20/Abril/2010

Atente-se no Design

Design atento

Uma bela sugestão da Susana fez-me conhecer o portal brasileiro Design Atento.

Com uma organização limpa e cuidada que lembra o português Obvious, é daqueles sítios para se guardar já nos bookmarks, sobretudo para quem gosta de artes gráficas: tem ilustração, publicidade, foto-manipulações, fotografia, 3D, arquitectura e todos os tipos de design, design de produto, moda, retro, interiores, concursos, eventos e entrevistas. A imagem acima foi retirada de um dos seus posts e é da autoria de Scott Davidson. Link

Publicado por Marco Santos | Categoria: Links | Comentários Desligados
9/Abril/2010

O olhar

Rio de Janeiro

Esta foto de Jadson Marques lembrou-me outra, tremendamente inquietante, captada em 1985 por Frank Fournier e vencedora do World Press Photo: uma rapariguinha de 13 anos, Omayra Sanchez, presa nos destroços da própria casa, com água até ao pescoço, foi fotografada poucas horas antes de morrer.

Esteve três dias assim, sem que tivesse sido possível libertá-la dos escombros, e acabou por não resistir à gangrena e à hipotermia. Omayra Sanchez foi uma das 25 mil pessoas mortas, apanhadas pelo vulcão Nevado del Ruiz, que entrou em erupção a 13 de Novembro de 1985 em Armero, na Colômbia.

Esta imagem foi captada há dois dias em Guaratiba, Rio de Janeiro. O homem preso nos destroços da própria casa chama-se Carlos Eduardo Silva dos Santos e também olha directamente para a objectiva da câmara. Nele existe o mesmo sofrimento, mas não os sinais de apatia e esgotamento da rapariguinha colombiana. Esta é uma foto com um desfecho menos sombrio, pois ele acabou por ser resgatado e salvou-se.

É apenas uma pequena história. Na tragédia do Rio de Janeiro as pequenas histórias infelizes são já aos milhares e ainda se contam os mortos – pior, adivinham-se. Há 212 mortos confirmados, mas no Morro do Bumba, em Viçoso Jardim, no Bairro do Cubango, Niterói, receia-se que estejam ainda 200 pessoas soterradas.

Publicado por Marco Santos | Categoria: Fotografia | 7 comentários »
4/Janeiro/2010

Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates

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O que escrevi em Junho de 2008 continua a ser a minha opinião, quase dois anos depois. O acordo ortográfico não me causa taquicardia literária. Mais tarde ou mais cedo, acabarei por adaptar-me à nova grafia e escrever exactamente como tenho escrito até hoje. Também não me sentirei menos português por causa disso.

Chateia-me ouvir portugueses dizer que estão contra o acordo ortográfico porque não querem escrever como os brasileiros. Eu ficava mais descansado se essas tomadas de posição fossem em defesa da língua portuguesa bem escrita, com ou sem acordo. E acho notável que se fale de uma revisão ortográfica como se esta implicasse uma mudança na estrutura do nosso idioma.

Sempre me ensinaram na escola que ortografia é uma coisa, gramática é outra. Talvez um professor de Português tenha a amabilidade de explicar ao pessoal qual delas é mais importante para a consistência da nossa língua, a ortografia ou a gramática.

Estejam descansados: mesmo depois desse detestável acordo ortográfico entrar em vigor à séria, uma portuguesa continuará a ter um cu e uma brasileira uma bunda.

Mas a propósito de não querer escrever como os brasileiros, experimentem dizer bunda e cu em voz alta e depois digam-me lá qual das palavras vos parece mais rechonchuda. Cu têm as mães de Bragança. E quem tem cu tem medo. Medo de mudar.

