Este texto foi originalmente escrito em Junho de 2008 e os que já frequentavam o Bitaites nessa altura devem lembrar-se. Decidi reeditá-lo porque John Lennon foi assassinado há exactamente 30 anos e alguns de vocês talvez não conheçam a história e as circunstâncias extraordinárias em que o crime ocorreu. De então para cá, novos leitores surgiram e por isso justifica-se a repetição em dia de feriado – siga então o post.
Dois ou três cliques na máquina só para testar; depois uma única, definitiva fotografia: está feita uma das imagens mais marcantes da década de 80.
Quando a fotógrafa Annie Leibovitz chega ao apartamento do casal, numa tarde soalheira de 8 de Dezembro de 1980, já tem uma ideia precisa do que deseja fazer: fotografar John Lennon e Yoko Ono abraçados, mas nus.
Dias antes um jornalista da revista Rolling Stone entrevistara Lennon a propósito do recente Double Fantasy, o primeiro disco de originais do ex-Beatle em cinco anos. Este é portanto um dos acontecimentos musicais do ano e ela está ali para fazer a foto de capa.
Leibovitz é já uma fotógrafa consagrada no meio artístico e jornalístico, embora ainda longe do actual reconhecimento popular que lhe valeu, entre outros, um contrato milionário para reproduzir o imaginário Disney recorrendo a nomes famosos do mundo das Artes e do Desporto.
Conhece John e Yoko desde os anos 70. Quando trabalhou com eles pela primeira vez, há dez anos, ainda fazia lembrar, segundo a própria Yoko, «uma adolescente muito tímida». Agora pede-lhes para tirar a roupa.
John Lennon, o rosto rebelde dos Beatles, não tem problemas em despir-se. Em segundos fica pronto. Yoko Ono está relutante em relação à nudez frontal, aceita despir-se apenas da cintura para cima. Leibovitz desaponta-se com a recusa de Yoko e, de rompante, diz-lhe para se deixar ficar como está.
Abraçam-se, ele nu, ela vestida. Dois ou três cliques na máquina só para testar, depois um único clique: está feita a grande foto de capa da Rolling Stone do dia 22 de Janeiro de 1981.

John Lennon e Yoko Ono fotografados por Annie Leibovitz a 8 de Dezembro de 1980
Cinco horas após esta sessão, à saída do apartamento onde abraçou Yoko para a Rolling Stone, Lennon é assassinado por um fã, Mark David Chapman, de 25 anos. Lennon tenta fugir, mas é atingido. Ainda tem forças para subir os seis primeiros degraus da escada da portaria. Cai. O fim aproxima-se. Lennon perde oitenta por cento do sangue e é declarado morto após várias transfusões e tentativas de reanimação no hospital.
Cinco horas antes, o Sol ainda brilha para o autor do hino pacifista mais cantado do mundo, Give Peace a Chance. A sala onde decorre a sessão fotográfica deixa passar uma luz acolhedora sobre os ocupantes. Yoko recordará numa entrevista o ambiente «de confiança» em que a foto foi tirada: «Estávamos os dois confortáveis, inspirados». Leibovitz tem consciência da grande capa que acabou de conseguir, John e Yoko estão satisfeitos porque consideram que a fotografia «retrata fielmente» a relação do casal.
Aos olhares dos que sempre culparam Yoko Ono pela separação dos Beatles, a foto de Leibovitz mostra-a distante e calculista, inexpressivamente deixando-se envolver no abraço apaixonado e infantil de um homem vulnerável.
Por outro lado, o Lennon desta foto poderia ter inspirado o biólogo e escritor Jean Rostand a escrever «Aqueles que falam das alegrias do amor, por certo, nunca amaram. Amar um ser é senti-lo necessário, portanto, sentirmo-nos nós próprios numa incessante precariedade». E naquele beijo a Yoko, «um segredo que se diz na boca e não no ouvido».
Yoko, a cabra calculista que separou Lennon dos Beatles? Tanto tempo depois, a 30 de Setembro de 2004, afirmará à Rolling Stone a propósito desta foto que continua a questionar a cruel injustiça dos deuses: «Por que razão não fui eu avisada de que ele seria afastado de mim tão cedo, sem que tenha tido sequer hipótese de lhe dizer adeus?» Yoko na foto, fria, distante ou em paz? Olhem outra vez. «Amar é saborear nos braços de um ente querido a porção de céu que Deus depôs na carne»: Victor Hugo.
