A recordação do único momento em que dei um grito de independência durante os meus tempos de tropa está associada a um certo senhor alferes, magnífico exemplar do ramo da Cavalaria lusitana.
Verdade seja dita, não dei um grito – foi antes um sussurro, mais pensado até do que falado, temperado com uma fuga fácil do quartel e um sonoro “quero que isto se foda tudo”, dito quando já me encontrava a alguns quilómetros de distância. Podia ter lixado a vida, mas tive uma sorte do caraças.
Não me lembro do nome do alferes em questão, mas recordo-me bem do estilo: improvável mistura entre uma bolinha bem falante tipo Eduardo Prado Coelho e a mentalidade guerreira das melhores criações artísticas de um Schwarzenegger.
O alferes não era um homem fisicamente violento. Ao pé dos cabos chicos que se pavoneavam na parada, passava facilmente por santo. Quando o rancho era regado a vinho Tinto, então, apresentava-se no quartel com um sorriso inchado que fazia lembrar o da Mona Lisa no quadro do Da Vinci. E até lhe ficava bem porque, digo-o sinceramente, era um tipo com alguma cultura.
Os cabos chicos, por outro lado, associavam a Mona Lisa ao acto de alisar a mona de um gajo quando este se portava mal – não era Mona Lisa que lhe chamavam, mas a belinha – uma chapada na testa, nada de especial, apenas o suficiente para obrigar o espírito libertário a regressar ao quartel.
O chico – ou cabo contratado – faz a tropa como o resto da malta mas com uma diferença: quando acaba o período obrigatório, resolve prolongar o contrato em vez de se despedir daquela merda e nunca mais olhar para trás. Portanto gosta mesmo daquilo – não da tropa em si, porque é preguiçoso e está-se nas tintas para os outros, mas da possibilidade que esta lhe dá de decidir, no imediato, o destino de meia-dúzia de desgraçados indefesos.
O primeiro contacto que tive com um chico deveu-se a uma mera divergência de carácter antropológico, logo no primeiro dia de tropa.
O cabo era corpulento e tinha uma pronúncia cerrada do Norte, talvez fosse de Viseu, não sei, talvez fosse pastor de ovelhas na vida civil; talvez a única experiência de lidar com aglomerados de seres vivos tivesse sido adquirida nos anos em que comandou rebanhos de ovelhas e agora, que estava na tropa, sentia-se em casa por poder fazer o mesmo e a ganhar mais dinheiro. Não interessa.
O que me fez impressão foi a total ausência de expressão nos olhos. Porra, já tinha visto pedregulhos mais expressivos. Pedregulhos? Até as próprias ovelhas, que só as vi ainda no National Geographic, tinham um ar mais animado.
Isso fez-me uma confusão do caraças. E quando ele topou que estava a observá-lo e se dirigiu a mim que nem um lobo, fiquei logo acagaçado. “Tá a olhar pra mim porquê, caralho?”
Era uma pergunta retórica. Desviei o olhar, com medo, a coisa passou, mas já sabia que tinha sido fisgado.
Foi então que o chico, para passar o tempo enquanto não recebia ordens, quis saber de onde vinham os maçaricos. “Sou do Estoril”, disse eu quando chegou a minha vez – e afirmei-o com uma pontinha de arrogância. Digamos que a arrogância é a minha forma de contra-atacar a prepotência. Foi o suficiente para levar um murro na peitaça e recuar cinco passos com o impacto: “Do Estoril?” – Repetiu ele. – “Essa merda é só betinhos e surfistas – aqui tás fooooodido!”
Pensei em dizer-lhe que não, ora essa, por favor, morava numa espécie de aldeia gaulesa – rodeada de betinhos e surfistas, sim, mas resistindo sempre e sempre ao invasor. Mas achei melhor ficar calado não fosse ele pensar que “estes romanos são doidos” e dar-me outra vez com um menir nos cornos.
O alferes, como digo, vinha de uma colheita mais fina. Lembro-me, por exemplo, que quando um sargento aproveitava a boleia de um jipe da Polícia do Exército (PE) para visitar uma amiguinha prostituta, usava a expressão: “Vou ali mandar uma queca naquela gaja”, gozando depois a expressão de aprovação dos soldados. Este alferes preferia dizer: “Vou ali beijar uns lábios femininos”, não notando, sequer, os olhares incrédulos da plebe fardada.
