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→ 30/11/2007 @20:20

Quatro filmes (e posts) que já passaram à história

Tanto se escreveu neste blogue ao longo destes quase três anos que de vez em quando socorro-me de reedições. Estas não só permitem aos novos visitantes tomar contacto com textos que de outra forma dificilmente conheceriam como me deixa a algum tempo para descansar quando não estou nada inspirado – é o caso do dia de hoje (e provavelmente dos próximos).
Os textos que se seguem são sobre dois filmes que não gostei (o terceiro episódio de Star Wars e A Paixão de Cristo, de Mel Gibson) e dois que sempre adorei (The Shining, do Kubrick, e Vem e Vê, de Elem Klimov), embora por motivos diferentes. O post está dividido em quatro páginas, pelo que quem acompanha o blogue pelos feeds terá que vir cá pessoalmente fazer uma visita, se quiser ler tudo.

 

Matar saudades do Terror

The Shining é um filme de Stanley Kubrick baseado numa história de terror de Stephen King, um dos mestres do género.

É impossível escrever sobre The Shining como se fosse uma crítica de cinema. Para mim nem é filme, é recordação. Uma memória de um tempo já desaparecido quando nós, miúdos deslumbrados por tudo o que víamos no ecrã, começámos a descobrir que o cinema era mais do que um espectáculo de circo bem montado.

Criticar um filme que nos fez descobrir o cinema é como recordar as nossas brincadeiras de infância quando fazíamos de soldados: não nos passa pela cabeça dizer agora que não prestavam porque eram demasiado ingénuas e não tinham em conta os jogos de xadrez de políticos e militares. É como na música: os Pink Floyd, pelas mesmas razões, serão sempre especiais.

Mas ontem à noite – lixado por uma gripe do caraças e semi-adormecido diante do televisor – vi que o canal Hollywood estava a dar o The Shining. Não resisti e fiquei. Dei por mim a rever o filme, antecipando as minhas cenas preferidas com o Jack Nicholson e a tentar esquecer-me dos erros e imperfeições que lhe encontro agora.

Ao The Shining continuo a perdoar tudo: os erros na montagem, a sombra do helicóptero na sequência de abertura dos planos aéreos e a desequilibrada interpretação de Jack Nicholson – ora cabotino ora brilhante, e às vezes na mesma cena. Mas foi ao vê-lo pela primeira vez que descobri a arte da representação em cinema, foi nesse filme que descobri que a nossa percepção de uma cena pode ser manipulada pela montagem – e isso para mim é arte – foi com Kubrick que notei a fotografia, os planos, os enquadramentos, os travellings. E a música de Bartók.
A verdadeira história de terror em The Shining não assenta nos truques do género – assusta e mata, assusta e mata – mas na caracterização psicológica do pai Jack: mesmo nos momentos iniciais do filme, quando ele ainda está normal, se notam já as expressões de enfado e os sorrisos sarcásticos. Jack é pai de família mas está farto da mulher e do filho. Não se conseguindo evadir através da escrita, vive dividido entre representar o papel que a sociedade espera dele e o desejo de fugir e abandoná-los. Os momentos em que ele se consegue livrar desse papel e encontra os fantasmas do hotel não são momentos de terror, como seria de esperar em filmes do género, mas verdadeiros momentos de libertação.

Mas é melhor deixar ficar The Shining intacto na memória. Continuo com uma gripe do caraças e não me sinto inspirado para escrever. O acto mais libertador que me tem acontecido nas últimas horas é assoar o nariz. Enfim – tal como no passado nunca resisti em mostrar The Shining com a urgência de quem está a revelar Cinema pela primeira vez, também agora não resisti em escrever um post sobre o assunto. Fiquem bem. [Escrito a 2 de Abril de 2006]

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→ 11/11/2007 @5:33

O que um gajo inventa para mostrar o cu da Scarlett

O rabo da Scarlett

O traseiro da Scarlett Johansson é o plano de abertura do filme Lost in Translation, de Sofia Copolla. Para mim é um plano genial.

