→ 23/03/2011 @2:31

Espetador ou espectador, eis a questão (*)

Scarlett Johansson fotografada por Sheryl Nields

Pelo menos duas pessoas afirmaram que deixarão de ler o Bitaites caso passe a ser escrito segundo o novo acordo ortográfico. Podem começar por cancelar os feeds porque é isso precisamente que vai acontecer, a partir de agora. Deste post.

Se uma mera mudança na forma – e não no conteúdo – é suficiente para deixarem de ser leitores, então é porque nunca o foram verdadeiramente. Se for esse o caso, eu também dispenso a visita.

Estamos a fazer uma tempestade num copo de água. Reagimos ao acordo ortográfico como se estivéssemos a ser vítimas de um processo de aculturação. Reagiria mais depressa se me falassem de telenovelas brasileiras – ora aqui está um exemplo que eu preferia que não tivéssemos assimilado. Nem precisámos de ser espetadores para comermos essa trampa; bastou sermos orgulhosos espectadores portugueses.

Consequências da introdução de telenovelas brasileiras e soap-operas americanas na nossa cultura? Instituir o fiteirismo como um modo de representação – eis a grande escola de teatro em Portugal. Confundir a vontade de ser ator com a ambição de ser famoso – eis a que está reduzida a nobreza de uma vocação. Acordo ortográfico? Uma ninharia, se o compararmos a fenómenos que de facto têm o poder de mudar o significado das coisas.

Quanto à nova forma de escrever, não me preocupa. É só uma questão de ortografia. Se um dia mudarem os símbolos de uma partitura, isso não ditará o fim da nona sinfonia de Beethoven; simplesmente significa que teríamos uma nova forma de chegar aos mesmos resultados.

A estranheza em relação à grafia de certas palavras – apontada neste post – é pessoal. Uma questão de hábito. Hábito de escrita. Tão profundo como o hábito de tomar um cafezinho no café da esquina. O café de outro estabelecimento não é forçosamente de menor qualidade só porque não o frequentamos. Estamos habituados a certas palavras – são nossas; se nos dizem que as devemos escrever de outra forma, sentimo-nos roubados. E se juntarmos à sensação de roubo um elemento estrangeiro co-responsável, então temos a nossa capacidade de raciocínio deturpada.

Mas eu escrevo todos os dias – em maior quantidade do que a maioria de vocês – e digo que continuarei a escrever da mesma maneira. Este acordo ortográfico não tem o poder de mudar o que eu sinto ou acredito. Continuarei a fazer-me entender, se me for possível. E continuarei a sentir-me tão português e tão ligado à língua universal do meu país como aqueles que são contra este acordo.

Ortografia é forma, não é conteúdo. A mudança de ortografia não muda o significado das palavras.

Dizer que um dia vamos passar a usar «enxergar» em vez de «ver» é falso e demagogo. Afirmar que este é um primeiro processo de transformação da nossa língua ao qual se seguirão outros ainda piores é um delírio que necessita de demonstração. E atacar o acordo ortográfico dando erros de português também é desprezar a ortografia que tão afincadamente se defende.

É pena que essa defesa não tenha surgido por si mesma. Todos os dias vejo na Internet atropelos à língua portuguesa que nenhum acordo ortográfico será capaz de fazer. Contudo, nunca achei que escrever com erros fosse assim tão grave – o pior é escrever sem ideias. Troco sem hesitar uma frase formalmente correta, mas vazia, por uma frase repleta de gralhas e cheia de sumo. Os erros corrigem-se; a falta de ideias é mais difícil. Exige mais independência de pensamento; exige respeito pelo conhecimento, não basta fazer choradinhos por causa de umas consoantes.

Incomoda-me também que esta defesa do «nosso» português dependa tanto do ataque ao «outro» português – o do Brasil. Atacamos o acordo como se a sua implementação não só significasse o início de um processo de aculturação, mas também de colonização – espero que ainda haja lucidez para se ver o exagero.

Um povo cujos indivíduos saibam pensar por si próprios não tem nada a temer. Nesse caso, por que razão parecem ter tanto medo que comecemos a escrever como os brasileiros? Uma nação com quase 900 anos de História ainda tem crises de afirmação?

(*) – Espetador ou espectador é uma falsa questão: na nova grafia, continuamos a ser espectadores.

63 comentários

  • 1
    com Firefox 4.0 Firefox 4.0 em GNU/Linux GNU/Linux
    23 de Março de 2011 - 03:10 | Link permamente

    Li diversos textos a respeito do acordo, tanto aqui no Brasil quanto em Portugal. As críticas são enormes nos dois países, ainda que por motivos diferentes, e eu mesmo tenho sérias restrições quanto a certas mudanças. Acho natural o desconforto, até certo ponto. Existem dois vetores que me parecem claros aí. De um lado há uma questão de identidade. Seres falantes são também constituídos pelo idioma que praticam. Para alguns, a simples mudança de ortografia (historicamente bastante comum, aliás) pode representar uma ameaça à própria subjetividade. Quando essa ameaça se mistura a questões de identidade nacional a coisa fica ainda pior, e leva a disparates maiores. Torna-se uma verdadeira paranoia. Por outro lado, há uma questão de transitoriedade. Quando adolescente, eu pegava livros publicados no Brasil durante os anos 60 (acho que houve um acordo em 1971) e ficava espantado com aquelas palavras tão diferentes das que eu havia aprendido. Me parecia (e era) uma maneira morta de expressão, palavras ligadas a um mundo velho, a um mundo que deveria ser em preto e branco apenas. Hoje, acredito que ficamos com a impressão de envelhecer junto das palavras que estão mudando. Temos medo de nos tornarmos tão ultrapassados quanto os livros de páginas amareladas que encontrávamos nas estantes cheias de poeira.
    Mas, como você bem escreve, isso não acontecerá. São apenas maneiras diferentes de escrevermos as mesmas coisas. Escrevi minha dissertação fazendo uso do novo acordo, escrevo meu blog já respeitando essas regras e meu próximo livro também, e não estou morrendo por isso. Penso (apesar das mudanças que não gosto) que é uma reinvenção bastante válida. Gosto muito de sua postura a respeito.

