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→ 28/04/2012 @0:18

Senhoras e senhores, um planeta habitável

Um hipotético pôr do Sol visto a partir da super-Terra Gliese 667 cC. A estrela mais brilhante do céu é a anã vermelha Gliese 667 C, que faz parte dum sistema estelar triplo (Crédito: ESO/L. Calçada)

 

Tu que gostas de extraterrestres, fixa este nome: Gliese 667 Cc.

Há muito que é um dos «suspeitos» de pertencer ao ainda restrito clube dos planetas teoricamente capazes de sustentar vida, mas desta vez o anúncio dos astrónomos é mais peremptório: esta super-Terra – sugerem novos dados recolhidos por cientistas das universidades de Gottingen e da Califórnia – não só está dentro da chamada zona habitável (isso já se sabia) como se encontra «não nos limites, mas mesmo no meio». A frase é de Steven Vogt, um astrónomo da Universidade da Califórnia e conhecido caçador de planetas.

Um chef de cozinha diria que o planeta Gliese 667 Cc está mesmo au point: nem demasiado perto (a água evaporaria) nem demasiado longe (congelaria). Só nos falta «provar» a mistela e confirmar se tem o «sabor» que promete. Mas cheira bem!

Esta Terra em potência orbita a Gliese 667 C. Este é o nome de uma estrela anã vermelha, classe M, muito vulgar no Universo, com 31% da massa do Sol e 0,3% da luminosidade. A Gliese 667 C pertence a um sistema estelar triplo e encontra-se a 22 anos-luz da Terra na direção da constelação do Escorpião.

À escala cósmica, é como se vivesse num apartamento situado no mesmo andar que nós.

O planeta recebe a mesma quantidade de energia que a nossa Terra do Sol, pelo que é perfeitamente lógico supor que as temperaturas devem ser igualmente amenas. Gliese 667 C está a pouco mais de 12 por cento da distância a que a Terra se encontra da nossa estrela – o que é excelente, uma vez que se trata de uma estrela anã vermelha, muito mais pequena e ténue. Sendo assim, garante Vogt, as condições à superfície permitem a existência de água em estado líquido.

Não podemos ter a certeza quanto à existência de vida, mas se um dia tivermos tecnologia para enviar uma nave espacial numa viagem de 22 anos-luz, então será este o planeta de destino.

Mesmo que não consigamos descobrir vida nos próximos anos, o simples facto de existir um planeta rochoso num sistema triplo (uma anã vermelha, duas laranjas) pobre em metais poderá obrigar-nos a rever o que sabemos atualmente sobre os processos de formação planetária.

E se tivermos em conta que a maioria das estrelas no Universo são deste tipo (anãs vermelhas, classe M) quantos mundos rochosos se poderão ter formado onde nunca esperaríamos encontrá-los?

Estamos cada vez mais próximos de conseguir a descoberta do século – é ainda uma grande fezada, mas custa-me acreditar num Universo onde a vida seja apenas um milagre irrepetível.

É costume dizer-se que encontrar um planeta nestas condições é o Santo Graal dos astrobiólogos. Acho que a maioria preferia deixar cair todas as letras e ficar apenas com o G, e referir-se à descoberta de um exoplaneta habitável como o ponto G da astrobiologia. É menos medieval, mais sexy e inspirador, e igualmente difícil de encontrar.

→ 03/04/2012 @23:53

4 grandes descobertas da Missão Kepler

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Através do Manel Rosa Martins, conheci um vídeo – este aqui em cima – que compila clips referentes aos quatro sucessos mais relevantes da missão Kepler registados desde o ano passado: a descoberta dos planetas Kepler 10-b, 16-b, 20-e e 20-f, e 22-b.