Não eram apenas expressões destas que o tornavam um militar excêntrico. Por exemplo, adorava a palavra “dialéctica”. Estava a sempre a usá-la, e nas circunstâncias mais improváveis. Ele só não misturava dialéctica na sopa porque era impossível.
O tipo era tramado. Até quando humilhava os recrutas fazia questão de actuar com estilo. Pensam que levantava a mão contra alguém? Népia. Aproximava-se de um desgraçado qualquer perfilado na parada – um dos muitos putos impecáveis que trabalhavam desde os 14 anos e nunca tinham tido dinheiro para estudar -, avaliava-o cuidadosamente e disparava: “Você é homossexual?”
Devo dizer que há tipos que quando ouvem a palavra “homossexual” reagem como se tivessem pegado por engano numa panela a ferver: dão um pulo para trás e gritam: “Foda-se, não!”
É pior se estás na tropa e desconheces o significado da palavra. Ficas cheio de medo, não sabes o que responder, não queres dizer asneira, depois dizes que sim, resignado, e tornas-te o objecto do sadismo cultural daquele alferes.
Depois de gozar o prato humilhando o suposto homossexual, o alferes escolhia nova vítima e, de voz grave, os olhos brilhando de satisfação pelo que se passaria a seguir, perguntava: “E você, é heterossexual?”
Claro que este rapaz também não conhecia palavras de 25 tostões. Revendo mentalmente a terrível experiência do colega de pelotão, desconfiando de nova armadilha, respondia com a maior convicção possível: “Não, meu alferes!”
Eram assim os dias de pasmaceira sádica do alferes. Mas na noite em que nos interrompeu o primeiro sono para nos atribuir a missão mais improvável do mundo, já eu era um operacional da PE, apresentou-se um bocadinho cansado e desalinhado.
O briefing do alferes consistiu em informar-nos de que uma manifestação de ecologistas tinha sido marcada para a manhã seguinte no campo de tiro de Alcochete. Os ecologistas protestavam contra o aumento do campo, afirmando que iria provocar uma catástrofe ambiental em pequena escala. Nós receberíamos bastões da Polícia de Intervenção – daqueles que, quando batem no ombro do manifestante, se dobram e atingem simultaneamente as costelas para doer ainda mais. A nossa missão: malhar em quem passasse das marcas e tentasse invadir propriedade do Estado.
Fiquei sem saber o que dizer – uma reacção perfeitamente natural quando se está na tropa.
Das duas uma: podia fazer um discurso – pedia a palavra e explicava ao senhor alferes e a todos os demais filhos da puta militaristas que estivessem a ouvir, que urgentes razões filosóficas e culturais me impediam de levantar o bastão contra pessoas com quem me sentia totalmente identificado, de maneira que o senhor alferes fosse levar no cu porque eu não ia a lado nenhum; ou então guardava esse discurso para mim.
Resolvi ficar caladinho no meu canto.
Duvido que o pessoal tenha dormido alguma coisa nessa noite. Mas eu encontrei uma saída – ou, pelo menos, uma forma de respirar ar puro. Notei, para minha surpresa, que me tinha esquecido em casa da chamada farda nº3 (que iria ser usada na missão) e dirigi-me ao posto de controlo do quartel, que tinha entrado em alerta Delta e se encontrava trancado.
O sargento que lá estava de serviço era porreiro e, melhor do que isso, já sabia muito bem o cabeça no ar que eu sou. Ouviu o meu problema sentado na sua cadeira de psiquiatra benevolente, achou a história verosímil, eu reforcei, disse-lhe que morava perto, Estoril, está a ver meu sargento, é só apanhar o comboio, sacar a farda, voltar, duas horas no máximo, porque senão estou tramado – e ele lá me deu ordem de soltura.
