
Salgueiro Maia fotografado por António Cunha
Estou a trabalhar num edifício junto ao Marquês de Pombal, num quinto andar. Chega até aqui o som de «Grândola Vila Morena», do grande Zeca Afonso, usada como senha para o início da Revolução dos Cravos. A televisão ao meu lado, ligada como sempre, repete pela vigésima vez excertos do discurso de Cavaco Silva na Assembleia, a propósito desta data. Cavaco e 25 de Abril? É como misturar queijo e marmelada: os sabores não se anulam, mas juntos têm um sabor esquisito.
Arrepio-me até à raiz dos cabelos ao rever imagens e filmes do 25 de Abril. É emocionalmente demolidor a forma como os militares e o Povo conseguiram derrubar uma ditadura sem uma guerra civil. Foi uma revolução bela, um período da nossa História que me fará sentir orgulhoso da nacionalidade que tenho, não obstante o país.
Ao ouvir estes discursos de Cavaco na Assembleia, mantenho a esperança de que a política e os políticos que se seguiram à Revolução não tenham conseguido aniquilar, nos espíritos das novas gerações – pessoas que já nasceram num país desamordaçado -, a absoluta e inimitável preciosidade deste acontecimento.
E gostava, já agora, que em vez de discursos solenemente chatos, se prestasse um tributo à vida de um homem que simboliza este orgulho. Salgueiro Maia era um capitão, um soldado português. A 25 de Abril de 1974, à frente de 240 homens e com dez carros de combate da Escola Prática de Cavalaria, avançou sobre Lisboa. Ocupou então o Terreiro do Paço, forçando ministros e secretários de Estado de uma ditadura caquéctica e repressiva a fugir pelas traseiras. O Quartel do Carmo foi cercado, Marcello Caetano rendeu-se, demitiu-se e passou o resto dos seus dias exilado no Brasil.
Salgueiro Maia chegou a tenente-coronel, mas recusou sempre cargos de poder. Morreu a 4 de Abril de 1992, vítima de um cancro. Era um idealista: não mudou o mundo, mas ajudou a mudar um país. E manteve-se igual a si próprio até ao fim da vida.
O filme de Maria de Medeiros, Capitães de Abril, realizado em 2000, mostra-nos, nesta cena crucial, como a coragem e a determinação de um punhado de homens, chefiados por Salgueiro Maia, evitou uma luta sangrenta e mortífera. Ali nasceram os cravos que os políticos usam hoje nos fatinhos, mesmo ao lado das gravatas.






























19 comentários
Tive um professor de Filosofia, de seu nome Amílcar Coelho, presente nesta foto:
http://4.bp.blogspot.com/_eLpYVVDURes/SfL2b0jcVPI/AAAAAAAAAJI/4DcccOHRmEQ/s320/25AbrilAmilcarCoelho.jpg
Professor este que participou activamente na operação do dia 25 de Abril de 1974. Ele já me contou vários episódios desse dia, e bolas. É arrepiante. Uma coisa é ver filmes, ler livros. Outra, completamente diferente, é ouvir as palavras de quem foi um jovem de 22 anos, metido naquele cenário, apenas acreditando na Liberdade. E nem sempre, pois essa até pareceu impossível algumas vezes. Com poucos meios, poucos homens, e um “mero” capitão ao comando, conseguiram fazer nascer ali a Liberdade esquecida durante tantos anos por um regime de “botas de elástico”. Bravos homens estes. É pena é não haver mais da sua fibra.
O povão deveria dar-lhes mais valor, em vez de idolatrarem gajos atrás de uma bola, ou merdas afins.
Belo texto Marco. Mais uma vez, obrigado.
Não sei se este gajo é um herói, ou se é um vilão… Liberdade dizem voces ? Liberdade para quê? Para 70% da populaçáo portuguesa viver no limiar da pobreza ? Para sermos os da cauda da Europa ? Para sermos o único país do espaço europeu que não aproveitou um cêntimo, repito, um cêntimo de toda a dinheiraça que veio da União Europeia ? Posso estar a ser “do povo, do velho do restelo”. Mas meus amigos, isto está mau… Muito mau mesmo. O rastilho de pólvora está aceso e basta uma pequena faísca para as pessoas dizerem basta. Basta mesmo. Pedem-nos sacrificios, quando eles ganham brutos salários. Pedem-nos contenção quando eles esbanjam à tripa forra. Pedem-nos tolerância quando somos assaltados, assassinados e os culpados saiem impunes. Pedem-nos votos quando não tomam as decisões justas em prol duma nação, mas sim a favor de grandes grupos económicos… Diz-me Marco, o que é queres que a malta faça ?