Quando Lennon, Yoko e alguns colaboradores abandonam o apartamento à noite, já depois de Leibovitz se retirar, o músico é abordado por alguns fãs, entre os quais Mark David Chapman. Com um exemplar novinho em folha de Double Fantasy nas mãos, pede-lhe um autógrafo. «Claro», assente Lennon.
Chapman confessará à polícia estar tão nervoso que mal conseguiu articular uma palavra, teve de ser «arrastado» pelos outros para conseguir sequer aproximar-se.

John Lennon dá um autógrafo ao seu assassino, Mark David Chapman
O momento fica registado pela câmara fotográfica de outro anónimo caçador de autógrafos no local: Lennon em primeiro plano, escrevendo «John Lennon, December 1980» no disco, Chapman mais atrás, sinistro, expectante.
As duas últimas fotografias que se conhecem de John Lennon foram tiradas com a mulher da sua vida e o homem que o matou.
John Lennon está bem-disposto naquela noite. Depois de devolver o disco, pergunta, solícito, «É só isso que queres?». Yoko já está no carro, à espera. «Sim, obrigado, é isso», consegue responder. Lennon despede-se, vira costas e entra no carro. Chapman fica especado na rua, o álbum na mão e a pistola de calibre 38 escondida no bolso.
Ao fotógrafo amador que o fotografou com o ídolo, oferece 50 dólares por uma cópia se a entregar no dia seguinte. Não o mata nesta ocasião porque se sentiu «tocado» pela sua «sinceridade. Mas uma parte de mim perguntava ‘Não disparou porquê?’. E eu respondia, Não podia matá-lo assim, queria primeiro o seu autógrafo.» Todos se retiram – apenas Chapman se deixa ficar. Secretamente, confessou à polícia, reza a Deus para o impedir e ao Diabo para lhe dar nova oportunidade.
Finalmente, às dez para as onze, John e Yoko regressam ao apartamento. A oportunidade é concedida e as vozes diabólicas na sua cabeça regozijam. «Ele passou por mim outra vez e foi então que as ouvi outra vez, vezes sem conta, sempre a dizer ‘fá-lo, fá-lo, fá-lo’».
«Senhor Lennon!» – grita, sacando da pistola. Ao aperceber-se do perigo, o músico vira costas e tenta fugir. Chapman dispara cinco tiros. Quatro acertam o alvo. Ouve ainda as últimas palavras de Lennon – «I’m shot!» -, observa-o a subir as escadas e finalmente cair inanimado. Deita fora a arma, deixa-se ficar por ali, tirando do bolso um livro pelo qual está obcecado, The Catcher in the Rye, do americano J. D. Salinger, e tenta ler umas páginas. Quando os polícias chegam ao local do crime, entrega-se de forma voluntária: «Peço-vos desculpa pelo incómodo que causei.»
A 14 de Dezembro, uma multidão estimada em cerca de 100 mil pessoas reúne-se em Nova Iorque para uma derradeira homenagem ao ex-Beatle e activista da Paz. Um dos participantes na vigília nova-iorquina, John Hinckley, está devastado pelos acontecimentos. Em Janeiro, grava uma cassete: «Só quero dizer adeus ao velho ano, que não foi nada a não ser a mais total das misérias, a morte total. John Lennon está morto, o mundo acabou, esqueçam.»
«Qualquer coisa que eu possa fazer em 1981», conclui, «será apenas em função da Jodie Foster. Digam ao mundo o quanto eu a adoro e idolatro».
Três meses depois, a 30 de Março, John Hinckley tornar-se-á mundialmente conhecido pela tentativa de assassinato do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Antes de rumar a Washington para matar Reagan, escreve mais uma carta à actriz Jodie Foster: «Nos últimos sete meses mandei-te dúzias de poemas, cartas e mensagens de amor na esperança de que pudesses desenvolver algum interesse por mim. Embora tenhamos falado ao telefone, nunca tive coragem de simplesmente apresentar-me em pessoa. (…) A razão pela qual vou à frente com esta tentativa agora é porque não posso esperar mais pela oportunidade de te impressionar.»

