Há quem considere que a cobertura jornalística das convulsões sociais em países como a Líbia tem por base uma visão inquinada dos acontecimentos: a cobertura não está a ser imparcial.
Tudo pode ser aproveitado politicamente, é verdade, mas antes de impor considerações mais ou menos abstractas ao jornalismo e aos jornalistas convinha ter em conta que as notícias que nos chegam são fruto do trabalho de seres humanos no terreno.
A minha visão é muito simples e não necessita de grandes considerações filosóficas.
Os correspondentes estrangeiros estão a ser recebidos com aplausos e vivas por uma multidão de líbios em revolta – a mesma alegria de populações saudando um exército libertador. Os líbios têm histórias para contar, fotos para mostrar, horrores para descrever, muitas acusações contra Khadafi, o «cão raivoso».
É humanamente impossível que a visão do jornalista não seja condicionada pela torrente de revolta que encontrou e pela expectativa das populações em relação ao trabalho que se prepara para desempenhar: muito antes de tentarem conquistar Trípoli, os revoltosos sabem que é necessário conquistar a consciência moral do jornalista.
O objectivo não é assim tão difícil de concretizar: os personagens deste drama terrível e mortífero estão devidamente identificados e os papéis que devem representar na história perfeitamente delineados: os good guys são os populares em revolta contra o opressor, os bad guys são Khadafi e seus acólitos, a Líbia é um caso simples de Aliança Rebelde versus Império do Mal.
Perguntem a um miúdo que quer ser jornalista por que razão o deseja ser e digam-me quantas vezes encontrarão um que responda «porque desejo ser imparcial, abusar dos substantivos, renegar as minhas paixões enquanto escrevo e fugir dos adjectivos como o Diabo foge da cruz, em suma, quero ser jornalista da Agência Lusa».
Duvido que sejam capazes de encontrar muitos. Um dos maiores ensinamentos que recebi foi o de um colega com mais vinte anos de profissão do que eu: «Os jornalistas também têm direito à indignação, pá».
Sorrisos, palavras e determinação de ninja
Para descobrir a visão pessoal do jornalista basta estar atento às palavras que escolhe para relatar o acontecimento: por exemplo, quando se refere Benghazi como a cidade «libertada» o leitor já está a ser informado qual a posição moral e ideológica do repórter no terreno. Não espero que uma reportagem seja imparcial, mas honesta. Quero as palavras certas no lugar certo.
Muitos sonham em ser jornalistas para viver momentos como este: a oportunidade de estar no centro da acção, fazer um julgamento justo dos acontecimentos e, através do seu olhar e da sua escrita, contribuir para mudar um bocadinho um mundo. Claro que, anos mais tarde, serão confrontados com a monótona realidade das redacções – mas isso é outra conversa.
Nem o mais experiente dos repórteres consegue manter-se indiferente a pessoas de enorme coragem e capacidade de resistência que lhe pedem para regressar a um certo estado de pureza inicial, quando o cinismo não minava a sua visão do mundo e da profissão.
Todas as rebeliões começam assim, com grandes doses de idealismo e ingenuidade. Até a escolha de uma profissão pode ser um acto de rebeldia. Como os líbios felizmente não podem ler os comentários dos psicopáticos leitores dos jornais online portugueses, consideram correcto pedir ao jornalista alguma cumplicidade e compreensão para com a presente situação no terreno. Haverá tempo para análises aos aproveitamentos políticos e às decepções com os resultados obtidos, quando Khadafi já estiver enterrado na poeira da História.
































7 comentários
Obrigado pela reflexão, Marco
Jornalistas que pertencem á agencia lusa ou á BBC. Estudei jornalismo na university of Lincoln e quase todos os meus professores trabalharam na BBC , e todos eles diziam o quao importante é ser imparcial mesmo em situacoes em que o nosso estomago está ás voltas por dentro, já que o publico tem o direito de saber os dois lados da questao e nunca devemos confundi-os ainda mais, o problema está quando os dois lados da questao é negro. Passei 3 anos a ouvir que nao podia escrever ou dizer isto ou aquilo porque podia ferir as susceptilidades de álguem, quando no fundo só pensava que o meu dever como jornalista é por o dedo na ferida
É mt fácil ser imparcial quando as noticias sao de um sicrano que morreu, desapareceu ou matou álguem mas em situacoes de guerra ou revolta nacional, a meu ver, é o dever do jornalista de fazer o relato do que a populacao está a viver. contar as histórias, as perdas, as vitórias e se o que sai das mini-entrevistas sao só histórias horriveis que tornarao o jornalista parcial aos olhos do publico, que seja, há males maiores….
jornalistas imparciais dispenso, prefiro, como disseste, alguém honesto que ponha as palavras certas nos lugares certos
Olá !
Quantos jornalistas ocidentais falam Árabe e, sobretudo, os seus dailectos ?
E, também, quantos jornalistas trabalham para jornais que pertencem a grandes grupos económicos ?
Talvez o grande jornalismo seja aquele que sabe escrever entre linhas. Não sei !
No fundo, o leitor que gosta de ler sabe ler. Não sei !
Nuno
A questão náo é a imparcialidade o menos dos jornalistas (ninguém pode ser totalmente imparcial, por muito que tente), mas, acho, o objectivo da pesquisa feita no campo: é diferente, de facto, ir para a Líbia para perceber o que está a acontecer e ir para a Líbia à procura de narrações épicas e revolucionárias.