 

Os planetas do vídeo

O Kepler 10-b – cuja existência foi anunciada ao mundo a 10 de Janeiro de 2011 – foi o primeiro planeta rochoso a ser descoberto. Encontra-se a cerca de 560 anos-luz. Tem 1,4 vezes o tamanho da Terra, mas está 20 vezes mais perto da sua estrela (Kepler-10, semelhante à nossa), do que Mercúrio do Sol. É um corpo muito quente: mais de 1300 graus Celsius à superfície.

Elementos da missão Kepler batizaram-no de «Vulcano», o nome do planeta-natal de Spock, da série de FC Star Trek. Nem Spock sobreviveria naquele forno…

 

A descoberta de Kepler 16-b, a 15 de Setembro do ano passado, foi uma das mais faladas na imprensa por ter sido a primeira vez que a missão Kepler identificou um planeta orbitando um sistema solar de dois sóis, como Tatoine, planeta-natal de Anakin Skywalker, o futuro Darth Vader de Star Wars.

Kepler 16b está a 200 anos-luz de distância. Ao contrário do planeta fictício Tatooine, não é um mundo deserto mas um gigante gasoso com o mesmo tamanho de Saturno.

Os astrónomos consideram como muito provável a existência de planetas rochosos naquele sistema e mesmo luas do tipo Europa ou Titã deslizando à volta deste Tatooine gasoso, mas ainda não foi possível detetá-los ali.

 

Um «alinhamento» planetário: da esquerda para a direita, Kepler 20-e, Vénus, Terra e Kepler 20-f

O Kepler 20-e ganhou fama porque, até então, nunca havia sido descoberto um planeta rochoso menor do que a Terra orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Este é demasiado quente para sustentar água em estado líquido, condição que consideramos essencial para a existência de vida.

O planeta 20-f é outra descoberta extraordinária: um planeta também muito quente – mais de 400 graus Celsius à superfície – mas pouco maior do que a Terra.

 

O Kepler 22-b, a 600 anos-luz, é a cereja no topo deste bolo: pela primeira vez na história da Humanidade, descobrimos um exoplaneta orbitando uma estrela na chamada «zona habitável».

Julgou-se que o planeta – 2,4 vezes maior do que o nosso – pudesse conter um oceano e, nesse oceano, a «vida extraterrestre» que tanto desejamos descobrir.

Tudo o que se possa afirmar é especulativo: ainda não fomos capazes de determinar a sua massa; não sabemos ainda se é planeta rochoso, líquido ou gasoso; tanto pode existir nele o tal oceano como vir a ser um super-Vénus, tão infernal como o original.

 

À beira-mar

Eu acredito na existência de vida extraterrestre – claro que o Universo poderá um dia desmentir a minha crença, mas até lá escolho acreditar.

O grande Carl Sagan iniciou a sua mítica série «Cosmos» com uma analogia entre o oceano e o Universo – mar tão imenso, misterioso e inexplorado para os primeiros navegadores como o é este «oceano cósmico» para os seus equivalentes da era moderna, os astrónomos.

Lembro-me sempre dessa analogia quando vejo os miúdos na praia, à beira-mar, explorando o mar e enchendo os seus baldes de água salgada.

É isso que somos, ainda: putos a encher baldes de «água salgada» à beira do «oceano cósmico» de que falou Sagan. Dificilmente encontraremos «peixes» nesses baldes tão pequenos e de curto alcance, mas é muito possível que eles possam existir, lá longe, para além da linha do horizonte ou até no próprio balde, para além das nossas capacidades de observação.

→ 28/03/2012 @23:23

Cosmos, rugidos e silêncios

O vídeo: de acordo com as instruções fornecidas pelo utilizador que o colocou no YouTube, devemos colocar o som das colunas quase no máximo e certificarmo-nos de que aquelas têm woofers suficientemente bons para aguentar a potência sonora dos motores que lançam o vaivém para fora da atmosfera terrestre.

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Quanto melhor for o sistema de som, mais poderosa a experiência. A ideia de colocar este vídeo, prossegue o utilizador, foi a de «compensar» os que nunca puderam deslocar-se a Cape Canaveral, na Florida, e assistir ao vivo a um destes lançamentos.

