, localização de links e organização/selecção do software é hoje claro para nós como deve ser feita. Podem haver alguns contra-tempos de suporte de hardware mas em geral o sistema deve funcionar como o utilizador espere que funcione. O Windows é uma fonte inspiradora mas não é a única. Como já disse, as outras distribuições são analisadas ao detalhe. Fazemos grelhas com o que cada uma tem e não tem. Ao Windows vamos absorver alguns dos conceitos de utilização de software. Até para que a migração para Linux não seja muito brusca.
O meu apelido vem do tempo das guerras napoleónicas em que um ascendente nosso era o soldado número 300. E assim ficou. Penso que ainda existe uma fotografia desse primeiro Trezentos
No documento que escreveu a 28 de Agosto do ano passado – “As 11 máximas do Software Livre” – você começa por dizer: “O Software Livre é um modelo de desenvolvimento, não uma religião”. Preocupa-o assim tanto o fundamentalismo de alguns utilizadores do Linux a ponto de colocar essa máxima logo em primeiro lugar? Considera-o prejudicial a quem aposta no Software Livre como modelo de negócio?
O movimento SL/A em Portugal tem duas pessoas que reflectem muito bem as sensibilidades de cada um dos grupos que forma a comunidade num sentido vasto, num sentido de comunidades virtuais de Castells. Um desses opinion-makers representa a comunidade que se revê na face ideológica liderada por Richard Stallman, no software filosoficamente “Livre”. Outro reflecte a face pragmática do SL/A e revê-se na OSI (Open Source Initiative) mais associada aos modelos de negócio. Ou seja, no software “Aberto”.
Um destes dias começaram numa mailing list pública a alimentar uma polémica um contra o outro sobre uma questão menor. Enviei-lhes um email e começámos os três a trocar algumas ideias. Rapidamente chegámos a um denominador comum: todos queremos que o SL/A tenha sucesso mas encaramo-lo de diferentes maneiras. Não me choca que alguns vejam o SL/A como um novo Maio de 69, ou seja, uma maneira de reformar a sociedade, e outros o vejam como um negócio como qualquer outro. O que é importante é não ser fundamentalista e compreender as razões de quem está do mesmo lado da barricada. Mesmo que não sejam as suas. É como estar num barco de náufragos em direcção a uma ilha. Um pode ver a ilha como um refúgio de valores e outro como a melhor maneira de ter sucesso material através da exportação de madeiras exóticas. Mas ambos têm de remar na mesma direcção ou nenhum chegará à ilha.
Provavelmente já deve ter ouvido muitas piadinhas e trocadilhos com o seu apelido. Importa-se de explicar de onde vem esse apelido tão pouco habitual, “Trezentos”?
Já ouvi todo o tipo de trocadilhos e adoro-os. Mas a razão do nome é original. Até aos 20 anos desconhecia de onde vinha. O meu pai já se chamava assim, o meu avô também, o meu bisavô também e assim por diante. Como em todas as famílias. Nessa altura fui a um programa do Herman José como concorrente, ele fez-me a mesma pergunta e eu respondi que não sabia de onde vinha o nome. À noite tive uma chamada de uma tia minha da zona de Ourém a explicar que vinha do tempo das guerras napoleónicas em que um ascendente nosso era o soldado número 300. E assim ficou. Penso que ainda existe uma fotografia desse primeiro Trezentos. Também já tenho um Trezentinhos com 4 anos e os meus primos vários, pelo que acho que vão ter de nos aguentar pelo menos mais uma geração.
Você tem uma faceta mais desconhecida, um hobby no qual se sai até bastante bem: a fotografia. De onde vem esse gosto? Ou é apenas uma forma de aliviar o stress?
A fotografia é um gosto antigo que fui alimentando em banho-maria. Apanhar a realidade através da objectiva da máquina torna-se uma necessidade de capturar um momento. Com um sentido estético que é o nosso e que não tem necessariamente que corresponder ao do outros. Ao contrário de outras áreas em que gosto de me sentir eficiente, na fotografia não me preocupa se o que estou a fazer é bom ou não. Basta sentir-me bem com o resultado. Gosto muito de fazer revelação a preto-e-branco em casa mas o tempo já começa a ser curto.
Você é tido como uma pessoa essencialmente sensata. Alguns chegam a afirmar que, devido à sua postura dialogante e pouco beligerante, tem um excelente perfil para um ministério das Tecnologias. Outros dizem que não, que será mesmo Ministro das Tecnologias, é só uma questão de tempo. Provocação dos amigos a uma pessoa que já escreveu que “Software Livre não é de Esquerda ou Direita, de partido X ou Y?”
É provocação mas não deixo de interpretar como um elogio. A nossa geração começa a perceber que não basta ter bons engenheiros, não basta ter bons médicos ou bons arquitectos. Precisa de ter bons políticos que saibam indicar para onde o barco vai. Qual o caminho para a ilha. Existem bons políticos em Portugal e a tendência é melhorarem. Como diria um amigo meu: “a geração pós-25 de Abril é uma grande colheita”.