Liberdade para quê, perguntas tu? Para poderes exprimir livremente a tua opinião. É um bom princípio, seres livre até para lamentares a liberdade que temos, não achas?
O conceito é bom… Mas o objectivo do 25 de Abril nunca foi alcançado…
Engraçado…..eu escrevi sobre o gajo que estava do outro lado, por trás da mira, no momento crucial
Também herói, tão poucas vezes referido.
Bem lembrado, Jonas.
Marco : A peça que mostras do filme é verídica.
Se me permites : ( não costumo fazer pub , mas penso que a peça que mostras é muito importante. Por isso não resisti. Se pensas que é indelicado corta ).
O http :// cosmeticas.org apresenta a fota da capa ( 25/ IV ) do extinto “Diário Popular ” , mostrando Maia entre os dois batalhões.
Faço parte de quem conheceu quem muito sofreu por causa do Fascismo. E eu também .
Não tenho partido nem religião a vos propor : apenas memória .
Antes do 25 de Abril de 1974 a taxa de mortalidade infantil rondava os 22 % e a taxa de analfabetismo os 30 % . Muito caminho foi então percorrido. Comparemos estas taxas com as de hoje.
A insegurança e os assaltos eram uma realidade no Portugal fascista. Publiquei, no blog já referido, artigos do Jornal do Fundão que foram censurados durante o fascismo. Um que foi censurado apontava que na pequena cidade da Covilhã em duas ( ou três ? agora não lembro ) semanas tinha havido 18 assaltos.
É verdade que Portugal atravessa uma crise importante. Mas os imigrantes que chegavam , chegavam a salto ( isso eu conheci ) , analfabetos … Poderia escrever muito mais. Mas o miserabilismo não é coisa minha . E haveria tanto a dizer … Os Lusíadas nos liceus com as paginas do canto X coladas ( censuradas ) , etc…
Hoje em dia , chegam também : Sabem ler , escrever , o que é um computador …
A diferença é realmente abismal !
Viva o 25 de Abril !
Nuno
Para NunoPortoMaravilha: saber ler e escrever e saber o que é um computador ? Tens noção do que se passa nas escolas ? Estamos a criar uma geração de imbecis que não se preocupa com nada, não quer saber de nada e obtem tudo facilmente. Quanto à taxa de criminalidade, no tempo do fascimo ainda havia medo e respeitinho pela autoridade, coisa que agora não acontece. Criámos um estado de direitos liberdades e garantias para se poder matar e roubar livremente, sabendo-se que esses mesmos direitos, esse mesmo excesso de zelo para com os direitos dos “cidadão” são os que provocam as falhas no sistema.
Todos os anos aprendo algo que não sabia acerca deste dia.
Algumas aprendo-as com um pouco de vergonha. Vergonha por não saber, vergonha por não me ter sido ensinado na escola, e vergonha porque é incrível a facilidade com que nos esquecemos, em Portugal.
Ainda assim, não deixo de me sentir orgulhosa pela forma como toda esta revolução foi conduzida. E a tantos anos de distância, numa época na qual eu não estive, também eu consigo sentir o arrebatador fascínio, por perceber um pouco a dimensão da Liberdade.
@ somemarbles : Tens razão e podes te sentir orgulhosa de pertencer a um Pequeno Grande Povo que anda por aqui e ali disperso na diáspora. Fizemos o 25 de Abril sem que sangue corresse e a liberdade de escrever ( em blogs e não só ) nasceu .
@ The end of times
“Respeitinho ” era mantido diante das casas dos bairros abastados. Com guardas : É que a fome era muita .
Recuperar o tabaco das periscas para quem não tinha dinheiro para comprar tabaco , era acto de solidareadade. Animais éramos !
Olha : lembra-me um conto de Miguel Torga . Já leste este autor ?
