Se tivesse uma nota de 500 euros por cada vez que «cientistas» descobrem «provas irrefutáveis» da existência do Abominável Homem das Neves – Yéti, na Rússia; Big Foot, nos EUA – já seria um multimilionário. Mas a notícia foi avançada pelo Público, um «jornal de referência», por isso deve ser levada a sério – certo?
Enquanto aqueles «cientistas» estão entretidos a estudar as «pegadas» do Yéti, eu vou tentar seguir as pegadas da notícia.
Não foi tão difícil como pensava: teve origem num comunicado lançado pela Interfax às 20:07 do dia 9 de Outubro. A Interfax é uma agência de notícias focada em fornecer informação sobre a Rússia, a China e os mercados emergentes da Eurásia.
O comunicado original foi escrito em russo – e foram os media russos a pegar primeiro na história. O Pravda, por exemplo, colocou-a na secção «Ciência» e titulou: «Provada em 95 por cento a existência do Yéti na Rússia». Os 5 por cento que faltam, como se irá ver, são as provas científicas.
A redação deste comunicado original baseou-se em informações fornecidas por autoridades administrativas da região de Kemerovo, no sul da Sibéria, local onde a «equipa internacional de cientistas» se juntou para participar numa «Conferência Internacional Yéti» que fora anunciada a 23 de Setembro.
Depois de lançada pela Interfax e nos media russos, a notícia foi traduzida e publicada pela Agência France-Press (AFP) sem acrescentar mais nada; da AFP espalhou-se pelos media ocidentais e uma enorme série de websites.
Entre o comunicado original e a notícia do Público, não existe qualquer sinal de que a história tenha sido minimamente contextualizada, interpretada ou posta em causa. O Semanário Sol, por exemplo, apresenta o seguinte título: «Cidade russa diz ter provas inquestionáveis da existência do Abominável Homem das Neves». Desta vez não há cientistas, mas uma cidade cheia deles.
Isto leva-me a concluir que é mais fácil descobrir um Yéti escondido na Rússia do que um pensamento crítico numa notícia de jornal.
Uma história cheia de sumo, abdominável
Foram as autoridades locais a propor a conferência internacional e a sugerir que se convidassem investigadores internacionais para uma expedição à gruta Azasskaya, local onde se acredita que o monstro costuma pernoitar.
O vice-governador da região, Dmitri Islamov, é citado de forma indireta pelo Público, mas quem o citou realmente foi o jornalista Rick Dewsbury, do Daily Mail: «Não interessa que os Yétis não tenham sido encontrados» – afirmou Islamov. – «O que interessa é que as pessoas venham às montanhas Shoria e vejam como aqui a Natureza é única».
Declarações pouco entusiasmadas para quem acabou de ver uma equipa de cientistas apresentar «provas irrefutáveis» da existência do Yéti, não acham?
Esperem, afinal o Público fez confusão nas datas e referências: Islamov referia-se a uma expedição anterior, liderada pelo ex-campeão de pesos pesados, o pugilista Nikolai Valuyev, e que nada encontrara.
«Vi muitos jornalistas», declarou então Valuyev, «mas não vi nenhum Yéti.»
Mais tarde, um porta-voz do pugilista acrescentou que a expedição encontrara «vestígios» da presença da criatura: ramos partidos.
Escreve ainda o Daily Mail que a aventura do pugilista foi vista pelos habitantes locais como uma fantástica promoção turística da região.
Ramos partidos é uma evidência importante (quem mais os poderia partir?), portanto não admira que a expedição que se seguiu – e cujas descobertas são agora o foco destas notícias – tenha também encontrado galhos e ramos partidos nas árvores, juntando-os à lista de «provas irrefutáveis».
Nada que possa causar muita surpresa. A conferência internacional que deu origem à expedição foi organizada pelo «doutor» Igor Burtsaev, diretor do International Hominology Centre de Moscovo. Não sabem o que é este centro? Eu também não, mas aposto que fica mesmo ao lado do edifício do Centro de Estudos Criptozoológicos dos Gambozinos.
Este «doutor» tem opiniões muito vincadas sobre o Yéti:
«Concluímos que estes seres são, em princípio, seres humanos porque eles até podem falar e comunicar com pessoas. São de uma espécie diferente da nossa, claro. Os Yétis estão bem adaptados à Natureza. O seu estilo de vida é semelhante ao dos animais. Não usam ferramentas, roupas ou fogo mas são bastante inteligentes.
Possuem as suas próprias armas – capacidades paranormais que os ajudaram a sobreviver e competir com outros animais. Eles mudaram-se para outra dimensão – vida crepuscular e vida em locais dificilmente acessíveis».
Possuem linguagem, mas não têm ferramentas. Têm capacidades paranormais e saltitam entre dimensões, mas não dominam o fogo. E vivem no crepúsculo, como aquele vampiro que deixa as meninas doidas.
É notável o que se pode deduzir a partir de ramos partidos, pegadas por identificar e «cabelos» por analisar.
Sim, porque os ramos partidos não são as únicas provas que a expedição encontrou. Os «cientistas» também descobriram pelos e pegadas. Os pelos ainda não foram analisados em laboratório, portanto tenho alguma dificuldade em entender que possam ser apresentados como «provas irrefutáveis» antes sequer de termos a certeza a quem pertencem.
Para o incremento turístico da região até um pintelho do Abominável seria suficiente, mas do ponto de vista científico é tão válido dizer-se que os pelos pertencem ao gajo das Neves como afirmar-se que pertencem ao pugilista Nikolai Valuyev – o único ser vivo deste planeta capaz de pregar um cagaço a qualquer Yéti.
(ver outro post no AstroPT)































8 comentários
O dia em que criptozoólogos forem considerados cientistas, é o dia em que o Pai Natal e a Rena Rudolfo farão a sua estrondosa aparição! E pelo caminho ainda trazem o He-man, a She-Ra, Reptilianos de Nibiru, naves espaciais Eleninas, e, quem sabe, toda a panóplia de criaturas descritas na cultura de AD&D…
Para os jornalistas, todo o estudo que é publicado (mesmo o que levanta mais reservas ou o mais absurdo) é cientificamente irrefutável. Pelo menos é o que dão a entender. Já repararam que todas as semanas é noticiado nos jornais um estudo que “comprova que as mulheres têm mais dificuldade que os homens em accionar o pisca para a esquerda” ou que “comprova que comer camarão cru enquanto se faz o pino faz crescer a barba”. Tudo é apresentado já como verdades científicas, chega a meter impressão…
Pelo boneco acima e pela descrição estou mais convencido que o
Yéti vive numa ilha do Atlântico, bem perto da costa portuguesa.
Não tem nada de misterioso pois está constantemente a ser visto, e até já foi confundido com um Monstro (Diabo) da Tasmânia.
Atão e ninguém diz que o Tony Ramos é o Yeti porquê???? é hirsuto!
Nós por cá, para não parecermos pelintras, há muitos anos que temos um abominável césar das neves.
A necessidade de garantir financiamento para continuar a demanda de disparates, obriga à divulgação destas “provas irrefutáveis” e das notícias associadas. Não se esqueçam, a velha máxima aqui também se aplica: “Falem bem ou mal, mas falem de mim.”
Se não ouviram falar no
ET Bilu, pequisem. “Busquem conhecimento”! Hahaha!!
Para mim foi uma partida do Chewbacca lol
Gostei particularmente do “provado em 95%” e de lhes terem chamado cientistas. A Arca de Noé também é re-encontrada todos os anos, mas aí a certeza costuma rondar os 99,9%