Perigo de alteração da ordem púbica
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Na Feira do Livro realizada em Braga, os pais de várias crianças que visitavam o recinto queixaram-se à polícia por causa da ilustração do livro de Catherine Breillat – Pornocracia. O quadro de Gustave Courbet impresso na capa estava a despertar muito interesse nos miúdos, os pais começaram a sentir-se inquietos com tanta pouca-vergonha e chamaram a polícia.
Embora não existisse «violação de qualquer norma do código penal», o Comando da PSP de Braga resolveu apreender o livro como «medida cautelar», pois a «iminência de confrontos físicos» no recinto da Feira levou a autoridade a considerar que existia «o perigo de alteração da ordem pública». (Link para a notícia do Público)
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O abalo sentido pelos pais de Braga foi mais ou menos idêntico ao que a burguesia parisiense experimentou quando há 146 anos o magnífico Gustave Courbet apresentou o mais famoso dos seus quadros, A Origem do Mundo. Pela primeira vez na história da pintura séria, a sagrada pintelheira da mulher era retratada com o destaque e o realismo que merece, cortando Courbet com as normas que determinavam que o sexo feminino deveria ser tapado com uma pele lisa retirada da barriga e umas quantas pinceladas de pudor burguês.
Que diria Courbet se voltasse ao mundo dos vivos para pintar uma nova versão do seu belíssimo quadro em Braga? Quantas mulheres e quantas partes íntimas teria o pobre pintor de examinar até encontrar uma pintelheira merecedora dos atributos da anónima pintelheira original? Teria esse hipotético quadro o mesmo impacto junto destes pais de Braga se Courbet, em vez de pintar uma cona oitocentista, tivesse pintado uma cona contemporânea, lisa e depilada como as falsas conas que os caquécticos académicos de Paris impunham?
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A nudez é muito dramática. Pode ser bela, triste, desesperada ou cativante, mas é sempre verdadeira quando é feita em nome da Arte. Numa nudez artística não há nada para tapar porque é uma nudez que não se esgota no nosso olhar nem depende de um corpo nu.
Existe outro tipo de nudez, a nudez que depende apenas do corpo e portanto pode ser vestida – basta ver os episódios de Verão da telenovela Morangos com Açúcar para perceber isto. A telenovela não transmite e glorifica o grau zero da nudez, o puramente carnal e masturbatório, a nudez vestida com carne de mulher, mas não deixa de ser pornografia – a diferença entre as adolescentes descascadas a bambolear os rabos na praia e a pornografia que mostra tudo é que a pornografia dos Morangos com Açúcar tapa e esconde a nudez num grau aceitável aos olhos da sociedade e daqueles pais de Braga.
No que respeita à exploração mercantilista do corpo da mulher e do homem, é exactamente igual. Só é pena que a ordem pública se altere devido à ignorância e ao preconceito e os polícias estejam tantas vezes ao serviço da mesquinhez e da hipocrisia.