  • 2
    starglider
    com Firefox 3.6.4 Firefox 3.6.4 em Fedora 13 x64 Fedora 13 x64
    23 de Março de 2011 - 08:40 | Link permamente

    Deixar de ler não deixo, deixo é de carregar nos anuncios, sim
    porque o acordo ortgrafico tem duas vertentes:
    a globalizadora e a economica.
    A primeira é para nos uniformizar, dificultando a existencia de culturas/ortografias non standart.
    A segunda e a mais importante permite que os livros do Miguel Sousa Tavares sejam impressos de uma vez e possam ser vendidos em todos os paises (por enquanto ) de lingua Portuguesa,
    eliminando os custos de conversão para as outras ortografias.

    • 3
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 08:49 | Link permamente

      Os anúncios não estão aqui para serem clicados pelos leitores.
      Se o fazias em consideração ao blogue, agradeço-te a intenção, que é boa, mas isso só me prejudica junto do Google. Para mim até é melhor que só se clique quando o interesse no que lá está for genuíno.

    • 4
      com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
      28 de Março de 2011 - 14:35 | Link permamente

      Caro starglider;

      Obras de autores portugueses (Miguel Sousa Tavares, José Saramago, Miguel Esteves Cardoso) são publicadas no Brasil sem “tradução”, mesmo que o autor não peça isso explicitamente; suas editoras acreditam que “verter” o português de Portugal para o português do Brasil é, grosso modo, desvirtuar o que o autor escreveu.
      Abs,

      Suzana

  • 5
    Gilberto Almeida
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
    23 de Março de 2011 - 09:26 | Link permamente

    Epá, não vou deixar de ler… mas que enerva, enerva. :-(

    • 6
      com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6
      23 de Março de 2011 - 09:41 | Link permamente

      Gilberto! Vamos criar uma petição no Facebook, para que o Bitaites tenha duas versões :) Uma com o novo acordo, outra à antiga :)

      Bora para o Facebook? )

      • 7
        com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows 7 Windows 7
        23 de Março de 2011 - 16:08 | Link permamente

        Concordo e assino essa petição :P

        @Marco:

        pá, à primeira vista este título parecia-me um título porno classe B.
        um “espetador” agarra por trás e pimba… já um “espectador” fica a ver o que é que dá a espetadela!!!

    • 8
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 09:44 | Link permamente

      Gilberto, este post já foi escrito segundo o novo acordo. É assim tão diferente? :-)

      • 9
        com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6
        23 de Março de 2011 - 09:51 | Link permamente

        É diferente Marco, é diferente porque me obriga a parar de vez em quando, para pensar. Os espetadores, travam-me, o ator, trava-me, o correta, trava-me. É ler em pára – arranca. Obriga-me a pensar na forma, e a dispersar-me do conteúdo :)

        Dirás que é uma questão de hábito, e, eventualmente, será, mas vai demorar :)

        • 10
          com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
          23 de Março de 2011 - 09:53 | Link permamente

          É só a troca de uma convenção por outra, nada de especial. Habituas-te depressa. :-)

        • 11
          Gilberto Almeida
          com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
          23 de Março de 2011 - 10:17 | Link permamente

          A Maria João tem razão. São os pequenos “interrupts” que o teu cérebro passa a ter de processar quando depara com palavras como “direto” no ecrã de televisão.
          Cada interrupt tem um custo de processamento diferente de zero, como pode atestar quem já tentou concentrar-se enquanto o telefone toca constantemente.
          Vamos habituar-nos? Vamos com certeza. Mas não vai ser fácil. E eu dispensava bem esta mudança, que não tem uma razão plausível para existir.

  • 12
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Mac OS X 10.6 Mac OS X 10.6
    23 de Março de 2011 - 09:36 | Link permamente

    Buuuu para a decisão.

    Mas por cá andarei, evidentemente :)

  • 13
    Gilberto Almeida
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
    23 de Março de 2011 - 09:54 | Link permamente

    Relativamente ao acordo ortográfico, a minha opinião é a seguinte: os ingleses, americanos, australianos, sul-africanos, etc. não precisam de nenhum acordo para se entender. Uns continuam a escrever ‘color’ e outros ‘colour’. E não há mal nenhum nisso.
    Porque raio temos nós de ter uma grafia uniforme para países com culturas tão distintas? Não nos entendemos todos na mesma?
    A língua é de quem a fala, o governo pode acordar e decretar o que quiser, os jornais, revistas, e TVs (e alguns blogues) podem baixar as orelhas acatar as decisões como boas ovelhinhas que são. Eu vou continuar a lutar contra este acordo, porque não concordo com ele.