Façam lá o sacrifício de olhar outra vez para o rabo. Sim, já sei, a Scarlett é boa como o milho. Mas vejam melhor. É um rabo que conta uma história. É um rabo de mulher enfiado numas cuecas de gola alta semi-transparentes mas cor-de-rosa como cuequinhas de virgem ou, vá lá, cheerleaders do Benfica. Demasiadas contradições e conflitos, não é? Basta o plano de um rabo para caracterizar um personagem – isto é cinema, pessoal.

Scarlett só nos vira o cu ao princípio do filme porque ignora a nossa babada presença masculina e a sua mente ainda é a de uma adolescente perdida na sua própria Second Life.

Não se iludam: a Sofia Copolla sai mesmo ao pai, ou seja, é genial. Mostra-nos o rabo ao princípio do filme e, ao mesmo tempo, diz-nos: «Este não é um rabo qualquer; este é um rabo cinematográfico. Não está aqui para vos dar tesão, está aqui para contar uma história». Vejam-no outra vez: é um rabo preguiçoso, indulgente, um rabo, digamos, expressivo.

Se ela virou símbolo sexual a culpa é da Sofia, que cometeu a proeza de lhe dar personalidade ainda antes de lhe vermos o rosto. Ficámos tão impressionados com as qualidades dramáticas daquele rabo que, ao longo do filme, de todos os filmes que se seguiram, procurámos o traseiro da Scarlett como quem espera um monólogo do Al Pacino. E não tenham dúvidas: da nossa Scarlett não esperamos menos do que uma representação digna de um Óscar. Mesmo que de vez em quando faça boquinhas de broche ou sorrisos de Mata Hari labrega.

→ 10/11/2007 @1:01

Os melhores 25 sites para ver filmes e séries

Este site elabora regularmente um Top25 dos melhores sítios na Web para se ver streaming de filmes e séries de televisão.

Design da página, consistência dos links, qualidade dos filmes, das séries, qualidade de som e imagem, quantidade de títulos disponíveis, espírito comunitário e frequência de actualizações – são estes os critérios usados para apurar a lista dos melhores. Há muito para escolher e explorar. Quem preferir consultar a lista completa de sites e não apenas os que foram seleccionados também o pode fazer.

→ 20/07/2007 @2:38

A Banda Sonora do Cosmos

Esta página resulta da junção de dois posts previamente publicados no Bitaites e nos quais se divulgou a banda sonora de 2001: Odisseia no Espaço, realizado em 1968, e até à data o melhor filme de ficção científica alguma vez feito (ver trailer).

Para já, e tão maravilhosa como a obra-prima de mestre Stanley Kubrick, deixo-vos a música.

 

Um amanhecer


Richard Strauss – Also Sprach Zarathustra

Este é um poema sinfónico composto em 1896 por Richard Strauss, que estava fascinado com as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche (biografia) no livro Also Sprach Zarathustra. (Assim Falou Zarathustra: Wikipedia). A secção de Abertura – Dawn – foi usada por Kubrick três vezes, mas a mais conhecida é a que acompanha a sequência inicial do filme.

Zarathustra, livro, defende a ideia de que os seres humanos são a transição entre os macacos e o que Nietzsche chama de Übermensch (Além-do-homem, normalmente traduzido como Super-homem).

Embora esta ideia tenha originado criminosas interpretações (ler estas relações entre Nazismo e Nietzsche), Kubrick soube apropriar-se do despertar do Übermensch, celebração de Strauss, genial compositor, e dar-nos uma visão sublime e humanista do enigma enfrentado por seres humanos de existência finita mas capazes de compreender que, para além de Júpiter, de qualquer Júpiter, existe sempre o Infinito: pretender alcançar o limite do conhecimento é como tentar alcançar a linha do horizonte.

 

Um nascimento


Gyorgy Ligeti – Requiem For Soprano, Mezzo Soprano, Two Mixed Choirs & Orchestra

E então Kubrick surpreendeu os espectadores. Quando todos esperavam um filme de ficção científica mostrando uma sofisticada cidade do século XXI, Kubrick deu-lhes macacos e fez recuar a Humanidade 4 milhões de anos na sequência inicial «O Alvorecer do Homem».

