→ 14/02/2005 @18:02

A namorada

Amanhã é outro dia…

Era o Dia dos Namorados, fizeram amor, e foi um prazer. Mas não se conheciam.
Ela sentiu-se tentada a preencher as folhas em branco do carácter dele com uma caligrafia perfeita de caderninho escolar. Mas estava a ser parva, acendeu um cigarro e riu-se.
- Que foi? – Perguntou ele, preocupado.
- Devaneios de uma namorada.
- E isso quer dizer o quê?
- Estou a dar umas passas pensativas, repara. – Levou o cigarro à boca e inspirou. – Se eu te atirar o fumo à cara, consegues adivinhar os meus pensamentos?
- Passas pensativas? Onde foste buscar essa?
- Encontrei-a num livro.
- O Dia dos Namorados faz-te mal, rapariga.
- Porquê?
- Porque acendes um cigarro depois de fazermos amor e pões-te a dar umas passas pensativas. Um cigarro já faz mal ao coração; se é pensativo, ainda faz pior.
- Não gostas de pensar?
- Não.
- Mas não tens outra alternativa.
- Tenho. O esquecimento. Sou bastante distraído. E nunca sei onde deixo as coisas. Meias, cuecas, pensamentos – uma desgraça. Deixo-os sempre em qualquer lado.
- Queres saber o que eu estava a pensar?
- Não faço ideia.
- Eu estava a pensar no teu mundo. É demasiado pequeno. Só tem 17 polegadas – e apontou para o monitor do PC.
- São 19 polegadas. O meu mundo cresceu. Comprei um monitor novo, lembras-te?
Ela enrolou-se com brusquidão aos cobertores da cama.
- Tens frio? – Perguntou ele.
- Tenho.
- Eu aqueço-te.
- Não podes. O teu sangue circula em estradas, obedece a regras de trânsito só tuas e tem limites de velocidade próprios.
- Isso também sacaste de um livro?
Ela olhou-o sem dizer nada.
- O Dia dos Namorados é uma importação anglo-saxónica destinada a fazer-nos gastar dinheiro – disse ele, finalmente. – É o dia em que o romantismo é aquecido numa panela de pressão e depois é servido demasiado quente. Queima-me a língua. Não sou frio, como estás a querer dizer. Estou demasiado escaldado com palavras da treta. Que tal voltarmos a ter esta conversa amanhã?