4/Janeiro/2010

Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates

O que escrevi em Junho de 2008 continua a ser a minha opinião, quase dois anos depois. O acordo ortográfico não me causa taquicardia literária. Mais tarde ou mais cedo, acabarei por adaptar-me à nova grafia e escrever exactamente como tenho escrito até hoje. Também não me sentirei menos português por causa disso.

Chateia-me ouvir portugueses dizer que estão contra o acordo ortográfico porque não querem escrever como os brasileiros. Eu ficava mais descansado se essas tomadas de posição fossem em defesa da língua portuguesa bem escrita, com ou sem acordo. E acho notável que se fale de uma revisão ortográfica como se esta implicasse uma mudança na estrutura do nosso idioma.

Sempre me ensinaram na escola que ortografia é uma coisa, gramática é outra. Talvez um professor de Português tenha a amabilidade de explicar ao pessoal qual delas é mais importante para a consistência da nossa língua, a ortografia ou a gramática.

Estejam descansados: mesmo depois desse detestável acordo ortográfico entrar em vigor à séria, uma portuguesa continuará a ter um cu e uma brasileira uma bunda.

Mas a propósito de não querer escrever como os brasileiros, experimentem dizer bunda e cu em voz alta e depois digam-me lá qual das palavras vos parece mais rechonchuda. Cu têm as mães de Bragança. E quem tem cu tem medo. Medo de mudar.

Vivemos demasiados anos sob uma ditadura que incentivava a ignorância. Fizeram-nos uma lavagem ao cérebro de tal maneira que continuamos a sentir o «orgulhosamente sós» do Salazar como a manifestação de um sentimento patriótico – o que essa expressão realmente revela é estupidez e uma mentalidade bota-de-elástico. Desejo que o meu país acompanhe a evolução dos tempos, não o quero ver refugiado numa redoma linguística à conta do orgulho. E digam-me, qual orgulho? O orgulho de ser um país prestador de serviços em vez de ser um país produtor?

Há outro pormenor que escapará a algumas pessoas: desde a Revolução de Abril que deixámos de ser donos da Razão e, por conseguinte, desculpem-me os detractores do acordo, é uma enorme pretensão da nossa parte afirmar que ocupamos o incontestável trono da língua portuguesa quando não somos a única nação a escrevê-la e falá-la. Soberba Universalidade! Se pensássemos sempre desta forma, ainda estaríamos todos a pedir dinheiro emprestado em Latim. Este não mudou, realmente, e se calhar é por isso que se diz que é uma língua morta.

Portanto a questão aqui é deixar de nos vermos como os reis da moralidade linguística e aceitar que a nossa maravilhosa língua está viva e é para partilhar, não para se deixar segregar neste pequeno rectângulo.

Por último, essa história do facto que passa a fato é a maior treta de todas. Em primeiro lugar, porque o «c» só cai quando é mudo – não é o nosso caso, pois dizemos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pessoal falar em «vestir factos» julga que foi este acordo ortográfico a introduzir na nossa língua as palavras homónimas, ou seja, palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significados diferentes.

Que vamos fazer então ao rio, que tanto pode ser verbo como nome comum? Vamos drená-lo? O rio atravessa a cidade, eu rio com facilidade. Não causa estranheza porque já estamos habituados, não é? E que vamos fazer nós ao ser, valha-nos Deus? Vocês são gajos porreiros, mas aquele ali não é um indivíduo são da cabeça. E a pobre rapariga que se chamar São? Já devia ter mudado de nome! E os nossos pobres santinhos? Isto é um escândalo!

86 respostas | Acordo ortográfico: contra fatos não há alfaiates
  1. Miguel fez-se à net com Firefox 3.5.6 Firefox 3.5.6 em Windows Vista Windows Vista