Sob a influência do monolito, o primata torna-se capaz de fabricar um instrumento de guerra a partir de um pedaço de osso. O salto de 4 milhões de anos para o futuro é dado por uma das montagens mais famosas da história do cinema quando o primata, triunfante, lança o osso ao ar e ele é substituído pela visão de uma nave espacial.

A presença do monolito e a sua influência na evolução do Homem é o mistério que atravessa todo o filme – sem nunca ser explicado.

Kubrick usa a música de Gyorgy Ligeti, fabuloso compositor de vanguarda que merecerá um post por si só.

O Requiem de Ligeti transmite à cena em que o primata encontra o monolito um carácter quase religioso. Arthur C. Clarke é ateu, e nos livros que publicou com as diversas continuações da história, acabou por revelar o Monolito – 3001: Odisseia Final – como sendo apenas uma máquina manejável pelo Homem.

Kubrick, judeu, tinha outra visão: o primata que tenta tocar no monolito assume uma posição semelhante à de Adão e Deus na pintura de Miguel Ângelo da Capela Cistina, em Roma. Observamo-lo na sequência estendendo a mão para o monolito como o faz Adão na criação do pintor renascentista e como, de resto, quatro milhões de anos depois no filme, o faz Heywood R. Floyd quando investiga outro monolito que fora enterrado na Lua. Bowman também estende a mão ao monolito, no final do filme. [Fonte: A Odisseia Musical de 2001, de Miguel Andrade]

 

Dança cósmica


Johann Strauss II – The Blue Danube

Quando Johann Strauss II (filho mais novo da família de compositores Strauss, ver biografia) compôs o seu Danúbio Azul, já era conhecido em Viena como o Rei das Valsas. A fama e o reconhecimento público levaram-no a viajar pela Europa e Estados Unidos onde, em 1876, por ocasião das comemorações dos 100 anos da independência americana, conduziu uma orquestra de 1000 músicos na cidade de Boston.

Embora não seja considerada a melhor valsa de Strauss, Danúbio Azul (nome abreviado pela passagem dos anos, pois o original é No Belo Danúbio Azul) conquistou ilustres admiradores: Wagner afirmou-se «encantado» e Brahms escreveu num guardanapo o seguinte comentário sobre a obra: «Infelizmente não é minha.» (consultar)

Esta valsa acompanha a dança das naves espaciais no filme de Kubrick e parece transformar as leis de Newton em partituras. São quase 15 minutos sem diálogos, apenas a visão de uma nave do estilo Vai-Vem em suave aproximação à Estação Orbital e, depois, na segunda parte, durante a viagem que leva o investigador Heywood R. Floyd da Estação à Lua. Fãs de ficção científica de acção poderão achar esta sequência enfadonha: é contemplativa e sem montagens frenéticas.

Kubrick queria fazer um filme tão realista que teve como consultores especialistas da NASA (para toda a panóplia de efeitos especiais relacionados com a nave, os astronautas e a Cosmologia) e da IBM (para os computadores utilizados). Não admira, portanto, que um filme produzido em 1968 tenha sido capaz de antecipar, com exactidão, projectos como o Space Shuttle ou a Estação Orbital Internacional.

O apoio da IBM não durou muito tempo. Quando a empresa soube que o principal computador da nave – HAL 9000 – se tornaria o mau da fita, retirou-se do projecto. Por isso se diz que o nome HAL é uma referência velada (e irónica) à IBM: H acima do I, A acima do B, L acima do M. Kubrick afastou estas especulações, afirmando tratar-se apenas de uma coincidência.

 

Solidão


Aram Khachaturian – Gayne Ballet Suite (Adagio)

Combine-se a sequência em que uma pequena nave espacial navega entre os abismos do Espaço rumando em direcção a Júpiter e o Adágio de Gayne Ballet Suite, do compositor georgiano Aram Khachaturian, e tem-se a visão sublime da solidão. Penso que foi o que Kubrick e o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke (co-autor do argumento) quiseram mostrar: não a solidão no sentido individual, mas a solidão da espécie humana.