    • 14
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 10:00 | Link permamente

      Baixar as orelhas é abdicar de lutar por aquilo em que se acredita. Ao escrever desta forma não estou a abdicar de nada nem a baixar as orelhas a ninguém, pelo contrário.
      O que eu estou a fazer é não baixar as orelhas a quem está contra o acordo – há sempre dois lados da questão, e não vale a pena meter de um lado os corajosos lutadores e do outro os que baixam as orelhas. Se para ti vale a pena lutar contra o acordo, força; mas isso não significa que quem não concorda com a tua luta esteja a baixar as orelhas.

      • 15
        Gilberto Almeida
        com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
        23 de Março de 2011 - 10:54 | Link permamente

        É um assunto que me enerva, sorry!

        • 16
          António
          com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows Vista Windows Vista
          23 de Março de 2011 - 15:27 | Link permamente

          Eu não tenho opinião quanto ao acordo mas a mim enerva-me ler expressões, palavras e frases escritas em inglês – quando nós temos e tivemos substitutos perfeitos para os ditos. Quando não há, é-me indiferente se são inglesas, francesas, gregas ou brasileiras…

          Quer dizer, enerver não enerva, pouco me irrita nos dias que correm, mas não compreendo como se pode misturar a defesa do acordo ou da língua e usar uma palavra inglesa na mesma frase. :D

  • 17
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows XP Windows XP
    23 de Março de 2011 - 10:14 | Link permamente

    O anarco-primitivista John Zerzan afirma que a língua é uma das mais poderosas formas de conformismo. Apeteceu-me escrever isto.

    • 18
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 11:06 | Link permamente

      E como relacionas essa frase do Zerzan com a discussão sobre o acordo? Isso é que me interessa saber. :-)

  • 19
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows XP Windows XP
    23 de Março de 2011 - 10:18 | Link permamente

    Here we go again…

    Gosto da foto. Parabéns pela (tua) tomada de posição.

    h.udo

    • 20
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 10:22 | Link permamente

      Na verdade tudo isto foi só um pretexto para meter mais uma foto da Scarlett…

      • 21
        com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows Vista Windows Vista
        23 de Março de 2011 - 10:33 | Link permamente

        :)

      • 22
        Gilberto Almeida
        com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Ubuntu 10.10 x64 Ubuntu 10.10 x64
        23 de Março de 2011 - 10:47 | Link permamente

        Nada contra a Scarlett. Escusavas de mudar de língua para isso, bastava postar a foto. :-)

        • 23
          com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
          23 de Março de 2011 - 10:51 | Link permamente

          Como o título do post brinca com o espetador/espectador, a foto pareceu-me apropriada… :mrgreen:

      • 24
        com Firefox 3.6.16 Firefox 3.6.16 em Windows XP Windows XP
        24 de Março de 2011 - 16:03 | Link permamente

        Quando falei em tomada de posição, estava a referir-me à foto… :mrgreen:

        Compreendo a tua posição, mas prefiro a da foto. :twisted:

        h.udo

  • 25
    Cláudio Dias
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows 7 Windows 7
    23 de Março de 2011 - 10:31 | Link permamente

    Até agora, o acordo só me passou a impressão de fazer dinheiro.
    Ora são acordos entre editoras brasileiras, ora são dicionários novos que são feitos para render o peixe, fora o que não sai cá para fora.
    Sempre me ensinaram que um país é caracterizado pela sua língua, pelas suas cores, brasão, cultura, a sua moeda. Sim, porque o desaparecimento do escudo também me está atravessado na garganta, mas pronto, nessa altura ainda era um catraio, disseram-me que tinha que ser e toma lá um gelado e não chateies. :lol:
    Agora quanto ao acordo: é ridículo! Tenho o documento com as alterações e parece um livro de comédia. Ora de um lado muda, do outro não, como por exemplo: cor-de-rosa mantém o hífen, mas cor-de-laranja (cor de laranja) já não! Quem diz isto, diz a omissão do ‘c’, ‘p’ que supostamente são mudas. O tanas!!! A mim sempre me ensinaram EgiPto, eu digo o ‘p’, tal como em caraCterização, eu digo o ‘c’. Mas agora só porque os políticos são fanhosos ou têm sotaque à cigano, eu tenho que me os aturar? Mas estão a gozar comigo?!? 8O
    Tal como disse o Gilberto Almeida, dos ingleses e por aí fora, se eles não tiveram necessidade de tal parvoíce, porque raios temos nós que ser os parvos?
    Eu não mudo! Posso ser tacanho, mas ainda sou livre…
    Mas mesmo assim, não vou deixar de visitar o blog.

    Um abraço

  • 26
    com Safari Safari em GNU/Linux GNU/Linux
    23 de Março de 2011 - 10:53 | Link permamente

    Marco +1 muito bom artigo….. A paragem que as pessoas têm a ler não é causada pelo inabilidade de entender o que lá está escrito, é sim o contablistazinho interno que nos temos a dirzer, “AÍ MEU DEUS UM ERRO, AÍ AÍ, actor sem c, meu deus, isso é já duas reguadas”
    Eu que dou mais erros que a conta (dizem alguns que é dixléxia) que levei centenas de Reguadas na primária, e que se tivesse estes contabilistas como professores nunca tinha passado da mesma primária, digo…. O importante é o que se diz, cultura é conteudo, a forma, é so o papel de embrulho.

  • 27
    com Internet Explorer 8.0 Internet Explorer 8.0 em Windows XP Windows XP
    23 de Março de 2011 - 10:56 | Link permamente

    Marco, sigo o teu blog acerca de 3 anos nunca fui muito de comentar, existem duas alterações enormes (para alguns) no teu querido espaço que me fazem comentar com mais frequência. A publicidade e a nova forma de escrever, sou a favor da primeira e não da segunda, acho muito “abrasileirado” o novo acordo. Já alguém aqui falou de criar uma petição no facebook contra a tua opção eu já pensei no mesmo. lol.