Vivemos demasiados anos sob uma ditadura que incentivava a ignorância. Fizeram-nos uma lavagem ao cérebro de tal maneira que continuamos a sentir o «orgulhosamente sós» do Salazar como a manifestação de um sentimento patriótico – o que essa expressão realmente revela é estupidez e uma mentalidade bota-de-elástico. Desejo que o meu país acompanhe a evolução dos tempos, não o quero ver refugiado numa redoma linguística à conta do orgulho. E digam-me, qual orgulho? O orgulho de ser um país prestador de serviços em vez de ser um país produtor?

Há outro pormenor que escapará a algumas pessoas: desde a Revolução de Abril que deixámos de ser donos da Razão e, por conseguinte, desculpem-me os detractores do acordo, é uma enorme pretensão da nossa parte afirmar que ocupamos o incontestável trono da língua portuguesa quando não somos a única nação a escrevê-la e falá-la. Soberba Universalidade! Se pensássemos sempre desta forma, ainda estaríamos todos a pedir dinheiro emprestado em Latim. Este não mudou, realmente, e se calhar é por isso que se diz que é uma língua morta.

Portanto a questão aqui é deixar de nos vermos como os reis da moralidade linguística e aceitar que a nossa maravilhosa língua está viva e é para partilhar, não para se deixar segregar neste pequeno rectângulo.

Por último, essa história do facto que passa a fato é a maior treta de todas. Em primeiro lugar, porque o «c» só cai quando é mudo – não é o nosso caso, pois dizemos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pessoal falar em «vestir factos» julga que foi este acordo ortográfico a introduzir na nossa língua as palavras homónimas, ou seja, palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significados diferentes.

Que vamos fazer então ao rio, que tanto pode ser verbo como nome comum? Vamos drená-lo? O rio atravessa a cidade, eu rio com facilidade. Não causa estranheza porque já estamos habituados, não é? E que vamos fazer nós ao ser, valha-nos Deus? Vocês são gajos porreiros, mas aquele ali não é um indivíduo são da cabeça. E a pobre rapariga que se chamar São? Já devia ter mudado de nome! E os nossos pobres santinhos? Isto é um escândalo!

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5/Dezembro/2009

África do Sul em todo o seu esplendor

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Bailarinas no sorteio do Mundial 2010

Foto: EPA/Kim Ludbrook

Eis um momento da actuação de um grupo de bailarinas durante a cerimónia do sorteio do Mundial 2010 na África do Sul: os caprichos do destino determinaram que os brasileiros da Europa ficam no mesmo grupo que os europeus da América. 6-2? Não quero saber.

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23/Novembro/2009

A origem do fado

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Sempre tive uma relação conflituosa com o fado principalmente porque sou português e não gosto. Amália tinha a voz de uma deusa, mas o meu fado são os blues.

A primeira vez que ouvi fado na televisão desliguei o som. Foi uma coisa instintiva. Também é assim com debates sobre futebol ou durante os discursos do Paulo Portas. Mas naquele dia fiquei a observar o fadista silencioso e impressionou-me a forma como abria as goelas e se deixava ficar de boca aberta e olhos fechados como se estivesse cheio de sono. Foi uma revelação.

As pessoas ainda discutem sobre as origens do fado enquanto expressão musical. Uns dizem que o fado vem dos árabes, outros que é importação das modinhas brasileiras.

O fado teve origem no encontro entre irmãos dos dois continentes: o português chegou ao Brasil com uma guitarra na mão e foi descobrir o brasileiro de boca aberta e cheio de sono, deitado ao Sol depois de uma noitada de samba e bunda.
– Que som é esse? – Quis saber o português quando viu o brasuca todo esticado no areal, bocejando.
– Como é…? – Bocejou ainda mais o brasileiro, mal abrindo os olhos.
– Como é, perguntas tu…? Ora! É mesmo assim como estás a fazer. Pois isso tem uma sonoridade tão peculiar, pá! Continua a fazer esse som, ó gajo, que eu acompanho com a minha guitarra.

Não liguem ao que aprenderam nas aulas de História. Não há segredo nem polémica. O fado nasceu da ressaca. O fado é o samba quando boceja.