É uma contradição evidente, quase impossível de resolver, a forma como a nossa inteligência consegue abarcar espaços e tempos tão vastos e, ao mesmo tempo, a nossa existência física como indivíduos ser tão pequena e insignificante. Ao entrarmos no interior da nave espacial, a sensação de solidão que nos transmite o silêncio gelado do Cosmos permanece na inexpressividade dos astronautas Dave Bowman e Frank Poole, entregues a tarefas de rotina de manutenção e sem dizerem uma palavra um ao outro.

Apenas HAL, a inteligência artificial que comanda os destinos da nave, mais expressiva e emocional que os humanos, conhece a verdadeira natureza da missão: ir ao encontro do gigantesco monolito que se encontra em órbita de Júpiter.

 

Infinito


Gyorgy Ligeti – Lux Aeterna

Ligeti, compositor de origem húngara, judeu, falecido a 12 de Junho deste ano, em Viena, escreveu Lux Aeterna em 1966, um ano antes da estreia de 2001. A peça foi composta de acordo com uma técnica conhecida como Massa Sonora para um coro de 16 vozes solistas. É uma estrutura que prescinde do ritmo e da melodia e utiliza a harmonia com o objectivo de produzir variações de timbres vocais ao longo do tempo. Ligeti inventou o termo micropolifonia para descrever esta técnica composicional. (Fonte: Wikipédia)

Kubrick usou muitas composições de Ligeti nos seus filmes: em 2001, mas também em Shining ou Eyes Wide Shut.

A utilização das peças de Ligeti – compositor virtualmente desconhecido do grande público – ajudou-o a filmar a cinzenta desolação da Lua e o carácter quase divino, transcendental, do monolito.

Não existem muitos diálogos em 2001. Ao contrário dos filmes de ficção científica da época, não temos personagens cuja existência se justifica apenas para explicar ao espectador o que está a ver: Kubrick deixa-nos sozinhos com a sua visão e a música que escolheu.

2001 foi realizado cerca de um ano antes de outra odisseia – a dos astronautas da Apollo 11 que, a 20 de Julho de 1969, alunaram no Mar da Tranquilidade – o culminar de uma corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética iniciada em 1957 quando os russos colocaram em órbita o primeiro ser vivo – uma cadela Laika a bordo da Sputnik II – e, em 1961, venceram os Estados Unidos colocando o primeiro homem no Espaço, Yuri Gagarin, num voo orbital de 48 minutos a bordo da nave Vostok I. À semelhança de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, também Gagarin haveria de dizer uma frase célebre: «A Terra é azul, e eu não vi Deus».

Esta competição entre Estados Unidos e União Soviética – uma de entre as muitas faces da Guerra Fria – atravessou toda a década de 60. O próprio 2001, possivelmente contra a vontade de Kubrick e sobretudo de Arthur C. Clarke, acabaria por entrar nas contas dessa guerra quando foi sugerido no Ocidente que Solaris, de Andrei Tarkovski, baseado no livro de Stanislaw Lem, era a resposta cinematográfica da URSS ao filme americano. Steven Soderbergh, que realizou a remake de Solaris, afirmou numa entrevista ao New York Times ter imaginado «o planeta (Solaris) como o equivalente ao monolito do 2001». Tarkovsky viu 2001 antes de iniciar as filmagens de Solaris e não gostou: «É um filme frio e estéril».

2001 levou muitas pessoas à Lua e rumo ao futuro mas, não obstante o conhecido feitio perfeccionista de Kubrick, não conseguiu escapar a alguns erros. Por força do desconhecimento ainda existente sobre a Lua, não foi possível recrear com perfeição os efeitos da ausência de gravidade sobre os astronautas. A altura das montanhas é excessiva e os efeitos da erosão sobrestimados – seja como for, não foram estas pequenas deficiências do filme que motivaram as críticas negativas que recebeu.