    Talvez seja só uma questão de hábito é verdade, mas deixar de ler o teu blog como duas pessoas afirmaram é impensável. A qualidade continua a mesma, as tuas ideias, as gajas, aquele jeito de escrever que define a diferença dos teus textos está aí!

    Eu ainda sou daqueles que visito o teu blog abrindo o navegador e digito no motor de busca BITAITES, depois – depois é só deliciar-me com o conteúdo! Seja mais fácíl ou difícil de ler!!!

  • 28
    com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    23 de Março de 2011 - 11:00 | Link permamente

    Daniel, não te preocupes que vou continuar a escrever da mesma maneira, só com umas consoantes a menos. E depois há outra coisa: se uma determinada grafia me incomodar, troco por outra palavra que signifique o mesmo e não tenha sido mudada.

    Dos brasileiros, confesso, invejo uma palavra: bunda. Palavra bonita, pá! :D

    • 29
      com Internet Explorer 7.0 Internet Explorer 7.0 em Windows XP Windows XP
      28 de Março de 2011 - 14:41 | Link permamente

      Oi, Marco;

      “Bunda” é uma contribuição africana. Vem do quibundo (Angola e Congo). Você deve gostar porque “bunda” parece ter a mesma raiz de “abundância” (que vem do latim abundantia).
      Bjs,

      Suzana

  • 30
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows XP Windows XP
    23 de Março de 2011 - 11:40 | Link permamente

    Marco, usando as palavras do próprio Zerzan:

    “The essence of language is the symbol. Always a substitution. Always a paler re-presentation of what is at hand. What presents itself directly to us.

    (…)
    It is grammar that establishes language as a system, reminding us that the symbolic must become systemic in order to seize and hold power. This is how the perceived world becomes structured, its abundance processed and reduced. The grammar of every language is a theory of experience, and more than that, it’s an ideology. It sets rules and limits, and grinds the one-prescription-fits-all lenses through which we see everything. A language is defined by grammatical rules (not of the speaker’s choosing); the human mind is now commonly seen as a grammar- or syntax-driven machine.

    (…)
    Language, and symbolism in general, are always substitutive, implying meanings that cannot be derived directly from experiential contexts.

    (…)
    Language is conformist in the profoundest sense; even objective reality yields to its pressure. The so-called factual is brought to dissolution, because it is shaped and constrained by the limits of language. Under its reductive force, we forget that we don’t need symbols to be present to meaning.”

    Não sei se baralhei ainda mais a questão… :?

    • 31
      com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows XP Windows XP
      23 de Março de 2011 - 11:42 | Link permamente

      Quero dizer: aceitando que a grafia não é irrelevante – já que “the grammar of every language is a theory of experience, and more than that, it’s an ideology” – a verdade é que a própria língua, enquanto instrumento, é apenas uma substituição da realidade em si. Nessa medida, usa a língua na forma que quiseres, é irrelevante, desde que te faças entender.

      • 32
        Nuno
        com Safari 5.0.4 Safari 5.0.4 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
        23 de Março de 2011 - 13:11 | Link permamente

        RS, concordo com o que dizes. Vem apoiar o que digo mais abaixo sobre a forma ter mais importância do que suposto atribuir e de que o “meio é a mensagem”. Realmente o que é mesmo importante é que entendamos a mensagem, mas obviamente é também importante que tentemos falar no mesmo “código”. Felizmente somos humanos e não máquinas e temos a inteligência adaptativa para entendemos subvariações do mesmo código.

  • 33
    Nuno
    com Safari 5.0.4 Safari 5.0.4 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
    23 de Março de 2011 - 12:19 | Link permamente

    “Acordo Ortográfico – A Batalha Bitaitiana – Parte 3 e ½”

    Em breve no seu blog favorito do costume. Trailer já disponível.

    Nota: Recomenda-se prudência na leitura de comentários. Certas discussões podem ferir a sua sensibilidade.

    :)

  • 34
    Jónatas
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Março de 2011 - 12:20 | Link permamente

    Compreendo sua argumentação mas não aceito a conclusão.
    A língua de um determinado país tem uma evolução natural e não me parece razoável utilizar um argumento economicista para esta “colonização” linguística.
    Não pretendo ser radical nesta questão, mas custa-me aceitar estas concessões.

    Nuno: a ortografia é essencial para criar um padrão que facilite uma comunicação inteligível.
    “O importante é o que se diz, cultura é conteudo, a forma, é so o papel de embrulho.”
    Será que por não ter tido um “contabilista” na primária nunca vai distinguir cozer de coser (exemplo elementar)?

    Cumprimentos a todos e a si também Marco

  • 35
    salty
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Março de 2011 - 12:23 | Link permamente

    bravo, marco! ainda estou a bater palmas…

    aprecio que passes a escrever segundo o novo acordo, mas o que de facto acho admirável é a tua postura. não precisas do meu aplauso, claro está, mas não o posso evitar.

    não me parece que alguém deixe de ler o bitaites por isto, mas se tal acontecesse não acredito que o blog saísse prejudicado. nenhum produto/blog/coiso pode agradar a todos, por isso nem vale a pena tentar.

    quem te lê, fá-lo pela tua orgulhosa independência e pela scarlett, como bem sabes. enquanto nos continuares a alimentar, concordando contigo ou não, ninguém arreda o pé!