Quando cheguei à rua, à medida que me ia afastando do quartel, pensei: “Isto que se foda. Vou baldar-me. Amanhã volto para o quartel como se não fosse nada comigo; chego depois da hora marcada para a partida em direcção a Alcochete, portanto chego atrasado, mas invento uma desculpa qualquer e ainda me safo só com cinco dias de detenção.”
Quando cheguei, nervoso, a transpirar de medo, descobri que os jipes continuavam todos alinhados na parada e que ninguém tinha partido. Subi para a camarata, ofegante, desesperado, pensando que o meu expediente não resultara e que ia mesmo para Alcochete malhar nos bons da fita. Foi então que os meus camaradas de pelotão, louvados sejam, me deram a boa nova: “A manifestação foi desconvocada, pá, e a missão ficou sem efeito!”
Na tropa há dois tipos de crimes: os que compensam e os que ficam sem efeito.
Páginas: 1 2






























8 comentários
Achei uma delícia esta sua crónica e fez-me recordar outros tempos.
Acho este texto um misto de qualquer coisa de hilariante e sarcástico. Extremamente bom.
Pá, eu gosto!
Abraço
Muito bom texto, excelente escrita que tu tens! Não é todos os dias que encontro uma crónica na net que uns dias depois me vem à memória juntamente com o desejo de a reler, parabéns e obrigado.
Está na altura de eu tomar a decisão de passar ou não pela tropa, hoje em dia não é obrigatório, mas é uma possibilidade que não ponho de parte.
Não conheço a tropa de hoje em dia, julgo que o pessoal que para lá vai nos dias de hoje é mais ‘mimado’ e bem tratado do que no teu tempo porque como são voluntários e são poucos, o exército deve aproveita-los um pouco melhor de forma a garantir que algum gado novo por lá decida ficar. Já não existe o luxo da abundância, já não se pode ser selectivo, tem de se trabalhar o que se tem…Ou então não. Se calhar poderás elucidar-me sobre isto.
Não procuro na tropa um futuro, uma carreira. Se for para lá, será porque quero de certa forma distanciar-me do meu passado mais recente, dos problemas que me faz lembrar, dos lugares a que está associado e da pessoa a quem pertence. Quero que a tropa seja uma quebra da linha contínua que é a minha vida, uma paragem na evolução da minha personalidade… A analogia perfeita é pensar na tropa como o estado de crisálida que separa a lagarta da borboleta. A crisálida está ali no casulo, imóvel, imutável, como que em meditação, para depois se metamorfosear na borboleta, lindíssima, segura de si, com ares de ter atingido a iluminação…sim a tropa será o meu estado de crisálida.
Como já deves ter percebido, o que me interessa na experiência da tropa é o aspecto psicológico, mas sairei de lá como a borboleta que espero vir a ser (salvo qualquer mariquice que esta analogia possa induzir)? Ou tornar-me-ei numa espécie de vespa?
Gostaria de falar contigo sobre isto, gostava de saber quais as mudanças que a tropa provocou na tua maneira de ser, que coisas interiorizaste e aprendeste, quais as vantagens e desvantagens que a tropa traz para a construção da personalidade de um homem? Se possuir um esboço de resposta para cada uma destas perguntas, sei que tomarei a decisão certa em relação à tropa, se quiseres falar comigo acerca disto manda-me um mail ou adiciona-me no msn, seria muito importante para mim!
Abraço, fica bem e continua a escrever assim!
Eu estive do outro lado.
Fui Alferes Miliciano (contratado) duarante 4 anos, num Regimento de Infantaria. Tenho cerca de 40 anos, há 16 que saí.
Para trabalhar num Banco, onde me mantenho.
Dei sempre recrutas, atrás de recrutas.
Nunca me armei em bom. Mas sempre me dei ao respeito. Nada de avacalhar nem de subverter práticas que tantas gerações quiseram manter. Não temos o direito.
Procurei liderar pelo exemplo.
Ganhar as pessoas, que ali estavam contrariadas, para o desporto, para a saúde, para os valores sadios da amizade, companheirismo, partilha.
Sempre procuei dar o exemplo, sendo humano mas firme e exigente.
Fiz amizades para toda a vida que se mantem.