Pauline Kael, da revista The New Yorker, conhecida pelas suas críticas eruditas, eloquentes e, segundo alguns, histéricas, classificou 2001 como um filme «monumentalmente pouco imaginativo». Mas sobre esta peculiar raça – os críticos – já o grande compositor Erik Satie se pronunciou de forma apropriada [ver texto Elogio dos Críticos].

 

A canção de HAL


Hal Montage

Não se trata desta vez de uma música, mas de uma colagem (9:41) dos diálogos do computador HAL no filme. A voz pertence ao actor Douglas Rain. Rain, nascido no Canadá, actor de teatro acima de tudo, nunca chegou a pisar o local de filmagens.

HAL, a máquina, é o resultado daquilo que, em 1968, se pensava sobre a evolução dos computadores: quanto mais sofisticados, maiores seriam. Sabemos agora que a previsão falhou, pois caminhou-se no sentido oposto – o da miniaturização dos componentes electrónicos.

O primeiro circuito electrónico miniaturizado surgira em finais dos anos 50, na Texas Instruments, quando o engenheiro Jack Kilby fundiu cinco transístores numa barra de 1,5 centímetros quadrados. O que não se podia supor é que fôssemos capazes de diminuir até mil vezes o tamanho dos circuitos (Ver Nanotecnologia).

A ideia de um computador capaz de falar como um ser consciente também está longe do que é possível conseguir-se hoje em dia. Por outro lado, um computador capaz de jogar xadrez e, ainda por cima, vencer um ser humano (como no jogo contra um dos tripulantes, Frank Poole), era impensável na época – e temos todos bem consciência das partidas em que o super-computador Deep Blue venceu o campeão Gary Kasparov.

HAL, a personagem, é muito mais complexa. O computador tem a seu cargo a manutenção da nave e, ao mesmo tempo, a avaliação psicológica dos tripulantes. Encerra nos seus circuitos um segredo: o verdadeiro objectivo da missão, que é a de ir ao encontro do gigantesco monolito que se encontra em órbita de Júpiter.

Depois de falhar uma previsão de avaria numa das antenas da nave (impossível de acontecer, segundo o próprio HAL, pois não existem registos de quaisquer falhas de funcionamento no seu modelo de computadores), Dave Bowman e Frank Poole começam a conspirar contra a máquina admitindo, mesmo, a hipótese de a desligar. HAL, apercebendo-se da intenção dos tripulantes (consegue ler-lhes nos lábios o diálogo que travam), acaba por matar Boole quando este efectua uma saída para o Espaço, embora falhe na tentativa de eliminar Bowman.

Clay Waldrop, no artigo «The Kubrick Site: The Case For HAL’s Sanity», disserta sobre a psicologia de HAL e parte precisamente do jogo de xadrez com Poole para defender a teoria segundo a qual o computador não enlouqueceu. Waldrof afirma que as acções de HAL são resultado da Razão e da Lógica, originando tomadas de posições que são depois executadas com a frieza de uma máquina super-inteligente.

São inúmeras as interpretações e caracterizações de HAL. A mais curiosa – embora lateralmente, pois o foco não é o computador mas o filme como um todo – é a de Michel Jalil Fauza no artigo intitulado «O Paralelo da Consciência em Hamlet e 2001: Odisseia no Espaço». Outro site oferece textos – incluindo do próprio Arthur C. Clark – com todos os tipos possíveis de abordagem, entre artigos e entrevistas: HAL’s Legacy. Para os interessados, é leitura não para horas, mas para dias.

 

Tripe


Gyorgy Ligeti – Atmospheres

HAL, o super-computador finalmente vencido pelo instinto humano de sobrevivência, chora a inocência perdida enquanto o astronauta Dave Bowman invade o compartimento onde estão armazenados os circuitos sensíveis da memória do computador e desactiva-os, um a um, tornando a agonia final de HAL lenta e perturbadoramente humana.

HAL vai-se desvanecendo aos poucos e confessa, nos momentos finais: «Tenho medo, Dave. Tenho medo.»