  • 36
    Nuno
    com Safari 5.0.4 Safari 5.0.4 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
    23 de Março de 2011 - 12:43 | Link permamente

    Marco, há uma parte do teu post que me está a deixar pensativo porque estás a tentar separar demasiado “as águas”.

    Se uma mera mudança na forma – e não no conteúdo – é suficiente para deixarem de ser leitores, então é porque nunca o foram verdadeiramente. Se for esse o caso, eu também dispenso a visita.

    Ora acho que aqui estás a sub-valorizar um pouco a “forma”. Como já dizia o McLuhan “o meio é a mensagem”. De uma certa maneira a forma é também parte da mensagem. Da mesma maneira que o aspecto gráfico do teu blog é parte da mensagem também o é a forma como escreves os teus posts. Não podes esquecer que a mudança de forma neste caso representa a adopção de um conceito que alguns podem não se identificar. Poderá haver uma verdadeira separação entre forma/contéudo numa mensagem?

    Talvez não devas ser tão sei lá “rancoroso” com essas pessoas. As coisas não são assim tão simples e tem-se sempre de tentar compreender o outro lado. Relaxa… :)

    • 37
      Nuno
      com Safari 5.0.4 Safari 5.0.4 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
      23 de Março de 2011 - 12:51 | Link permamente

      Já agora Marco, há algo de estranho na edição posterior dos comentários. Pelo menos aqui no Safari ficam alinhados à direita e os últimos caracteres surgem à esquerda. É estranho e confuso editar. Tem de se fazer tentativas até se acertar no que se quer “fazer”.

    • 38
      Pedro
      com Firefox 4.0 Firefox 4.0 em Windows XP Windows XP
      27 de Março de 2011 - 02:32 | Link permamente

      Essa comparação entre a forma de escrever e o aspecto gráfico do blog –que o Marco nunca descura e está sempre a afinar– está excelente :wink:

  • 39
    Joaquim
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Março de 2011 - 13:30 | Link permamente

    como fica “contacto” e “apto”?

    • 40
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 15:29 | Link permamente

      @Joaquim Contacto fica em contacto, apto fica apto :-)

  • 41
    Hugo Cordeiro
    com Safari 5.0.4 Safari 5.0.4 em Mac OS X 10.6.6 Mac OS X 10.6.6
    23 de Março de 2011 - 16:04 | Link permamente

    @Marco,

    “Uma ninharia, se o compararmos a fenómenos que de facto têm o poder de mudar o significado das coisas.”

    De fato uma ninharia :D

    Comu dis uma grand amigga, agoura com o acrodo autográficu pods xcreveir comu bãe atenderes! :D

    • 42
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      23 de Março de 2011 - 16:11 | Link permamente

      Hugo, ao contrário do que dizem os detratores do acordo, de facto mantém-se válido. O mesmo já não acontece à palavra detrator, claro ;)

  • 43
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
    23 de Março de 2011 - 16:25 | Link permamente

    Andei a olhar para isto há uns dias.

    http://www.portoeditora.pt/acordo-ortografico/conversor-texto/

    Não percebo porque raio numa palavra como interactivo, onde o “c” é pronunciado, fica interativo. Outra questão é o que acontece à acentuação do “a”, não deveria ser pelo menos interátivo, já que sem o “c” se devia ler interativo com um “a” fechado?

    • 44
      Luis
      com Google Chrome 11.0.696.14 Google Chrome 11.0.696.14 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
      23 de Março de 2011 - 23:10 | Link permamente

      Na palavra interativo não se pronúncia o c em lado nenhum.

      • 45
        com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
        24 de Março de 2011 - 09:43 | Link permamente

        Só se for no Brasil, porque cá o “c” de interactivo pronuncia-se e bem.

  • 46
    com Firefox 3.6.15 Firefox 3.6.15 em Windows Vista Windows Vista
    23 de Março de 2011 - 22:32 | Link permamente

    Boa decisão Marco, apesar de “não gostar” do novo acordo.

  • 47
    Luis Santos
    com Google Chrome 10.0.648.151 Google Chrome 10.0.648.151 em Windows 7 Windows 7
    23 de Março de 2011 - 22:38 | Link permamente

    Então e facto passa a fato? É igual?! Egito por Egipto ainda serve, mas agora um habitante do “Egito” é um egicio? Não gosto nada!!

    • 48
      Luis
      com Google Chrome 11.0.696.14 Google Chrome 11.0.696.14 em Windows 7 x64 Edition Windows 7 x64 Edition
      23 de Março de 2011 - 23:11 | Link permamente

      Continua a escrever-se egípcio porque o p pronúncia-se…

  • 49
    com Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) em Windows XP Windows XP
    23 de Março de 2011 - 22:59 | Link permamente

    Olá ,

    Parabéns pelo post !

    Se dúvidas houvessem : ” Como acordarom todollos fidalgos e os poboos, que alçassem o meestre Davis por Rei ” ( p. 419, Crónica de D. João I, ed Libraria Civilização, Barcelos 1983 ).

    @ Marco : Não esquecer que a grafia também diz respeito aos países lusófonos Africanos. E que de Angola hasta Brasil somos la misma história, numn olvidando Porthoghalle.

    Nuno

  • 50
    Sérgio SP/Brasil
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    24 de Março de 2011 - 17:28 | Link permamente

    POR QUE SOU A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO (Parte I)

    1º – Porque não somos donos da língua portuguesa. Existem cerca de 230 milhões de lusófonos no planeta, e em Portugal, somos apenas 10 milhões. Fundámos a sociedade, mas detemos só 5 por cento das acções. Queremos mandar em quem?