Subam o som, se puderem, e oiçam. Impressionante, não acham?

 

Mas vejam agora esta foto, tão maravilhosa para cientistas como para poetas.

Esta é uma imagem já bem conhecida de todos os amantes de Astronomia, captada em infravermelhos pelo telescópio espacial Spitzer, as lentes apontadas mesmo ao coração da nossa galáxia, a Via Láctea.

O que observam encontra-se a 26 mil anos-luz e é por isso – só por isso – que subitamente o monumental rugido dos motores principais do vaivém parece agora tão insignificante perante a imensidão de todo este silêncio.

O Universo é silencioso porque o som não se propaga no vácuo e é silencioso por nos esconder ainda tantos mistérios… Mas comunica de muitas formas, muitas das quais invisíveis ao limitado olhar terrestre.

E é por termos instrumentos cada vez mais sofisticados para descodificar o significado das mensagens que o Universo nos envia que um grupo de cientistas da Universidade Grenoble, em França, pôde partilhar uma conclusão que até há poucas décadas seria impensável de obter: milhares de planetas potencialmente habitáveis devem existir na nossa galáxia.

 

100 estrelas anãs, 40 Super-Terras

Observem a foto outra vez. Haverá algum ser inteligente extraterrestre (para conveniência do post e da fraca imaginação do autor, não vamos caracterizá-lo radicalmente diferente de nós) observando uma foto semelhante à nossa, uma esplendorosa imagem do braço da galáxia por onde andamos?

Caso exista e for ingénuo como nós, que problemas poderá esperar que os misteriosos extraterrestres do terceiro planeta a contar do Sol tenham resolvido? Será o Universo um gigantesco «espelho» onde pudemos observar o que fomos ou o que poderemos vir a ser como espécie?

Do que temos quase a certeza, a julgar pelos resultados obtidos pelos investigadores, é que ao número considerável de estrelas anãs na nossa galáxia – 160 milhares de milhões, conta o estudo agora divulgado – deverão corresponder milhões de planetas «potencialmente habitáveis». Uma centena desses planetas – chamamos-lhe «Super-Terras», por serem rochosos e massivos – estará a menos de 30 anos-luz do nosso planeta. À escala cósmica, é malta vizinha.

Os cientistas chegaram a esta conclusão devido à premissa segundo a qual pelo menos 40 por cento das estrelas anãs possuem um planeta rochoso semelhante à Terra a orbitar na chamada «zona habitável».

Mas é preciso ter atenção a estas notícias e à forma como rapidamente os media associam conclusões baseadas em premissas à existência de vida extraterrestre e, pior ainda, a homenzinhos verdes em naves espaciais: quando um cientista diz «potencialmente habitável» refere-se a duas perspetivas diferentes: primeiro, pode ser habitável de acordo com as únicas condições que conhecemos para a existência de vida, ou seja, as condições terrestres; segundo, pouco sabemos de planetas terrestres na galáxia (muito menos ET’s) mas, tal como vós, leigos, adorávamos saber.

E é então que a poderosa e inspiradora muralha de sons à Stockhausen sugerida pelos motores do vídeo me deixa a pensar o que poderá acontecer quando, num futuro longínquo, a nossa engenharia desvendar os mistérios deste silêncio cósmico e pudermos espreitar para o outro lado do espelho…

→ 23/02/2012 @18:45

Ding Dong, Ding Dong


(Obrigado, Sérgio Paulino)

→ 31/01/2012 @0:26

Deslumbrantes caminhos da Estrada de Santiago

O sítio Space.com publica hoje 43 imagens deslumbrantes da nossa Via Láctea.

Crédito: ESO/José Francisco Salgado

Crédito: ESO/Z. Bardon/ProjectSoft

 

Leite derramado no céu

Zeus e Hera

Há muito tempo que o Homem notara este trilho luminoso nos céus. Os gregos chamaram-lhe kyklos galaktikos, círculo leitoso.

