→ 10/10/2011 @22:59

O abominável jornalismo e o gajo das Neves

Se tivesse uma nota de 500 euros por cada vez que «cientistas» descobrem «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves – Yéti, na Rússia; Big Foot, nos EUA – já seria um multimilionário. Mas a notícia foi avançada pelo Público, um «jornal de referência», por isso deve ser levada a sério – certo?

Enquanto aqueles «cientistas» estão entretidos a estudar as «pegadas» do Yéti, eu vou tentar seguir as pegadas da notícia.

 

Não foi tão difícil como pensava: teve origem num comunicado lançado pela Interfax às 20:07 do dia 9 de Outubro. A Interfax é uma agência de notícias focada em fornecer informação sobre a Rússia, a China e os mercados emergentes da Eurásia.

O comunicado original foi escrito em russo – e foram os media russos a pegar primeiro na história. O Pravda, por exemplo, colocou-a na secção «Ciência» e titulou: «Provada em 95 por cento a existência do Yéti na Rússia». Os 5 por cento que faltam, como se irá ver, são as provas científicas.

A redação deste comunicado original baseou-se em informações fornecidas por autoridades administrativas da região de Kemerovo, no sul da Sibéria, local onde a «equipa internacional de cientistas» se juntou para participar numa «Conferência Internacional Yéti» que fora anunciada a 23 de Setembro.

Depois de lançada pela Interfax e nos media russos, a notícia foi traduzida e publicada pela Agência France-Press (AFP) sem acrescentar mais nada; da AFP espalhou-se pelos media ocidentais e uma enorme série de websites.

Entre o comunicado original e a notícia do Público, não existe qualquer sinal de que a história tenha sido minimamente contextualizada, interpretada ou posta em causa. O Semanário Sol, por exemplo, apresenta o seguinte título: «Cidade russa diz ter provas inquestionáveis da existência do Abominável Homem das Neves». Desta vez não há cientistas, mas uma cidade cheia deles.

Isto leva-me a concluir que é mais fácil descobrir um Yéti escondido na Rússia do que um pensamento crítico numa notícia de jornal.

 

Uma história cheia de sumo, abdominável

Foram as autoridades locais a propor a conferência internacional e a sugerir que se convidassem investigadores internacionais para uma expedição à gruta Azasskaya, local onde se acredita que o monstro costuma pernoitar.

O vice-governador da região, Dmitri Islamov, é citado de forma indireta pelo Público, mas quem o citou realmente foi o jornalista Rick Dewsbury, do Daily Mail: «Não interessa que os Yétis não tenham sido encontrados» – afirmou Islamov. – «O que interessa é que as pessoas venham às montanhas Shoria e vejam como aqui a Natureza é única».

Declarações pouco entusiasmadas para quem acabou de ver uma equipa de cientistas apresentar «provas irrefutáveis» da existência do Yéti, não acham?

Esperem, afinal o Público fez confusão nas datas e referências: Islamov referia-se a uma expedição anterior, liderada pelo ex-campeão de pesos pesados, o pugilista Nikolai Valuyev, e que nada encontrara.

«Vi muitos jornalistas», declarou então Valuyev, «mas não vi nenhum Yéti

Mais tarde, um porta-voz do pugilista acrescentou que a expedição encontrara «vestígios» da presença da criatura: ramos partidos.

Escreve ainda o Daily Mail que a aventura do pugilista foi vista pelos habitantes locais como uma fantástica promoção turística da região.

Ramos partidos é uma evidência importante (quem mais os poderia partir?), portanto não admira que a expedição que se seguiu – e cujas descobertas são agora o foco destas notícias –  tenha também encontrado galhos e ramos partidos nas árvores, juntando-os à lista de «provas irrefutáveis».

Nada que possa causar muita surpresa. A conferência internacional que deu origem à expedição foi organizada pelo «doutor» Igor Burtsaev, diretor do International Hominology Centre de Moscovo. Não sabem o que é este centro? Eu também não, mas aposto que fica mesmo ao lado do edifício do Centro de Estudos Criptozoológicos dos Gambozinos.

Este «doutor» tem opiniões muito vincadas sobre o Yéti:

«Concluímos que estes seres são, em princípio, seres humanos porque eles até podem falar e comunicar com pessoas. São de uma espécie diferente da nossa, claro. Os Yétis estão bem adaptados à Natureza. O seu estilo de vida é semelhante ao dos animais. Não usam  ferramentas, roupas ou fogo mas são bastante inteligentes.