    Esse notável instrumento de comunicação representa, a par das Descobertas, um dos nossos maiores legados para a cultura universal. Criámo-la, mas constituímos uma minoria das pessoas que a falam. Ela é já muito maior do que nós. Fernando Pessoa, cidadão da palavra, compreendeu isto quando afirmou, há um século: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.

    2º – Porque considero necessário e útil um instrumento regulador.
    As línguas são vivas e tendem a diversificar-se em cada dia que passa. Basta pensarmos no crioulo de Cabo Verde e lembrar os escritos de Mia Couto.

    As pressões de outros países sobre os PALOPs não vão deixar de crescer e hão-de ter também repercussão linguística.

    Dentro em breve, com acordo ou sem ele, os livros escolares dos PALOPs serão feitos no Brasil, onde os custos de produção são mais reduzidos. As telenovelas brasileiras constituem um instrumento poderoso de divulgação da língua. Não somos suficientemente competitivos nessa área.

    Quer nos agrade, quer não, se a língua portuguesa perdurar no mundo, será na versão brasileira.

    3º – Porque considero melhor existir um mau acordo do que não haver nenhum e deixar a língua à solta, sem nenhum mecanismo que tente, ao menos, regulá-la. São necessárias directrizes que exerçam um papel de contenção e de estruturação nas variantes que estão a nascer espontâneamente, um pouco por toda a parte.

    E, tanto quanto sei, o acordo nem é assim tão mau. Não sou linguista e mal me atrevo a meter a foice nesta seara mas, a meu ver, boa parte das alterações propostas vem apenas apressar uma evolução que iria ter naturalmente o mesmo resultado, anos mais tarde. Para que servem as consoantes mudas ou não articuladas?

    E não lhe chamem novo! Tem 19 anos, embora tenha sido recentemente ratificado por Portugal. Provavelmente, está ultrapassado. Nos “SMS” dos telemóveis, o K está a fazer ao QU, quando o U não se pronuncia, o mesmo que o F fez ao PH, tempos atrás. Mais tarde ou mais cedo, este fenómeno terá repercussão na escrita formal.

    Há questões que ultrapassam os acordos. Em primeiro lugar: quem irá cumpri-lo? Eu, não! Tenho 66 anos e não vou mudar agora. Sou incoerente? Nem tanto. A mudança deve começar nos bancos da Escola Primária. Será opcional nas Universidades da Terceira Idade… A transição poderá ser fácil se a nova grafia conquistar o seu espaço no Windows.

    E os brasileiros? Sabem que são os mais fortes nesta área e que o tempo joga a favor deles. Tanto dá! Acreditem ou não, tenho poucas saudades do tempo em que farmácia e outras palavras correntes se escreviam com ph. (Texto de António Trabulo).

  • 51
    Sérgio SP/Brasil
    com Firefox 3.6.16 Firefox 3.6.16 em Windows XP Windows XP
    24 de Março de 2011 - 17:31 | Link permamente

    POR QUE SOU A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO (Parte II)

    Não se trata de desprezo pela língua portuguesa, e muito menos pela cultura. Trata-se, sim, de uma forma de expandirmos os nossos horizontes, de disponibilizarmos um texto passível de ser compreendido entre todas as comunidades lusófonas.

    Dizer que o novo acordo ortográfico é contra o idioma português é algo totalmente errado, dado que a língua portuguesa tem evoluído ao longo dos anos, não é uma língua morta. É impensável para os órgãos de comunicação manter a escrita “antiga. A maior vergonha e atentado contra a língua portuguesa é mesmo não saber escrever, seja respeitando a antiga e/ou a nova regra ortográfica!

  • 52
    Sérgio SP/Brasil
    com Firefox 3.6.16 Firefox 3.6.16 em Windows XP Windows XP
    24 de Março de 2011 - 17:35 | Link permamente

    O (des)acordo ortográfico

    Eu sou a favor do acordo, e reconheço que mudar nunca foi e nunca será considerado algo fácil. Sempre que precisamos mudar algo em nossas vidas, seja um novo caminho para o trabalho, uma nova rotina ou um novo número de telefone nos deparamos com um sentimento de desconforto e angústia frente ao novo. Este é um mecanismo natural dos seres humanos a fim de economizar energia física e psicológica (RANGÉ, 2001).

    Do ponto de vista individual, mudar constitui-se em uma tarefa árdua, pois representa uma série de sintomas e fenômenos pelos quais o ser humano passa, tais como desconforto psíquico, adequação a novos modelos mentais, novos relacionamento interpessoais, sentimentos de insegurança e medo e o esforço físico exigido por novas exigências (ROBBINS, 2005).

    O mundo lusófono é avaliado hoje entre 190 e 230 milhões de pessoas. O português é a oitava língua mais falada do planeta, terceira entre as línguas ocidentais, após o inglês e o espanhol. O português é a língua oficial em oito países de quatro continentes, vejamos:

    País Habitantes %
    1º Brasil 190.000.000 81,55%
    2º Moçambique 18.800.000 8,07%
    3º Angola 10.900.000 4,68%
    4º Portugal 10.500.000 4,51%
    5º Guiné Bissau 1.400.000 0,60%
    6º Timor Leste 800.000 0,34%
    7º Cabo Verde 415.000 0,18%
    8º São Tomé e Príncipe 182.000 0,08%
    Total: 232.997.000 100%

    Lendo os comentários, percebo que o “grosso” dos argumentos a favor e contra parecem situar-se em dois grupos.