Há uns dias, os jornais europeus e ocidentais em geral (com notícias muitas vezes tiradas de Al-Jazeera e Al-Arabiya), relataram de valas comuns, de bombardeamentos sobre civis etc. O exemplo das valas comuns é muito significativo, porque acompanhado por imagens. A vala comum é algo específico, um grande buraco na terra onde os corpos são jogados todos juntos. São a imagem das guerra civis, das carnificinas ditatorias etc. Onde há um ditador no crepúsculo do seu poder, é possível, aliás muito provável que haja valas comuns.
Mas as imagens que chegaram da Líbia e foram acompanhadas por títulos definitivos e “emotivos” não tinham nada a ver com valas comuns: trata-se de um cimitério numa praia, com sepulturas síngulas, mapado até no google maps antes da revolta do do 17 de fevereiro.
Dos bombardeamentos sobre civis não temos provas (é verdade, internet está obscurado etc, mas apesar disso tivemos vídeos gravados com telemóveis pela população quase todos os dias, e nunca chegaram imagens de bairros bombardeados), mas o público da informação, isto é, nós, do outro lado do Mediterrâneo, do outro lado do mundo, já temos um frame claro e maniqueista para sobrepôr às notícias de chegam.
Nesse sentido, a atitude dos meios de informação é muito parecida com o que aconteceu em Timisoara no fim do regime de Ceausescu. Os jornais falaram de valas comuns, cadáveres horrivelmente mutilados, 4632 vítimas da fúria de Ceausescu.
Mas não se tratava de valas comuns, nem de vítimas do regime. Eram cadáveres autopsiados num hospital. Pessoas sem-abrigo que não tinham nada a ver com a vingança de Ceausescu. O guardião do cimitério tentou de todas as maneiras explicar aos jornalistas ocidentais qual a origem daqueles cadáveres, mas ninguém acreditou. E nos dias a seguir os jornais foram repletos de títulos chocantes: o horror no coração da Europa.
Obviamente não houve uma intenção maquiavélica por parte dos jornalistas de des-informar a população, foi de facto um caso extraordinário de realização daquilo que Shakespeare chama “Submeter a alma à imaginação”.
Com isto naturalmente não quero dizer que o Ceausescu ou o Khadafi sejam santos, ou que nunca tenham sufocado as instâncias de liberdade e justiça das suas populações, quero apenas dizer que o papel desenrolado pelos meios de comunicação em momentos de crise como o da Líbia pode vir a ser decisivo pelo futuro da própria Líbia.
É pelo menos muito esquisito que nenhum jornal tenha alguma vez falado de valas comuns ou pelo menos dos campos de detenção que o Raís pus em pé após o pacto que estipulou com a União Europeia para controlar o fluxo de migrantes da África à União Europeia.
Tudo isto só para dizer que sim, claro, qualquer pessoa que vá para a Líbia agora não se pode despir totalmente da sua indignação e do seu ponto de vista. Mas a procura de fontes atendíveis e provas concretas são, supostamente, o maior dever de um jornalista. No caso contrário, os boatos se tornam a base das pesquisas, e isso pode ser perigoso.
@ Itz,
Gostei bem do seu texto.
E, obrigado, por ter lembrado o episódio Romeno que é um caso de escola ( por assim dizer ).
Já citei este aspecto no cosméticas : Quem teve interesse, no que diz respeito aos acontecimentos que ocorrem no Magreb, Egipto… em pôr em evidência as redes sociais, facebook e outros piú-piú, sabendo-se que o primeiro veículo de informação foi Al Jazira e, sobretudo, as rádios ( que mudavam constantemente de frequência para escaparem à censura… )
Gostei do seu texto porque me parece que, em pano de fundo, se desenha a ideia que a imparcialidade do jornalista decorre do saber do leitor.
Nuno
@Nuno
Obrigado.
Pois é, na informação, tal como em qualquer acontecimento da vida e da Estória, acho que cada um tem responsabilidade àcerca do seu próprio papel: os “informadores” como meios de transmissão das estórias, os “informados” como objectivos dessa transmissão…
Em relação ao papel das redes sociais nas revoltas do Maghreb eu, pessoalmente, sinto o peso de não conhecer com suficiente profundidade a situação desses países: num sentido marxista, acho que não podemos falar de revoluções (no caso da Tunísia e do Egipto a transição não pus em questão a tomada de posse dos meios de produção por parte do “proletariado”, qualquer que seja o proletariado nessas realidades, e o papel do exército foi fundamental), mas, logo depois, apesar desses países terem tido movimentos marxistas ou socialistas (até o Khadafi, com o seu Livrinho Verde, instaurou em 1969 uma espécie de socialismo sui generi, a Jahmariya etc.), mas logo a seguir, mesmo não conhecendo a realidade dessa parte do mundo, acho que para dar uma interpretação complexa dos acontecimentos é preciso ter em conta que o que vale pela Europa talvez não vale pela África do norte.
Nesse sentido, assumindo aquilo que você relata no cosméticas em relação às rádios, acho que o papel das redes sociais pode (ou pode não, eu não sei!) ter sido importante. No fundo, nos anos da Resistência italiana ao nazi-fascismo, Radio Londra era fundamental pela auto-organização. E era, na altura, um meio novo tal como as redes sociais agora. Como dizer, uma forma diferente por um igual “princípio poético”.
Desculpem o cumprimento e os erros de gramática, chegar à síntese numa língua estrangeira não é simples…
Uau, na 1ª imagem que olhos, que carinha ‘laroca’