Já sem consciência de si próprio e instigado por Bowman, HAL canta Bicycle Built For Two?, canção infantil, sim, mas uma mera rotina que tinha sido gerada num IBM 7094 em 1961 pelos programadores John Kelly e Carol Lockbaum. Mais um toque de realismo.

Silenciada a máquina, Bowman, único representante da raça humana nesta odisseia espacial, chega a Júpiter, onde se encontra o monolito, e descobre, para além de Júpiter, o Infinito.

Os quinze minutos finais de 2001 assombram os espectadores pela espectacularidade dos efeitos espaciais e pelo mistério que, em vez de ficar resolvido, ainda mais se adensa.

Primeiro, a sequência em que Bowman parece deixar de estar sujeito às restrições da nossa tecnologia e viaja pelo Espaço e pelo Tempo como se estivesse sentado num carrinho percorrendo uma montanha-russa cósmica. Luzes, cores e formas desfilam diante de nós, o mundo está repleto de estrelas, galáxias e mundos desconhecidos. Tão estranha como as imagens é a música escolhida pelo realizador, mais uma peça orquestral de Ligeti, atonal e dissonante.

Para quem vive o século da animação computorizada, os efeitos visuais usados nesta sequência poderão parecer rudimentares – na época em que surgiram, porém, deslumbraram. Não eram um mero espectáculo visual, dizia-se, mas uma verdadeira experiência – o mais próximo que se podia estar de uma trip de LSD sem consumir a droga.

 

A condição Humana


Gyorgy Ligeti – Adventures

Depois de uma viagem psicadélica pelo Espaço, o astronauta Dave Bowman encontra-se numa sala setecentista. O filme torna-se ainda mais estranho, misterioso. Ouvem-se sons, vozes, que parecem indicar presenças alienígenas na sala. Não são efeitos sonoros, mas excertos de uma das peças mais arrojadas de Ligeti, Adventures.

Nessa peça o compositor propôs aos músicos uma experiência musical diferente – criar sons estranhos com a sua própria voz – e incorporou e montou os sons conseguidos. Recursos deste tipo já os conhecia em experimentações mais arrojadas de outro génio da música, Frank Zappa.

Kubrick usa-as para aumentar ainda mais a sensação de estranheza e mistério naquela sala. O que é aquela sala, e qual o significado de tudo o que veremos posteriormente, é algo que o realizador nunca mostrou interesse em explicar: «Há certas áreas da realidade – ou da irrealidade, ânsia interior, chame-lhe o que quiser – que são particularmente inacessíveis às palavras», afirmou uma vez.

Kubrick raramente dava entrevistas, mas alguns foram capazes de quebrar o gelo. Jeremy Bernstein, em Novembro de 1966, visitou a casa do realizador. Não só conseguiu a desejada entrevista como pôde registá-la em cassete. Bernstein não era propriamente um jornalista, mas um professor de Física autor de mais de uma dezena de livros de divulgação científica e que também escrevia artigos para a New Yorker.

Da parte da entrevista dedicada ao filme (só estrearia dois anos depois), o que acaba por ser mais interessante é a forma como Kubrick interpreta e sente a obra do escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, co-autor do argumento e em cujo conto The Sentinel a história de 2001 se inspirou. Sobre o filme acaba por falar muito pouco.

«Intelectualmente complicado não é bem a melhor descrição para 2001. Strangelove era um filme intelectualmente mais complicado, envolvia discussões complexas, e ideias abstractas, cómica ou claramente representadas. 2001 não é um filme complexo em termos de ideias apresentadas, ideias realmente expostas, percebe?». O registo áudio desta (curta) entrevista pode ser descarregado aqui.

→ 25/05/2007 @9:12

Os 100 melhores sites para filmes e vídeos

Esta página contém uma lista de 100 sítios a partir dos quais é possível ver online filmes ou outro tipo de conteúdo em vídeo, de forma gratuita. A lista inclui todos os mais conhecidos (Google, YouTube), mas também um grande número de sites virtualmente desconhecidos para mim. É um excelente ponto de partida para explorações multimédia. O conteúdo encontra-se dividido em categorias e o autor ainda se deu ao trabalho de escrever pequenas ‘reviews’ para quase todos os sites que menciona.