Jodie Foster: «Demasiado bonita para matar»
Jodie Foster tinha feito o papel de uma prostituta de 12 anos no filme de Martin Scorcese, Taxi Driver. O filme conta a história de um solitário taxista da noite, Travis Bickle, interpretado por Robert de Niro. Travis, anti-social e dominado por insónias e ressentimentos, vai tomando contacto com o lixo e a miséria das noites nova-iorquinas. Depois de falhar o plano de assassinar um candidato à presidência dos Estados Unidos, resolve «libertar» a personagem de Jodie Foster das garras do chulo. Armado até aos dentes, mata o chulo e todos os clientes que lhe aparecem à frente. Num volte-face da história, porém, Travis é visto como um herói por ter «salvo» a vida da jovem.
Apesar da crítica positiva que recebeu pelo seu desempenho, a jovem actriz de 18 anos optou por continuar os estudos na Universidade de Yale. O esquizofrénico Hinckley desenvolveu uma obsessão pelo filme (viu-o dezenas de vezes) e identificava-se a tal ponto com o personagem de Robert de Niro que tinha planos de também «libertar» Jodie Foster do jugo universitário. Finalmente, perante as sucessivas recusas de Foster em falar com ele mesmo por telefone, resolveu impressioná-la disparando sobre Reagan.
Jodie Foster nunca falou do assunto publicamente, em 1981 ou depois. Bastava que um jornalista mencionasse o nome de Hinckley para ela abandonar a entrevista. Falou apenas uma vez na qualidade de testemunha no julgamento de Hinckley. Contou o assédio de que fora vítima e afirmou ao juiz que nunca tivera qualquer tipo de relação com o arguido.
Os crimes cometidos e o depoimento dos pais embaraçados e desgostosos não foram suficientes para perturbar Hinckley no tribunal. A rejeição categórica de Jodie Foster, contudo, deixou-o descontrolado. Lançou-lhe uma caneta à cara e gritou «Hei-de apanhar-te, Foster». Hinckley foi considerado inimputável.
Jodie Foster pagou caro esta exposição: durante uma actuação numa peça de teatro da Universidade de Yale, notou a presença de um homem de barba e de olhar bizarro, inexpressivo. Soube mais tarde pela polícia que esse homem aparecera com a intenção de a assassinar. À última hora, porém, mudou de ideias: «É demasiado bonita para ser morta», afirmou.
Mais sobre o destino de John Hinckley Uma extensa reportagem sobre a vida de Hinckley, a sua obsessão por Taxi Driver e pela actriz Jodie Foster, as circunstâncias em que planeou o assassinato de Reagan, a relação com os pais. Escrito em inglês. Link
O homem que matou John Lennon Sobre a mente psicótica de Chapman, a história da sua vida, o livro The Catcher in the Rye com cuja personagem principal se identificava, aconselho-vos a ler o artigo Mark David Chapman, the man who killed John Lennon, baseado nas duas entrevistas áudio que o assassino concedeu na prisão. Link






























7 comentários
Boas tardes:
Son galego, así que o meu portugués e moi malo. Encantoume o post e tenho claro que agora visitarei este blogue amiudo.
Unha aperta!
Obrigado @Dawidh
Desconhecia o envolvimento de Foster nos acontecimentos de Reagan.Interessante!
bom post
Bem, estou a ver que o Bitaites tem mais do que um espanhol (Basco) a ler este espaço fantástico
Li este post na altura que foi publicado e hoje li-o novamente, com um novo e renovado interesse. E do alto da minha antiguidade, afinal sou teu leitor assíduo desde o início, ainda do tempo do planet geek ( o Google Reader diz-me que li 98% dos posts – fdx onde estão esses 2%?), acho que posso dizer certas coisas
Não sou um fã musical de Lennon, longe disso, mas reconheço que era um homem fantástico. Possivelmente uma das personalidades mais influentes da forma social de nos relacionarmos do último século e ícone de uma geração. Mas este post tem mais, muito mais do que uma éfeméride e acho que fizeste muito bem em o publicar novamente.
Marco, ainda bem que o Bitaites retomou a actividade normal.
Dawith, benvido ao mellor blog do mundo
Marco, a legenda da foto de Annie Leibovitz data-a de 1981. Conforme descreves no texto, Lennon morreu em 1980. Pequena a gralha, grande o post. Abraço!
Sérgio, que seria deste blogue sem os seus leitores tão atentos? Uma bela colecção de gralhas!
Acho que estou a ficar velho, amigo…
Obrigado!
Sempre tive curiosidade pela história do John Lennon, que morreu no meu dia de anos, mas desconhecia a história da Jodie Foster… Muito interessante!