    É engraçado sempre que se fala no acordo ortográfico falarem (as pessoas em geral, não o Marco em particular) da palavra «facto», quando esta por acaso é daquelas com vogais mais ou menos mudas que vai ter grafia dupla, e por isso «facto» vai ser tão válido com «fato»…
    Mas acho ainda mais piada àquelas pessoas (e neste grupo o Marco já não está incluído) que dizem que o acordo é mau, porque a língua «não se faz por decreto», estas dão-me mesmo vontade de rir, porque revelam a vontade que as pessoas têm de dizer de tudo e de todos mesmo quando não percebem peva do assunto e dizem bacoradas deste nível que de tanto serem repetidas quem não sabe fica a pensar que é verdade. É que se há língua criada por decreto é o Português, chamou-se assim e tornou-se língua oficial do Reino por decreto de D. Dinis, D. José fez outro decreto para a tornar muito mais distinta do Castelhano e em 1911 lá tivemos outro decreto que a modernizou e a trouxe para o século XX, e houve mais ainda uma tentativa de acordo com o Brasil algures durante o Estado Novo, tendo-se acabado mesmo assim por decretar mais algumas mudanças na língua. Mas não, o português feito por decreto?! Nunca na vida, o português foi feito por todos aqueles que dão erros a torto e a direito (com acordo ou sem ele) enquanto dizem mal do acordo porque é um acto colonial do Brasil… (mais uma vez digo que o Marco não está incluído neste grupo)

  2. Miguel fez-se à net com Firefox 3.5.6 Firefox 3.5.6 em Windows Vista Windows Vista

    Ali em cima onde diz «têm de dizer de tudo» era «têm de dizer MAL de tudo».

  3. nuno pinheiro fez-se à net com Konqueror 4.3 Konqueror 4.3 em GNU/Linux GNU/Linux

    Concosrdo na totalidade

  4. Diogo F fez-se à net com Minefield 3.7a1pre Minefield 3.7a1pre em Windows XP Windows XP

    Ó, caro doutoire MARCO BITAITES, aqui fala um brasileiro.

    Pois digo que sempre é antipático o tal “não quero escrever como brasileiro”, porém que é o melhor que vocês fazem em defesa da própria dignidade e moral.

    O Brasil é, ainda hoje, e apesar de todas as qualidades que me fazem amá-lo, um país de analfabetos e que caminha para pior. Botou-se todo mundo dentro da escola, mas não há um professor que preste. Estamos apostando veramente que multiplicar 0,1 por 0,1 vai dar 2. É puro desperdício de recursos materiais e humanos.

    O resultado é que com a nossa avassaladora superioridade numérica vamos acabar piorando o seu idioma se vocês não resistirem.

    Grande abraço.

  5. Olivia fez-se à net com Google Chrome 4.0.266.0 Google Chrome 4.0.266.0 em GNU/Linux GNU/Linux

    mui bom. tem brasileiro resmungando que ideia não tem mais acento e caiu o trema etc. quando disse pra minha mãe que tinha caído o trema, a reação dela foi: ué, já tinha caído quando eu tinha 8 anos de idade!

    poft.

  6. João Pinto Costa fez-se à net com Firefox 3.0.16 Firefox 3.0.16 em Windows Vista Windows Vista

    Parabéns pela genialidade do titulo!!!!

  7. dani fez-se à net com Firefox 3.5.6 Firefox 3.5.6 em Windows Vista Windows Vista

    por isso e que o mais usual e dizer rabo, e nao cu.

    eu continuo orgulhosamente a dizer pacote.

  8. José Rosa fez-se à net com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP

    Caros,

    O que mais me preocupa com a recente reforma ortográfica não é a questão de o povo de Portugal ter que falar como os brasileiros ou outros detalhes desta natureza. O que me preocupa é o que está por trás desta reforma, assim como das anteriores, como posso deduzir: a questão financeira.
    A este propósito, faz quase um ano que fiz um post no meu blog, o ZEducando, sobre este tema: http://joserosafilho.wordpress.com/2009/01/21/reforma-ortogrfica/

    um abraço.

  9. Edgard Costa fez-se à net com Firefox 3.5.6 Firefox 3.5.6 em Fedora 12 Fedora 12

    Mas … uma pergunta … O sentido da palavra “acordo” continua a ser o mesmo? Se é, por que há alguns que acordam as coisas e não as cumprem? É a única coisa que acho estranho no “acordo”, o resto já conheço bem.

  10. Mª João Nogueira fez-se à net com Firefox 3.5.6 Firefox 3.5.6 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6

    Não percebo porque é que não se adopta o método do inglês e do espanhol, um só idioma, várias grafias válias. Assim, facto e fato (cá e lá) seriam ambos correctos :)