Nesses tempos longínquos, a nossa galáxia ainda não era um aglomerado com 100 mil anos-luz de diâmetro e milhares de milhões de estrelas, mas o leite derramado do peito da deusa Hera.

Zeus concebera o pequeno Hércules com uma mortal e colocara-o junto ao peito de Hera, a sua mulher, para que a criança bebesse do leite divino e se tornasse imortal. Notando que amamentava um desconhecido, Hera empurrou o bebé, enfurecida, o leite jorrou do seu peito e cobriu os céus.

Influenciados pelos gregos, os romanos chamaram-lhe Via Lactea, caminho de leite, equivalente à palavra grega gala, que também significa leite.

 

Pegadas na estrada

O Cristianismo tratou de afastar estas visões pagãs – e é por isso que em Portugal, por exemplo, a Via Láctea é também conhecida como Estrada de Santiago, reminiscência do Caminho de Santiago, alegoria da peregrinação cristã iniciada ainda com os primeiros apóstolos.

A Via Láctea era um caminho que alimentava os nossos sonhos e visões, e nos colocava em diálogo com o divino.

Antes da chegada do Cristianismo, os discípulos de Pitágoras, filósofo e matemático grego, tinham-na visto como um aglomerado de fogos; estes fogos eram as pegadas que o Sol ia deixando pelo caminho.

Só em 1610 a Humanidade começou a ter uma ideia o que era esse leite derramado de Hera, quando Galileu observou um grande número de estrelas de fraco brilho, muito próximas umas das outras. A Natureza ainda mal começara a mostrar-nos a verdadeira dimensão das suas pegadas.

A meio do século XVIII, o filósofo Thomas Wright teve a ideia de sugerir que todas as estrelas que observamos no céu, incluindo as da Via Láctea, faziam parte de um gigantesco conjunto estelar onde também se encontrava o Sol.

Com o trabalho sistemático de observação do William Herschel – um astrónomo que antes de estudar Astronomia e Matemática ganhava a vida como músico e organista – ficámos mais perto de uma descrição correta da Via Láctea.

Herschel notou que o número de estrelas aumentava progressivamente nas áreas mais próximas do caminho de leite, sendo muito mais raras nas mais afastadas. Concluiu que todas as estrelas que observava faziam parte de um gigantesco sistema estelar ao qual, mais tarde, haveríamos de chamar galáxia.

Crédito: Stephane Guisard

E aqui estamos nós, tantas centenas e milhares de anos depois, com as nossas máquinas fotográficas e telescópios captando o leite derramado de Hera, mortais fascinados e vorazes de conhecimento, bebés gatinhando pelo Espaço.

→ 26/01/2012 @15:09

A mais incrível foto em alta definição da Terra

A NASA afirma ser «a mais incrível imagem de alta definição do planeta Terra» e não é difícil de acreditar, sobretudo se abrirem a versão de 8000 por 8000 pixeis que a agência disponibiliza neste link (a imagem é muito pesada – 16,4 MB – e demora tempo a carregar).

A foto foi tirada a partir da mais recente sonda de observação terrestre, Suomi NPP, a 4 de janeiro deste ano. A NASA baptizou-a Blue Marble 2012.

Marble significa mármore, se o traduzirmos à letra, mas neste caso o sentido deve ser o nome com que se designa, em língua inglesa, as bolinhas com que muitos de nós jogávamos em miúdos: berlindes! (Por esta ordem de ideias, Júpiter é o abafador). Berlinde Azul 2012.

→ 20/01/2012 @9:09

Ar puro (no cérebro)

Nebulosa Cabeça de Cavalo, de Luca Argalia

A galáxia de Andrómeda fotografada por Makelessnoise

Miramar, Buenos Aires, de Luis Argerich

Os céus do sul: a Via Láctea, a constelação Cruzeiro do Sul, as estrelas Alfa e Beta Centauri, e as duas nebulosas de Magalhães (Foto: Luis Argerich)