«Aturaram-me» centenas de soldados. Hoje quando nos encontramos logo me reconhecem, e são abraços inesquecíveis que recebo, conversas sem fim, que incomodam a minha mulher e os meus filhos, porque se prolongam, sobre a partilha, o apoio na exigencia, o exercício físico puxado, as futeboladas, coisas de homens que partilhamos um espaço , a palavra de compreensão, o conselho para o futuro, como se fosse mais velho, mas eramos da mesma idade… os jantares de pelotão com lágrimas de despedida, o orgulho de ter grupos uniformas de putos porreirinhos, que resistiam a tudo, que foram sempre capazes de dizer não à droga, ao alcool, capazes de me seguir, em passo certo, da caserna até à porta do quartel, todas as sextas feiras, enquanto me despedia, um por um, desejando um bom fim de semana com a família.
Perante eles me curvo: foram quem me ensinou a lidar hoje com os meus filhos.
A tropa para mim foi uma excelente experiencia de vida. Como podem ser todas as experiências onde uma pessoa se entrega com pureza, com entusiasmo, sobretudo se formos BOAS PESSOAS e querermos dar o melhor de nós aos outros.
O seu texto é absolutamente brilhante!
Sou militar e consigo imaginar cada um dos momentos aqui descritos!
Parabéns
Boas amigo!
Bom, eu tenho uma duvida e não sei como ei-de resolver a minha vida!
A minha duvida, é se devo entrar na tropa, no exercito, seguir uma carreira militar, ou então, quando acabar o contrato sair para a GNR e seguir por lá a minha vida.
A segunda opção, é seguir como sócio do meu pai, e mais tarde começar sozinho (trabalhar com familia nunca resulta), com uma empresa do meu pai, de Isolamento Térmico, sistema de capotto, no qual ja sastante do ramo. o meu pai ja anda nisto há 18 anos!
O que me aconcelha ? o que dará maior beneficio fiscal e maior qualidade de vida?
Tenho o 12º ano.
Muito obrigado por tudo!
Com os maiores cumprimentos e um abraço,
Cristiano Ribeiro.
Boas pessoal, gostei bue do teu texto sim era maus tempos desse teu passado –’ amigo sabes me dizer como é o tempo de hoje em dia na tropa? é que vou ser chamado dia 11 de fevereiro a tropa, mas se me pedirem pa ficar la vou ficar, sim pk keru esprementar coisas novas pk ja tou farto desta vida, sou um gajo calmo etc keru ver se perco isso i tal. se alguem ke acabou de sair da tropa a pouco tempo ke me diga como é se faz favor agredecia ke me dissesem como é a tropa de hoje. abraços
hoje em dia na tropa… hoje em dia as forças armadas , não são muito diferentes da história do camarada, acrescentando a desorganização , o desleixo e o que já é bastante comum o ridículo. A parvoíce dos superiores ( em particular dos escalões mais superiores) é tão grande . Maior parte dos indivíduos de escalões superiores esquecem-se completamente que estão a lidar com pessoas, concordo plenamente com a máxima que o camarada acima no texto refere : ” se queres conhecer alguém , dá-lhe poder ! ” e é a mais pura das verdades , um bando de bandalhos que não valem um caralho só por terem umas coisas diferentes e maiores em cima dos ombros , sentem – se no direito de humilhar completamente uma pessoa , “tropa é tropa ” certo mas o que se procura nas forças armadas é moralizar e transmitir confiança aos homens , sou um adepto fervoroso da rigidez , da disciplina e do respeito do rigor , mas nunca da humilhação. Já tive a oportunidade de dar formação a recrutas e ao contrário de muita gente não humilhei nem ofendi , fui extremamente exigente e por vezes severo , mas sempre com a atenção de que estava a lidar com pessoas e não com animais.
Se querem vir para a tropa apenas vós aconselho , venham apenas porque sentem vocação para tal, não venham apenas porque o fundo de desemprego vos disse para tal.
Amo o ramo das forças armadas a que pertenço , mas cada vez me desiludo mais com a sua situação . Hoje em dia … nesta nação onde cada um só quer saber do seu nariz … falta – nos o orgulho (já a muito esquecido) de ser Português.