→ 06/11/2006 @5:01

2001: a história acaba primeiro que o filme

A história de 2001: Odisseia no Espaço é fácil de contar.

Divide-se em três partes: o alvorecer do Homem, da Terra à Lua, do osso-ferramenta à nave espacial; a missão a Júpiter por causa do monolito e todos os acontecimentos que se verificam a bordo da nave; a chegada a Júpiter.
A quarta parte – a sequência final com o astronauta Bowman – já não faz parte da história porque se situa numa dimensão em que as histórias, prisioneiras da passagem do Tempo, não existem.

THE DAWN OF MAN

Quando ainda éramos macacos, há uns quatro milhões de anos, apareceu na Terra um misterioso objecto em forma de monolito. O objecto inspirou o macaco a usar um pedaço de osso como uma ferramenta de guerra contra macacos de tribos rivais. Daí até às naves espaciais foi um pulo.

Agora que já somos seres civilizados e tecnologicamente avançados, descobrimos um monolito semelhante que estava enterrado na Lua há milhões de anos. Tal como os macacos, continuamos sem perceber nada, a não ser que o monolito está a enviar sinais rádio para Júpiter.

JUPITER MISSION

A nave espacial Discovery parte com o objectivo de descobrir o que lá se encontra. Os membros da tripulação – dois astronautas e três cientistas ainda em estado de hibernação – desconhecem todos os pormenores críticos da missão mas HAL, o super-computador de bordo, capaz de falar como uma pessoa, encarregue da manutenção da nave e do estado psicológico dos seus ocupantes humanos, está ao corrente da existência do monolito.

Quando HAL conclui que os seres humanos podem colocar em risco a missão, resolve eliminá-los. Mata todos menos um – o comandante Dave Bowman, lutando pela sobrevivência como outrora o fizeram os macacos seus antepassados, consegue desligar o computador.

JUPITER AND BEYOND

Chegado a Júpiter, Bowman descobre que o monolito desenterrado na Lua aponta para uma série de milhares de monolitos estacionados em órbita do planeta gasoso gigante. Quando entra no casulo espacial e se dirige aos estranhos objectos… Acaba a história.

THE INFINITE

Se pensarmos que a história do Universo também é fácil de contar (até a um certo ponto, e esse ponto que depois se expande chamamos-lhe Big Bang), facilmente percebemos que tudo o que esteja para além dessa linha do horizonte onde terminam todas as histórias é impossível de ser alcançado pela nossa compreensão. Perguntar o que significa o final de 2001 é o mesmo que querer saber o que existia antes do Big Bang (1). Qual antes, se não existia Tempo?

A história acabou e, contudo, o filme continua.

A sequência final da viagem psicadélica é tão espectacular como se estivéssemos numa montanha-russa cósmica e viajássemos no carrinho do Einstein.

Piscamos os olhos e tudo aquilo desaparece. De repente Bowman encontra-se numa sala decorada com mobiliário do século XVII, mas branca e fria como como os corredores de um hospital. O chão, todo aos quadrados, lembra um tabuleiro de xadrez. A cada passo que dá, o astronauta parece tornar-se um peão de forças infinitamente poderosas e invisíveis.

Ouvem-se vozes e sons indecifráveis. O astronauta vê-se a si próprio muito mais velho enquanto o muito mais velho Bowman, num sorriso sarcástico de reconhecimento, se vê a si próprio mais novo. Tem início o jogo do Infinito, o xeque-mate às capacidades humanas. A sala poderá ser a representação cinematográfica do que os cientistas designam por singularidade.

Temos Bowman deitado na cama, na mesma sala, seco como uma múmia, à beira da morte, estendendo a mão ao monolito como Adão estendeu a mão a Deus no quadro de Miguel Ângelo pintado na Capela Cistina.