Sei bem o que se passa no sistema escolar. Vivo nele um pouco por dentro . Lol ! Queres as directivas da ocde de 1996 , relativas ao ensino para toda a Europa ?
O 25 de Abril não criou um estado de direitos . Criou isso sim um estado de direito .
Custa né ? Pois é : Quem já imigra sabe ler e escrever e utilizar um computador .
Os novos imigrantes já não utilizam uma banheira ( algo que vi ) como galinheiro.
Nuno
Bom post marco!
Não tenho conhecimentos na primeira pessoa para defender o Estado pós 25 de Abril ou o Estado Novo, mas creio que posso referir o que aprendi: nós actualmente podemos saber o que está de mal com o país e tentar fazer algo para o mudar; no Estado Novo éramos mantidos na ignorância como cordeiros, graças à censura.
É a velha questão do ter capacidade de lidar com a realidade ou querer viver num conto de fadas onde alguém nos esconde o que acha que nós não temos capacidade para lidar.
Pessoalmente, prefiro saber as coisas.
Eu não deixo de subscrever, de sentir e agradecer, o 25 de Abril como tendo sido a grande, a maior, das conquistas Sec. XX pelos portugueses.
Como não deixo de subscrever que muito do espirito, ou melhor: promessas/expectativas, embutidas nesse dia tão simbólico, continuam por cumprir ou saciar.
Boa semana!
Sinto uma saudável inveja de vossa Revolução dos Cravos. Aqui, no Brasil, abrigamos não só Marcello Caetano como outros ex-ditadores das Américas. O fim de nossa ditadura foi um acordo sujo que anistiava vítimas e carrascos: ninguém foi punido pelas atrocidades do DOPS e das Forças Armadas. Além disso, boa parte dos que se opunham à ditadura militar de extrema direita simplesmente queriam derrubá-la para instaurar uma ditadura caudilha de extrema esquerda.
Mesmo com um grande avanço na democracia, o Brasil ainda precisa de uma Revolução dos Cravos. Ou dos Ipês.
Tenho andado arredado dos comentários, entre outros motivos, porque não gosto muito de entrar a meio da actuação e desafinar o habitual harmonioso coro residente.
Deste modo, como são poucas as vezes, e não sei quando será a próxima, o comentário será mais longo.
Quanto a este tema e assunto do 25 de Abril de 1974, como muitos outros com génese de ruptura, é polémico e gerador de opiniões diversificadas, mais ou menos apaixonadas.
No meu ponto de vista, que é apenas mais um, 36 anos depois, acho que o verdadeiro Abril ainda está por realizar. Em muitos aspectos a nossa sociedade passou do 8 para o 80 e na generalidade, apesar das devidas distâncias e caminhos percorridos, continuamos num lodaçal de merda. Afinal, li isto em qualquer lado, “as revoluções são pensadas por idealistas, levadas a cabo por fanáticos e aproveitadas por toda a espécie de oportunistas”.
Quanto à liberdade, que dizem ter nascido no 25 de Abril, eu penso que não; A meu ver foi conquistada um pouco mais tarde, em 25 de Novembro de 75. Até aí, o que existiu foi uma anarquia que escapou a qualquer plano B de quem pensou o Golpe e que mais não pretendia do que passar de uma ditadura de direita para uma ditadura de esquerda. Spínola e outras personagens perceberam isso demasiado tarde e ficaram pelo caminho. Felizmente, para a tal democracia, parece que ainda se foi a tempo de atalhar mas o risco de guerra civil esteve sempre presente.
