A origem do fado
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Sempre tive uma relação conflituosa com o fado principalmente porque sou português e não gosto. Amália tinha a voz de uma deusa, mas o meu fado são os blues.
A primeira vez que ouvi fado na televisão desliguei o som. Foi uma coisa instintiva. Também é assim com debates sobre futebol ou durante os discursos do Paulo Portas. Mas naquele dia fiquei a observar o fadista silencioso e impressionou-me a forma como abria as goelas e se deixava ficar de boca aberta e olhos fechados como se estivesse cheio de sono. Foi uma revelação.
As pessoas ainda discutem sobre as origens do fado enquanto expressão musical. Uns dizem que o fado vem dos árabes, outros que é importação das modinhas brasileiras.
O fado teve origem no encontro entre irmãos dos dois continentes: o português chegou ao Brasil com uma guitarra na mão e foi descobrir o brasileiro de boca aberta e cheio de sono, deitado ao Sol depois de uma noitada de samba e bunda.
– Que som é esse? – Quis saber o português quando viu o brasuca todo esticado no areal, bocejando.
– Como é…? – Bocejou ainda mais o brasileiro, mal abrindo os olhos.
– Como é, perguntas tu…? Ora! É mesmo assim como estás a fazer. Pois isso tem uma sonoridade tão peculiar, pá! Continua a fazer esse som, ó gajo, que eu acompanho com a minha guitarra.
Não liguem ao que aprenderam nas aulas de História. Não há segredo nem polémica. O fado nasceu da ressaca. O fado é o samba quando boceja.
























Vejo que está a precisar ir ao Brasil para buscar mais informação. O samba quando boceja, não vira fado, mas samba canção, que domina a madrugada, normalmente saudosamente apaixonada pela amada que já foi dormir (as mulheres pelas quais se apaixonam os sambistas dormem cedo e dai o sambista dá lugar ao apaixonado) e, também, pela polícia que manda diminuir o barulho.
O sambista ao Sol, quando a noite, a saudade e a polícia já se foram, não boceja, mas dá um mergulho na praia para acordar e ter forças para ir ao bar mais próximo, acompanhado de seu violão e gritar: “O meu chapa, dá mais uma gelada aí, por favor.” Sempre aparecem umas mulatas, um sujeito com um pandeiro e o samba continua, eternamente.
A modinha é uma música de elite, dos colonizadores, e daí a possível descendência. O samba é do negro africano, escravo, colonizado. E eles só se misturam na cama. Lá as músicas são outras.
E se quer saber se estou habilitado para falar assim sobre os sambistas, veja, e ouça, este podcast que fiz em 2005, sobre os meus tios, irmãos de minha mãe ( http://www.gavezdois.com/modules.php?name=News&file=article&sid=20 ). Eram criaturas da noite e faziam samba canção. Foram muitos famosos no Brasil, nos anos 40/50 do século passado. Vivi toda a minha infância embalado por suas músicas e garanto, não tem nada a ver com fado que, apesar do respeito, também não gosto. Já o samba, e o seu bacejo, eu adoro.
Caro,
sobre fado, permite-me partilhar aqui contigo minha “auscultação” dessa sonoridade tão peculiar portuguesa, a próposito de uma comparação entre portugal e França, o país de outro editor do Cosméticas. Escrevia assim, ainda não fez muito tempo:
Calma, Edgard, este post é uma brincadeira, não é um tratado de sociologia
Estou calmo, Marco. Só quis dar algum conteúdo a um post que encontrei aqui e achei-o injustamente abandonado. É que fico ofegante sempre que falo de música.
E deste conteúdo, como é teu hábito
E cá estamos num mundo dos avessos e, por isso mesmo, no caminho certo: eu, brasileiro, gosto muito de fado; o fado é meu blues. Ainda que goste de ouvir o samba à moda antiga, não posso dizer que sou fã deste. De cá da nossa terra, prefiro a música caipira, as modas de viola; não a clássica, mas a viola caipira, de cinco pares de cordas.
Recomendo-lhes ouvir músicas como esta do Almir Sater (http://www.youtube.com/watch?v=nuwPJMaO-_k), ou “pagodes de viola” como este de Tião Carreiro e Pardinho (http://www.youtube.com/watch?v=X2GuweLKKvE). Ainda há este vídeo, onde pode-se ver melhor o toque (http://www.youtube.com/watch?v=sc_CGpfw_cE).
Viola minha viola!