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16/Novembro/2009

Uma nau portuguesa de 670 milhões de euros

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A confirmar-se, é uma grande descoberta.

Uma equipa de mergulhadores chefiada pelo brasileiro José Eduardo Galindo encontrou perto da costa do Rio de Janeiro restos de uma nau portuguesa do século XVIII. A carga que transportava foi avaliada em 670 milhões de euros. A notícia foi publicada ontem pelo jornal O Globo.

Como muitas descobertas, esta também aconteceu por acaso. José Galindo procurava uma hélice perdida por um rebocador no ano passado quando o seu olhar experiente notou restos de madeiras. Galindo é um mergulhador, mas o que ele procura debaixo de água é a História. Numa entrevista publicada a 27 de Dezembro de 1998 pelo Correio Braziliense, disse acreditar que os mares brasileiros escondem mais de «oito mil carcaças de caravelas, naus, brigues, bergantins, vapores, galeões, couraçados, fragatas e submarinos

(O artigo Cinco Séculos de Naufrágios, de Ana Magno e Wanderley Pozzembom, vale a leitura.)

Galindo pensa que os restos descobertos podem ter pertencido ao Rainha dos Anjos, que se afundou a 17 de Julho de 1722 diante da baía da Guanabara. O navio viajava da China para Lisboa e tinha feito escala no Rio de Janeiro carregado com 136 peças de porcelana chinesa da era do Imperador Kangxi (1654 ou 1662, consoante as fontes-1722), terceiro da dinastia Qing. Desta dinastia apenas um vaso sobreviveu: está no Museu Imperial da China.

O que leva o mergulhador brasileiro a pensar que estamos perante uma carga tão preciosa (e valiosa) é o facto de os chineses serem conhecidos «pelos cuidados com que embalavam a porcelana». Por isso, conclui, «é muito provável que encontremos peças inteiras».

Os vestígios foram enviados a laboratórios nos Estados Unidos para confirmar a sua origem, mas já existem várias empresas internacionais interessadas em patrocinar as investigações arqueológicas. As contas de Galindo são as seguintes: 196 mil euros para desenterrar parte da nau e mais de 1100 milhões de euros para a trazer à superfície.

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12/Novembro/2009

Nus por Geyse Arruda

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Manifestação em Brasília

Manifestação em Brasília

Manifestação em Brasília

Geyse Arruda pode (ou não) aceitar um eventual convite da Playboy para tirar finalmente a saia curta que tanto oprimiu a consciência moral dos estudantes da Uniban, mas o seu caso já deu origem a uma das mais originais manifestações de estudantes de que tenho memória.

Quase 100 alunos da Universidade de Brasília ficaram hoje nus (ou seminus) durante uma manifestação de apoio a Geyse. Alguns cartazes de apoio, segundo o sítio G1, diziam: «Pela liberdade de expressão e o fim da opressão machista».

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8/Novembro/2009

Não há segundas oportunidades para as «putas»

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Geyse Arruda

O caso Geyse Arruda – a aluna de 20 anos forçada a abandonar a Universidade escoltada pela polícia por usar saia curta – teve um novo desenvolvimento: a Universidade Bandeirante decidiu expulsar a aluna.

A Universidade tomou a decisão após uma «sindicância interna constatar que a aluna teve uma postura incompatível com o ambiente da universidade, frequentando as dependências da unidade em trajes inadequados». Segundo o comunicado da Uniban, Geisy «provocou» os colegas ao fazer «um percurso maior que o habitual, desrespeitando princípios éticos, a dignidade académica e a moralidade».

Geyse tem 20 anos e cometeu um erro: usar aquele vestido na Universidade. Não sabemos a história toda. Geyse podia até não ser muito popular entre os colegas. Talvez fosse até uma convencida insuportável. Não sabemos.

Geyse cometeu um erro de avaliação e a Universidade não lhe deu oportunidade de aprender com o erro. A Universidade podia ter visto no caso uma oportunidade de transmitir aos alunos (e a Geyse) algumas lições sobre bom senso, sexualidade, postura e respeito.