De um modo geral atribuiu-se o 25 de Abril às Forças Armadas e ao Povo e a data tem sido passada às gerações pós 74, na sua forma mais light, mais poética, mais escolar, sem PRECs, sem verões quentes, sem ocupações anárquicas, sem caças às bruxas, sem barricadas, sem retornados escorraçados de processos de independência mal negociados, sem nacionalizações, ou seja, sem o lado negro ou obscuro do processo e apenas como uma revolução limpinha, sem sangue nem mortes e perfumada por cravos. Esta ideia geral que tem prevalecido, cingida à efeméride, ao slogan do Dia da Liberdade ou Revolução dos Cravos, é bonita, digna de letras de cantigas e pensamentos ligados à revolução, mas no fundo o que suscitou os acontecimentos foi um descontentamento de elites militares pelo que estava a acontecer no Ultramar. É verdade que os capitães e generais gostam da tropa mas sobretudo a da mansidão dos quartéis e da rotineira quietude entre a casa e a messe de oficiais. Ora quando chamados ao campo da batalha, ao teatro de guerra, sem soldadinhos de chumbo, entre a saudade da casa, da família, a companhia da malária, a catinga e toda a brutalidade de uma guerra sem sentido, eles queriam era dar de frosques pelo que o golpe surgiu como uma escapatória natural. O conceito de revolução foi apenas o eco, um acaso como o foram os cravos, quando por ali passou alguém que os andava a vender, como hoje nas praias os marroquinos a vender rosas de plástico e óculos raybantes. Calhou não ser rosas. Quanto ao Povo, encheu então Lisboa como daqui a dias poderá encher para festejar o 32º campeonato do Glorioso (oxalá), ou como enche uma qualquer romaria para ver o Tony Carreira ou a Rute Marlene.
A propósito da África, esse cancro que nos roeu, esse osso que nos custou a largar da mandíbula da ditadura, a nossa guerra, o nosso orgulhosamente sós terminou mas os nativos tomaram-lhe o gosto e num palco já só seu decidiram prolongá-la por uma valente porrada de anos, matando-se mutuamente num rasto de terra queimada. Essa também foi uma conquista do nosso Abril. Mas pronto, pelo menos o palco de guerra era só seu, independente como desejavam e aparentemente lutavam. Hoje vai havendo paz, podre e corrupta, é certo, mas vai havendo. Os senhores da guerra foram quem mais ganhou e assim há-de continuar a ser. O que é que mudou?
Quanto à opinião sobre Cavaco, o seu discurso e a sua relação com o 25 de Abril, até porque gosto de marmelada com queijo, prefiro não aprofundar a opinião, mas apenas referir que uma das coisas que sobrou da tal liberdade conquistada, é uma intolerância geral dos que se consideram herdeiros da herança da revolução relativamente a quem tem de Abril uma visão menos apaixonada, quiçá mais distante ou desinteressada a ponto de não porem o tal cravo na lapela em dia de evocação.
Finalmente, porque alguém se deu a esse trabalho, acho um perfeito disparate que se fundamente uma das vantagens de Abril com os números e as estatísticas de então comparativamente com as actuais. Mal seria que ao fim de 4 décadas as coisas ainda estivessem como estavam.
Quer se queira quer não, o grande pecado do regime foi a sua posição em África, todo o mal-estar e fragmentações que isso causou na nossa sociedade e por conseguinte todo um desenvolvimento que estagnou devido à queima de recursos. Na minha aldeia não havia poetas nem pensadores que tivessem que exilar o seu lirismo político em França, em Paris, mas senti de perto a raiva e a dor de pais, irmãos, viúvas e órfãos de alguém que morreu na Guiné e Moçambique. Estou certo que não fora esse cancro das colónias, que deveriam ter sido entregues logo a seguir à II Guerra, Portugal, com mais ou menos lirismos, teria condições de desenvolvimento ao nível da restante Europa, aliás como tinha feito até aí depois do terramoto da República que esfrangalhou o país na duas primeiras décadas do séc. XX. Não foi o caso e um qualquer Abril teria que acontecer, de fora para dentro ou de dentro para fora. A História demonstrou que essas rupturas são inevitáveis por mais estanques que sejam os regimes e os ditadores e que mais não fosse, para mal dos pecados de alguma da nossa esquerda, tome-se como exemplo o que sucedeu anos depois na Europa de Leste com a falência do seu tão amado modelo socialista/comunista.
A História é feita de encontros e desencontros, e Portugal também tem tidos os seus, desde a sua fundação até aos dias de hoje, incluindo a perda e recuperação da independência, a imposição da república e a sua pós-anarquia. O 25 de Abril e tudo o que conduziu a ele foi apenas mais uma etapa. Hoje em dia, às portas da ditadura chamada crise, o povo continua condicionado nas suas liberdades e igualdades, que mesmo volvidos 36 anos continuam tão actuais. Em contrapartida, sobra-lhe libertinagem, que muitos teimam em confundir com liberdade. A diferença é que a liberdade, a verdadeira, implica os tão desejados direitos mas, na justa medida, também os deveres.