Possuem as suas próprias armas – capacidades paranormais que os ajudaram a sobreviver e competir com outros animais. Eles mudaram-se para outra dimensão – vida crepuscular e vida em locais dificilmente acessíveis».

Possuem linguagem, mas não têm ferramentas. Têm capacidades paranormais e saltitam entre dimensões, mas não dominam o fogo. E vivem no crepúsculo, como aquele vampiro que deixa as meninas doidas.

É notável o que se pode deduzir a partir de ramos partidos, pegadas por identificar e «cabelos» por analisar.

Sim, porque os ramos partidos não são as únicas provas que a expedição encontrou. Os «cientistas» também descobriram pelos e pegadas. Os pelos ainda não foram analisados em laboratório, portanto tenho alguma dificuldade em entender que possam ser apresentados como «provas irrefutáveis» antes sequer de termos a certeza a quem pertencem.

Para o incremento turístico da região até um pintelho do Abominável seria suficiente, mas do ponto de vista científico é tão válido dizer-se que os pelos pertencem ao gajo das Neves como afirmar-se que pertencem ao pugilista Nikolai Valuyev – o único ser vivo deste planeta capaz de pregar um cagaço a qualquer Yéti.

(ver outro post no AstroPT)

8 comentários

  • 1
    Ana Guerreiro Pereira
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    10 de Outubro de 2011 - 23:19 | Link permamente

    O dia em que criptozoólogos forem considerados cientistas, é o dia em que o Pai Natal e a Rena Rudolfo farão a sua estrondosa aparição! E pelo caminho ainda trazem o He-man, a She-Ra, Reptilianos de Nibiru, naves espaciais Eleninas, e, quem sabe, toda a panóplia de criaturas descritas na cultura de AD&D…

  • 2
    com Firefox 6.0.2 Firefox 6.0.2 em Windows Vista Windows Vista
    10 de Outubro de 2011 - 23:44 | Link permamente

    Para os jornalistas, todo o estudo que é publicado (mesmo o que levanta mais reservas ou o mais absurdo) é cientificamente irrefutável. Pelo menos é o que dão a entender. Já repararam que todas as semanas é noticiado nos jornais um estudo que “comprova que as mulheres têm mais dificuldade que os homens em accionar o pisca para a esquerda” ou que “comprova que comer camarão cru enquanto se faz o pino faz crescer a barba”. Tudo é apresentado já como verdades científicas, chega a meter impressão…

  • 3
    com Firefox 7.0.1 Firefox 7.0.1 em Windows XP Windows XP
    11 de Outubro de 2011 - 00:07 | Link permamente

    Pelo boneco acima e pela descrição estou mais convencido que o
    Yéti vive numa ilha do Atlântico, bem perto da costa portuguesa.
    Não tem nada de misterioso pois está constantemente a ser visto, e até já foi confundido com um Monstro (Diabo) da Tasmânia.

  • 4
    Ana Guerreiro Pereira
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    11 de Outubro de 2011 - 00:08 | Link permamente

    Atão e ninguém diz que o Tony Ramos é o Yeti porquê???? é hirsuto!

  • 5
    Grunho
    com Firefox 7.0.1 Firefox 7.0.1 em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    11 de Outubro de 2011 - 10:00 | Link permamente

    Nós por cá, para não parecermos pelintras, há muitos anos que temos um abominável césar das neves.

  • 6
    com Google Chrome 14.0.835.202 Google Chrome 14.0.835.202 em Mac OS X 10.6.8 Mac OS X 10.6.8
    11 de Outubro de 2011 - 10:38 | Link permamente

    A necessidade de garantir financiamento para continuar a demanda de disparates, obriga à divulgação destas “provas irrefutáveis” e das notícias associadas. Não se esqueçam, a velha máxima aqui também se aplica: “Falem bem ou mal, mas falem de mim.”

  • 7
    Vinício
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    11 de Outubro de 2011 - 13:44 | Link permamente

    Se não ouviram falar no :D ET Bilu, pequisem. “Busquem conhecimento”! Hahaha!!

  • 8
    Marco
    com Firefox 7.0.1 Firefox 7.0.1 em Windows 7 Windows 7
    11 de Outubro de 2011 - 15:02 | Link permamente

    Para mim foi uma partida do Chewbacca lol
    Gostei particularmente do “provado em 95%” e de lhes terem chamado cientistas. A Arca de Noé também é re-encontrada todos os anos, mas aí a certeza costuma rondar os 99,9%