A imagem já faz mais sentido, está-nos na memória, na nossa e em milhões antes de nós – e então julgamos ver, mas mesmo assim não temos a certeza, uma representação surrealista da origem divina do Homem. Deus então é o monolito, monolito é Deus.

Bowman desaparece para surgir transformado num gigantesco feto estelar – e já não nos parece existir nada de tão obviamente divino, mas apenas nova representação de uma verdade química que em 1968, ano de estreia do filme, era já conhecida: somos feitos da mesma matéria das estrelas.

Qualquer das interpretações que se possa dar a 2001 é correcta e, ao mesmo tempo, necessária para que o filme, mais de trinta anos depois, ainda não tenha terminado. Sem a nossa especulação, o filme teria acabado ao mesmo tempo que a história, ou seja, quando Bowman deixou o mundo tal e qual o conhecemos. Mas Kubrick queria filmar a nossa condição de eternos e ansiosos perguntadores das galáxias. O monolito é apenas uma criação artística.

→ 11/09/2005 @18:12

O Horror

Lembro-me constantemente do filme de Copolla – Apocalypse Now – quando tento perceber os homens que sequestraram quatro aviões comerciais, lançando dois contra as torres do World Trade Center e matando milhares de inocentes. Ao contrário do que Bush quer fazer passar, o mundo não é a preto e branco: não é um simples good versus evil, tem vários tons de cinzento. Se alguém quiser der um tiro nos cornos ao Bin Laden por causa do envolvimento dele nos acontecimentos do 11 de Setembro, compreendo as motivações; se outra pessoa, e pelos mesmos motivos – morte de inocentes – quiser fazer o mesmo em relação a Bush, compreendo as motivações. Existiram momentos em que não consegui segurar as lágrimas, comovido com tamanha destruição e dor. Mas neste país tranquilo em que vivemos, livre de bombardeamentos, opressões e humilhações, estaremos em condições de fazer julgamentos morais seja sobre quem for? Os cemitérios estão repletos de cadáveres de inocentes – e nem todos são americanos.

Os assassinos do 11 de Setembro são marionetas da Al-Qaeda. Os soldados norte-americanos no Iraque são marionetas de Bush. De um lado, uma organização que deseja dominar religiosamente o mundo, transformando-o numa ditadura de fundamentalistas islâmicos; do outro, um presidente conservador e cristão que utiliza os ataques ao World Trade Center como uma desculpa para dominar os recursos energéticos do Médio Oriente.

Apocalypse Now, para mim, é a chave para compreender os terroristas do World Trade Center. Ao capitão Willard (Martin Sheen), o comando militar americano confia uma missão importante: viajar a uma região inóspita do Cambodja para assassinar o coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), um brilhante militar mas cujas acções se tornaram incontroláveis. Enlouqueceu. O próprio Kurtz fornece uma pista a Willard para explicar as razões da sua loucura que o levaram a adoptar tácticas sangrentas, desumanas e brutais contra os inimigos Vietcongs.

«Horror», diz Kurtz.

«O horror tem uma face. E tens de fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral devem ser os teus amigos. Se não o forem, então serão inimigos a temer. Verdadeiros inimigos. Eu lembro-me quando estava nas Forças Especiais. Fomos a um campo inocular as crianças contra a Poliomielite. Já tínhamos abandonado o campo quando um velhote veio a correr atrás de nós, a chorar. Voltámos ao campo e os vietcongs tinham decepado todos os braços inoculados. Estavam reunidos num monte, um monte de bracinhos de criança.

E eu chorei que nem uma avózinha. Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Mas quero recordar o que vi. Nunca vou querer esquecê-lo. Até que me apercebi, como se fosse uma bala de diamante a trespassar-me o cérebro. E pensei: Meu Deus. O génio daquilo. O génio. A força de vontade para o fazer. Perfeita, genuína, completa, cristalina, pura. Compreendi então que eles eram mais fortes que nós. Eles não eram monstros, mas homens como nós, homens que lutavam com paixão, com famílias, mas que tinham a coragem de fazer aquilo».