    No campo contrário ao acordo está o nacionalismo exacerbado dos “donos” da língua. A ideia de base é que quem quiser escrever português genuíno tem de escrever como eles; os outros escrevem português de segunda categoria.

    Sendo assim, os verdadeiros “donos” do português não são afinal os portugueses, na sua maior parte, pois tendem a escrever “républica” ou “voçê”, pronunciam as palavras à sua maneira, e a gramática que usam não corresponde à normatizada.

    Aliás, seguindo a mesma linha de raciocínio, o português devia ser abolido porque é originalmente uma corrupção do latim de pé descalço. Nada de surpreendente neste campo, exceto o velho pensamento preconceituoso e colonialista português.

    No campo favorável ao acordo os argumentos dividem-se em duas fantasias extravagantes. A primeira é que o acordo permite unificar a língua. A segunda é que isso é importante para fazer circular os livros.

    Que o acordo ortográfico não pode unificar uma língua é óbvio se pensarmos que a ortografia é uma pequena parte da língua. As diferenças mais profundas entre o português de Portugal e o do Brasil são gramaticais e lexicais e não ortográficas. E o mesmo acontece provavelmente com as variantes africanas e timorenses da língua.

    Unificar a ortografia é como unificar a cor dos carros para se ficar com a sensação de que todos andam de BMW. Assim, mesmo que a unificação da língua fizesse circular os livros, o acordo ortográfico seria inútil porque não unifica a língua.

    Daí segue-se que as pretensas vantagens do acordo são como as vantagens de ter gnomos de barro no jardim: São decorativos, mas não fazem a poda por nós. Com acordo ou sem acordo, os livros entre os diversos países circularão se os empresários do setor quiserem que circulem nada mais.

    Não há qualquer impedimento ortográfico à presença dos livros portugueses no Brasil. Na verdade, nas bibliotecas brasileiras encontram-se diversos livros portugueses e ninguém se queixa das diferenças ortográficas.

    O acordo ortográfico revela a mentalidade mágica que é em parte responsável pelo subdesenvolvimento social e cultural dos países de língua portuguesa. Segundo essa mentalidade, a falta de iniciativa empresarial, de cooperação acadêmica e de produção intelectual resolve-se fazendo leis.

    E por isso temos leis. O que quase não temos a circular nos nossos países são publicações de qualidade sobre filosofia, história, física ou matemática (ou gramática) e que sejam originalmente escritas em português. Temos traduções medíocres de livros dos anglófonos, que não têm leis sobre a ortografia.

  • 53
    Sérgio SP/Brasil
    com Firefox 3.6.16 Firefox 3.6.16 em Windows XP Windows XP
    24 de Março de 2011 - 17:41 | Link permamente

    POR QUE SOU A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO (Parte III) – Citações

    Depois que cansei de procurar aprendi a encontrar. Depois que um vento me opôs resistência, velejo com todos os ventos. (Friedrich Nietzsche)

    Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. (Charles Darwin)

    As mudanças nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor. (Richard Hooker)

    As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem. (Chico Buarque)

    O novo sempre despertou perplexidade e resistência. (Sigmund Freud)

    O mundo detesta mudanças e, no entanto, é a única coisa que traz progresso. (Charles F. Kettering)

    De tudo que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade. (Virginia Woolf)

    • 54
      com Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) Internet Explorer 8.0 (Compatibility Mode) em Windows XP Windows XP
      24 de Março de 2011 - 23:33 | Link permamente

      Olá ,

      Parabéns pela exposição.

      Eu também sou a favor do acordo.

      Porém, não creio que a questão se possa resumir unicamente a interesses financeiros. Até porque sem poetas, escritores… a edição não existe.

      O que é interessante neste acordo, com as suas minimalidades, é o questionamento que ele levanta e que é transversal a quem é contra e quem é a favor.

      É a escrita um código ou não ? Talvez seja este debate que preocupe quem é dono da língua.

      Código simples ( popular) ou código complexo ? Luta de classes ?

      Organicamente, não existem diferenças entre o português e o brasileiro. Os verbos Ser e Estar são bem específicos e inerentes à prosa de Guimarães Rosa e de Fernando Pessoa.

      Os campos lexicais são uma questão superficial mas não orgánica. Se no Porto se diz picheleiro e em Lisboa … depressa se aprende.

      A questão gramatical diz também respeito à aprendizagem. Me chamo ? Chamo-me ? E se os Parisienses têm três “e” já os habitantes de Toulouse só têm 2. O que inicialmente pode provocar dificuldades a uma professora primária vinda de Toulouse e chegada a Paris depressa se resolve.

      Já muito mais difícil é saber explicar porque é que, quer Guimarães Rosa ou Fernando Pessoa, empregam o verbo estar, por definição um verbo que indica um estado passageiro ou momentâneo, quando escrevem sobre alguém que morreu : Está morto !

      Vai ressuscitar ? Ou é morto ?

      O acordo parece-me também importante para poder guardar esta “organicidade” e este questionamento que toca a essência humana. Mas é bem sabido : Nada melhor que dividir para melhor reinar.

      Nuno

  • 55
    Pedro
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    27 de Março de 2011 - 02:18 | Link permamente

    Lamento que tenhas optado por essa forma artificial (sim, artificial) de escrever, mas não me vou alongar mais, sobre este assunto já disse tudo o que tinha a dizer.
    Eu vou continuar a seguir o blog, mas agora as chances de eu e outros ‘tropeçarmos’ em palavras estranhas será maior, enquanto que antes todos percebíamos, e isso vai afectar, mesmo que por 1 ou 2 segundos, a interiorização do teu conteúdo.

