Recordações da Tropa

Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [86]

Quando vejo um tipo fardado na televisão lembro-me dos meus vinte anos, desperdiçados num sombrio quartel na Ajuda, em Belém, Lisboa, vivendo os dias entre camaratas cinzentas, suor, espingardas e merda de cavalo.
Sim, ainda sou do tempo em que o serviço militar era obrigatório. Por isso, vocês, os putos da geração SMS, nem sabem a sorte que têm.
Estive nos operacionais da Polícia do Exército (PE) – cuja principal missão era fiscalizar soldados (os feijões verdes) que se atrevessem a andar na rua sem licença de saída, desfraldados, com a barba por fazer ou, de uma forma geral, pouco polidos.
Patrulhávamos estações de comboio (Santa Apolónia, principalmente) com as mãos atrás das costas, caminhando devagar, devagarinho, cheios de cagança, armados de bastão e pistola, calcando o asfalto com as botas, que eram pretas, reluzentes e de atacadores brancos, os rostos escondidos sob enormes e desconfortáveis capacetes cor de giz, sempre à cata de vítimas – normalmente pobres desgraçados que suportavam oito, dez, doze horas de viagem em comboios velhos e sobre-lotados para dar um beijo à família e voltar logo a seguir para novo castigo de comboio e tropa.
Eu detestava aquela merda.
Se o chefe de patrulha fosse um nazi estávamos bem fodidos: tínhamos de patrulhar as ruas e fazer de bófia da soldadesca. Mas quando o chefe da patrulha era um bacano, não queria lixar ninguém e se estava a cagar para aquela merda, as nossas missões fiscalizadoras começavam e acabavam na minha casa, a beber uns copos, fumar uns charros, ouvir música, ver filmes – porque eu vivo no Estoril, perto do quartel, e dava para fazer isso.
Essa coisa do haxixe tem muito que se lhe diga. Aquele quartel era um paraíso para quem alinhava nas ganzas. O fumo nunca era provocado pela pólvora, era só pelos charros. Espingardas? Foda-se! Só se nos obrigassem. Não vigorava a máxima Make Love, Not War porque aquela merda era só gajos. E isso é que nos lixava. Mulheres, ali, só mesmo algumas cozinheiras – e todas com mais de 100 quilos em cada perna. Mas, acreditem, depois de quinze dias seguidos a viver rodeado de gajos mais peludos do que eu, cada cozinheira era uma Marisa Cruz em potência. Depois de 360 horas em completa reclusão sexual, até as maçanetas das portas nos faziam lembrar as maminhas da namorada. Claro que nunca vi ninguém ajoelhado aos beijinhos e apalpões às maçanetas – mas, se tivesse visto, não teria achado assim tão estranho: se calhar olhava para o lado, embaraçado por perturbar um momento tão íntimo.
Estou a gozar, claro, mas ali a malta charrava ou enlouquecia. Pior: podia até ficar a gostar daquela merda.
Aprendi alguma coisa na tropa? Com certeza! Por exemplo, estão a ver aquele estereótipo do oficial que tem a mania que é o maior mas que, na realidade, não passa de um grande imbecil? Pois ele existe. Era o comandante do meu batalhão, um capitão qualquer coisa - não me lembro do nome, da voz ou sequer da cara. A única coisa que recordo é um bigode - enorme, desproporcional e farfalhudo; como o senhor capitão era alto, magrinho e andava sempre todo direito, lembrava uma esfregona.
Uma vez ia-me lixando: o gajo estava a fazer uma daquelas inspecções solenes à camarata, eu estava com uma moca inacreditável, todo esticado para cima, em sentido, num silêncio enorme; olhava para ele e só me lembrava era da esfregona da minha avó. Comecei a imaginá-lo como se fosse realmente uma esfregona e ia acontecendo um desastre porque quase rebentava a rir.
Ele gostava de inspecções-surpresa. Desconfiava que os velhacos se andavam a drogar nas camaratas, vejam lá. Mas tinha tanta pontaria que, nas noites em que flutuávamos em fumo, nunca se lembrava de aparecer; quando estávamos todos limpinhos e arejados, irrompia pela camarata com um sorriso triunfante e dizia: “Então? Temos chocolati, é?”
Justiça lhe seja feita, o tipo era patético mas não era nenhum filho da puta. Estes não tinham graça nenhuma, mas ao menos ajudaram-me a crescer. O que me leva ao segundo ensinamento recebido na tropa, sintetizável numa simples frase: se queres conhecer alguém, dá-lhe poder.
Outra coisa interessante que descobri: os gajos do Norte são infinitamente mais porreiros que os gajos de Lisboa - pelo menos em certas e determinadas coisas que considero essenciais. Por exemplo: se estás à rasca para fumar e vais pedir um cigarro, um gajo do Norte estrilha logo: “Foda-se, caralho, mas que merda é esta? Eu não sustento vícios!” O tipo de Lisboa passa-te um cigarrito para a mão sem fazer grandes comentários – ou então, se não quiser dar, manda a tanga do costume, diz que é o último, que não tem mais nenhum.
Se o mesmo gajo do Norte que te recusou o tabaco chega carregado de comida caseira, trazida lá da terrinha, nem é preciso pedir-lhe nada: não fica descansado enquanto não nos vir satisfeitos, de barriga cheia. Se o gajo de Lisboa trouxer a comidinha feita pela mamã, refunde-se logo. Esconde-a. Não partilha. Come quase às escondidas.
Terceiro ensinamento: quando vamos à tropa estamos a servir o país? A minha experiência diz-me que não. Os soldados estão lá para servir oficiais inúteis e ociosos, incapazes de fazer a própria cama, e sargentos barrigudos e cristalizados no tempo. No máximo, servimos um Portugal com o qual não nos identificamos. Não admira, por isso, que uma das frases mais ditas na tropa seja esta: “Uns são filhos da mãe, outros são filhos da puta”.
Talvez por concordar com a justiça desta observação, decidi que iria fazer o juramento de bandeira sem cantar o hino nacional. Não cantar o hino nacional no dia em que fui oficialmente incorporado na tropa deve ter sido dos actos mais patrióticos que fiz na vida. Bem, fiz pior que isso: às sete da manhã do grande dia, já fardado a rigor, ainda antes do pequeno-almoço, fumei um Bob Marley (espécie de charro-charuto) e fui para a parada a ver tudo em câmara-lenta. Foi o último charro que fumei na vida. Teve um valor simbólico.
Estava um calor terrível: foram horas debaixo de Sol, quietos, tentando não desmaiar, procurando um rosto amado na multidão dos civis, ouvindo discursos sem sentido. Um sargento - ou seja, um profissional do ofício de servir a Pátria - forçado pelo protocolo militar a suportar o mesmo martírio que os recrutas, só dizia, entredentes: “Mas que merda, mas que seca, anda um gajo a trabalhar que nem um cão para levar com esta merda”. Só o voltei a ouvir quando começou a cantar, cheio de fulgor patriótico, os primeiros versos de A Portuguesa:
“Heróis do mar, nobre povo, nação valente e imortal…”
A minha tropa foi uma comédia recheada de protagonistas que se levavam demasiado a sério.

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  1. betonogueira
    pode (ou não!) estar a usar Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.1 em Windows Windows XP

    Achei uma delícia esta sua crónica e fez-me recordar outros tempos.

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