Para o bem e para o mal, não nos podemos arvorar no exclusivo desses marcos históricos pois isso tem sido o pão nosso de cada dia da velha Europa, do Velho e do Novo Mundo. O 25 de Abril, deve pois ocupar o seu lugar e espaço da História com todas as lições que se possam colher no sentido de ajustar o nosso destino, mas sempre com a ideia de que a mesma História prosseguirá, inapelável, mesmo com um percurso de novas ditaduras ainda que disfarçadas de democráticas. Esperam-se outras revoluções e desta vez terá mesmo que ser o Povo a fazê-la porque os militares, esses agora já não têm os bigodaços e as patilhas dos 70s mas são bem assalariados e as chefias desejam é que, a par de uns aviões F qualquer coisa, umas fragatas, uns submarinos e uns carros de combate novos, não venha muita chuva nem demasiado sol e que vá havendo umas Bósnias, Líbanos e Afganistões para um entretenimento de algumas companhias, tão do agrado da vidinha castrense.
Viva o 25 de Abril que está por fazer!
Concordo com tudo o que o A.Almeida escreveu. O 25 de Novembro de 1975 é, na minha opinião, a data chave pós ditadura. Nesse dia o país ficou livre de qualquer ditadura, fosse ela de esquerda ou de direita. Ficamos livres de regimes autoritários, e ainda bem, mas nem tudo estava mau antes do 25 de Abril. Perderam-se, por exemplo, os valores do respeito e da responsabilidade. A liberdade sem responsabilidade e respeito é libertinagem. Numa época onde Portugal vive à beira de um precipício é urgente deixar de uma vez por todas os lirismos de lado. O lirismo não dá asas.
Parabéns, ganharam a liberdade de poder escolher o vosso ditador de 4 em 4 anos.
Temos a liberdade de expressar a nossa opinião? Só se esta for irrelevante, parece-me a mim.
Estatísticas com 36 anos de diferença são incomparáveis. Comparem-na com a situação dos outros países na mesma altura, estavamos pior mas a diferenças não era abismáis. Talvez o factor de proporcionalidade se mantenha nos dias de hoje.
“Analfabetismo era um dos mais elevados da Europa”, não o é ainda hoje? E o analfabetismo funcional? http://pt.wikipedia.org/wiki/Analfabetismo_funcional (“…embora essa definição não seja muito precisa, já que existem analfabetos funcionais com nível superior de escolaridade.”)
Se somos assim tão letrados e inteligentes, porque somos tão ineficientes? Deve ser porque somos preguiçosos? Ou então somos mal qualificados em certa medida analfabetos funcionais.
A culpa deve ser do Governo que não tomou as medidas certas no tempo certo. Mas o que não é o Governo senão uma amostra da população? Foi o Povo que falhou?
Parece-me que estamos na mesma…
Todos os dias penso como posso eu fazer alguma coisa para ajudar o País, mas o primeiro grande desafio parece ser convencer o País de que precisa de ajuda.
Não deixa de ser curioso que a palavra “salto ” não apareça nos dicionários ( pelo menos no que tenho ) como sinónimo também de fuga ao fascismo e à fome.
Como mostro no cosméticas, em 1964 há cerca de 10 000 portugueses amontoados sem condições de higiene no bairo de lata de Champigny . No início dos anos 60 , o diário “Le Monde” estima a mais de cem mil os portugueses que vivem em bairros de lata na única periferia de Paris. Depois há que acrescentar outras cidades : Marselha , Clermont Ferrand , Lille etc
Quantos não morreram ao atravessar os arames farpados e os Pirenéus ? ( Vítimas de balas perdidas se calhar de alguns caçadores ? )
No início dos anos sessenta a guerra colonial ainda está muito longe do seu auge . E eu pergunto : Então porque é que milhares e milhares de homens e de mulheres arriscaram a sua vida para dar o salto ? Para fazer turismo ?
No Jornal do Fundão ( 26 -V – 74 ) , Palma Inácio que fora torturado barabaramente escreve o seguinte : ” Para os meus carrascos que a justiça se encarregue deles , oferencendo-lhes os meios de defesa que eles nos negaram “.
Mas afinal : Esses carrascos , os responsáveis por massacres nas colónias … sempre foram julgados ou não ?
Nuno