Em vez disso, juntou-se à multidão velhaca e preconceituosa que a cercou aos gritos de «vagabunda» e «puta». Apoiou o apedrejamento moral de uma aluna de 20 anos porque considera que a exibição da sexualidade por parte de uma mulher – ainda que insensata e imatura, por ser na Universidade – só pode ter como objectivo «provocar» os colegas. A vagabunda. A puta. E os alunos, coitados, só defenderam o bom ambiente da Universidade.

Este caso não é apenas brasileiro, é uma vergonha universal. Envergonha e revolta todos aqueles que acreditam que o grande mal deste mundo é existir demasiada informação para tão pouca formação. No fim, como escreve Marcos Guterman, foi castigada a vítima.


Faculdade preconceito

Inscrição num dos muros da Universidade Bandeirante: 10 alunos foram suspensos, mas é a expulsão de Geyse Arruda que divide neste momento os universitários: segundo uma reportagem do G1, alguns concordam com a decisão da Faculdade, outros consideram-na ridícula. [Foto: Juliana Cardilli/G1]

Sobre este caso, ler: O caso da agressão a Geyse Arruda na Uniban, e a hipocrisia conservadora [Valorização do Professor] | Inacreditável: Uniban expulsa aluna [Escreva, Lola, Escreva] | Unitaliban: o total fracasso da Educação [Desemburrecendo] | Uniban expulsa Geyse! [Apoiadores da Loira da Uniban] | Ecos da expulsão que inaugurou uma ‘época despida’ [Josias de Souza] | Mais uma aluna é hostilizada em Universidade [Fiapo de Jaca]


Actualização: a Universidade já não vai expulsar a aluna (Escreva Lola Escreva)


Adenda: esta «notícia» do Diário de BarrelasGeyse Arruda negoceia sessão fotográfica com a Playboy – já enganou algumas pessoas, mas é falsa: o jornal Diário de Barrelas é um projecto online com notícias deliberadamente mentirosas, humorísticas, como no caso do americano The Onion. Os boatos de que tanto oiço falar devem ter nascido aqui.

Um pequeno exercício especulativo: vamos supor que a Playboy morde o isco e acena à jovem uma fortuna para posar nua. Se ela for insensata a ponto de aceitar fazer o ensaio, todos aqueles que a consideraram vagabunda irão pensar: Eu bem dizia. Na verdade, não se limitarão a pensar – vão gritar novamente.

Convém não esquecer que este caso não depende de uma pessoa chamada Geyse e dos erros que poderá vir a cometer ou dos defeitos que lhe apontarem. O que está em causa é um princípio que transcende nacionalidades ou julgamentos de carácter: não aceitar linchamentos públicos, muito menos quando são baseados no preconceito, intolerância, sexismo, inveja, hipocrisia ou estupidez. Tão simples como isto.

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4/Novembro/2009

Geyse Arruda não é caso único

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Ainda a propósito do caso Geyse Arruda,

muitos foram os portugueses surpreendidos por tamanho apedrejamento moral ter sucedido no Brasil, o país do Samba e das dançarinas peladas do Samba – sendo portugueses e estando cá, só poderíamos ter uma visão superficial do país. É como tentar conhecer o Rio de Janeiro a partir de um cartão postal.

A leitura deste post num blogue brasileiro – Escreva, Lola, Escreva (escreve, sim, e com bastante garra) – permite não só ter uma perspectiva correcta do caso Geyse como conhecer outro, muito semelhante, ocorrido há dois anos: fotos íntimas de Francine Favoretto numa ménage à trois foram desviadas do Orkut para a World Wild Web – se o povão se exalta com saia curta, imaginem com uma destas. Francine tinha 20 anos, estudava Direito e teve da parte dos coleguinhas de Universidade o mesmo tipo de linchamento público.

Se Francine fosse um homem entre duas mulheres teria sido aclamado como herói.

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