→ 28/07/2007 @15:31

A Vida Receia a Solidão Cósmica

O Bitaites encontra-se de férias. Em vez de um período de inactividade sem actualizações, decidi recuperar alguns textos que os novos visitantes provavelmente não conhecem. Ao mesmo tempo vou colocando novos posts – embora sem a frequência habitual. O resto, meus amigos, é piscina e banhos de Sol numa posição mais ou menos semelhante à do macaco no post seguinte.

Nota final para quem está no Planet Geek: este post tem quatro páginas, mas os feeds só mostram a primeira. Ler um blogue num blogue ainda tem as suas vantagens…

L’étoile souffrante, de Al Magnus


Thomas MannA solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito. Thomas Mann

A Ciência também procura Extraterrestres – os astrónomos fazem-no movidos pelo mesmo tipo de convicções de quem acredita em OVNIs: a de que não estamos sós no Universo.
Outra característica comum entre os homens da Ciência e os adoradores de OVNIs é que tanto uns como outros não sabem rigorosamente nada sobre o assunto. Nunca se descobriu uma única prova inequívoca e consensual da existência de qualquer tipo de vida fora do nosso planeta – muito menos inteligente.
Mas a esperança é um homenzinho verde a dizer-nos olá. E se calhar nem precisamos de tanto. Basta-nos um pedaço de rocha do tamanho de uma laranja que possa ter uma história fantástica para nos contar. Em 1996 tivemos quase a certeza absoluta de que tínhamos encontrado uma dessas rochas.
Tudo começou quando um meteorito marciano foi descoberto na região montanhosa de Alan Hills, na Antártida, no Verão de 1984, por um grupo de caçadores de meteoritos.


Robert A. Haag

Os meteoritos são um negócio. Os preços dos mais comuns (de ferro) variam entre 0,50 a dois dólares por grama. Os pétreos, raros, são vendidos entre dois e 10 dólares por grama. Existem 40 empresas a explorar o comércio de meteoritos. A mais lucrativa é dirigida por Robert A. Haag, «o homem-meteorito», dono da maior colecção particular de rochas extraterrestres do mundo – já lucrou mais de um milhão de dólares. Tem 3500 clientes. Um empresário japonês pagou-lhe 532 mil euros por uma pequena selecção de meteoritos.


Não tivemos grandes dificuldades em demonstrar que o meteorito veio de Marte porque contém vestígios de gases coincidentes com aquilo que conhecemos da atmosfera marciana – e conhecemo-la muito bem desde 1976, quando a sonda da Missão Viking desceu à superfície de Marte e analisou a composição atmosférica do planeta. Resultados: dióxido de carbono (95 por cento), azoto/nitrogénio (três por cento), árgon (1,6 por cento) e vestígios de oxigénio e vapor de água.
Pensa-se que o meteorito foi arrancado de Marte há 16 ou 17 milhões de anos. Depois vagueou pelo Espaço até cair na Terra há cerca de 13 mil anos.
Não só sabemos que veio de Marte como também de que local específico. Vicky Hamilton, do Instituto de Geofísica e Planetologia da Universidade do Hawaii, identificou a origem da rocha: Eos Chasma, um dos desfiladeiros do gigantesco Valles Marineris. Tal identificação tornou-se possível depois de a cientista ter comparado os dados da espectrometria do meteorito e os resultados de vários instrumentos das sondas Mars Global Surveyor e Mars Odyssey.
A descoberta foi anunciada em Setembro do ano passado, durante um encontro da Meteoritical Society, no Tennessee, Estados Unidos.

O GRANDE CANYON MARCIANO Valles Marineris é formado por um gigantesco sistema de vales entrecruzados e profundos. Encontra-se junto à faixa do equador de Marte a leste da zona Tharsis. É o maior sistema de desfiladeiros do Sistema Solar: tem mais de 4000 quilómetros de extensão. Nalgumas zonas a profundidade atinge os 7 quilómetros. A sua área cobre um quinto da área total do globo de Marte.


Quando cientistas da NASA e da Universidade de Stanford analisaram o meteorito – nome de baptismo: ALH84001 – , chegaram à extraordinária conclusão de que a rocha continha fósseis de microrganismos.
O que encontraram os cientistas na rocha marciana? Encontraram Hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), aglomerados suspeitos de glóbulos minerais e estruturas que pareciam fósseis de bactérias. Primeira evidência: os PAHs são uma família de moléculas muitas vezes encontradas em meteoritos no espaço. Isto não significa que a sua origem seja biológica, mas acontece que quando um microrganismo morre também se dá a formação deste tipo de moléculas. Como a mistura deste tipo de hidrocarbonetos encontrado no ALH84001 era muito diferente da que se encontra em meteoritos no espaço, os cientistas sugeriram uma origem biológica.
Segunda evidência: a presença de pequenos glóbulos minerais – alguns deles com núcleos contendo manganésio e ferro. Estes aglomerados minerais são parecidos com os causados pelas bactérias primitivas na Terra.
Terceira evidência: a observação com microscópio electrónico mostrou pequenas estruturas que pareciam ser fósseis de bactérias – mas muito mais pequenas do que as bactérias terrestres.
O anúncio da descoberta foi feito a 6 de Agosto de 1996. David McKay, chefe da equipa de investigação, lançou de imediato um desafio aos cépticos: «Estou convencido de que encontrámos no meteorito sinais de actividade biológica primitiva em Marte. Provem que estamos errados.»

As estruturas suspeitas do meteorito ALH84001

Muitos cientistas rejeitaram as conclusões de David McKay. Para além da possibilidade de o meteorito ter sido contaminado na Terra, alguns defenderam que processos estritamente inorgânicos seriam suficientes para explicar a presença das moléculas orgânicas detectadas na rocha. A pequena dimensão desses fósseis também tinha um contra: sendo 1000 vezes menores que a menor bactéria conhecida, pertenceriam a organismos demasiado pequenos para constituir seres viáveis.
Prova inequívoca e consensual da existência de vida extraterrestre? Continua a não existir. Um meteorito de 17 milhões de anos não é suficiente. A célebre frase «Afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias», atribuída a Carl Sagan, mantém-se válida. Teremos de procurar noutro lado.
Foi uma pena. Só precisávamos disso: um mísero microrganismo. Um fóssil. Um pequeno detalhe que nos dissesse que a vida pode acontecer em qualquer lado.

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3 comentários

  • 1
    com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP
    30 de Julho de 2007 - 01:51 | Link permamente

    excelente! só isso…

  • 2
    com BonEcho 2.0.0.6pre BonEcho 2.0.0.6pre em Windows XP Windows XP
    30 de Julho de 2007 - 02:30 | Link permamente

    Hélder, muito obrigado.

  • 3
    com Firefox 2.0.0.5 Firefox 2.0.0.5 em Windows XP Windows XP
    30 de Julho de 2007 - 16:42 | Link permamente

    Se puderes escreve mais sobre este tema, adorei!