    Importava-me menos com a adopção de novas palavras tipo “enxergar”, ou ver gente a escrever “à sms”, do que isto, porque ao menos não iriam nunca substituir as antigas.

    E por favor diz que não foram os outros dois que afirmaram não vir cá mais, que te ajudaram a tomar essa decisão.

    E Marco, dizer que é só uma questão de forma é estar a ser muito redutor. É uma questão cultural e de identidade como já foi aqui dito, e é sempre chato quando querem mudar à força estes 2 factores, especialmente quando os motivos pelos quais os querem impôr se esboroam à mínima análise superficial, e sabendo que este acordo vai criar mais problemas do que aqueles que “supostamente” resolve.

    • 56
      com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
      27 de Março de 2011 - 02:23 | Link permamente

      E por favor diz que não foram os outros dois que afirmaram não vir cá mais, que te ajudaram a tomar essa decisão.

      Não Pedro, não foram mesmo, mas achei por bem lembrá-los no princípio do post que avisos desses não pegam.

      • 57
        Pedro
        com Firefox 4.0 Firefox 4.0 em Windows XP Windows XP
        27 de Março de 2011 - 02:40 | Link permamente

        Ok, ainda bem :-) . Tinha a ideia que não, mas mesmo assim perguntei para para tirar a dúvida.

        Chiça, há pouco escrevi “artificial” 2 vezes seguidas e das 2 saiu-me mal :P
        Estar a escrever a estas horas faz com que já nem carregue em metade das teclas. Já corrigi.

  • 58
    com Firefox 4.0b13pre Firefox 4.0b13pre em GNU/Linux x64 GNU/Linux x64
    27 de Março de 2011 - 02:39 | Link permamente

    Importava-me menos com a adopção de novas palavras tipo “enxergar”, ou ver gente a escrever “à sms”, do que isto, porque ao menos não iriam nunca substituir as antigas.

    Estás a ver como são as coisas? Os exemplos que destes são precisamente os que importam para mim. Escrever com a nova grafia para mim é igual, uma vez que continuo a escrever exatamente como quero.

    • 59
      Pedro
      com Opera 11.01 Opera 11.01 em Windows XP Windows XP
      27 de Março de 2011 - 23:19 | Link permamente

      Mas nesses casos não obrigatórios que citei eu também continuaria a escrever como quero :) . E tu também.

  • 60
    Ricardo
    com Google Chrome 8.0.552.237 Google Chrome 8.0.552.237 em Windows XP Windows XP
    28 de Março de 2011 - 17:57 | Link permamente

    Olá, quero parabenizá-lo pelo blog, gostei muito como e do que escreve!
    Sou brasileiro, e achei estimulante ler a visão de um português sobre o acordo ortográfico, pois esse tema repercutiu muito quando da minha vida acadêmica, há pelo menos 3 anos.
    Não falarei com tanta propriedade, como alguns que aqui comentaram, mas somente que gosto de ler livros em português de Portugal, os quais felizmente são fáceis de serem encontrados em bibliotecas brasileiras, e que concordo com você sobre a palavra “bunda”, tanto formalmente quanto substancialmente!
    Abraço!

  • 61
    Pedro
    com Opera 11.01 Opera 11.01 em Windows XP Windows XP
    29 de Março de 2011 - 01:54 | Link permamente

    Portanto, pelo que a Suzana e Ricardo escreveram, o argumento da distribuição de livros / maior expansão da nossa cultura no Brasil cai um pouco por terra. E logo esse que era um dos principais argumentos deste acordo, que chatice… :twisted:

  • 62
    com Firefox 4.0.1 Firefox 4.0.1 em Windows 7 Windows 7
    4 de Maio de 2011 - 17:37 | Link permamente

    Sou completamente contra o novo acordo. Estou a favor dos argumentos da Maria João, pois paro sempre a ver se é um erro. E depois lá me lembro que não o é. Irrita-me. Pois, sabes como é, costumo reparar em todas as pintelhices :D

    Se queriam uniformizar a língua, porque não a uniformizaram a partir da sua génese, da vertente europeia? Terei eu que “aturar” violações ao meu português?

    Por exemplo, na minha instrução, os indivíduos que vivem no Egipto eram egípcios. Certo! Mas com o novo acordo, pela lógica, os indivíduos que vivem no Egito deveriam ser egícios! Incongruências que só espelham a falácia que é este acordo. Larguem a avareza dos contratos milionários com editoras brasileiras. Só vos fica mal. (refiro-me à gentalha que se lembrou desta fantochada)

  • 63
    Rafa
    com Google Chrome 12.0.742.91 Google Chrome 12.0.742.91 em Mac OS X 10.6.7 Mac OS X 10.6.7
    14 de Junho de 2011 - 05:23 | Link permamente

    Ainda nem tenho 30 anos e já tenho a rabugice de um velho portuga de 80.
    Não concordo com o acordo ortográfico e não é pela preguiça ou pelo orgulho ferido. É porque leio um texto e não gosto. Gosto do conteúdo e não deixo de o ler pela forma mas não gosto, não flui.
    Poderá ser uma questão de hábito mas velhos hábitos são tramados de perder… não tenho intenções de lutar pelo meu direito de escrever “mal” mas é bastante provável que um dia, se tiver criançada, me digam que sou burro porque escrevo mal e eu direi: Escrevo mas é porque fui bem ensinado.
    Quanto à mudança no blogue, o blogue é teu e podes fazer o que muito bem entenderes, desde que continues a escrever, virei cá ler.