→ 29/11/2010 @15:55

Já não se fazem Corleones como antigamente

Don Corleone, por Dan Burke

Ontem o meu filho chamou-me três vezes a meio da noite. A primeira para o tapar; a segunda para o ajudar a atravessar um corredor sombrio e potencialmente cheio de perigos em direcção à casa-de-banho; a terceira para matar uma melga.

A melga estava pousada no smoking preto do Don Corleone. O meu filho tem um poster do Don Corleone no quarto – ainda não viu o filme, mas acha que a figura do Marlon Brando tem mais pinta que o Dragon Ball.

Don Corleone parecia relutante em ajudar-me. Observou o chinelo na minha mão com ar ofendido, enquanto afagava o gatinho que tinha ao colo.

«Eu acredito no chinelo», disse-lhe eu. «O chinelo não serve só para chinelar pela casa, é uma importante ferramenta de destruição massiva.»

Don Corleone deixou de fazer festinhas ao gato. «Por que razão você foi buscar o chinelo e não me pediu primeiro a mim

«Estou a pedir-lhe agora.»

«E que pedido é esse?»

Talvez um dia o meu filho recorde este como o momento em que o pai, sem óculos e míope, se inclinou como um sonâmbulo para o poster e sussurrou qualquer coisa ao ouvido de Don Corleone.

«Isso eu não posso fazer», respondeu o Padrinho.

«Arranjo-lhe um poster da Kate Beckinsale para lhe fazer companhia», prometi, alarmado.

Don Corleone suspirou. «Já estou aqui nesta parede há muito tempo, mas esta é a primeira vez que você me procura a pedir conselho ou auxílio. Nem me lembro da última vez que se deu ao trabalho de limpar o pó que se acumulou aqui no meu laço, está a ver esta mancha, já para nem falar daquele rasgãozinho ali na ponta».

«Eu não queria meter-me em sarilhos. Se as pessoas soubessem que eu falo com posters…»

«Pois, julgá-lo-iam louco em vez de o ver como alguém com facilidade em fazer amigos. Eu compreendo, o medo da loucura. Estamos rodeados de loucos, não vale a pena incomodar-se.»

Tentei descobrir a melga, mas não consegui. Pensei em ir buscar os óculos, mas o grito áspero de Don Corleone deixou-me petrificado.

«Loucos! Loucos que trabalham para sobreviver. Loucos desprezados pelo dinheiro. Loucos que rezam nas capelas do Multibanco. Loucos pelos pequenos luxos e gadgets que lhes dão a ilusão de que também podem viver. Como são pobres e nada têm, comprá-los faz com que se sintam vivos.»

«Preciso que o senhor dê uma chinelada na melga», disse eu, pouco interessado em que a conversa acabasse no belo iPad que comprara numa loja da Fnac. «Estou sem óculos e o seu smoking é preto, não se vê nada.»

«Pois, você acredita no chinelo, já sei. Acredita em resolver os problemas à chinelada. Esmagá-los, sem sequer os ver. E pede-me ajuda

«É uma questão de justiça. Essa melga…»

«Essa melga nunca poderá fazer-lhe a si o que você quer que eu lhe faça a ela: esborrachá-la.»

«Bem, então o que acha que pode fazer?»

Don Corleone sorriu, pousou cuidadosamente o gatinho no canto inferior esquerdo do poster, deu-lhe uma festinha para o consolar, inclinou-se para trás para buscar qualquer coisa e mostrou-me uma raquete.

«Está a ver esta categoria de ferramenta? Parece uma raquete, mas não é. Este fio de rede está electrificado, a corrente não afecta um ser humano ou um poster, mas se uma mosca ou uma melga é apanhada, desfaz-se em micro-segundos com um choque eléctrico fulminante! Isto vende-se a cinco euros na loja dos trezentos, é fantástico!»

«Mas basta-me o chinelo, Don Corleone…»

O Padrinho fez uma expressão de nojo. «Chinelo, que coisa velha! Você vai à loja online da Fnac com o Netscape? Claro que não! Está a compreender o meu ponto de vista, então? Cinco euros, e é por ser para si. Esta maravilhosa raquete fará de si um Federer dos mosquitos, um Nadal das moscas, este fantástico apetrecho tecnológico que mata de forma limpa, instantânea, vaporizante, irresistível!»

Don Corleone coçou o queixo e o papel do poster ficou amarrotado. «Isto faz-me pensar; será que no paraíso das moscas os anjos têm asas? Se tiverem não são nada de especiais, pelo menos do ponto de vista das moscas…»

«Mas eu não tenho dinheiro!»

«Far-lhe-ei uma oferta que não poderá recusar: você leva a raquete agora de borla, basta assinar aqui um documento em que se compromete a pagar-me cinco euros por mês nos próximos seis meses.»

6 comentários

  • 1
    vitor moreira
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows 7 Windows 7
    29 de Novembro de 2010 - 17:17 | Link permamente

    É por estas, e pelas outras, que vale sempre a pena!!
    A inspiração é isto, pegar num pormenor (pode ser um simples poster porque não?!) e ver o quão fantástico ele é. Só é preciso ser mestre…
    Boas inspirações.

  • 2
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    29 de Novembro de 2010 - 18:26 | Link permamente

    Marco, Marco, agora estás a perseguir melgas (ignoro o que são, serão mosquitos?) com o auxílio de d. Corleone?
    Esta inspiração deu-lhe utilidade aquele poster….eu passei pela fase destes instrumentos decorativos, quando rapazinho (sim já havia imprensa naquele tempo).
    Um abraço amigo e um beijo no fedelhito… :

  • 3
    Esperancinha
    com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
    30 de Novembro de 2010 - 09:49 | Link permamente

    Isto fez a minha manhã! (e ela já começou há umas boas 4 horitas…)

  • 4
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Windows Vista Windows Vista
    30 de Novembro de 2010 - 19:32 | Link permamente

    Fantástico naco de prosa Marco. Yummy :P

  • 5
    Pedro Fonseca
    com Firefox 3.6.12 Firefox 3.6.12 em Windows XP Windows XP
    1 de Dezembro de 2010 - 11:32 | Link permamente

    Que mau negócio, mas o senhor ainda tem alguns pensamentos do antigamente e a melga estava mesmo a ser incomodativa, acho que justifica os 30€.

    Afinal agua do deserto vale ouro. :lol:

  • 6
    com Google Chrome 7.0.517.44 Google Chrome 7.0.517.44 em Windows Vista Windows Vista
    1 de Dezembro de 2010 - 16:33 | Link permamente

    Isto é do melhor que já li na blogosfera. E não sou assim tão fácil de impressionar.