Tenho um amigo que é o melhor jornalista de música em Portugal. Um musicólogo reconhecido entre alguns músicos portugueses e virtualmente desconhecido do grande público.
Esse jornalista, tal como provavelmente muitas outras pessoas que não conhecemos, paga um preço terrível por preservar a sua integridade: embora trabalhe muito, vive sem saber como conseguir pagar todas as contas ao final do mês.
Ser-lhe-ia fácil escrever um artigo sobre a Lady Gaga, por exemplo, mas aposto que colocaria em destaque a iconografia e o marketing, e pouca atenção prestaria à música, alienando por completo o exército cor-de-rosa de fãs da «cantora». No commercial potential.
É fiel à sua integridade porque só escreve sobre música que ele considera merecedora de atenção: por a considerar esteticamente bela, mas também porque a sua imensa cultura musical lhe permite adivinhar e percorrer novos caminhos no preciso momento em que estão a ser trilhados pelos músicos. Consegue ser tudo isto que eu referi e, contudo, nada tem de elitista. É produto genuíno.
Poder-se-ia dizer que o homem também é parvo, deveria escrever umas tretas sobre a música da Lady Gaga ou fenómenos da moda semelhantes, ganhar a vidinha assim e fazer das outras músicas e dos outros escritos o seu hobby.
Tudo isto pode ser muito sensato, mas há qualquer coisa no ADN deste tipo de pessoas que as impede de fazer concessões. Têm uma necessidade quase fisiológica de se manterem fiéis a si próprias, como se a sua integridade constituísse uma espécie de força vital – alguns chamam-lhe «alma», outros «mania».
Lutar pela sobrevivência da sua integridade e manter a coerência das suas escolhas, custe o que custar, é para mim uma qualidade extraordinária. Eu não a tenho – fiz demasiadas concessões na vida. Por isso, alinho na teoria da «alma».
Infelizmente, a integridade é uma qualidade invisível que só se pode ver após alguns anos de observação. O mundo está cheio de pessoas com qualidades invisíveis, mas não são reflectidas pelo espelho, não frequentam uma Casa dos Segredos, se calhar nem ficam bem na televisão.
Qualquer medíocre ganha fama e proveito – basta ter a capacidade inata de aparecer bem enquadrado na caixinha. É este o mundo em que vivemos, virado para as qualidades mais visíveis e desvalorizando aquelas que só reconhecemos quando as conseguimos intuir – não estou a dizer nada de novo.
É um mundo que me aborrece à exaustão, mas felizmente tenho uma boa solução: naturalizei-me marciano.
É verdade, estou a escrever-vos directamente de Marte – e sempre que faço uma passagem pela Terra aprecio muito sentir-me, como no livro do Robert Heinlein, «um estranho numa terra estranha». Chego a uma banca de jornal e, à excepção de um camelo andrógino chamado José Castelo Branco, sou incapaz de reconhecer um único rosto nas capas das revistas de «celebridades».
Olhem que não é fácil chegar a este ponto. É preciso anos de prática. O televisor ocupa a sala como se tivesse a dignidade de um móvel, mas não passa de um electrodoméstico a quem um gajo cheio de bom senso acrescentou o botão de desligar. Desligá-lo é uma forma de ginástica mental também muito importante.
De todos os botões que existem no mundo, o de desligar continua a ser o meu preferido. No dia em que inventarem uns botões de jeito para os soutiens, é destronado nas minhas preferências; por enquanto, é o campeão incontestado.
Digo-vos já que quando for grande não quero ser astronauta, quero ser presidente de uma fábrica de botões de desligar e distribui-los gratuitamente a toda a gente. Uma espécie de projecto Open Source, mas dirigido à alma.
Quem experimentou a maravilhosa sensação de estar desligado sabe muito bem o que é ser marciano. Recomendo vivamente a viagem.






























13 comentários
Já sei, e vens em paz, bla bla bla…
Mas depois zapas-nos (esta do zapas não foi sem querer…) com um canhangulo de plasma para invadires o planeta e abancares por aqui outra vez.
Confesso que já sentia falta desta tua prosa mais intimista… é com isto que um gajo se sente em casa… quase me vejo na sala de estar do Bitaites, refastelado numa confortável poltrona de copo de whisky na mão e o silêncio todo branco nos ouvidos, entre as palavras que se sentem como melodias de um violoncelo de Bach… BRAVO!
Marco, quanto àquilo de que falamos, estás interessado em seguir ou não?…
Senhor Firewall, mande para cá um bocado do que está a beber, se faz favor.
Rui
Muita água, Rui, muita água.
LN. Hoje.
Confirmo. Tudo.
Descobri este blog ontem e estou a gostar do que tenho estado a ver, parabéns
bom texto… podia dizer mais mas fiquei sem palavras.
Gostaram? Óptimo. Então cliquem lá no botão de ligar o Paypal e comecem agora a tal revolução de que falávamos no outro post. Paguem voluntariamente pela qualidade do que este gajo produz que é para mantê-lo aqui, nosso, vivo e de boa saúde mental e física, pois precisará de ambos para escrever.
E ATENÇÂO: sei que não é disso que ele está a falar, não sou agente nem editor do gajo, não ganho percentual nem investi um tusto no site, mas já dei a minha contribuição voluntária pela qualidade do conteúdo aqui encontrado.
«…quando for grande não quero ser astronauta, quero ser presidente de uma fábrica de botões de desligar e distribui-los gratuitamente a toda a gente. »
O dia de hoje tá ganho!!
da-se
Muito bom, dos melhores posts que li neste blog. Abraço.
Quem é esse jornalista/crítico, Marco? Não queres revelar?
Victor, não há nada no artigo que o envergonhe, bem pelo contrário, mas prefiro preservar a sua privacidade. Ele reconhece-se no retrato e aceita que o seu caso seja neste texto um símbolo de muitas outras pessoas de valor que estão nessa situação e precisamente pelas mesmas razões.
Olá,
Há homens que lutam um dia : são bons !
Há homens que lutam vários dias : são muito bons !
Há homens que lutam toda a vida : São imprescindíveis !
Ouvi pela primeira vez estes versos numa cantora Chilena e chuviam balas sobre Santiago em 1973.
Só pouco depois é que soube que estes versos eram de Bretch. O que me levou a ler este autor. O que mostra que as formas simples são complementares das formas complexas ( tese dum autor totalmente esquecido : André Jolles ).
Estou disposto a apoiar financeiramente este blog, na medida das minhas magras posses.
Não tenho 14 meses de vencimento. Como qualquer funcionário prof Francês !
Não por viramento e-coisa, mas por transferência bancária.
Ehee : L’Exception Française !
Queda saber se o Bitaites entrará num projecto cooperativo, etc..
Se contribuo é porque penso que o Bitaites contribui para dignificar a língua dos meus avôs !
Nuno !